sexta-feira, 27 de março de 2026

Farm Aid, Huntington Bank Stadium, Minneapolis, MN, 9-20-2025, Steve Earle

 

Este é o terceiro álbum que fiz do concerto beneficente Farm Aid de 2025. Este conta com a participação do cantor e compositor Steve Earle. Note que é bem curto, com apenas 16 minutos de duração.

Este é provavelmente o mais estranho de todos os sets do concerto Farm Aid. Primeiro, é estranho porque é facilmente o mais curto de todos os sets daquele dia. Mas também porque foi dividido em duas partes. Ele tocou duas músicas, depois Nathaniel Rateliff entrou e tocou um set. Em seguida, Earle voltou e tocou mais duas músicas.

Tenho quase certeza de que essa foi uma espécie de participação especial improvisada. Ou seja, ele estava assistindo ao show e decidiu subir ao palco e tocar algumas músicas enquanto estava lá. O fato de ter sido um set acústico solo reforça essa suspeita, já que ter uma banda exigiria muita preparação. De qualquer forma, um pouco de Steve Earle é melhor do que nada.

Decidi pegar os dois sets curtos que ele fez e juntá-los em um só. É por isso que há um "[Editar]" no título de "The Rain Came Down". Perto do final da música, entre dizer "obrigado" duas vezes, ele mencionou que Nathaniel Rateliff ia se apresentar e depois voltaria. Usei o programa de edição de áudio MVSEP para remover esses comentários, já que eles não combinam quando as músicas são apresentadas juntas.

Como mencionado acima, este álbum tem 16 minutos de duração. 

01 talk by emcee (Steve Earle)
02 talk (Steve Earle)
03 Guitar Town (Steve Earle)
04 talk (Steve Earle)
05 The Rain Came Down [Edit] (Steve Earle)
06 The Galway Girl - Copperhead Road (Steve Earle)

MUSICA&SOM ☝


ROCK ART


 

Corpo do Som - 2003 - Barbatuques

 

1 - Barbapapa's Groove
Fernando Barba
2 - Na tribo
Improvisação
3 - Baião destemperado
Fernando Barba
4 - O canto da ema - Pra onde vai alente
Ayres Viana - Alventino Cavalcante - João do Vale
Manezinho Araújo
5 - Ule Ule
Improvisação
6 - Andando pela África
Fernando Barba
7 - Do mangue à manga
Fernando Barba
8 - Onça
Juca Bolo
9 - Peixinhos do mar - Marinheiro só
Tradicional - Tavinho Moura
Tradicional - Caetano Veloso
10 - Num deu pra creditá
Recriação sobre improviso coletivo
11 - Capuera
Improvisação
12 - A invasão dos Monges
Stênio Mendes

Músicos
Fernando Nigro - Renato Epstein - André Hosoi - Ana Tomioka - Giba Alves - Heloiza Ribeiro - Lula Ehrlich - Márcia Rodrigues - Ale Balaban - Fernando Barba - Marcelo Pretto - Stênio Mendes - Maicira Trevisan - Pedro Macedo - Hang Whistling - Bruno Buarque - Leandro Bomfim - Lu Horta - Tião Carvalho - Camila Jabur - Manu Lafer - Eduardo Silva - Ilana Volcov - Inaê Coutinho - Luiz Gayotto

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Esse é o primeiro disco do Barbatuques. Grupo originado em torno de Fernando Barba, a partir dos seus estudos e da "mania contagiosa" (como ele mesmo escreveria no encarte) que tomou rodas de amigos entorno da improvisação com a percussão corporal. Esse registro causou furor, sobretudo para quem frequentou os shows dos anos iniciais. Era (e ainda é) impressionante a transposição de ideias musicais para a música orgânica realizada por arranjos vocais e pelos corpos dançantes e sonoros em cena. 
 
Em quase três décadas de trabalho, o grupo teve diversas formações e percorreu o mundo todo. Infelizmente, Fernando Barba faleceu em 2021, aos 49 anos. O Barbatuques segue firme com vários membros fundadores e com parceiras com Stênio Mendes, além do Maestro Carlos Bauzys, que foi responsável pela transcrição do repertório do Barbatuques em Songbook.





