quinta-feira, 20 de julho de 2023

Disco Imortal: A Perfect Circle – Mer de Noms (2000)

 

Disco Imortal: Um Círculo Perfeito – Mer de Noms (2000)

Virgin Records, 2000

A Perfect Circle, este projeto musical já estava fermentando por muitos anos antes de sua aparição oficial. A relação profissional/musical entre Maynard James Keenan e o produtor Billy Howerdel nasceu em 1992, em meio às primeiras turnês do Tool, onde já trocavam ideias, depois a relação se fortaleceu e Howerdel trabalhou como técnico de guitarra da aclamada. "Aenima", mas ao mesmo tempo gostava de compor e neste período começou a propor ideias musicais a Keenan, que se mostrou claramente entusiasmado e começou a colaborar naqueles que foram os primeiros rascunhos da APC. Bem, já em 1999 o acordo mútuo entre os dois talentosos músicos era um fato e sua estreia "Mer de Noms" já via luz para o mês de maio do ano 2000.

Embora a ideia a princípio fosse fazer algo extenso e com voz feminina, a decisão final em que Keenan assumiu as vozes não poderia ter sido mais acertada. Aqui pudemos notar uma veia bastante inspirada do vocalista, não tão enredado na proposta enigmática e visceral do Tool, mas ao mesmo tempo apresentando um som que brinca muito com a escuridão e a doçura, características do DNA de Keenan.

Além dessa fusão quase perfeita onde Keenan fez todo o trabalho com as letras e Howerdel o dele com a música e no trabalho de produção, foi o que enriqueceu ainda mais o som quase perfeito e o resultado do álbum foram a série de colaborações com grandes músicos do circuito americano de rock alternativo.

É assim que o grande Tim Alexander (Primus) é quem comanda a bateria no início glorioso com 'The Hollow', uma música que beira a perfeição, com alguns riffs e uma sonoridade que iria caracterizar o APC daqui pra frente . Deve-se dizer que o preconceito da semelhança com o Tool era impossível não ser óbvio, mas quanto mais o ouvimos, mais podemos refutar essa ideia, o álbum consegue cada vez fugir dessa comparação, obtendo seu próprio e identidade muito original, para o resto.

Segue-se a nebulosa e intensa 'Magdalena', onde aqui começa a desenvolver-se esta ideia que apresenta o álbum como conceito, que tem a ver com o «Mer de Noms» (mar de nomes em francês) e que precisamente através Durante sua turnê, ele dedica as músicas a nomes de pessoas, a maioria delas pessoas que tiveram um relacionamento na vida real com Maynard James Keenan, como 'Judith', sua falecida mãe, ou 'Breña', sua ex-namorada.

Este conceito é também complementado pela misteriosa arte do álbum, com estes símbolos rúnicos que aparecem na capa que aludem a "La cascade des prenoms", que em espanhol significa "a cascata dos nomes" ou o "mar dos nomes". ". .

Continuando com o álbum, em 'Rose' as execuções distorcidas da guitarra de Howerdel, somadas à voz melancólica de Keenan e as baixas intensidades sonoras com sotaque progressivo, combinam uma temática estranha mas muito diversa, bem como a presença impecável que confere ao baixo uma réplica muito melhor de tudo isso. Segue-se o tremendo riff de guitarra de 'Judith', uma música agressiva e doce ao mesmo tempo, cheia de fatores determinantes para encantar, desde a marcha acompanhada pela interpretação de Keenan, que explode consecutivamente para atingir um enorme refrão, que muitas vezes temos cantado a plenos pulmões, porque a canção inevitavelmente o provoca.

Toda uma panóplia de sensações chega com a chocante 'Orestes', uma canção também ela verdadeiramente arrebatadora e onde nesta altura a APC demonstra categoricamente a sua proposta sólida, que atravessa fogos musicais de diversa índole e perpassa percepções sonoras até intransponíveis.

Como se não bastasse, chega mais uma balada extraordinária e toda a ingenuidade de '3 Libras', traçando uma trágica história de amor; depois chega a crueza da guitarra de Troy Van Leuween com 'Sleeping Beauty', aqui o baixo fica a cargo de Paz Lenchantín, o argentino que também trabalha com arranjos de cordas e toca violino. A participação deles foi parte fundamental no processo deste soberbo álbum.

Outra música que faz parte do conceito do "mar de nomes" vem com o quase doom 'Thomas', riffs poderosos que, quando combinados com os excelentes refrões, alcançam uma excelente presença e marcam a presença imposta no álbum que estão falando. Segue-se a onírica 'Renholder', onde as cordas e violinos se juntam aos sussurros e até incursões vocais tribais de Keenan.

Em 'Thinking of You' os versos de Keenan tornam-se sufocantes e o que acontece com o baixo e a percussão é incrível.Outro elemento essencial no álbum é o baterista Josh Freese, complementando ainda mais este conceito de superbanda, preenchendo tudo com nuances diferenciadas ao grau deste álbum. Quase no final, apresenta-se 'Breña', uma canção cheia de delicadeza e com um esmero que se destaca claramente no momento de concebê-la.

O trabalho de Howerdel como produtor neste disco é realmente bom e isso o torna tão bom, há agressividade nas guitarras mas no contexto final do disco há muita atmosfera e ele consegue ativar a imaginação e suas próprias interpretações muito. Não joga ao extremo do matemático ou extra-sensorial como Tool e consiste mesmo numa proposta muito original e inovadora. Lembremos que surgiu em um período em que muitas ideias do rock alternativo estavam se esgotando, o nu-metal já que sua efervescência em meados dos anos noventa estava quase chegando ao ocaso e as bandas que brilharam nos anos noventa também esgotavam recursos: casos como Primus, The Smashing Pumpkins ou Jane's Addiction, só para citar alguns.

Grande álbum, o primeiro de uma banda que tinha muito mais a dizer em suas próximas edições, onde as mudanças de formação seriam sua própria tendência, mas apesar disso conseguiram manter sua linha musical intacta graças ao profissionalismo e genialidade do grande Billy Howerdel sempre no comando.

«Mer de Noms», mais do que um mar de nomes, é um mar de boas canções e sensações. Um mar onde parece que nunca vamos parar de nadar.

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