
Resenha
Symphony Ihatov
Álbum de Isao Tomita
2013
CD/LP
Ihatov é uma terra de fantasia imaginada pelo escritor japonês Kenji Miyazawa, que viveu no início do século 20. Sua obra mais famosa é o "Trem Noturno para as Estrelas", uma fábula cheia de poesia que Isao Tomita adotou como inspiração para esta obra, terminada três anos antes de seu falecimento em 2016, com 84 anos. É uma composição orquestral tocada com instrumentos acústicos, sem sintetizadores. Mas a vocalista solo é artificial: Hatsune Miku, uma "vocaloid" (software de síntese vocal) elaborada pela empresa Crypton Future Media sobre tecnologia da Yamaha. Representada por uma boneca desenhada com estética de anime, nas apresentações ao vivo a cantora virtual é um holograma animado, projetado no palco. Embora o timbre de sua voz seja distintamente diferente do de uma pessoa viva, as inflexões e vocalizações que ela faz são surpreendentemente expressivas. Ela não é uma cantora lírica, e sim uma voz contemporânea com um estilo delicado e quase infantil, como é comum entre heroínas de anime, e por ser uma voz sintetizada ela atinge umas notas tão agudas que deixam o ouvinte desconcertado. Talvez para que a cantora robô não roube totalmente a atenção da obra, a maior parte da composição é instrumental, ocasionalmente empregando um coro humano real. O estilo neoclássico, claramente influenciado por Mahler, é familiar também para os ouvidos de quem conhece outros bons compositores japoneses de trilhas sonoras para filmes, como Joe Hisaishi e Yoko Kanno. Não é de se estranhar que um artista mundialmente famoso pelo pioneirismo com sintetizadores encerre sua obra com uma composição sinfônica (quase) tradicional. Ele nunca fez uma separação tão rígida assim entre o acústico e o elétrico, e nunca se concentrou deliberadamente em soar futurista. Nos álbuns "Nasca Fantasy" (1995) e "The Tale of Genji" (1999), o teclado aparece bastante, lado a lado com moderna orquestração ocidental e instrumentos ancestrais do Japão, fazendo uma fusão sonora entre várias épocas da história. De personalidade forte, o mestre japonês sempre explicou que a razão de ele ter abraçado a eletrônica foi para poder ser o regente de uma orquestra em que todos os instrumentos tocassem exatamente como ele imaginava a performance musical. O uso de sintetizadores alargou os limites da performance, levando a resultados sonoros espetaculares. Mas no coração ele foi sempre um compositor tradicionalista.
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