Dança Sinfônica - 2015 - Marco Antônio Guimarães

 

1 - Abertura 4º Ballet
Marco Antônio Guimarães
2 - Dança das madeiras
Marco Antônio Guimarães
3 - Dança Pizzicato
Marco Antônio Guimarães
4 - Intermezzo 1
Marco Antônio Guimarães
5 - Dança Tutti
Marco Antônio Guimarães
6 - Temas e variações para cordas
Marco Antônio Guimarães
7 - Dança 2+2+2+3
Marco Antônio Guimarães
8 - Dança B - Gregoriano
Marco Antônio Guimarães
9 - Dança 3 - Colagem
Marco Antônio Guimarães
10 - Dança Bach/Vivaldi
Marco Antônio Guimarães
11 - Intermezzo 2
Marco Antônio Guimarães
12 - Onze - Versão Sinfônica
Marco Antônio Guimarães

Músicos
Marco Antônio Guimarães - Orquestra Filarmônica de Minas Gerais - Fábio Mechetti - Paulo Sérgio dos Santos - Décio de Souza Ramos Filho - Artur Andrés Ribeiro

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Grupo Corpo é uma companhia de dança contemporânea mineira, de Belo Horizonte, reconhecida internacionalmente. Foi fundada em 1975 por Paulo Pederneiras (diretor-geral), Rodrigo Pederneiras (inicialmente bailarino e depois coreógrafo), Míriam Pederneiras, Marisa Pederneiras (inicialmente bailarinas). O primeiro sucesso foi a coreografia Maria Maria, à partir da música de Milton Nascimento, com roteiro de  Fernando Brant e coreografia de Oscar Araiz.

Aqui temos a trilha Marco Antônio Guimarães, reconhecido músico das produções do Grupo Uakti. Encomenda para os 40 anos de existência do Grupo Corpo, as faixas nos brindam com composições que revisitam originalmente Bach, Vivaldi e o Uakti.





Let's Play That - 1994 - Jards Macalé

 


1 - Let's play that
Jards Macalé - Torquato Neto
2 - Pano pra Manga
Jards Macalé - Xico Chaves
3 - Mulheres no retrato
Jards Macalé - Fausto Nilo
4 - Luz
Jards Macalé - Erza Pound
5 - Lua luar
Jards Macalé
6 - Língua de mosquito
Domínio Público - Arr. Jards Macalé
7 - Puntos cardinales
Jards Macalé - Jorge Mautner
8 - Estranha
Jards Macalé - Xico Chaves
9 - Encontro
Jards Macalé - Naná Vasconcelos
10 - Let's play that
Jards Macalé - Torquato Neto
 
Músicos
Roberto Guima - Naná Vasconcelos - Jards Macalé

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Gravado em 1983, esse álbum só foi lançado em 1994. Tanto Claudio Cohen (empresário que bancara a gravação da jam no estúdio), quanto Roberto Guima (clarinetista na faixa Pano pra manga), faleceram antes da conclusão do projeto. Apesar do hiato de nove anos, trata-se de um sublime registro do encontro entre Jards e Naná.





Ouro Negro - 2016 - Moacir Santos

 

CD 1
1 - Nanã (Coisa Nº 5)
Moacir Santos - Mário Telles
2 - Suk-cha
Moacir Santos
3 - Coisa nº 6
Moacir Santos
4 - Coisa nº 8 - Navegação
Moacir Santos - Nei Lopes - Regina Werneck
5 - Amphibious
Assis - Moacir Santos
6 . Mãe Iracema
Moacir Santos
7 - Coisa nº 1
Moacir Santos - Clóvis Mello
8 - Sou Eu (Luanne)
Moacir Santos - Nei Lopes
9 - Bluishmen
Moacir Santos
10 - Kathy
Moacir Santos - Jay Livingston - Ray Evans
11 - Kamba
Moacir Santos
12 - Coisa nº 9 - Dia de Festa
Moacir Santos - Regina Werneck
13 - Orfeu
Moacir Santos - Nei Lopes
14 - Amalgamation
Moacir Santos
 
