
Mesmo que carecendo de motivo, o recobrar de um clássico parece pertinente. À parte isso, o que têm F. Scott Fitzgerald, Batatoon e Da Weasel em comum?
Raras são as ocorrências da cultura popular que pela óptica do revisionismo se tornam parte inerente de um zeitgeist particular. Mais raras ainda são as ocorrências da cultura popular que pela óptica contemporânea automaticamente se tornam parte inerente do zeitgeist que lhes serve de contexto. Assim de repente, de estoiro, sei lá, uns Beatles enquanto memento da fan culture e da francalização da língua inglesa?, um Gastby enquanto insígnia de determinado mito imperialista?, um Batatoon enquanto ícone subversivo do hino parabenizante? De qualquer maneira, é uma questão de consciência, de discernimento, de lucidez perante a conjuntura envolvente que torna as primeiras nas segundas ocorrências; uma noção apurada de que isto está a acontecer, de que o que está a acontecer abre um precedente, de que o precedente cria a insustentabilidade segundo a qual as coisas não podem mais ser como eram. No fundo, porque se as entende.
Como é óbvio pelo título e pela circunstância em que se lê este texto, a minha intenção é categorizar Re-Definições nos baluartes das obras que marcam um imaginário social. Importante notar que não só se passeia tranquilamente — de charuto na boca, de sorriso rasgado, com a certeza de que a entropia universal não sai dali como antes de ele ter chegado — por sobre aquele como também deixa pelo passeio um ou outro tremoço que gajos como eu vão buscar passado uns anos, a ver se o desconstroem, a entender o fenómeno, embora as águas sejam passadas e tenham congelado no tempo.
A analogia invernosa não terá cabimento na leitura do álbum, contudo; inadequação minha. “Pré-Definições” lança o mote para um álbum cálido, uma peça perdida entre o altruísmo etnopluralista de Almada e Chelas e uma produção sofisticada e contendente, em que o contraste se processa entre o pulular dos baixos e a pertinência temporal da insurgência dos sintetizadores, dos ecos. Deste modo, Pacman & Co. alcançam uma contenção litigiosa pela espacialidade das texturas, pelos hiatos dos silêncios, pela música negativa. É por esta razão que, um minuto passado, Re-Definições se adequa a uma representação caleidoscópica daquilo que comumente é designado “rap tuga”. Contudo, o caleidoscópio não se queda pela estrutura e construção das faixas. Repare-se em “Força (Uma Página de História)” no enlaçar da guitarra e seus parcimoniosos acordes com a premência da batida — não segundo os conformes contemporâneos PALOPistas de Marfox etc., mas sim baseado num minimalismo espacial sintetizado — e com a letra cínica e escarmentada: “Respiro fundo e lembro-me da força /Guardo dentro do meu corpo”, canta Pacman em esforço; e novamente se tem uma indicação meta acerca do próprio álbum, na medida em que as palavras afrontam o significado e dizem respeito à própria música, acompanhadas em postura pelo intumescer dos sintetizadores, pelo inflar do espaço, pela urgência do refreio de quem canta. Quero dizer: o caleidoscópio não só diz respeito à circunstância cultural da produção artística de Re-Definições como também lhe sucede a casualidade de entender aquilo que protagoniza. Assim sendo, não há necessidade de eu espremer aqui a consciência historial por detrás dos versos iniciais da mesma faixa — “Estás a sentir /Uma página de história /Um pedaço da tua glória /Que vai passar a breve memória” —, correcto?
E o caleidoscópio não some, e o caleidoscópio deste parágrafo diz respeito à abrangência popular de Re-Definições. Se por um lado “Re-Tratamento” serviu em 2000 e troco-passos, épocas de Top+ aos domingos na RTP, de alavanca mediática para Pacman e, quiçá, preconizou o hino da Galp para o Euro, por outro impôs-se enquanto expoente máximo da urgência com que Re-Definições se apresentou pelas rádios ao público, aos críticos, aos abstergentes; sobretudo — e admito mea culpa nesta incursão de um egocentrismo geracional imperdoável (damn you, millennials!) — aos putos ali a chegar aos dois dígitos de idade, em que então se criou um abismo inabsolvível, um hiato temporal, um antes e depois endereçável aos conceitos (mais ou menos desenvolvidos, mais ou menos corroborados pela experiência) de rap, de música, de música comercial, do que seria aceitável em horário nobre. O pudor da Comercial era outro, julgo eu, e falar-se de Viagra era coisa esguelhada, procriar “como coelhos” idem. Enfim, Da Weasel normalizou um género iconoclasta de linguagem e de playfulness cantada — em tendo tido representação na língua portuguesa, Sam the Kid e Valete mantê-lo-iam num registo de bolinha vermelha, requerente de uma audição isolada da entidade parental — que tinha referência apenas nos R&B e rap kitsch norte-americanos do início do milénio, resguardado no hermetismo do inglês, coisa estranha que se falava nos filmes, valessem-nos as legendas e dobragens (a ter em mente: nada de ensino obrigatório de inglês até ao 4.º ano). Fora de brincadeiras, o português legitimou-se. O português underground e segregado, o português das Almadas profundas e Zonas J, o português rapado irrompeu no mundo habitual do conforto radiofónico enquanto lugar comum, de livre acesso. A insustentabilidade que Da Weasel criou teve vertente política, e foi à fluência groovy, à inteligência dos arranjos, à frescura das estruturas e, com certeza, aos impulsos líricos de denúncia social de Pacman que o público sucumbiu e permitiu coexistência. Os Viagras, isso são outros trezentos, outras brincadeiras.
