sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Unplugged ou acústico, um formato que enriqueceu selos e artistas

 

A última grande cartada (mercadológica) da indústria fonográfica foi a série Unplugged, ou Acústico (no Brasil). Parecia que os executivos estavam prevendo a derrocada de uma indústria que estava prestes a perder seu poderio com a disseminação das tecnologias de informação e comunicação. A popularização do formato seu deu com o selo (Acústico ou Unplugged) criado pela MTV no alvorecer da década de 90. Salvou carreiras de inúmeros artistas, renovou seu público e, claro, abarrotou os cofres das gravadoras. Hoje se transformou praticamente num subgênero de todos os estilos musicais. Continua forte e em voga, só não vende mais como um dia vendeu.

 O primeiro show com versões acústicas de que se tem notícia data de um tempo bem mais antigo do que os já lendários eventos da MTV. Trata-se do Comeback Special, apresentado pela rede americana NBC, com ninguém menos do que Elvis Presley, em 1968. Sem se apresentar em público havia quase 8 anos, o formato inovador de desfilar seus hits numa época de grandes transformações estéticas desde seu épico sucesso inicial, catapultou novamente sua carreira, garantindo fôlego para que se mantivesse entre os grandes nomes do showbis.

 Muitos exemplos se seguiram, com artistas mantendo sets especiais acústicos em seus shows, mas como um formato mesmo só se consolidou com a inciativa da MTV. O que era apenas um programa da emissora musical acabou se transformando em uma marca. O primeiro especial foi ao ar em novembro de 1989, com a banda britânica Squeeze.  Os 13 programas que se seguiram elevaram a audiência da emissora a patamares inimagináveis, com figuras mais populares como Elton John, Aerosmith, Sinéad O´Connor, Poison, Joe Sartriani e Steve Ray Vaughan. Mas coube a outro gênio se utilizar da fórmula para reidratar sua carreira. Em 1991, Paul McCartney resolveu lançar seu show em disco e vídeo, com vendas ultrapassando a estratosfera. The Official Bootleg inauguraria, então, uma nova era no mercado fonográfico. A partir daí, as gravadoras se aliariam à MTV e padronizariam o formato, musical e visualmente, transformando-o em uma série vendável e colecionável.

 Apesar do nome original “unplugged”, traduzido como desplugado, os programas não eram gravados com instrumentos desplugados, apenas não eram amplificados. Exceto os microfones, que captavam voz e instrumentos. Nas décadas seguintes, até hoje, uma enorme quantidade de artistas se submeteu à fórmula e assistiram suas contas bancárias explodirem. Alguns discos bateram recorde de vendas, como os de Eric Clapton, Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains, The Cure, REM, Kiss e Scorpions. Outros arrebentaram em audiência, mas não viraram disco, fosse por problemas contratuais ou falta de consenso entre músicos e produtores, como a lendária (e caótica) apresentação da banda de Manchester, Oasis, em que Noel Gallagher se apresentou sozinho, totalmente bêbado, chegando a cair do banquinho enquanto seu irmão Liam, assistia tudo rindo da plateia. O CD chegou a sair oficialmente muitos anos depois, mas o DVD permanece inédito.. A emissora musical ainda mantém o programa, claro, sem o mesmo charme e apelo e tampouco sem interesse das gravadoras em lançar em mídia física.


No Brasil- Em terras brasileiras a MTV iniciou sua transmissão em 1990. No mesmo ano Marcelo Nova (Camisa de Vênus) daria início às gravações no estilo, só que seu programa jamais foi ao ar ou foi lançado em disco. Assim, o primeiro episódio exibido foi do Barão Vermelho. No entanto, o disco só seria lançado em 2006 num formato box com 3 DVDs (MTV Barão Vermelho 1991-2005, que incluía apresentações em outros programas além do Acústico MTV). O primeiro a ser lançado em mídia (LP e CD) foi o de João Bosco (1992). Ainda não havia o selo Acústico MTV e foi um dos poucos que não saiu em vídeo, só áudio. Outro que também não teve lançamento em vídeo foi o da Legião Urbana. A propósito, a gravação com a banda de Renato Russo foi a mais acústica das gravações, com apenas 2 violões, sem percussão, convidados e requintes decorativos. Gravado em 1992, só seria lançado em 1999. Foi o primeiro álbum ao vivo da banda e vendeu mais de 2 milhões de exemplares.

No Brasil, o formato fez tremendo sucesso. Ajudou a resgatar bandas e artistas com renovação de seu público, já que a audiência da MTV era basicamente jovem. Artistas que ganharam muita força como formato foram Gilberto Gil, Lulu Santos, Kid Abelha, Gal Costa e Capital Inicial. Alguns discos venderam horrores, como os de Titãs, Cássia Eller e Rita Lee. O grupo paulista, inclusive, gravou um segundo volume, mas sem o selo da MTV. Desgastado, o formato foi interrompido em 2007, com o lançamento do disco do sambista Paulinho da Viola. Foi retomado com grande sucesso em 2010, com Lulu santos e chegou ao fim em 2013 com o fim das atividades da MTV no Brasil como tv aberta gerida pelo Grupo Abril.


Ao todo, 36 artistas brasileiros gravaram o programa, quase todos lançaram algum produto, CD ou DVD (João Bosco teve LP lançado também). A gama de convidados ajudava a abrilhantar as performances e projetar os álbuns. Alguns se tornaram verdadeiras pérolas, como os dos Titãs, Cássia Eller, Rita Lee, Gal Costa e Gilberto Gil. Até Roberto Carlos aderiu ao esquema e turbinou os cofres da MTV e da sua gravadora. O Acústico MTV não se limitou à seara rock/MPB. Chegou ao samba e ao pagode com Art Popular e Zeca Pagodinho e explorou a popularidade teen de Sandy & Junior. Muitos discos foram premiados e chegaram a ser pre indicados ao Grammy latino. Sem dúvida foi uma era de ouro para a indústria do disco, o canto do cisne, que pelo menos gerou (ou aperfeiçoou) um formato consagrado, que ainda atrai um enorme interesse, embora os tempos tenham mudado e isso não se reverta mais em renda.


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