terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Grandes álbuns do Prog-Rock: Som Nosso de Cada Dia - "Snegs" (1974)

 

O "Som Nosso de Cada Dia" foi formado em 1971 na cidade de São Paulo, por 'Manito' (Antônio Rosas Sanches, nascido em Vigo, Espanha, porém vindo para o BR aos 9 anos de idade; teclados, saxofone e flauta), Pedrão Baldanza (Pedro Augusto Baldanza; baixo, violão e vocais) e Pedrinho 'Batera' (Pedro Pereira da Silva, bateria e vocais). Era uma banda diferente das outras por não contar com um guitarrista solando, mas apenas um baixista que tocava violão eventualmente, em algum trecho de alguma música. O grupo era centrado na figura de Manito que já havia feito sucesso com o grupo de Rock da Jovem Guarda "The Clevers/Os Incríveis" (desde 1962; Baldanza também tivera experiências anteriores menores e era ex-Enigma, ex-Perfume Azul do Sol).
Pedrão Baldanza, Manito e Pedrinho 'Batera'
As coisas começaram lentamente. Bem no início, Manito teve uma breve passagem (algumas semanas) pelos Mutantes (substituindo Arnaldo Baptista), enquanto a falta de equipamento do 'Som Nosso", limitado apenas à aparelhagem de Manito, uma bateria, um violão e o baixo de Pedrão, atrasaram o desenvolvimento das composições do trio. Eram tempos difíceis em vários sentidos (aquisição de instrumentos e equipamentos de qualidade, a ditadura e as licenças para fazer shows, a ideia de trabalhar repertório que não seria MPB, nem o Rock convencional etc.). Mesmo assim, conseguiram uma aparelhagem decente, e logo, a banda passou a participar de festivais. Em uma dessas apresentações, foram vistos por olheiros da gravadora GEL (Gravações Elétricas S.A., selo "Continental") que recomendaram a contratação da banda para o lançamento de um álbum de estúdio. Com a contratação, no ano de 1973, enfrentaram problemas com a gravadora, principalmente tempo escasso de estúdio para realizar as gravações e com os equipamentos do estúdio. Assim, acabaram tendo que realizar as gravações e mixagem de seu álbum de estreia em apenas uma semana num estúdio que estava com problemas na mesa-de-som. Após a gravação, passaram a enfrentar outro problema: a gravadora não se animou com o material e colocou o disco na geladeira, adiando o seu lançamento indefinidamente. O grupo continuou fazendo shows (a resposta do público era muito positiva) e isto rendeu um convite para abrirem os shows que Alice Cooper faria no Rio de Janeiro e em São Paulo (em 1974, então no auge e numa turnê badalada). Foram cinco shows em julho que levaram a uma exposição gigante da banda: o maior show no Anhembi, em São Paulo, teve público de mais de 130 mil pessoas (estimativas chegaram até a falar em 158 mil pessoas). Com a boa repercussão, a gravadora resolveu lançar o disco. Completado em dois dias, "Snegs" contou com poucos overdubs, como violões, solos de Manito tocando violino e sax e mais os vocais da banda, que contavam ainda com a esposa de Pedrão, Marcinha. Assim, "Snegs" foi lançado em 1974.
Manito, Marcinha, Pedrão e Pedrinho Batera
Logo na abertura, uma maravilha capaz de parar o tempo: "Sinal da Paranóia" (de quase 6 minutos) era algo que chocava ao mesmo tempo que cativava, pela dose cavalar de teclados (órgão Hammond, Mini Moog, clavinete, piano). A levada forte de Pedrinho Batera (com seu som típico das baterias brasileiras dos anos 70), era envolvida pelos teclados de Manito, enquanto Pedrão marca o ritmo em seu baixo. A belíssima letra (que aborda temas profundos e existenciais, refletindo sobre a obsessão humana em alcançar objetivos, a efemeridade da vida e das coisas que consideramos importantes) começava entoada por Pedrão, acompanhado pelo dedilhado de um violão e pelo órgão de Manito. Pedrinho dava ritmo ao violão e ao órgão, acompanhando os vocais de Pedrão. Escalas no órgão, a forte marcação do baixo e as vocalizações cantando uma das principais frases do Rock nacional: "...