CD 2
1 - Coisa nº 7 - Evocative
Moacir Santos - Mário Telles
2 - Coisa nº 2
Moacir Santos
3 - Lamento astral (Astral whine)
Moacir Santos
4 - Maracatu, nação do amor (April child)
Moacir Santos - Nei Lopes
5 - Coisa nº 4 - Ganga Zumba
Moacir Santos
6 - Coisa nº 10
Moacir Santos
7 - Jequié
Aldir Blanc - Moacir Santos
8 - Oduduá
Moacir Santos - Nei Lopes
9 - Coisa nº 3
Moacir Santos
10 - Anon
Moacir Santos
11 - Quermesse
Moacir Santos
12 - De repente, estou feliz
Moacir Santos
13 - Maracatucutê
Moacir Santos
14 - Bodas de Prata Dourada
Moacir Santos
 
Convidados
Milton Nascimento - Djavan - Ed Motta - Gilberto Gil - João Bosco - João Donato - Joyce Moreno - Muíza Adnet - Sheila Smith
 
Músicos
Moacir Santos - Ricardo Silveira - Marcelo Mangabeira - Jessé Sadoc do Nascimento Filho - Andrea Ernest Dias - Teco Cardoso - Philip Doyle - Armando Marçal (Marçalzinho) - Jorge Helder - Andrea Ernest Dias - Jurim Moreira - Nailor Proveta (Nailor Aparecido Azevedo) - Vittor Santos - Gilberto Oliveira - Cristóvão Bastos - Mário Adnet -  Zé Nogueira - Marcos Nimrichter - Marcelo Mangabeira - Hugo Pilger - Zé Nogueira - Marcelo Costa - Bororó (Dimerval Silva) - Paulo Sérgio Santos - Zeca Assumpção - Jota Moraes

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Editado originalmente em 2001, aqui temos o registro de uma merecida homenagem ao grande maestro, arranjador, multi-instrumentista e compositor, Moacir Santos. Produzido por Mário Adnet e Zé Nogueira, à época também contou com a edição de um livro homônimo.
 
Para saber mais da trajetória desse grande músico brasileiro, ouça os programas, da série "Moacir Santos ou Os caminhos de um músico brasileiro", produzido em cinco episódios pela Rádio MEC FM do Rio de Janeiro, a partir da pesquisa de Andrea Ernest Dias, 




Cornershop – Hold On It’s Easy (2015)


Os Cornershop existem há pouco mais de 20 anos, e durante essas duas décadas e picos de existência não pararam de nos surpreender. Por incrível que possa parecer, a banda inglesa mudou radicalmente de estilo ao longo do seu tempo de vida. Começando por ser claramente marcada pelo som punk, foi-se tornando aos poucos, mas de forma bem segura, numa banda de cariz mais indie pop/rock. Foi, portanto, perdendo alguma da agressividade sonora que tinha de raiz, mas ganhou um lado mais festivo, mais prazeroso e iluminado que, de facto, não constava do seu adn original. Ou seja, transformou-se. E no entanto, nessa alteração, a banda soube evoluir sem facilitismos, tendo conseguido chegar a mais público sem perder a qualidade a que nos habituou desde sempre. Curiosamente, mantendo a tendência de revisitação de trabalhos antigos que parece estar na moda em muitos artistas e bandas da atualidade, também os Cornershop entraram nesse jogo. Pegaram no inaugural Hold On It Hurts, disco de 1994, e duas décadas e um ano depois (escapando ao número redondo das duas dezenas) publicaram Hold On It’s Easy. As poucas diferenças existentes nos títulos dos discos em questão não fazem pensar nas dissemelhanças que ambos verdadeiramente encerram. E, por isso mesmo, ouvir um a seguir ao outro não deixa de ser um exercício comparativo muito interessante. Sem querer ser muito exaustivo nessa confrontação auditiva, vale a pena dizer uma ou duas coisas a propósito desses dois álbuns gémeos. Ou melhor, falsamente gémeos. Vamos lá a isso, então.

