sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Grandes álbuns do Prog-Rock: Espíritu - "Crisálida" (1974)

 
Esta banda argentina nasceu em 1969, quando o vocalista Fernando Bergé e o guitarrista Osvaldo Favrot fundaram o "Onda Corta". Depois de muitas mudanças de formação, a banda se fixou com Carlos Goler (bateria), Claudio Martínez (baixo), além da dupla Bergé e Favrot, em 1972. Sob o novo nome, "Espíritu", eles fizeram uma série de shows em 1973 (o primeiro show aconteceu em 3/jul/73 no Colegio La Salle, em Buenos Aires) e lançaram um single "Hoy, Siempre Hoy / Soy La Noche" (selo Talent), que foi bem recebido e estimulou-os a ensaiar e desenvolver material para um álbum de estreia.
Nesse momento, a banda adicionou um tecladista, primeiro David Lebon, mas depois Gustavo Fedel. Foi com Fedel que eles gravaram o primeiro álbum intitulado "Crisálida", apresentando-se como cultuadores do Prog sinfônico (pense Genesis fase Peter Gabriel, Yes e algumas das primeiras bandas italianas de Prog). Um trabalho que se concentrava em criar interações suaves entre teclados analógicos (piano, órgão Hammond, MiniMoog, ARP String Solina etc.), guitarras elétricas, violões de 6 e 12 cordas e vocais. Nada assim tão complexo/intrincado, porém longe de ser música simples. Os temas eram introduzidos, desenvolvidos e, então, reapareciam conforme o álbum rolava. Romantismo melódico da cena Prog italiana dos anos 70 repleto de sintetizadores e fraseados de guitarra/violão, mudanças de andamento e climas sinfônicos suaves. Vocais abundantes, de ótimo expressionismo e harmonização. A capa era um trabalho gráfico de Juan Oreste Gatti, fotógrafo e designer (que também fez capas para o Crucis, entre outros, e depois migraria para a Espanha, montaria seu próprio estúdio, "Studio Gatti", e, entre tantos trabalhos, faria a maioria dos posters dos filmes de Pedro Almodóvar). Curiosamente, havia mínima presença de elementos latinos, espanhóis e do Tango argentino, mas sim muita influência do Prog italiano gerando uma maravilhosa versão sulamericana daquele especial tipo de Rock Progressivo (pense em Premiata Forneria MarconiCelesteSemiramis etc.). Um álbum de alta qualidade, no nível europeu, conceitual (a relação da mente, corpo e alma em cada um de nós), fluindo de faixa para faixa como se fosse uma única canção, gestão inteligente de contrastes entre passagens suaves e pesadas, teclados de bom gosto, seção rítmica segura e precisa, repleto de vibrações positivas.
A boa resposta de fãs e da imprensa, mais os shows espetaculares ao vivo (com uso de elementos audiovisuais) colocaram a banda no auge. Entretanto, o tecladista Gustavo Fedel decidiu sair (migrou para a banda "Generación Cero", do bandoneonista Rodolfo Mederos) e foi substituído por Ciro Fogliatta (ex-membro da lendária banda Beat argentina, "Los Gatos"), que cumpriu a agenda de apresentações. Houve tempo para esta formação com Fogliatta gravar um segundo álbum, "Libre Y Natural", que muitos até consideram melhor do que "Crisálida". Por falta de apoio da gravadora, disputas musicais e muito estresse, o Espíritu se separou em abr/76, mas mesmo assim "Libre Y Natural" foi lançado (em 76). Este disco soou mais agressivo, embora mantendo a mesma sensibilidade melódica. As letras, desta vez, mostraram-se mais pessimistas (tanto quanto a sociedade, quanto a humanidade) em oposição à disposição totalmente espirituosa e otimista em "Crisálida". Tratava-se de outro álbum conceitual (outra sequência contínua de faixas), com guitarras e base rítmica mais na seara do Jazz-Fusion. Assim, combinando Prog sinfônico e elementos sombrios, o resultado puxava para uma mescla de Mahavishnu OrchestraYes (fase "Relayer") e King Crimson (fase "Red). Senso de urgência, introspecção, nervosismo, jams, com pouco do sabor acústico do álbum de estreia. Sem dúvida, era uma gravação mais variada, acentuando contrastes dramáticos (sem o emocionalismo arco-irís de "Crisálida"), mais incendiário. Realmente, é questão de estado de espírito a escolha sobre qual dos dois álbuns é o melhor.
Espíritu retornaria em 1982 com a dupla Bergé e Favrot, mais outros músicos diferentes. Com grande apoio da gravadora Tonodisc, eles lançaram "Espíritu III", mas não obtiveram repercussão. Em 83, Bergé saiu, Favrot assumiu a liderança e eles ainda lançaram "En Movimiento", último álbum e com uma proposta mais voltada para o Classic Rock. A banda acabou novamente no início de 84, mas retornou em 2003 com Favrot liderando uma nova formação.



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