sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A anti-pop dos Water From Your Eyes

 

Estar vivo em 2025 é uma granola absurdista de racionalismo bárbaro, mercantilismo afectivo e competitividade medievalista sob autovigilância. O doente já se encontra em fase terminal, à beira de um precipício para o qual se deixa cair em posição vertical a fim de poder publicar no seu carrossel de histórias, e, ainda assim, a morte pode não partir a corda. Talvez seja necessária patrociná-la para obter maior alcance subterrâneo, memeficá-la com um Labubu e servir-lhe um latte com espuma de emoji, acompanhado por um croissant de pistachio. E então sim, o enfermo poderá separar-se do corpo e seguir para um retiro new age ou para uma festa ecsatic.

O eco do vazio existencial é ouro na mina dos Water From Your Eyes. "It’s so sad in the beautiful place”, murmura a vocalista Rachel Brown no single Life Signs. Se precisam de uma prova instantânea da vitalidade da dupla, é a canção perfeita para devassar a paz insensível e a condescendência tecnofeudal. It's A Beautiful Place é um caleidoscópio anti-pop de confronto directo das regras da atenção e de um sentido de humor recalcitrante que suplanta a dentição e invade o cérebro.

Um exercício de paranormalidade colado por cacos de estamina punk com guitarras picadas em cubo (Life Signs), ecos faustosos de power pop (Nights In Armor Born 2), genes dos Pavement (Blood On The Dollar), cadência house (!?) em Playing Classics e breves vinhetas instrumentais, sem GPS no livro de estilo. Mas a legenda do tom lacónico de Brown e dos efeitos-borboleta texturais de Nate Amos (também conhecido como This Is Lorelei) é a incapacidade de a nomear. Uma sensação imparável de liberdade comandada pela invenção do dia claro.

Menos de trinta minutos, repartidos por seis cançōes e quatro interlúdios, difundem um caos calmo, exuberante e espectral, de rasganço do conformismo e combate à meta-pop. Um manifesto não-engajado de dualidade entre ambas as personalidades e contradição do imposto, encharcado em surrealismo e arte concreta. Desse mosaico de objectos palpáveis e imaterialidade enfurecida, os Water From Your Eyes forjam uma identidade sua a partir de fragmentos alegóricos. E ainda assim, com uma réstia de esperança. “The world is a paradise”, cisma Rachel Brown em Born 2. Um grande delírio de consciência acordada.

Os Water From Your Eyes estreiam-se em nome próprio em Portugal na Casa Capitão a 7 de dezembro

Earl Sweatshirt Live Laugh Love

O “álbum de família” de Earl Sweatshirt gravita em torno da filha. Prova da maturidade da escrita, em Live Laugh Love a radiografia existencial deixa de se autocentrar e é transferida para a descendência directa. Da caligrafia ácida é extraída uma candura menos conhecida na sua tinta mas há algo que persiste: o flow arrastado, excêntrico e inimitável. Agora que é pai, Sweatshirt pode reivindicar o estatuto de alma velha sem precisar de justificaçōes.

Dijon Baby

Há um esforço consciente de humanização em Dijon que não lhe é exclusivo. É o mesmo desejo de sabotar a metapop que atira Mk.Gee para a montra da ourivesaria, onde já estiveram expostos James Blake e Frank Ocean. Nada de novo. Um dos motivos para o fervor colectivo que leva Justin Bieber a emular esta estética é a incapacidade em pensar a música criticamente, paradoxal quando nunca foi tão fácil tê-la sob escuta. O r&b cambealente e desmaquilhado de Dijon é benigno mas passa-se dentro dos limites do familiar. Evoca cada poro de Frank Ocean e o sopro do desgraçado The DreamYamaha podia ser uma balada de Prince. Os estudos são avançados mas não desinserem Dijon de um meio robotizado e intoxicado pela tecnovigilância. A pop digital quer desligar-se mas ainda não sabe bem como. Baby quer ser peixe de mar mas ainda é apanhado em viveiro de salmão. É continuar a tentar.

Cass McCombs - Interior Live Oak

A melhor versão de Cass McCombs numa antologia das novas cançōes de sempre. Cowboys sentimentais, tapeçaria blues, desertos de liberdade e humores sórdidos para uma meia-idade bem resolvida com a tarifa.

Steve Gunn - Music For Writers

Sem palavras. Tecnicamente, é o primeiro álbum instrumental de Steve Gunn mas as cançōes do guitarrista sempre preservaram uma relação com o tempo e o espaço que agora assume sem verbalizar. Apesar da técnica meticulosa de dedilhar, a atmosfera de Music For Writers é simples e despretensiosa. Esta dezena de pequena peças sugere um campo grande de subjectividade que depende mais da natureza interpretativa do que da forma originária. E talvez daí surja o convite ao desbloqueio de escritor, na tensão entre estaticismo e movimento. Uma peça de artesanato a intrometer-se nos romances.

Cassandra Jenkins - My Light, My Massage Parlor

Há tantos caracteres a ser gastos em vão que Cassandra Jenkins se abstraiu das palavras sem se divorciar da poesia. Conheciamo-la das cançōes em forma de romance frustrado e de uma aprendizagem experimental crescente no anterior My Light, My DestroyerEm My Light, My Massage Parlor, a pressão atmosférica forja personagens fictícias e histórias engendradas na miragem.

Ami Taf Ra - The Prophet and the Madman

A que soa um álbum com a autoridade de Kamasi Washington instrumentalizado pela cordas vocais? Agora já sabemos e toda a família musical foi convidada, de Ryan Porter a Miles Mosley, Brandon Coleman, Tony Austin, Taylor Graves, Cameron Graves e Ronald Bruner Jr. Não que o saxofonista não tenha em Patrice Quinn uma voz de companhia com doçura soul e magnitude operática mas no caso de Ami Taf Ra há um nome a defender uma história.

Satellite

A cena independente de Estocolmo transgride os limites da imagética shoegaze e dream pop. Na vitrine de Satellite, há vinhetas de trip-hop e uma fatia generosa de escapismo ambiental. Convém estar atento a este centro de treinos.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Destaque

Álbuns Fundamentais - Eric Clapton - Rainbow Concert (1973)

  No ano de 1971, Eric Clapton era aclamado mundialmente como o melhor guitarrista vivo do mundo, levando-se em conta que Jimi Hendrix parti...