quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Grandes festivais: por que as bandas brasileiras têm pouco espaço?

 

Do primeiro disco de metal gravado no Brasil, o álbum autointitulado dos paraenses do Stress, até os dias de hoje, lá se vão mais de 30 anos de produção fonográfica do metal tupiniquim. Daquele início árduo, quando bandas como o já citado Stress, mais Harppia, Azul Limão, Holocausto, Taurus, Dorsal Atlântica, Attomica, Salário Mínimo, Sepultura, Sarcófago, Metalmorphose, Korzus, Centúrias e outras arrancavam leite de pedra e driblavam as adversidades, até os dias de hoje, muita coisa mudou no mundo e consequentemente no metal também.

(1982) CAPA PRIMEIRA ÁLBUM STRESS

Naquela época, manter uma banda de metal no Brasil era algo praticamente inimaginável. Em 1985, o Brasil se encontrava em transição entre a ditadura e o processo democrático, mas ainda vivia sob forte reserva de mercado, o que deixava o país isolado no que se diz respeito ao acesso à tecnologia. O impacto no setor da música era um alto custo em instrumentos musicais e equipamentos de estúdio. A indústria de instrumentos nacionais era ruim e conseguir equipamentos importados era muito difícil e caro. Isto sem falar na falta de informação que as pessoas tinham do metal, o que gerava muito preconceito e de certa forma restringia ainda mais as oportunidades do estilo. As bandas da época faziam tudo no amor mesmo, na raça e paixão ao estilo.

Hoje os tempos são outros, e o avanço da tecnologia e a globalização trouxeram benefícios também para o mercado musical. Atualmente se tornou bem mais barato e acessível realizar uma produção tanto de áudio quanto de vídeo. Em um home studio se consegue atingir um padrão de qualidade de gravação bem aceitável, o que consequentemente aumentou o volume da produção musical. O acesso mais fácil à instrumentos de boa qualidade num preço mais acessível também facilitou o surgimento de mais bandas.

Nesta trajetória do metal nacional tivemos diversos momentos importantes e do ponto de vista mercadológico iremos citar dois:
1° – Em 1988 o Sepultura assina com a gravadora americana Road Runner.
2° – Em 2015 Kiko Loureiro entra para o Megadeth.

(1987) SALARIO MÍNIMO – ESTÁDIO DA PORTUGUESA

Nestes dois momentos, separados por 27 anos de distância, podemos constatar que o metal nacional cresceu, evoluiu e se profissionalizou muito. Além da já citada velha guarda, temos bandas mais atuais como Shadowside, King Bird, King of Bones, Project 46, Hatefulmurder, e também nomes tradicionais como Angra, Almah, Dark Avenger,Torture Squad e outros que continuam em atividade e produzindo, ou seja: boas bandas é o que não falta no nosso metal nacional.

Temos boas bandas, temos um bom volume de produção, temos potencial e qualidade, temos músicos de nível internacional, mas quando vemos o retrospecto das bandas brasileiras de metal em grandes festivais realizados no Brasil os números não são nada bons… (vide quadro).

Este ano, por exemplo, tivemos recentemente a realização de mais uma edição do Rock in Rio. De metal (e subgêneros como o hard rock, thrash metal, death metal,etc) tivemos apenas três bandas: Sepultura, República e Ego Kill Talent. Muito pouco pra um megaevento como o Rock in Rio. Falando do Monsters of Rock, que é um festival essencialmente focado no metal, de um total de 65 bandas que passaram em 06 edições realizadas no Brasil, tivemos apenas 11% de bandas brasileiras no line-up: Dr.Sin (1994-2013), Angra (1994), Viper (1994), Dorsal Atlântica e Korzus (1998), Project 46 e Electric Age (2013).

(1993) DR.SIN NO HOLLYWOOD ROCK

Diante destes números é impossível não se questionar: Quais são os fatores que levam a isto?Quais são as maiores dificuldades para as bandas brasileiras entrarem no cast destes grandes eventos?Porque não se consegue quebrar esta escrita? Afinal num festival de grande porte as bandas tem condições de realizar um show com mais estrutura e também de levar seu nome a um maior número de pessoas. Para muitas bandas consagradas tocar num grande festival foi um divisor de águas, onde a partir daquele momento conseguiram subir de nível, obter maior reconhecimento e alavancar suas carreiras. Neste raciocínio podemos citar a edição de 1983 do US Festival (EUA), que sem exageros, ajudou a consolidar a carreira solo de ‘Mr.Madman’ Ozzy Osbourne, que estava se iniciando naquela época.

Para Ricardo Batalha, editor-chefe da revista Roadie Crew, um dos fatores é a falta de conhecimento dos organizadores em relação ao estilo. “Eles escutam pessoas próximas e muitas delas não tem noção do que acontece no cenário do Heavy Metal”. China Lee, vocalista do Salário Mínimo, segue a mesma linha de raciocínio: “Estas pessoas não tem acesso ao mundo do metal nacional. O Medina, por exemplo, até bem pouco tempo atrás nunca tinha ouvido falar no Made in Brazil por exemplo. Nunca ouviu falar do Velhas Virgens,Salário Mínimo, e nem do Stress, que é percussor do metal nacional.”

