Estar vivo em 2025 é uma granola absurdista de racionalismo bárbaro, mercantilismo afectivo e competitividade medievalista sob autovigilância. O doente já se encontra em fase terminal, à beira de um precipício para o qual se deixa cair em posição vertical a fim de poder publicar no seu carrossel de histórias, e, ainda assim, a morte pode não partir a corda. Talvez seja necessária patrociná-la para obter maior alcance subterrâneo, memeficá-la com um Labubu e servir-lhe um latte com espuma de emoji, acompanhado por um croissant de pistachio. E então sim, o enfermo poderá separar-se do corpo e seguir para um retiro new age ou para uma festa ecsatic.
O eco do vazio existencial é ouro na mina dos Water From Your Eyes. "It’s so sad in the beautiful place”, murmura a vocalista Rachel Brown no single Life Signs. Se precisam de uma prova instantânea da vitalidade da dupla, é a canção perfeita para devassar a paz insensível e a condescendência tecnofeudal. It's A Beautiful Place é um caleidoscópio anti-pop de confronto directo das regras da atenção e de um sentido de humor recalcitrante que suplanta a dentição e invade o cérebro.
Um exercício de paranormalidade colado por cacos de estamina punk com guitarras picadas em cubo (Life Signs), ecos faustosos de power pop (Nights In Armor e Born 2), genes dos Pavement (Blood On The Dollar), cadência house (!?) em Playing Classics e breves vinhetas instrumentais, sem GPS no livro de estilo. Mas a legenda do tom lacónico de Brown e dos efeitos-borboleta texturais de Nate Amos (também conhecido como This Is Lorelei) é a incapacidade de a nomear. Uma sensação imparável de liberdade comandada pela invenção do dia claro.
Menos de trinta minutos, repartidos por seis cançōes e quatro interlúdios, difundem um caos calmo, exuberante e espectral, de rasganço do conformismo e combate à meta-pop. Um manifesto não-engajado de dualidade entre ambas as personalidades e contradição do imposto, encharcado em surrealismo e arte concreta. Desse mosaico de objectos palpáveis e imaterialidade enfurecida, os Water From Your Eyes forjam uma identidade sua a partir de fragmentos alegóricos. E ainda assim, com uma réstia de esperança. “The world is a paradise”, cisma Rachel Brown em Born 2. Um grande delírio de consciência acordada.
Os Water From Your Eyes estreiam-se em nome próprio em Portugal na Casa Capitão a 7 de dezembro
Earl Sweatshirt - Live Laugh Love
O “álbum de família” de Earl Sweatshirt gravita em torno da filha. Prova da maturidade da escrita, em Live Laugh Love a radiografia existencial deixa de se autocentrar e é transferida para a descendência directa. Da caligrafia ácida é extraída uma candura menos conhecida na sua tinta mas há algo que persiste: o flow arrastado, excêntrico e inimitável. Agora que é pai, Sweatshirt pode reivindicar o estatuto de alma velha sem precisar de justificaçōes.
Há um esforço consciente de humanização em Dijon que não lhe é exclusivo. É o mesmo desejo de sabotar a metapop que atira Mk.Gee para a montra da ourivesaria, onde já estiveram expostos James Blake e Frank Ocean. Nada de novo. Um dos motivos para o fervor colectivo que leva Justin Bieber a emular esta estética é a incapacidade em pensar a música criticamente, paradoxal quando nunca foi tão fácil tê-la sob escuta. O r&b cambealente e desmaquilhado de Dijon é benigno mas passa-se dentro dos limites do familiar. Evoca cada poro de Frank Ocean e o sopro do desgraçado The Dream; Yamaha podia ser uma balada de Prince. Os estudos são avançados mas não desinserem Dijon de um meio robotizado e intoxicado pela tecnovigilância. A pop digital quer desligar-se mas ainda não sabe bem como. Baby quer ser peixe de mar mas ainda é apanhado em viveiro de salmão. É continuar a tentar.
Cass McCombs - Interior Live Oak
A melhor versão de Cass McCombs numa antologia das novas cançōes de sempre. Cowboys sentimentais, tapeçaria blues, desertos de liberdade e humores sórdidos para uma meia-idade bem resolvida com a tarifa.
Steve Gunn - Music For Writers
Sem palavras. Tecnicamente, é o primeiro álbum instrumental de Steve Gunn mas as cançōes do guitarrista sempre preservaram uma relação com o tempo e o espaço que agora assume sem verbalizar. Apesar da técnica meticulosa de dedilhar, a atmosfera de Music For Writers é simples e despretensiosa. Esta dezena de pequena peças sugere um campo grande de subjectividade que depende mais da natureza interpretativa do que da forma originária. E talvez daí surja o convite ao desbloqueio de escritor, na tensão entre estaticismo e movimento. Uma peça de artesanato a intrometer-se nos romances.
Cassandra Jenkins - My Light, My Massage Parlor
Há tantos caracteres a ser gastos em vão que Cassandra Jenkins se abstraiu das palavras sem se divorciar da poesia. Conheciamo-la das cançōes em forma de romance frustrado e de uma aprendizagem experimental crescente no anterior My Light, My Destroyer. Em My Light, My Massage Parlor, a pressão atmosférica forja personagens fictícias e histórias engendradas na miragem.
Ami Taf Ra - The Prophet and the Madman
A que soa um álbum com a autoridade de Kamasi Washington instrumentalizado pela cordas vocais? Agora já sabemos e toda a família musical foi convidada, de Ryan Porter a Miles Mosley, Brandon Coleman, Tony Austin, Taylor Graves, Cameron Graves e Ronald Bruner Jr. Não que o saxofonista não tenha em Patrice Quinn uma voz de companhia com doçura soul e magnitude operática mas no caso de Ami Taf Ra há um nome a defender uma história.
A cena independente de Estocolmo transgride os limites da imagética shoegaze e dream pop. Na vitrine de Satellite, há vinhetas de trip-hop e uma fatia generosa de escapismo ambiental. Convém estar atento a este centro de treinos.

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