As canções são as mesmas 10, e os títulos de todas elas permanecem iguais, sendo que a alguns deles, refiro-me aos do recente Hold On It’s Easy, foi-lhes acrescentado a expressão version no final. Apenas isso. O som amador, quase de garagem, de Hold On It Hurts foi um fantástico trunfo que os Cornershop souberam usar com grande proveito. Os temas do disco, algo sujos e com alguma agressividade rítmica, mostravam, nas suas letras, preocupações sociais bem específicas. No entanto, percebia-se que os Cornershop se divertiam a fazer música. Essa crueza, essa transparência artística, esse pouco ou nenhum fingimento fez do disco uma obra de grande interesse, e dos Cornershop uma banda a seguir atentamente. O seu principal mentor, o músico de nome Tjinder Singh, começou a fazer com que Leicester, a cidade que os viu nascer, ficasse no mapa musical da década de 90 do século passado. O disco trazia canções muito interessantes, mesmo que nem sempre bem tocadas (a juventude, sempre a juventude…), mas nelas, mesmo assim, habitava algum génio digno de registo. Refiro-me a temas como “Readers’ Wives”, “Change” (uma pérola de guitarras em fúria) ou “Born Disco: Died Heavy Metal” (outra pérola de guitarras furiosas), todos eles memoráveis. Outra das características interessantes da linguagem sonora dos Cornershop prendia-se (e prende-se ainda) com o facto de transportarem para as suas canções o universo indiano (linguagem, instrumentos, imaginário), uma vez que Tjinder, embora nascido e crescido em Inglaterra, é de origem punjabiana. A canção “Counteraction” é o exemplo maior do que digo, cantada em linguagem punjabi e feita com instrumentos indianos bem tradicionais. Hold On It Hurts beneficiava da grande mistura rítmica e cultural que promovia. O som punk, o rock estridente, a música indiana, o spoken word (na canção “Tera Mera Pyar”) e o jazz (em “Jason Donovan / Tessa Sanderson” e “Where D’U Get Your Information”) estavam de mãos dadas, e por estranho que possa parecer, a crítica sorriu ao disco e aos Cornershop, embora com algumas reservas.

Vinte e um anos depois, a banda volta ao disco de origem, transformando-o num álbum instrumental muito particular. Dão-lhe um outro título, como se constata pelo que já foi redigido, e uma inusitada roupagem, agora unindo a linguagem musical, que tão dispersa se apresentava no disco de 1994. A escolha do easy listening como estilo sonoro parece-me muito certeira. Assim, tirando a primeira canção, que está “praticamente intacta”, o álbum saído este ano parece ter surgido dos anos 60. Soa, a espaços, a Henry Mancini, soa a uma big band em plena forma, ou seja, soa maravilhosamente bem. Os Corneshop, uma vez mais, foram capazes da arte da reinvenção, mergulhando num registo sonoro surpreendente. As referidas canções do álbum Hold On It Hurts estão frescas como nunca, solarengas, bailantes, festivas. Criar, com canções feitas há mais de 20 anos, um disco completamente diferente do original, é um enorme sinal de criatividade artística. Claro que este Hold On It’s Easy não é uma obra prima. Aliás, Hold On It Hurts também não o era, embora os Corneshop já contem com algumas na sua discografia, como são os casos de Woman’s Gotta Have It (1995), When I Was Born For The 7th Time (1997) e Judy Sucks a Lemon For Breakfast (2009). Mas Hold On It’s Easy cheira a verão, e isso é o que apetece quando a meteorologia parece andar algo indecisa e incapaz de mandar chegar o calor de forma autoritária, e com ele a imperial fresquinha do nosso contentamento.



Dônica – Continuidade dos Parques (2015)


