sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Os Doces Bárbaros, um marco genial da musica brasileira


Caetano, Gil, Gal e Bethânia no mesmo palco parecia algo comum e até natural dada a origem e irmandade dos baianos, que surgiram para a música brasileira na mesma época, naquele período ultra fértil da cultura brasileira, entre os anos 60 e 70. Mas a verdade é que eles jamais haviam dividido um palco, exceto durante breves situações antes da fama na terra natal deles, em eventos regionais. Já famosos e consagrados, com obras consolidadas, a reunião seria um big evento. E foi. Tanto que gerou disco, samba enredo para o carnaval carioca, documentário e filme. Para a empreitada eles se autodenominaram Os Doces Bárbaros.

A reunião do combo e a bem sucedida turnê aconteceu no ano de 1976 e foi um marco. O nome surgiu como uma resposta ao jornal O Pasquim, periódico contestador perseguido pela ditadura militar, que reunia a nata da intelectualidade do jornalismo e da literatura brasileiras. Nem por isso deixava de destilar seu preconceito, ao se referir de forma pejorativa aos artistas baianos que adotavam o estilo hippie e tomavam de assalto a cena brasileira, ”afrontando” de forma magnética a exclusividade elitista da zona sul carioca. Eram chamados pelos articulistas do jornal de baihunos, uma referência aos bárbaros hunos, tribos nômades que invadiram a Europa Central no Século IV, fugindo da pobreza e em busca de alimentos. Para a reunião, O antenado Nelson Mota, havia sugerido, em sua coluna no O Globo, Os Quatro Batutas, mas uma prosa entre Jorge Mautner e Caetano à beira da praia definiu o nome. Mautner comentou que Jesus havia sido um bárbaro que destruiu Roma com doçura, enquanto outros povos não conseguiram derrubar o império com violência. Estava escolhida a denominação para aquela reunião que ficaria eternamente marcada.

A ideia de se reunirem partiu de Bethânia, a primeira dos quatro baianos a conquistar a indústria musical do Sudeste. O que era para ser apenas um show de verão com o intuito de comemorar os 10 anos de carreira deles se transformou numa explosão de genialidade, canções memoráveis e uma turnê conturbada, que foi parar nos noticiários policiais. Teve como ponto de partida um memorável show no Parque do Anhembi, em São Paulo, em junho daquele ano. Devido a agenda de cada artista, os ensaios só foram possíveis de começar 15 dias antes do show. Para complicar, Caetano sugeriu que fossem apresentadas músicas inéditas, exclusivamente para aquele projeto e não uma compilação de sucessos de cada um. Força e criatividade não faltavam pra para a ousada turma.

 


A estreia foi diante de um gigantesco e entusiasmado público e em um palco cujo cenário, criado por Flávio do Império, misturava colcha de retalhos com lona de circo. Vestidos como ciganos, os quatro artistas ficavam à frente do palco com dois sempre se revezando no miolo, até que se esgotassem todas as combinações de dupla central. Assim eles ficavam o tempo todo em cena e interpretavam (quase) juntos todas as canções num magistral revezamento de vozes. Depois da estreia, no dia 24 de junho, surgiu uma agenda intensa de apresentações. Todos queriam ver de perto aquela reunião. Foi criada, então uma gigantesca turnê nacional, interrompida um mês depois em Florianópolis, com a prisão de Gilberto Gil por porte de maconha, após uma batida policial orquestrada por um inspetor local ávido por ganhar pontos com os gorilas do regime militar. Gil e outros músicos da banda tiveram que cumprir meses de pena em internação hospitalar para tratar da suposta dependência química (sic).

Toda a beleza da reunião dos músicos e os fatos que a marcaram foram registrados no filme Os Doces Bárbaros, dirigido por Tob Azulay e lançado no mesmo ano. O álbum Os Doces Bárbaros Ao Vivo se transformou numa obra prima da música brasileira. Foi gravado com requintes tecnológicos para soar tão bem como um álbum de estúdio. Contém canções raras e exclusivas, como Chuva Suor e Cerveja, Esotérico, Chuckberry Fields Forever, São João Xangô Menino e O Seu Amor, entre outras. Em 1994, a escola de samba Mangueira homenageou aquela reunião com o enredo Atrás da Verde e Rosa Só Não Vai Quem Já Morreu, parafraseando o refrão de Atrás do Trio Elétrico, gravado por Caetano em 1969.

Posteriormente o grupo fez apresentações especiais na praia de Copacabana e até para a Rainha da Inglaterra, Elizabeth II, em visita ao Brasil. Um outro filme comemorativo, mais completo e com novos depoimentos  foi lançado posteriormente, chamado Outros Doces Bárbaros, lançado em 2004, a reboque da reunião comemorativa de 2002 para dois shows ao ar livre, em São Paulo, no Parque do Ibirapuera, e no Rio de Janeiro, na Praia de Copacabana. Vale a pena curtir o belo álbum lançado e assistir aos filmes que a reunião gerou para reviver a riqueza criativa daqueles tempos e a genialidade dos artistas envolvidos em um dos mais nobres capítulos da história da nossa música. Gal Vive!!!





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