O "Som Nosso de Cada Dia" foi formado em 1971 na cidade de São Paulo, por 'Manito' (Antônio Rosas Sanches, nascido em Vigo, Espanha, porém vindo para o BR aos 9 anos de idade; teclados, saxofone e flauta), Pedrão Baldanza (Pedro Augusto Baldanza; baixo, violão e vocais) e Pedrinho 'Batera' (Pedro Pereira da Silva, bateria e vocais). Era uma banda diferente das outras por não contar com um guitarrista solando, mas apenas um baixista que tocava violão eventualmente, em algum trecho de alguma música. O grupo era centrado na figura de Manito que já havia feito sucesso com o grupo de Rock da Jovem Guarda "The Clevers/Os Incríveis" (desde 1962; Baldanza também tivera experiências anteriores menores e era ex-Enigma, ex-Perfume Azul do Sol).
![]() |
| Pedrão Baldanza, Manito e Pedrinho 'Batera' |
![]() |
| Manito, Marcinha, Pedrão e Pedrinho Batera |
Logo na abertura, uma maravilha capaz de parar o tempo: "Sinal da Paranóia" (de quase 6 minutos) era algo que chocava ao mesmo tempo que cativava, pela dose cavalar de teclados (órgão Hammond, Mini Moog, clavinete, piano). A levada forte de Pedrinho Batera (com seu som típico das baterias brasileiras dos anos 70), era envolvida pelos teclados de Manito, enquanto Pedrão marca o ritmo em seu baixo. A belíssima letra (que aborda temas profundos e existenciais, refletindo sobre a obsessão humana em alcançar objetivos, a efemeridade da vida e das coisas que consideramos importantes) começava entoada por Pedrão, acompanhado pelo dedilhado de um violão e pelo órgão de Manito. Pedrinho dava ritmo ao violão e ao órgão, acompanhando os vocais de Pedrão. Escalas no órgão, a forte marcação do baixo e as vocalizações cantando uma das principais frases do Rock nacional: "...à procura da essência", chegando no refrão, onde o nome da canção era gritado insanamente. Após o refrão, uma viagem bem no estilo Emerson Lake & Palmer, com Manito mostrando toda sua evolução após a saída dos Incríveis, tanto no teclado Moog, quanto no excepcional solo de violino que lembra muito King Crimson na fase "Lark’s Tongues in Aspic" (de mar/73), com Pedrinho e Pedrão criando uma intrincada base percussiva para Manito mergulhar no violino e nos sintetizadores. A volta ao refrão encerrava esse hino do Prog-Rock brazuca. Havia várias outras pérolas escondidas em "Snegs" (cujo nome não significa nada em específico e era "apenas um neologismo para um sentimento", segundo Pedrão), como "O Som Nosso de Cada Dia" (5:16), "Snegs de Biufrais" (2:36), "Massavilha" (6:05), "A Outra face" (7:54) e a líndissima "Direccion de Aquarius" (5:24), demostrando que a banda tinha potencial para rivalizar com o que os Mutantes fazia na mesma época. Álbum favorito de muita gente na praia do Prog brasileiro, a música em "Snegs" era uma mistura de Hard Prog sinfônico, Folk latino, Space Rock e Jazz-Rock. "Massavilha" era um dos destaques reais (com os incríveis teclados de Manito lembrando Keith Emerson). Apesar das limitações tecnológicas da época (a qualidade de som da gravação deixa a desejar), o repertório era muito bom, o trabalho instrumental era de alto nível, composições autorais engenhosas e complexas, partes matadoras e aventureiras encharcadas de teclados, tudo bem imprevisível e emocionante.
A banda passou a ser mais cultuada do que já era, tornando-se atração principal em festivais como o de Águas Claras (jan/75), o Banana Progressyva, Rock da Garoa (também no início de 75) e O Maior Show de Todos os Tempos (que marcou o encontro histórico das bandas Som Nosso de Cada Dia, O Terço, Mutantes, Joelho de Porco, entre outras). Nesta época, gravam (no estúdio Vice Versa, de Rogério Duprat) um segundo disco contendo uma suíte intitulada "Amazônia", que passam a tocar nas apresentações ao vivo. O disco acabaria não sendo lançado pela gravadora (os executivos da Continental consideraram aquilo não comercial e se recusaram a bancar os custos) e, em nov/75, Manito anunciou sua saída da banda. Havia uma dívida com o estúdio e o jeito foi aceitar uma proposta da CBS que estava interessada nos Funks apresentados a ela por Baldanza. Ele e Pedrinho Batera decidiram continuar e a banda passou por diversas formações virando um quinteto batizado agora apenas de "Som Nosso". Com a formação contando com Pedrão, Pedrinho, Dino Vicente (teclados), Paulinho Esteves (teclados) e Rangel (percussão), surgiu o álbum "Som Nosso", lançado em 1977, e que trazia também a participação de Egídio Conde (guitarra), Tuca Camargo (teclados), Marcinha, Armando e Tony Osanah (vocais). Totalmente diferente de "Snegs", "Som Nosso" já mostrava suas diferenças direto na capa, apenas com as letras “Som Nosso” escritas em branco sobre um fundo preto. O disco trazia onze faixas que, sem os teclados de Manito, perdiam o brilho e a veia progressiva, mas ganhavam, e muito, no swing e no embalo. Divido em dois lados, o "Sábado", com sons perfeitos para uma balada de sábado à noite, e o "Domingo", com sons mais relaxantes pra curar a ressaca, o álbum se caracteriza por mesclar canções bem funkeadas com aquelas que teriam feito parte do álbum "Amazônia" (nunca lançado; a fita original acabou apagada por técnicos que apagavam e as revendiam como novas). O resultado foi decepcionante (apesar dos dois tecladistas) para os fãs de "Snegs", mas, para aqueles com mente mais aberta, até agradou (principalmente pela época em que foi lançado, com o sucesso do filme "Os Embalos de Sábado à Noite"). Ficou muito difícil manter a banda na ativa sem o apoio de gravadora e da mídia... e depois de uma temporada de todo tipo de perrengues, a banda acabou (com Pedrão Baldanza indo tentar a vida no Rio de Janeiro, em 78, onde passou a atuar com músico e participando de centenas de gravações de outros artistas).
OBS.: em 93, houve uma reunião da formação original para o lançamento em CD de "Snegs". Esta reunião rendeu apresentações ao vivo que renderiam a gravação do álbum "Live '94". Entretanto, no ano seguinte, Pedrinho Batera veio a falecer (vítima de uma isquemia cerebral). Em 2004, surgiu "A Procura da Essência - Ao Vivo 1975-1976", com gravações do auge deles. Houve um outro retorno em 2008-09, mas Manito teve que parar por problemas de saúde (um câncer de laringe que o levaria à morte no ano seguinte). Pedrão Baldanza segue com a banda tocando por aí até morrer em out/2019.


.jpg)

Sem comentários:
Enviar um comentário