Até aquela altura, a herança metaleira de Da Weasel primordial redireccionava a banda para outras demografias. “Jay”, olhe-se para isto: a acompanhar plataforma então quintessencial da banda — a do flow tropical, possivelmente alusivo à escola melódica dalgum hip-hop old school, que inocentemente antecipa inflexões agressivas, coros headbangers, multidões redobrando-se na espessura da sonoridade, as menções de “guitarras maradas” as rastas trampolinadas de Pacman por cima dos amplificadores de uma cave abafada —, Podes Fugir Mas Não Te Podes Esconder foi o ponto e vírgula na exacerbação hostil dos pratos e do ambiente na carreira e no público do grupo. Digo “ponto e vírgula”, uma vez que aquela demografia não cessou em existência, uma vez que não se renunciou a um passado de gigs suados. “Bomboca (Morde a Bala)”, interlúdio díspar, recupera aquele tempo, por via da distorção da memória, uma recordação mais ou menos presente daquilo que procedia da designação “Da Weasel”, agora toned down, de sensatez maior. É um ponto importante quanto à construção e sustentabilidade da própria banda: há correlação, um orgulho exposto perante a herança respectiva; há referência jocosa, uma tomada de consciência de que aquilo aconteceu e foi parte integral do desenvolvimento de Re-Definições; há celebração do processo criativo, há determinado saudosismo perante a constituição do trabalho, há amenidade no encarar do amadurecimento. No fundo, a postura de Da Weasel para com o próprio grupo torna a música um local de confronto entre a memória e o que dela veio, à semelhança do método de um palimpsesto: e esta síntese é um regalo desgraçado.
Perdoe-se-me a digressão. “Re-Tratamento”, correcto? Correcto. Não será pertinente o paralelo entre este single e “Dialectos da Ternura”, relação que tem semelhança tão-só na categoria de “single” de propaganda radiofónica. Seria o mais recente uns Da Weasel de cara lavada após o jogging, o choque da água do chafariz em refresco da pele suada, um revamp cronologicamente descabida do êxito passado: o refrão onomatopeico, o hook fácil, o ritmo uptempo, o abrandar da profanidade lírica, o esboroar das texturas, o leve assimilar da sonoridade genérica Comercial™. Não, não será impertinente paralelizar coisa nenhuma, reformulo, uma vez que uma definição negativa também é definição. Talvez “Re-Tratamento” seja um total oposto do que descrevi, e isto pelo entrelaçar de uma batida teimosa e militar com um baixo solto e contencioso; pelas investidas da wit indiscreta de Pacman, acompanhada do charme e humor sinusoidais das suas inflexões vocais; pelo contrapeso de Virgul, acompanhado do chill gingão que se lhe associa — de que “Despertar (O Flow Que Sai)” é exemplo maior —; pela postura descomprometida da faixa. É fundamentalmente um hit de rádio que não teve pretensão alguma de o ser, posto que se leva muito pouco a sério. E isto é um elogio! E é nesta vertente que assumo a minha preguiça no que disse anteriormente, já que “Re-Tratamento” não é total oposto nenhum de “Dialectos da Ternura”. As onomatopeias estão lá também, embora com causas diametralmente distintas: enquanto no pastiche mais recente servem um propósito estrutural — e, enfim, é o que vem à cabeça passado todo este tempo: o que é que “Uh Uh /Ah ah/ Faz faz /Bebé”, ou lá o que era, queria sequer dizer? —, no triunfo clássico revelam-se ocorrências casuais, progressões naturais dos acordes anteriores, uma circunstância nonchalant com propósito algum. Alguém teve a ideia, alguém a manteve, e tão-só porque soava bem. E ainda soa, sobretudo.