Finalmente! O tão esperado longa duração da banda Dônica anda já nos ares do mundo, e essa é uma excelente notícia. Por várias razões, como é óbvio. Desde logo porque o EP que o grupo lançou, e que mereceu nota crítica neste site, foi deixando água na boca a quem o ouviu, mas sobretudo por razões de ordem histórica, digamos assim. É que, no meio do turbilhão efervescente dos novos nomes da música brasileira que vão surgindo dia após dia, a banda Dônica é, talvez, o único coletivo que “avança rumo ao passado”. E isso agrada-me imensamente! A justificação da expressão histórica que utilizei em linhas anteriores carece de uma explicação, para que se possa entender o que vos quero dizer. Muitos dos novos nomes da mais recente música brasileira são “órfãos do passado”, uma vez que estão bem mais sintonizados com movimentos musicais atuais e influências exteriores ao seu próprio contexto geográfico, o que não é bem o que acontece no caso dos Dônica. O rock progressivo (que também se fez, e bem, no Brasil dos anos 70) está na base da identidade do grupo, mas acima de tudo essa identidade  está inequivocamente fundada num dos maiores discos alguma vez feitos em solo brasileiro, e que, por uma enorme proximidade afetiva, norteia a vida musical destes meninos. Trata-se de Clube da Esquina, o épico disco / movimento de Milton Nascimento e dos irmãos Borges (Márcio e Lô, sobretudo). É esse o duplo padrão sonoro de Continuidade dos Parques: rock progressivo e o disco de 1972, o álbum que queria mudar o mundo, e que, de certa forma, mudou. Essa mudança persiste e continua, agora pelas mãos de José Ibarra (teclado e voz), Lucas Nunes (guitarras), André Almeida (bateria), Miguima (baixo) e Tom Veloso, filho mais novo de Caetano, que compõe a maior parte das letras e da música, juntamente com José Ibarra.

O disco abre com “É Oficial”, canção medianamente psicadélica, iniciada através de sons que soam a África, na qual se canta apenas a expressão que dá nome à própria canção. Ótimo início, oficializando uma dupla abertura: a de Continuidade dos Parques, mas também a da vida adulta (é o primeiro Lp, e já não um ep) do grupo. É interessante perceber que o repertório do disco (são 11 canções ao todo) pode facilmente ser dividido, sem querer com isso ser absolutamente rigoroso, nas vertentes mencionadas no primeiro parágrafo deste texto. Assim, mais próximas da veia progressiva, estão as canções “Retorno Para Cotegipe”, “Inverno” e “Praga”, sobretudo esta última. Quem, ao ouvir “Praga”, não se recordar de algum do prog rock europeu dos anos 70, é porque terá andado muito distraído. Por outro lado, a vertente clubista é bem audível em “Casa 180”, uma das mais bonitas canções do álbum (embora, em alguns momentos, muito perigosamente encostada a “Waterloo Sunset”, dos The Kinks), mas também em “904” e “Bicho Burro”. No entanto, estes moços não são só passado, uma vez que adicionam aos sons desses antigos tempos, linguagens sonoras dos anos recentes, como acontece em “Macaco no Caiaque”, por exemplo, onde por entre rugidos de macacos se escuta um soul dançante de finíssimo recorte.

No entanto, o grande momento do disco terá de ser, inevitavelmente, a faixa “Pintor”, que conta com a especial participação do padrinho da banda, o grande Milton Nascimento. A canção é superlativa, e traz com ela um especial encantamento, um aconchegante espírito libertador. Os vocais são magistrais, e o contraste entre as vozes que nela se ouvem, promove uma ainda maior riqueza aos pouco mais de 3 minutos de duração que tem “Pintor”. Estará encontrado, sobre isso não tenho quaisquer dúvidas, o primeiro grande clássico da banda Dônica. Como balanço final, resta-me uma sólida ideia: tudo o que aqui se ouve é de elevadíssima qualidade. Já ouvi o disco várias vezes, e Continuidade dos Parques não cessa de crescer. Vai andar comigo todo o verão, garantidamente.

Uma última nota, talvez mais curiosa do que substantiva. O estranho título deste disco foi retirado de um conto de Julio Cortázar, grande mestre da metaficção e do rompimento com a linearidade temporal da mais clássica literatura. Refiro isto porque comecei por vos dizer, se bem se recordam, que neste trabalho a banda Dônica “avança rumo ao passado”. Não é preciso explicar mais, pois não?



Pega Monstro – Alfarroba (2015)

 


As Pega Monstro não eram apenas das bandas mais promissoras em solo luso: eram já das mais interessantes nestas paragens. Depois de um EP e um longa duração homónimo de canções especialmente interessantes, chegou-nos agora Alfarroba. Este disco é e não é a confirmação da banda no panorama musical português: é-o porque é efectivamente dado um passo em frente, sobretudo ao nível da produção, mas não o é porque o essencial – um rock difícil de igualar, de identidade própria, conciliando desafio punk e melodia apurada – já lá estava; o que tínhamos antes, portanto, não eram indícios promissores, mas uma obra que já valia muito em si mesma (oiça-se por exemplo do anterior disco a inaugural “Carocho” e a brilhante “Homem das obras” – como ficar indiferente a isto?).

