
Resenha
Roll The Bones
Álbum de Rush
1991
CD/LP
Tomei conhecimento sobre o Rush em 1995/96, através de fita cassete gravada por um colega de escola. Até então, referencias no rock não ultrapassavam Scorpions, Dire Straits, Raul Seixas e sons de rádio, das quais mal sabia o nome. Pois bem, o Rush me abriu o leque de todas as formas de música, sendo que, no mesmo ano conheci Black Sabbath, Yes, Deep Purple e Led Zeppelin. Virou a cabeça de modo que ao ouvir a K7 com Tom Sawyer, Best I Can e A Farewell to Kings, simplesmente corri para comprar tudo, na medida do possível. Fui na primeira loja (o CD estava caro) e escolhi a fita de Roll The Bones. Evidentemente a relação não é só pelo conteúdo, sim, afetiva, meu primeiro do Rush guardado como joia. Portanto considero um dos melhores trabalhos do trio, a qual só desagrada Face Up, enjoativa e um pouco boba. Perante Presto (1989) temos maior consistência. Presto reúne ótimos momentos, em contraparte várias trilhas para encher linguiça. Como a turnê anterior foi curta, o Rush caprichou em tudo. A arte da capa é uma das melhores, na linha joquempô de Presto, os ossos formam as palavras Remember Death em código morse. O instrumental é afiadamente salutar ao techno pop rock. A única imposição veio de Neil Peart, sob forma de não concluir o disco se Geddy Lee e Alex Lifeson não trabalhassem em uma instrumental, lá se iam dez anos pós YYZ. Assim nasceu "Where's My Thing? (Part IV, "Gangster of Boats" Trilogy)". Percebam o título cômico e a brincadeira sobre a parte "quatro" de uma trilogia. Edificante ao ponto de atordoar os ouvidos, na métrica perfeita desde teclados, esses, disparados em samples quando tocados ao vivo. Teclados que andam na mesma frequência da guitarra e sem embolar uma virgula, é o Rush fazendo sua história. Há também fragmentos jazzísticos, baixo trabalhando de forma notável e um baterista a dispensar apresentações. Dreamline tem os graves marcados no inicio e interpõe refrão selvagem no modelo Rush, adquirindo músculo na segunda parte. Bravado é poesia cantada com emoção. Instrumental simples, no jargão musical: "reta". Tanto que ao baixista que aventurar-se a tocar Rush, pode começar por ela. A genialidade de Peart confere-se em detalhes, para não bateristas passam despercebidos. Em faixas como esta, a bateria apenas consome o arroz / feijão, mas, chegando em momentos finais o baixo e guitarra seguem o padrão enquanto Neil sai do casulo e retorna com batidas mais complexas sem que o ouvinte se atenha a mudança, por estar embaralhado pela emoção. Tal fato em um trio qualquer seria apontado como : - "Vejam, um baterista extravagante !. Poderia derrubar a banda, e não tenha dúvida, poderia mesmo, mas, Neil Peart faz com naturalidade, diria : dom divino. Temos um pouco do U2 em Bravado, Lifeson pode preencher com acordes simples, assim como faz The Edge. Roll The Bones (canção) chegou a tocar em boates, um marco pós Tom Sawyer no sucesso comercial e com direito a um rap no entremeio, salvo engano, cantado pelo próprio Geddy Lee. A composição questiona o destino do homem, quebrando a fábula do pré-determinado, relação forte com os filósofos Jean Paul Sartre (citado claramente em Circumstances) ou unindo a dialética de Maquiável. Leia esse trecho de Peart: Por que algumas crianças nascem só para sofrer? Pelo desejo de ser isentos ou Por uma tigela de arroz? Bem, quem colocaria um preço Na cabeça de crianças inocentes Se há algum poder imortal Para controlar o dado? Nós viemos ao mundo e aproveitamos nossas chances O destino é apenas o peso das circunstâncias É assim que a Dona Sorte dança Rolam os dados Outro destaque vem com Ghost of Chance. Maravilhosa por completa em arranjos, solo bluesy e letra de amor, e que letra! Saquem, as composições do Rush não impulsionam o fator amor como conceito brega. Existem reflexões léguas distantes do trivial. Nesta, a revelação de fazer um amor durar, retirando-se entornos como a mística, anjos, astrologia, destino, e o... para sempre, apenas o ato singelo sem subterfúgios. Alma clamando amor e ponto final. Ouça também Big Wheel e o "texto" extensão de Roll The Bones, famosa roleta do destino na qual girar ou não, é sempre uma escolha. Voltando a Sartre - "condenados a sermos livres". Outra opção é conferir a "dançante" e dinâmica You Bet Your Life.
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