
Resenha
The Collectors
Álbum de The Collectors
1968
CD/LP
Bom, quando falamos de bandas psicodélicas na América do Norte dos anos 60, o primeiro nome que vem em mente certamente é o da California, mas sendo ainda mais específico, a cena de São Francisco era de longe o solo mais fértil na produção de músicas do gênero. Porém, outros estados e cidades estadunidenses também tinham suas bandas que acabaram sendo importantes para o movimento. Mas e quando falamos do Canadá? Certamente citar até mesmo um nome que seja nem sempre é fácil - exceto para quem realmente acompanhou e acompanha a psicodelia pelo mundo. Eu confesso que não sou um desses especialistas, por isso, ao ouvir o disco autointitulado da banda canadense, The Collectors, fiquei maravilhado com um álbum tão desconhecido, mas que soa de forma surpreendente e exala um humor psicodélico típico da época. Embora claramente inspirado por álbuns como Sgt Pepper's... dos Beatles e os primeiros álbuns do The Doors, entre muitos outros, a banda conseguiu manter vários graus de separação de suas influências e criou uma interessante variedade de abordagens estilísticas provocadas em sua própria entrega. O tipo de música que a banda gerou não era distante da mesma dinâmica de bandas de rock psicodélico muito bem alimentada por guitarra fuzz, porém, a utilização de órgão deixava o seu som mais dramático, além de flertar com gêneros como o folk e até mesmo o jazz devido ao uso de instrumentos extras incomuns em bandas de rock do gênero como violoncelo, saxofone, vibrafone e violino. “What Is Love” inicia o disco por meio de um teclado de sonoridade misteriosa antes de se estabelecer em uma peça cheia de serenidade – instrumental e vocal - em que os vocais principais e o coro de apoio ponderam sobre a definição do amor. De grande sensibilidade, serve como um prelúdio para a longa suíte que vai encerrar o álbum. “She (Will-O-The-Wind)” é uma música muito mais animada do que a anterior. Um bonito folk-rock com vocais múltiplos. O uso de flauta é bem adequado e a bateria é simples e esparsa. “Howard Christman's Older” é uma peça psicodélica bastante dramática que traz uma história fascinante com um tema de ficção científica sobrenatural. A sensação assombrosa e de suspense da música certamente é o seu principal trunfo. Guitarra fuzz, guitarra elétrica de som mais limpo e órgão formam o tripé de destaque da peça, enquanto a bateria é sutil e as linhas de baixo são simples. “Lydia Purple”, com pouco menos de 3 minutos é a música mais curta do disco. É a única que não foi escrita pela banda, mas foi o single do álbum, porém, eles a modificaram bastante, tirando um pouco da sua simplicidade e apelo comercial, trabalhando em ótimas harmonias vocais, além do uso de cravo e violoncelo junto dos instrumentos tradicionais, bateria, baixo, guitarra e teclado. O resultado foi uma música belíssima. “One Act Play” é mais uma bela música, incrível em som, composição e performance. Lenta e fácil, inclusive, acho que esta que deveria ser o single do álbum. As harmonias vocais ao fundo funcionam muito bem para mais uma poderosa entrega do vocal. “What Love (Suite)”, até o ano de 1968, muitas bandas faziam improvisações que passavam facilmente dos 20 minutos em seus shows. Mas quantas gravaram uma música de estúdio com pouco mais de 19 minutos? Confesso não lembrar de nenhuma no momento. A música nos leva a um rock psicodélico de guitarra lisérgica, solos de flauta com sonoridade oriental, um solo de saxofone, uma guitarra elétrica louca e dramática e, como sempre, os vocais dramáticos. Em alguns pontos, é claro que a peça carece da mesma suavidade e grandiosidade dos épicos que as bandas de rock progressivo iriam fazer posteriormente, mas convenhamos, estamos falando do ano de 1968, onde a noção de compor algo do tipo ainda era basicamente nova. Independentemente de ser adorada ou odiada, esse tipo de som tem que ser respeitado pelo esforço da banda em entregar algo além do que basicamente 100% das bandas até aquele ano ousaram fazer. No fim das contas, se trata de uma banda que mostra total domínio da proposta musical que oferece. Apesar de um tanto desconhecido, tenho certeza de que esse disco serviu como influência para muitas bandas de rock progressivo que surgiram nos anos 60, porém, ainda com uma sonoridade mais psicodélica. Se você é um colecionador de música psicodélica produzida nos anos 60 e ainda não conhece esse álbum, está na hora de se redimir desse pecado.
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