
Em 1971, o México vivenciava um período de tensões latentes e desilusão. Três anos após o massacre de Tlatelolco (1968), a ferida estava longe de cicatrizar. Embora a presidência estivesse agora sob o comando de Luis Echeverría Álvarez, sucessor de Gustavo Díaz Ordaz, o regime permanecia firmemente entrincheirado no autoritarismo do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que estava no poder ininterruptamente desde 1929.
Echeverría tenta projetar uma imagem mais progressista, frequentemente proferindo discursos em defesa da juventude e da cultura. Mas por trás dessa fachada, permanecem a vigilância, a repressão e a censura. Os movimentos estudantis são rigidamente controlados e qualquer forma de expressão percebida como subversiva é rapidamente sufocada.
Em termos sociais, o país ainda vive os últimos suspiros do "milagre mexicano": industrialização acelerada, urbanização massiva e crescimento econômico desigual. A Cidade do México está se tornando uma megalópole extensa, barulhenta e poluída, marcada por profundas divisões sociais.
É nesse clima, onde a música rock é julgada imoral e um veículo de protesto pelas autoridades, diante de uma juventude urbana frustrada, que surge a Cosa Nostra.
A banda ganhou reconhecimento pela primeira vez em 1970, provavelmente na Cidade do México. A Cosa Nostra reuniu uma formação grande e pouco convencional: Miguel Flores (baixo), Gilberto Flores (bateria), Ezequiel Nieto (guitarra), Rudée Charles (vocal, percussão), Guillermo Briseño (órgão, piano, vocal), com o apoio de duas vocalistas femininas: Malena Soto e Norma Valdéz. Rapidamente notada, a banda assinou com a Raff Records em 1971 e lançou seu álbum homônimo logo em seguida.
Este álbum de estreia, cantado em inglês, é uma verdadeira maravilha do soul rock psicodélico chicano. Tudo se une para criá-lo: vocais afro-americanos cheios de alma, uma guitarra assombrada pelo fantasma de Hendrix, um groove de órgão cavernoso, um piano com toques de jazz latino, vocais de apoio com influência gospel e uma seção rítmica funky, flexível e visceral. Um equilíbrio raro, em algum lugar entre Santana, Sly & The Family Stone e Ike & Tina Turner.
Já que estamos falando dessa dupla americana de soul brilhante, o Cosa Nostra se atreve a fazer um cover de "Proud Mary", do Creedence Clearwater Revival. Menos explosiva que a versão de Tina Turner, mais etérea e envolvente, ela permanece, no entanto, intensamente emotiva, imbuída de um fervor noturno e sensual.
O álbum abre com “Get Down And Do It”, com mais de seis minutos de duração. Essa faixa de abertura demonstra imediatamente uma banda com um verdadeiro senso de sofisticação, oferecendo um funk noturno e corrosivo que alterna tempos. Ritmos envolventes sobre uma base wah-wah, vocais intensos, teclados de rock ácido e uma doçura enganosa se entrelaçam em uma tensão constante. Essa mesma atmosfera é encontrada em “Squeeze It Tight”, em um registro mais rastejante, insidioso e hipnótico. É um funk rock urbano noturno onde o órgão e a guitarra elétrica se confrontam e se respondem, levando o ouvinte a um transe cativante.
No coração do álbum está a enigmática “Memory Of Your Touch”, uma balada lânguida para um amante latino desesperado. O samba febril “I Like It Like That” faz um desvio por Havana antes que a abrasadora “Somebody Been Sleepin' In My Bed” nos mergulhe de volta em um Bronx mexicano sufocante e noturno.
Na faixa homônima, “Cosa Nostra”, uma voz caricata, semelhante à do Pato Donald, surge como um toque extra de loucura no coração desta festa funk desenfreada e alucinante. O álbum encerra com “Change Of Mind”, uma faixa com uma atmosfera simultaneamente vibrante, cativante e cósmica — quase celestial —, finalizando o álbum com uma sensação de êxtase suspenso.
Após seu lançamento, o álbum de estreia do Cosa Nostra obteve considerável sucesso na América Central, muito além das fronteiras do México. Essa recepção permitiu que a banda fizesse turnês pela região, trazendo um sopro de ar fresco em um momento em que, no México, a repressão brutal sufocava a música rock após o festival de Avándaro.
Essa fuga geográfica permitiu à Cosa Nostra contornar, ao menos temporariamente, a censura e a asfixia cultural impostas pelas autoridades, deixando este disco como o testemunho incandescente de uma alma psicodélica livre, audaciosa e profundamente urbana.
Títulos:
1. Get Down And Do It
2. Memory Of Your Touch
3. I Like It Like That
4. Somebody Been Sleepin In My Bed
5. Squeeze It Tight
6. Proud Mary
7. Cosa Nostra
8. Change Of Mind
Músicos:
Miguel “Largo” Flores: Baixo
Gilberto “Batman” Flores: Bateria
Ezequiel “El Gallego” Nieto Guitarra
Malena “La Reyna” Soto, Norma “La Duquesa Non” Valdez: Vocais
Rudee “Bantu Black” Charles: Vocais, Percussões
Guillermo “El Pipipuis” Briseño: Vocais, Piano, Órgão
Produção: Cosa Nostra
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