O álbum parece seguir esta lógica de adequação. A norma é a do usufruto criativo, postura latente ao longo da estrutura, intercalada de interlúdios e composições consagradas na proporção habitual de 1:1. Se se pretender atribuir uma narrativa a Re-Definições, parece-me pertinente referi-la precisamente nos conformes daquele usufruto, um logro intrínseco, transversal ao spleen de “Casa (Vem Fazer de Conta)” e ao impulso interventivo de “GTA”. É aquele o fio condutor e o que permite a concatenação de faixas tão discordantes, bem como as precedências e procedências jazzy, ambient de segundos, minutos — possivelmente celebrações dos Beats de Sam the Kid; certamente um registo desfrutável da ideologia do improviso e da jam que subjaz ao trabalho. Destes contrastes, o sentido, a noção que se acomete ao álbum e à recordação do álbum é a destreza do som, o nexo dos arranjos, a configuração de um universo sonoro sem precedente nem procedente na instituição musical tuga. Novamente: soou bem, continua a soar, e a intemporalidade do álbum participa disso.
Contudo, demoremo-nos um pouco naquelas faixas, ou pelo menos na primeira. No rescaldo de O Monstro Precisa de Amigos (1999) e no da desintegração dos Ornatos, em 2002, Manel Cruz apresenta-se por sob vulnerabilidade mais sorumbática ainda do que, sei lá, “Ouvi Dizer”, num refrão com largura para as spotlights, em acompanhamento das flutuações monocórdica de Pacman, e do pesar minimalista do piano. As reputações estão bem divididas, os papéis, esses sabem-nos cada um dos protagonistas, e o equilíbrio da faixa é tal, que se permite ao rasgo arranhado da guitarra e à instabilidade da bateria a três quintos, prosseguindo imperturbável, morrinha, tumular. “Casa” ocorre num momento de Re-Definições que causa disrupção para com a história do trabalho até então. É uma canção de amor contrastante com a maior parte das canções de amor, e é não pelo recurso ao tema providencialmente caricatural, mas sim pela densidade musical e pela parcimónia cifrada simultâneas que se incluem no trademark do álbum, que resfolga no legado que comporta — quiçá a par de “Anel de Rubi” para a categoria de Música Mais Triste da Tuga Pop? No entanto, o contexto e a circunstância têm novamente influência na recepção da faixa, e parece-me ser este o motivo pelo qual “Casa” tomou automaticamente o seu lugar num hipotético Hall of Fame: é o registo, o marco das figuras que Manel Cruz e Pacman representam numa nudez completa, acompanhados de uma fragilidade a que até então haviam passado despercebidos. E a geração de putos que bebeu disto bebeu bem, à maneira de um trauma pessoal — coisa saudável, contudo —, que pela pessoalidade teve foz na interacção entre uns e outros. Mas isto já é especulação minha.
As pessoas cantam-na, porém. Parte da identidade de Re-Definições é também a propensão hínica de cada faixa: parece ser-lhes substância uma inevitável reverberação popular, uma necessidade corista de as ouvir e reproduzir repetidamente, um impulso de apropriação da música para as vidas de quem a ouve. Seja o flow chillax, desencantado, nonchalant, estóico de “Carrossel (Às Vezes Dá-me Para Isto)” e sua celebração diletante; seja a agressividade slowcore, latente até que os pratos se imponham, e a ironia de uma diegese cáustica pela voz de Pacman em “Loja (Canção do Carocho); seja a ternura adocicada, os olhos enxaguados pelo enlevo paternal — “tioternal”? — a toda a largura de “Joaninha (Bem-vinda!)”: há qualquer coisa a servir-lhes de plataforma, e o denominador comum parece ser este ingrediente secreto, este acontecimento extraordinário que se cristalizou na tendência à repercussão da música, à alocação da música na memória, ao estabelecimento de Re-Definições no cânone das coisas que importam realmente, independente do porquê de importarem. A estas coisas, chama-se “clássico”, aquilo que, para lá da destreza ímpar na configuração de um universo sonoro modelar e da humanidade e sensibilidade que o postula, e para lá do equilíbrio imperturbável transversal a uma obra que diz respeito tão-só a si mesma, e para lá da reiterada actualidade do estilo no panorama contemporâneo; aquilo que, estalando os dedos, com a sprezzatura de quem se passeia fumando um charuto domingueiro e bonacheirão, cria momentos memoráveis, indeléveis. E Re-Definições, acima de tudo, é um momento indelével. Indelebilíssimo.
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