Com mais experiência de palco e já algumas atenções voltadas para a banda, haveria sempre o risco das Pega Monstro não se reinventarem, ou não saberem responder às expectativas nelas depositadas (por alguns). Mas o que fizeram Júlia e Maria Reis, as irmãs que formam este duo, é um passo natural que não só não defrauda como excede essas expectativas. Raramente, para não dizer nunca, se ouviu por cá um disco destes: urgência rock, simultaneamente íntima e explosiva, que desafia os cânones, feita com uma qualidade e identidade que se demarcam de tudo o resto que por aí anda (e, que me lembre, do que por aí andou): fazem a maior parte dos outros projectos soar a brincadeira, a cópia ou a experimentalismo infrutífero (salvam-se algumas excepções). Desengane-se quem vir neste elogio a colocação da pressão ou responsabilidade. Um pedido ou uma exigência. Não é nada disso: é antes um agradecimento por esta doce tareia musical.

Alfarroba é mais uma prova que a boa composição pode perfeitamente andar de mãos dadas com a ambição, sem que com isso se perca nada de relevante na atitude e espírito rock marginal, absolutamente contracorrente, de que as Pega Monstro (que aqui a sabem clarear) não abdicam, e de que a Cafetra, a editora que formaram, tem também sabido preservar. Aqui e ali politicamente incorrectas, sem ceder um milímetro ao facilitismo, nem nas músicas de rock mais abrasivo nem nas mais intimistas (oiça-se a terna “És tudo o que eu queria”, com palavras como “merda” e frases como “Só com droga na cachola é que ficas mais contente” – uma espécie de Best Coast sem pudor ou embelezamento). O disco contém também as excelentes “Braço de Ferro” e “Não Consegues”, o single “Branca” – já com vídeo -, e os portentosos solos de guitarra em “Estrada”. As Pega Monstro estão a crescer, e, ao contrário do que acontece com muitos, isso não tem nada de entediante – bem pelo contrário.


Kamasi Washington – The Epic (2015)


Não é difícil perceber que o disco The Epic, de Kamasi Washington, possa ser entendido como um trabalho em contracorrente, completamente à margem da feérica ordem que rege os nossos tempos: a pressa! Primeiramente, por ser um álbum longo, longuíssimo, e poucos serão aqueles que quererão dispor de quase três horas do seu precioso tempo para o ouvir condignamente. Sendo que, para mais, três horas não chegam, e são só o começo para muitas outras, se se ousar perder (leia-se ganhar) tempo, o tal que passa a correr e nos leva para caminhos e lugares que, sendo mais imediatos, são também, tantas vezes, espaços áridos, vazios de algo verdadeiramente substantivo que nos convença a permanecer neles com agrado. Depois, por haver neste The Epic um certo sabor a transcendência, coisa que pouco ou nada colhe nas vidas frenéticas que levamos. Finalmente, será bom perceber que para se ouvir e gostar deste triplo disco de Kamasi Washington, é necessária uma boa dose de tranquilidade de espírito, bem como uma ainda maior porção de resiliência, uma vez que haverá, inevitavelmente, no percurso dos seus 17 temas, momentos de alguma adversidade auditiva, e consequente necessidade de superação dessas inconveniências. É necessário, portanto, encher o peito de ar, e avançar…