à procura da essência", chegando no refrão, onde o nome da canção era gritado insanamente. Após o refrão, uma viagem bem no estilo Emerson Lake & Palmer, com Manito mostrando toda sua evolução após a saída dos Incríveis, tanto no teclado Moog, quanto no excepcional solo de violino que lembra muito King Crimson na fase "Lark’s Tongues in Aspic" (de mar/73), com Pedrinho e Pedrão criando uma intrincada base percussiva para Manito mergulhar no violino e nos sintetizadores. A volta ao refrão encerrava esse hino do Prog-Rock brazuca. Havia várias outras pérolas escondidas em "Snegs" (cujo nome não significa nada em específico e era "apenas um neologismo para um sentimento", segundo Pedrão), como "O Som Nosso de Cada Dia" (5:16), "Snegs de Biufrais" (2:36), "Massavilha" (6:05), "A Outra face" (7:54) e a líndissima "Direccion de Aquarius" (5:24), demostrando que a banda tinha potencial para rivalizar com o que os Mutantes fazia na mesma época. Álbum favorito de muita gente na praia do Prog brasileiro, a música em "Snegs" era uma mistura de Hard Prog sinfônico, Folk latino, Space Rock e Jazz-Rock. "Massavilha" era um dos destaques reais (com os incríveis teclados de Manito lembrando Keith Emerson). Apesar das limitações tecnológicas da época (a qualidade de som da gravação deixa a desejar), o repertório era muito bom, o trabalho instrumental era de alto nível, composições autorais engenhosas e complexas, partes matadoras e aventureiras encharcadas de teclados, tudo bem imprevisível e emocionante. 
A banda passou a ser mais cultuada do que já era, tornando-se atração principal em festivais como o de Águas Claras (jan/75), o Banana ProgressyvaRock da Garoa (também no início de 75) e O Maior Show de Todos os Tempos (que marcou o encontro histórico das bandas Som Nosso de Cada DiaO TerçoMutantesJoelho de Porco, entre outras). Nesta época, gravam (no estúdio Vice Versa, de Rogério Duprat) um segundo disco contendo uma suíte intitulada "Amazônia", que passam a tocar nas apresentações ao vivo. O disco acabaria não sendo lançado pela gravadora (os executivos da Continental consideraram aquilo não comercial e se recusaram a bancar os custos) e, em nov/75, Manito anunciou sua saída da banda. Havia uma dívida com o estúdio e o jeito foi aceitar uma proposta da CBS que estava interessada nos Funks apresentados a ela por Baldanza. Ele e Pedrinho Batera decidiram continuar e a banda passou por diversas formações virando um quinteto batizado agora apenas de "Som Nosso". Com a formação contando com Pedrão, Pedrinho, Dino Vicente (teclados), Paulinho Esteves (teclados) e Rangel (percussão), surgiu o álbum "Som Nosso", lançado em 1977, e que trazia também a participação de Egídio Conde (guitarra), Tuca Camargo (teclados), Marcinha, Armando e Tony Osanah (vocais). Totalmente diferente de "Snegs", "Som Nosso" já mostrava suas diferenças direto na capa, apenas com as letras “Som Nosso” escritas em branco sobre um fundo preto. O disco trazia onze faixas que, sem os teclados de Manito, perdiam o brilho e a veia progressiva, mas ganhavam, e muito, no swing e no embalo. Divido em dois lados, o "Sábado", com sons perfeitos para uma balada de sábado à noite, e o "Domingo", com sons mais relaxantes pra curar a ressaca, o álbum se caracteriza por mesclar canções bem funkeadas com aquelas que teriam feito parte do álbum "Amazônia" (nunca lançado; a fita original acabou apagada por técnicos que apagavam e as revendiam como novas). O resultado foi decepcionante (apesar dos dois tecladistas) para os fãs de "Snegs", mas, para aqueles com mente mais aberta, até agradou (principalmente pela época em que foi lançado, com o sucesso do filme "Os Embalos de Sábado à Noite"). Ficou muito difícil manter a banda na ativa sem o apoio de gravadora e da mídia... e depois de uma temporada de todo tipo de perrengues, a banda acabou (com Pedrão Baldanza indo tentar a vida no Rio de Janeiro, em 78, onde passou a atuar com músico e participando de centenas de gravações de outros artistas). 
OBS.: em 93, houve uma reunião da formação original para o lançamento em CD de "Snegs". Esta reunião rendeu apresentações ao vivo que renderiam a gravação do álbum "Live '94". Entretanto, no ano seguinte, Pedrinho Batera veio a falecer (vítima de uma isquemia cerebral). Em 2004, surgiu "A Procura da Essência - Ao Vivo 1975-1976", com gravações do auge deles. Houve um outro retorno em 2008-09, mas Manito teve que parar por problemas de saúde (um câncer de laringe que o levaria à morte no ano seguinte). Pedrão Baldanza segue com a banda tocando por aí até morrer em out/2019.






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