quarta-feira, 10 de setembro de 2025

CRONICA - VAN DER GRAAF GENERATOR | The Least We Can Do Is Wave to Each Other (1970)

 

Lançado em setembro de 1969, "The Aerosol Grey Machine" foi lançado apenas nos Estados Unidos, forçando os fãs europeus a comprá-lo como um importado. Este lançamento limitado, no entanto, não impediu que o álbum atraísse a atenção atenta de Tony Stratton-Smith, chefe do novíssimo selo Charisma. Seduzido pela originalidade e pelo poder expressivo de Peter Hammill e seus companheiros, ele convidou o Van Der Graaf Generator para se juntar à sua equipe.

Enquanto isso, a banda passou por algumas mudanças decisivas na formação. O baixista Keith Ellis foi substituído por Nic Potter, que também tocava guitarra. Mas, mais importante, o cantor folk/guitarrista Peter Hammill, o organista Hugh Baton e o baterista Guy Evans recrutaram o saxofonista David Jackson. E foi aí que tudo mudou.

Assombrado por John Coltrane, David Jackson desenvolveu um estilo único, marcado pelo uso de instrumentos de sopro duplos, tocando dois saxofones simultaneamente, técnica herdada de Rahsaan Roland Kirk. Ele também tocava flauta transversal e diversos apitos, expandindo consideravelmente a paleta sonora do grupo. Sua chegada não apenas enriqueceu a textura musical, como também consolidou a identidade sonora do Van Der Graaf Generator, algo entre a intensidade do free jazz e a tensão dramática.

Em dezembro de 1969, o Van Der Graaf Generator entrou no Trident Studios, em Londres, para gravar seu primeiro álbum sob contrato com a Charisma. A produção ficou a cargo de John Anthony, que capturou tanto a energia bruta da banda quanto suas ambições sonoras. Desde as primeiras sessões, o tom estava definido. O objetivo não era seduzir com melodias superficiais, mas criar atmosferas, despertar emoções fortes, às vezes perturbadoras.

O órgão maciço e envolvente de Hugh Banton torna-se a espinha dorsal de muitas faixas, apoiado pelo baixo profundo e pela bateria frequentemente marcial. Sobre ele, a voz incandescente de Peter Hammill declama, murmura ou uiva, como se cada texto envolvesse toda a sua vida. E agora, o saxofone e a flauta de David Jackson ora conversam com o órgão, ora o provocam, trazendo uma dimensão caótica e febril à música. Esta é a verdadeira alquimia VDGG, aquela que tornaria The Least We Can Do Is Wave to Each Other, lançado em fevereiro de 1970, um marco importante no rock progressivo mais aventureiro.

Este disco de 33 rpm de beleza aterradora alterna, em quase todas as faixas, intensidades apocalípticas, temas de destruição, ameaça, angústia existencial e niilista, com momentos de aparente bondade, que nunca estão completamente isentos de sombras. Essa doçura frequentemente atua como uma máscara. Por trás da ternura das melodias, há um desencanto, até mesmo uma ansiedade latente. Em suma, o álbum retrata um mundo torturado, onde a luz existe, mas sempre tingida de cinza, e onde cada calmaria parece ameaçar se transformar em tempestade.

Com um vento gelado soprando, o álbum abre com "Darkness (11/11)", uma peça monumental e perturbadora. Na escuridão, uma linha de baixo melódica permite a entrada de um piano e órgão inquietantes. O teclado cósmico de Hugh Banton ergue uma parede sonora sobre a qual se desdobra a voz profunda e tensa de Peter Hammill. David Jackson, no saxofone, tece motivos quase sinistros, criando um diálogo tenso com o órgão e a bateria. A peça mergulha o ouvinte em um universo sombrio e hipnótico, onde cada nuance parece carregada de ansiedade.

"Refugees" segue, uma mudança radical de atmosfera. Aqui, Peter Hammill cede a uma ternura rara na discografia da banda. Apoiado pelo órgão e arranjos etéreos, ele entrega uma balada imbuída de nostalgia e doçura. A contribuição de Mike Hurwitz no violoncelo adiciona profundidade, enquanto a flauta transversal de David Jackson tece motivos delicados e luminosos, reforçando o lado intimista e comovente da peça. "Refugees" atua como um respiro, um momento de trégua na densidade emocional do álbum.

White Hammer" é uma faixa marcante do álbum, combinando tensão dramática com intensidade narrativa. A letra, evocando a Inquisição, ecoa perfeitamente na música. O órgão, a bateria e o saxofone se entrelaçam para criar uma marcha sonora hipnótica e ameaçadora. Jackson alterna entre saxofone e flauta para acentuar o drama e a teatralidade do conjunto, enquanto a intervenção de Gerry Salisbury na corneta traz um surpreendente tom metálico, reforçando o aspecto solene e dramático da peça antes que o peso do órgão arraste todos em seu caminho.

"Whatever Would Robert Have Said?" é mais sinuosa, alternando entre passagens calmas e explosões de energia. Ela demonstra o virtuosismo instrumental da banda. O baixo e a guitarra de Nic Potter interagem com o saxofone e a flauta de David Jackson, enquanto Peter Hammill adota um registro mais teatral e irônico. As mudanças na dinâmica reforçam a tensão e a imprevisibilidade da música.

Mais intimista, "Out of My Book" oferece um contraste marcante com as explosões sonoras anteriores. Peter Hammill emprega uma voz mais suave, quase melancólica, enquanto o órgão se torna discreto, dando lugar a uma textura refinada e contemplativa. As intervenções da flauta adicionam um toque arejado e poético, transformando a peça em um verdadeiro interlúdio emocional.

O álbum encerra com "After the Flood", um epílogo monumental e catártico que se estende por mais de onze minutos de ascensão dramática. Desde a introdução, um tema assombroso se estabelece, impulsionado por órgão e bateria. As letras, imbuídas de visões cataclísmicas, refletem-se na crescente tensão instrumental. O final, saturado de saxofones, flauta e órgão, mergulha o ouvinte em um caos majestoso, encerrando o álbum com um impacto emocional inesquecível.

Títulos:
1. Darkness (11/11)
2. Refugees
3. White Hammer
4. Whatever Would Robert Have Said ?
5. Out Of My Book
6. After The Flood

Músicos:
Peter Hammill: Vocal, Violão, Piano
David Jackson: Saxofone, Flauta, Coro
Hugh Banton: Órgão, Piano, Coro
Nic Potter: Guitarra, Baixo
Guy Evans: Bateria
+
Mike Hurwitz: Violoncelo
Gerry Salisbury: Trompa

Produção: John Anthony




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