
Resenha
Erotic Cakes
Álbum de Guthrie Govan
2006
CD/LP
Guthrie Govan, apesar de só ter lançado até hoje um disco em sua carreira solo no já longínquo ano de 2006, não é um nome desconhecido, muito pelo contrário, sua contribuição com nomes como Steven Wilson, Asia, GPS, Young Punx, The Aristocrats, Hans Zimmer Live, Michael Angelo Batio, Nick Johnston e G3 o coloca na posição de um dos grandes de sua geração. Sendo um disco de rock instrumental, é lógico que Govan é o centro das atenções, entregando um material que passeia por vários estilos que inclui o hard rock, blues, mas principalmente um jazz fusion da melhor qualidade. Guthrie Govan consegue controlar muito bem o disco, produzindo um álbum de sonoridade clara, limpa e adequada a todas as direções que a música se desenrola, confeccionando a todo instante melodias e temas sedutores em sua execução. Algo que é sempre bom ser dito quando falamos de guitarristas fenomenais, é que nem sempre seus discos é garantia de qualidade, sendo a lista grande de exemplos de músicos tecnicamente brilhantes, mas que fazem um disco chato, porém, não é o caso de Govan, afinal, o guitarrista faz um uso extremamente inteligente das melodias e atmosferas em cada uma das composições do álbum. O guitarrista impressiona sem esforço com suas improvisações lindamente fluidas, onde cada música dá a sensação definitiva de que está indo a algum lugar, e que o ouvinte não está apenas sentado enquanto Guthrie entrega seu toque de músico virtuoso. Apesar de obviamente Govan ser o grande astro de Erotic Cakes, há muito o que aproveitar em relação aos outros músicos. O baixista Seth Govan, que eu imagino ser irmão de Guthrie, afinal, uma simples olhada no Google e vemos a semelhança dos dois, faz ótimas linhas de baixo e que preenchem muito bem cada música, dando ao ouvinte mais opção no que se concentrar. Apesar do baterista, Pete Riley, ser um músico da escola jazzística, consegue se adaptar muito bem em qualquer estilo proposto por Govan. E o disco ainda oferece Richie Kotzen e Bumblefoot, cada um como convidado nas guitarras solo de uma peça do álbum. “Waves” começa com o riff principal ao fundo de alguns sons que parece de uma beira mar, então que a música começa de fato. O primeiro solo não demora para chegar, acontecendo de maneira curta e eficaz. Govan não demora para mostrar a sua habilidade em ser melódico e ao mesmo tempo muito rápido. No núcleo da peça, é possível notar algumas boas ideias influenciadas pela música latina, com algumas mudanças de tom agradáveis e um solo de som bastante limpo. Um início de disco muito poderoso e que já diz muito o do que virá pela frente. “Erotic Cakes” é uma peça muito mais pesada e de riffs bastante intrincados na sua introdução. Na sua parte central há uma quebra para uma experimentação rítmica que nem mesmo grandes nomes da velha guarda do jazz pensaram em fazer. “Wonderful Slippery Thing” possui uma curta, mas insana introdução de baixo que dá lugar a uma boa progressão de jazz/funk e novamente um solo de notas claras e limpas. Mais à frente, um riff melódico de Govan entra e a música segue com a sua atmosfera funk. Enquanto a música vai se alternando entre jazz e funk, Govan desfila com suas habilidades inegáveis por toda a peça. “Ner Ner” começa por meio de um violão antes que Govan entre com sua guitarra melódica. O solo que entra em seguida é excelente, então que o riff inicial retorna à peça e outro solo vem em seguida. O violão pouco antes do fim do primeiro terço da música é belíssimo, assim como da parte mais intermediária da música e que divide espaço com o solo de guitarra. Esse é a música em que Richie Kotzen faz participação, porém, ambos solam na música e eu não sei exatamente onde é que cada um se encontra na peça, de qualquer forma, os dois foram brilhantes. “Fives” possui uma excelente introdução e um riff principal muito melódico. Após mais um solo avassalador, tem uma seção que remete muito a um teclado, porém, o disco não tem tecladista, então não sei exatamente o que é - ou pode ser um teclado mesmo, mas que não é creditado -, um solo de baixo acompanha a peça. Então que o tema principal regressa à música, sendo seguido por um ótimo solo antes de chegar ao fim. “Uncle Skunk” começa por meio de um riff de sonoridade bastante otimista e feliz sobre uma batida sincopada. A maneira como Govan parece brincar com o instrumento nessa música mostra uma influência em Steve Vai. “Sevens”, possui um belo riff lento com alguns solos emotivos por cima. Em sua seção central há um solo de baixo, sendo seguido por uma seção instrumental mais agressiva e frenética, onde Govan realmente se solta antes da música voltar para a sua melodia principal. Se na peça anterior eu citei Vai como influência, aqui temos uma música em que fãs de Satriani tem tudo para achá-la muito atraente. “Eric” é uma balada muito adorável em que Govan apresenta uma técnica de palhetada bastante interessante. A melodia é belíssima e a execução de muito bom gosto. A faixa tem uma atmosfera imaginativa na execução de cada uma de suas notas e o seu clima melancólico é extremamente bem realizado. “Slidey Boy” é um dos momentos em que aquela sensação boa que o jazz fusion traz bate com mais força e intensidade. Há excelentes solos acústicos sendo entregues novamente pelo baixo de Seth Govan. Sem dúvida alguma um dos melhores momentos do disco, um casamento perfeito entre o acessível e o resplandecente. “Rhode Island Shred”, com pouco mais de dois minutos, considero essa uma peça meio deslocada em relação ao resto do material do disco. Tem Bumblefoot como convidado. Uma espécie de música country frenética. É divertida, apenas acho que não combina no álbum. “Hangover” é a música que finaliza o disco. É a outra balada, possui mais um ótimo riff melódico e algumas notas que deslizam lindamente pela guitarra de Govan. Mais uma vez, há um bom solo de baixo. O guitarrista encerra o disco entregando alguns dos seus momentos mais inspirados de todo o disco. A incrível habilidade de Guthrie Govan em tocar e o bom gosto na hora de compor, fazem de Erotic Cakes uma audição essencial para seu estilo. Suas músicas, não necessariamente complementam uma à outra em uma escala de álbum, mas cada uma delas é consistente e mantém o disco em uma qualidade elevadíssima do começo ao fim – pois “Rhode Island Shred” não é ruim, apenas não combinou com o restante do álbum.
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