Kamasi Washington é (ainda) um ilustre desconhecido das grandes massas, do grande público, um homem que anda pelos terrenos do jazz e de outras músicas há já algum tempo, mas que só agora decidiu ajustar contas com o seu passado, assumindo o presente em nome próprio. Já é mais um veterano do que um rookie. Colaborou com Lauryn Hill, Snoop Dog, Chaka Khan e Kendrick Lamar, por exemplo, o que, a avaliar pelos nomes em causa, seria merecedor da minha (quase) total indiferença. No entanto, mesmo sabendo que a frase anterior poderá fazer com que alguns leitores já não estejam a ler o que escrevo agora, também é verdade que poderei voltar a ter quem me leia, ao acrescentar outros artistas com quem Washington já trabalhou, como são os casos de Herbie Hancock, Wayne Shorter e Kenny Burrell. Na verdade, o que importa agora é dizer que The Epic encerra e compacta muito daquilo que o jazz foi produzindo ao longo de inúmeras décadas da sua gloriosa existência. Daí que, por ser um disco que assume a história do género que se encarrega de mostrar, seja fácil ouvir os ecos de muitos dos mestres desse estilo: algum do imaginário sonoro de John Coltrane anda por aqui. Como anda o de Miles Davis e o de Pharoah Sanders. Nomes de peso, como se sabe, do soul jazz, do bop, do free jazz e de tantos outros enredos sonoros de nomeação nem sempre fácil. No entanto, e depois de entrarmos bem neste The Epic, percebemos estar na presença de um disco amigável ao ouvido, daquele tipo de discos que são como os melhores amigos, que vão dando a conhecer aos poucos os seus maiores predicados. Os seus três volumes (“The Plan”, “The Glorious Tale” e “The Historic Repetition”) revelam uma infinita riqueza composicional.

Para a edificação deste colosso sónico, Kamasi Washington socorreu-se de uma orquestra de 32 elementos, um coro de 20 afinadas vozes e de uma banda de 10 músicos, a The West Coast Get Down, também conhecida como The Next Step, de onde sobressaem Thundercat (baixista), e o seu irmão mais velho, o conceituado Ronald Bruner Jr (bateria). Valerá ainda  a pena destacar as vozes de Patrice Quinn e de Dwight Trible, que vão surgindo, graciosamente, a espaços. O saxofone tenor de Kamasi Washington, esse, vai pairando por muitos dos 172 minutos de The Epic como a voz mais agregadora de todas as outras vozes instrumentais. Sem ponta de egoísmo, note-se, dando bastante espaço e tempo a todos os outros músicos.

Sem que sinta qualquer necessidade de destacar algumas das faixas do triplo álbum de Washington, não resisto, mesmo assim, a fazer um ou outro sublinhado. No primeiro disco, saliento “The Next Step”. Se conseguir imaginar um R&B com Wayne Shorter aos comandos, talvez fique com uma ideia próxima daquilo que o tema é. Magnífico! No segundo, escolheria a faixa de abertura, a delirante “Miss Understanding”, cujo conturbado início me faz lembrar o magistral Karma, de Sanders. E, para que o equilíbrio entre as 3 partes se mantenha, chamo a atenção para “The Message”, tema que encerra esta epopeia de Washington, sobretudo pela diabólica percussão e pelo rendilhado do baixo. Impressionantes, sem dúvida!

The Epic é um dos melhores discos de jazz que 2015 viu nascer. Estarei, porventura, a ser simpático para com alguns dos outros bons discos do género que tenho ouvido, uma vez que me parece claro que este ganha a liderança aos restantes. De qualquer das formas, The Epic revela um homem capaz de se mostrar num patamar de óbvio domínio da sua arte. O próprio Kamasi Washington explicou todo o processo criativo que levou a The Epic de forma muito simples. Um músico não pode ter amarras, não pode espartilhar aquilo que anda solto no ar: o som. As palavras são suas, e mostram bem o que lhe vai na alma: “You have to let go from music. It comes through you. If you try to control it, you’ll never get the real thing. You can’t grab water. You have to put water into something. You can’t manhandle water or you’ll lose it.” Em The Epic nada se perde. Tudo se aproveita. Ao ponto, até, de poder ser uma das melhores coisas que poderá ouvir durante muito e muito tempo. O curioso é que o tal tempo que parece estar sempre em falta, aqui sobra, transborda, e por isso é melhor não o desperdiçar.



Destaque

Paul Kantner: importante guitarrista/vocalista fundador do Jefferson Airplane/Starship e tantos outros projetos

  Paul Lorin Kantner foi cofundador, guitarra-base e vocal de apoio no grande  Jefferson Airplane , uma das bandas mais importantes do  Rock...