Depois do estado maníaco de Odelay, vem a depressão de Mutations: um disco íntimo e contemplativo onde as raízes da música popular americana sabem a longínquo futuro.

Nos manuais de psiquiatria pop, quando se aborda a perturbação da bipolaridade estilística, é muito comum a referência a Beck, e à sua clássica alternância entre discos eufóricos e melancólicos. Mutations vem então sempre à baila, o disco acústico e introspectivo que se seguiu ao festim louco de Odelay.

Mutations é o dia seguinte, quando a ressaca quase rebenta na tua cabeça e a culpa te ferra os seus dentes afiados- Robert de Niro confrontando-se ao espelho em “Taxi Driver”. Are you talking to me? Claro, com quem mais Mutations poderia estar a falar? Não tentes “culpar o diabo pelas coisas que fizeste”, como Beck te chama a atenção na bonita balada psicadélica “Nobody’s Fault But My Own”. Foste tu que mentiste, amigo. Foste tu que foste um biltre egoísta naquela noite de Odelay. Chegou agora a conta, e vais pagá-la em desprezo por ti. E pudesses tu pagar de outra forma…

Mas a depressão do tamanho da China de Mutations não chega para saldar a tua dívida. Os remorsos são gulosos, nunca se sentem saciados, como um cocainómano prometendo só mais um cheiro, e depois outro, e depois outro. Sei também que és um cobarde e que vais fugir, tentar esquecer tudo no funk demente de Midnite Vultures. Por momentos julgarás a tua consciência apaziguada. Pobre diabo. Então tu não sabes que a tua consciência não sabe esquecer, que se lembra de absolutamente tudo como um deus pagão da vingança? Então tu não vês que Sea Changes de novo te encontrará?

Mutations não é só um dos discos mais belos de Beck, onde o namoro com as raízes musicais mais antigas sabe sempre a longínquo futuro- blues e country dos anos 3000. Mutations é uma celebração desse sentimento tão injustamente vilipendiado que é a culpa, sem a qual a vida em relação seria o mais monstruoso dos infernos. Lixaste quem amas, chafurda na culpa- só assim procurarás reparar a merda que fizeste.

Se a culpa não existisse, tudo seria permitido. Até esquecer a beleza contemplativa de Mutations.