(2013) – KORZUS NO ROCK IN RIO

Roosevelt Bala ,vocalista do Stress, aponta também outros fatores em sua analise: “O público que costumava lotar os eventos com bandas nacionais nos anos 80 e 90 envelheceu, pouco sai de casa. A nova geração tem tudo nas mãos,não costuma ir a shows e espera pelos que foram ao show postarem os vídeos pra assistirem nos seus celulares. Ou seja, a nossa geração tá se aposentando e a nova é de roqueiros virtuais. Assim sendo, o que vemos agora é que os produtores não apostam nas bandas nacionais, pois o público não comparece, nem o suficiente pra pagar as despesas básicas do evento, que não são baixas.”

O Sepultura, que é a banda nacional melhor sucedida comercialmente, obviamente é o melhor nome representado nesta estatística. Tocaram 05 vezes no Rock in Rio (só não tocaram na edição de estréia em 1985 e na de 2015) e no Hollywood Rock em 1994 (no fatídico episódio aonde Max foi detido pela polícia, sob suspeita de ter pisado na bandeira do Brasil). Curiosamente não tocaram em nenhum Monsters of Rock. Ainda sobre o Monsters, os cariocas da Dorsal Atlântica garantiram sua presença na edição de 1998 graças a uma iniciativa do seu fã-clube através de um abaixo-assinado, que na época angariou mais de 40 mil assinaturas. Por sua vez as bandas Electric Age e Project 46 entraram na edição de 2013 através do Desafio Monsters Of Rock, iniciativa da Showlivre e da rádio 89FM. Ao que parece, estas duas iniciativas (abaixo-assinado e concurso) ainda são iniciativas isoladas para tentar aumentar a presença das bandas nacionais em grandes festivais.

(1998) – CARTAZ MONSTERS OF ROCK’1998

Clinger Teixeira, produtor do Heavy Metal on Line analisa o tema sob a ótica do mercado. “Primeiramente temos que estar cientes de que as pessoas que estão à frente destes festivais não estão nem um pouco preocupadas com as bandas do Brasil, com a cena heavy metal, com a renovação do cenário, nem nada. Eles estão fazendo negócios e negócios grandes, coisa de milhões e querem colocar nos festivais somente bandas que vão chamar grandes públicos ou que vão atender as novas ondas e tendências da molecada”. Em relação a alternativas pra furar este bloqueio ele é bem incisivo: “Existem bandas que pagam pra tocar nos festivais, e são valores muito altos. Já ouvi falar de valores de 10 a 20 mil pra tocar num festival deste. As bandas do Brasil que não tem uma gravadora forte ou não querem pagar pra tocar, eu acho muito difícil furar o bloqueio. Lógico que existem outros caminhos, amizades, troca de favores, etc. Mas sem querem ser depressivo, eu não vejo caminho pra furar este bloqueio somente com um bom trabalho”.

Eduardo Chamarelli, produtor do Hell in Rio, acredita que o mercado de música pesada no Brasil precisa ser reaquecido e gerar interesse comercial. “Hoje no mercado brasileiro se gera pouca mídia em torno do rock e do metal. Música é um produto, e não estamos sabendo como vender. Hoje no Rio não temos nenhuma rádio de rock no dial, os canais de TV são ridículos, a cena local só encolhe na capital e no interior, onde havia projetos interessantes”. Quando questionado quais seriam as maiores dificuldades que as bandas enfrentam pra furar o bloqueio dos grandes festivais ele continua: “Os eventos estão reduzidos e há poucas casas de shows. O público que ainda resiste, busca referência nos grandes nomes mundiais. As bandas têm que se profissionalizar e os produtores trabalharem com muita seriedade. Profissionalizar o metal. Quando conseguirmos pensar desta forma, as bandas nacionais irão ganhar muito espaço”.

(1983) – US FESTIVAL’83

Apesar das dificuldades, o produtor continua confiante e diz que existe intenção de fazer a segunda edição do Hell in Rio em 2018, segundo ele mantendo a mesma filosofia: “respeitando bandas e público e trazendo algo de qualidade pra cena”.

O Hell in Rio não está solitário na tentativa de manter a bandeira do metal nacional, o já tradicional Roça’n Roll que está em sua 16° edição e nomes como Guaru Metal Fest, Araraquara Rock, Manics Metal Meeting e outros vem crescendo a cada ano, conquistando público e desafiando a escrita e superando os desafios de se produzir eventos de metal no Brasil. Se por um lado os grandes festivais não abrem espaços para as bandas nacionais, estes festivais apostam suas fichas em valorizar a prata da casa.

(2016) – CARTAZ HELL IN RIO – EVENTO QUE APOSTA EM ATRAÇÕES 100% NACIONAIS

Pra finalizar, objetivo deste artigo é levar este tema à análise e reflexão. Seria interessante que os que amam o metal e curtem as bandas brasileiras, se enxergarem neste contexto e pensar o que pode contribuir para o crescimento contínuo da cena brasileira, trazer algo produtivo. Não importa o tamanho da contribuição, pequena ou grande, o importante é que ela aconteça, nem que seja apenas compartilhando o post de alguma banda. Uma cena forte se constrói com público e bandas se ajudando mutuamente. Se aprendermos a valorizar nossas bandas e nossos eventos, iremos crescer de forma sólida e construir algo real e único. Como já falado no texto, qualidade para isso não nos falta.

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