sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Os álbuns portugueses de 2025


Vamos excluir a adjectivação. Foram estes que ficaram de 2025. Podiam ser outros. De uma primeira selecção de cinquenta, saíram álbuns meritórios de CapicuaCarminho, Sam The KidMura e KesoMiramarfuncionárioRodrigo AmadoMontanhapuçanga e Marcelo dos Reis. E a estes podem somar-se objectos de curta-duração de HelviofoxDiagonal, VanyfoxGonçalo e Diogo.

Mais importante do que discutir a subjectividade dos melhores é constatar que a música portuguesa com nota artística mais elevada tem pouca expressão popular. Não por vontade própria, mas por determinação dos factores de intermediação. E embora poucos tenham a ousadia de o assumir porque o peso da percepção esvazia todos os motivos, estamos pior do que há uns anos. Menos exigentes, demasiado obedientes e mal resolvidos com a liberdade.

Ainda assim, volta a demonstrar-se que o problema não está na ausência de resposta mas nas entropias de a veícular. Só é possível distinguir a excelência se houver uma massa crítica vacinada para os vírus da estação. Alguns destes discos são assumidamente presentistas e descendem da arte da guerra. Outros reivindicam o direito a sonhar. Uma boa parte pode ser uma descoberta ou revelação. Ainda estão a tempo de nascer.

Vivemos tempos estranhos, mas a utopia é possível. Rafael Toral bisa na distinção de álbum do ano. Os restantes também merecem louvores, e sobretudo ser ouvidos com atenção. Se 2025 foi um ano terrível, não foi por eles.

Álbum Português do Ano

Rafael Toral - Travelling Light

Se Spectral Evolution deixava cair o queixo de incredulidade, o acto contínuo não é menos espantoso. Rafael Toral volta a sondar o desconhecido, sem repetir o programa. Os clássicos provocam Traveling Light sem que a memória pese como menir. E no entanto, esta música é clássica. Harmoniosa, encharcada em melodias, próxima de ser radiante. Há uma funda tradição em todo este movimento miraculoso. Uma luz que nunca se apaga e se opōe à renúncia da beleza.

(sem ordem hierárquica)

A Garota Não - Ferry Gold

Abram portas e janelas porque estas cançōes são para ser vividas. Não se acomodam a plataformas, obrigam a vir para a rua. É canto da boca, da terra e do povo e se no episódio anterior, A Garota Não já era voz de coro - 2 de abril era homenagem à luta corajosa e à alegria de ser muito com pouca da sua comunidade - em Ferry Gold a subjectividade individual é absorvida por uma mancha colectiva multiplicada por medos, causas, determinaçōes e ímpetos.

Mão Morta - Viva La Muerte

Viva La Muerte! respira o ar asfixiante dos tempos. Pesadíssimo, brutalista e incompatível com a ligeireza do poptivismo - o sistema encontra sempre formas de se infiltrar na multidão, mesmo que implique fingir-se inimigo de si mesmo. Impiedoso, sem moderação e despreocupado de requintes estéticos.

Xexa - Kissom

Que som é este, questiona-se? Como estudante de Artes de Som, o cuidado extremo com o design sonoro nota-se na sobreposição de camadas, em polifonias e na definição da espacialidade, mas o futuro de Xexa assume diferentes dimensōes. No tarraxo ciberdélico de Kizomba 003, há nuances do lamento de Maria Reis e uma noção próxima da canção, talvez inesperada por estas bandas, mas notável na plasticidade.

Romeu Bairos - Romê das Fürnas

Para um país tão macrocéfalo, centralista e dependente do litoral, chamar-lhe álbum peca por defeito. Trata-se de um objecto cultural sobre as gentes e costumes de uma região. Inverte-se a rota. É Portugal continental a ir aos Açores e não o inverso. E a partir desta declaração, dá-se a conhecer uma personagem desconcertante sem travōes para a sinceridade.

Esteves Sem Metafísica De.bu.te

De.bu.te (ed. Flor Caveira) é a estreia de uma poeta (em 2023, publicou A Morte Não tem Pátria) com caligrafia e lábia aguçada. Teresa pode não saber ler música no sentido formativo mas tem na escrita uma língua franca de namoro com o desconcerto e a desinibição. Fala de sobriedade, redenção e desejo sem interdiçōes no mergulho.

Vaiapraia - Alegria Terminal

Alegria Terminal (ed. Maternidade) respira o ar do fim dos tempos sem cessar a respiração. Os ângulos persistem em viver da observação pessoal, como a experiência bilingue de Way Way, a auto-determinação de Eu Quero Eu Vou, o desamor de Kolmi, e a frustração de Ar Com Ar, mas insurgem-se outras camadas como os jogos fonéticos de palavras - eco da concordância português-inglês -, uma cólera embrulhada em metáforas implícitas sobre um galope punk incontido de humor e êxtase. Para não ignorarmos a violência, nem esquecermos a beleza.

Lesma É Mentira

O amasso de rock pós-puberdade do trio feminino e feminista Lesma está entre as bandas mais estimulantes do choque eléctrico da nova vaga. Leonor Casimiro (voz, guitarra), Rita Mira (baixo) e Beatriz Sobralinho (voz, bateria) são ferozes, atrevidas e sarcásticas. O modelo riot, herdeiro do longo filão de Kathleen Hannah, e também das Pega Monstro e Vaiapraia é cru e desmaquilhado. Simplifica sem ser simplório ou ligeiro. Trabalha com o que tem.

malva poros

Em solitude como John Coltrane, Carolina Viana destranca a malva de vens ou ficas sem lhe roubar o recatoNão lhe nega a privacidade mas as cançōes despontam como boato de primavera. Estão debaixo de chuva, mas doam-se à amizade entre pingos grossos.

DJ Narciso - Capítulo Experimental 

Gonçalo F Cardoso Impressōes de Várias Ilhas 

Joana Gama e Luís Fernandes - Strata 

L-Ali Nada Temas, Nada Temos a Perder 

Luís Vicente - Live In Coimbra

Não Estragou Nada 

Noiserv - 7305

Os Tais - Dance, Romance! 

redoma - Santos da Minha Mente 

Scúru Fitchádu - Griots i Riots

Três Tristes Tigres Arca 

 

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