Há uma história nascente sob um tecto comum de matéria musical e demolição social, que se reinventa entre as paredes caiadas do grotesco. Naturais de Manchester, os Maruja despontaram no prelo dos Black Midi e dos Black Country, New Road, cultores de um rock explosivo de treino jazzístico, sobretudo na sua expressão isenta de limites.
Apesar da dezena de anos de treino na garagem e em clubes de plateias familiares, só com os EP Knocknarea (2023) e Connla's Well (2024) entraram no radar do circuito de novas bandas que se relacionam com o rock como funil de erosão civilizacional e não só como prática encarcerada por formalismos. Que melhor companhia do que o jazz para partir a corda e soltar outros desejos?
Agora, temos Pain To Power do nosso lado e a garantia de uma linguagem de rock (amplificadores no vermelho e uma secção rítmica potente) com saxofone e pronúncia hip-hop que não se limita a explorar as extremidades do volume como alega uma história violenta de amor combate. Os Maruja ressoam a uma combustão entre a fúria dos Rage Against The Machine, a emancipação de John Zorn, e o expressionismo verbal de alguém como Little Simz, mas estas cançōes escapam à tortura das câmaras de eco e à retrovisão vintage.
Viajam em económica, apanham o metro em hora de ponta, observam lutas caninas entre Bulldogs e Rottweilers, como choques entre naçōes, e mastigam essa carne estragada. Podem não surpreender como os antecessores mas desforram dores de estômago com a ferocidade de um lobo faminto para alimentar uma força da natureza capaz de matar bactérias.
Em Pain To Power, os vértices unem-se. Angústia social em carne viva, as fontes de energia eléctrica e uma ponderação artística que não deixa disparar pólvora seca. Se a ideia passava por abrir um clube de tiro à comunidade, estas balas perfuram a inércia, confrontam a indiferença e atacam os poderes invisíveis da divisão. Há uma fogueira a arder no álbum de estreia dos Maruja. E no fim só resta o cheiro a enxofre.
Depois de se terem estreado no Musicbox, os Maruja voltam a Portugal em Dezembro. Concertos no dia 3 no M.O.U.C.O. (Porto) e 4 no LAV em Lisboa

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