Ao segundo disco, Booker mostra-se capaz de fazer da sua vida matéria poética e musical de primeira água. Já do tumultuoso país que lhe serve de abrigo destapou o véu. Bravo.

O mote foi uma viagem ao México, depois de uma auto-avaliação demolidora, daquelas que fazem uma pessoa mudar de vida: “Percebi que sou um escritor de canções sem canções, incapaz de juntar quaisquer palavras que não possam ser plastificadas num jornal de um avião”, escrevia, num ensaio recente.

Nesse dia, Benjamin Booker juntou “roupas e livros” numa mala – ou numa mochila, imaginamo-lo facilmente a viajar só de mochila às costas -, acrescentou-lhes “uma guitarra clássica barata” que encontrou em Charleston e apanhou um voo Nova Orleães-Houston-Cidade do México.

Era uma espécie de isolamento auto-imposto – mas também férias, para desanuviar a cabeça. A ideia seria descontrair, compor, talvez fugir à rotina. Um escape. Da sua América começavam a chegar-lhe notícias: detenções e violência policial sobre membros do movimento Black Lives Matters, a América conservadora e moralista a olhar a agitação com desdém, as discussões sobre os homicídios de polícias a cidadãos americanos de raça negra a continuarem na ordem do dia.

Eis então que a inspiração começou a chegar à ponta dos dedos. “Quando dás por ti noutra civilização, és obrigado/a a examinar a tua”. A frase era de James Baldwin, o grande ídolo deste rapaz de voz rouca e espírito rock and roll de 28 anos. Foi ela que Benjamin Booker escolheu para descrever este segundo álbum, Witness. E é ela que sintetiza o elegantíssimo tratado – social e comunitário, pessoal e colectivo, espiritual e desolador – que Booker nos entrega aqui, em formato blues, garage e soul.

É a maturidade na escrita que dá ao segundo álbum de Benjamin Booker uma identidade que o primeiro (muito interessante, acrescentamos) preteria, em detrimento do coração. Com arranjos excepcionais, a sua voz e escrita erguem-se em manifestos como o da faixa que dá título ao álbum – com a grande cantora Mavis Staples, e onde Booker atira versos cortantes e lapidares: “See, we thought that he had a gun / thought that it looked like he started to run…” ou “Now everybody that’s brown get the fuck on the ground”…

Há mais, claro – do início enérgico, quase apunkalhado de “Right On To You” (“O rock and roll para mim é como ir à igreja”, dizia Booker recentemente, numa entrevista para um outro órgão), à elegia auto-reflexiva e esperançada de “Motivation”, passando pela ginga dançável e blues de “The Slow Drag Under”, pela sedução semi-sussurrada de “Truth is Heavy”, pela orquestração gospel afirmativa de “Believe” (“Today the sky won’t seem like much / I’ve got dreams I can touch”), pelo assumir das mudanças em “Overtime” (“No more waking up with a what-was-I-thinking”) e pela entrada furiosa dos instrumentos em “Off the Ground”, depois de um início em que Booker canta à guitarra como se estivesse numa praia a ver as estrelas com a namorada ao lado.

Há ainda a discreta “Carry”, que surge quase no final do disco e dissipa quaisquer dúvidas que ainda existissem: depois de um primeiro álbum onde se percebia que Benjamin Booker conhecia bem as lições dos mestres do rock and roll, da soul e do blues (de Otis Redding a Charles Bradley, que tantas saudades vai deixar…) sem soar anacrónico , ao segundo disco – que é conciso e não tem gorduras -, emerge como escritor de grandes canções, capaz de fazer da sua vida matéria poética e musical de primeira água e do tumultuoso país que lhe serve de abrigo um lugar mais claro – não mais bonito, mas mais translúcido. Bravo, sr. Booker.