sábado, 28 de março de 2026

A trágica história do Stone The Crows, a grande banda perdida da Escócia

Com talento musical de sobra e o empresário do Led Zeppelin por trás deles, o Stone The Crows deveria ter sido uma história de sucesso. Em vez disso, uma morte trágica e um potencial não realizado. É quase uma história ruim de Pub-Rock – uma banda tão boa que alguém disse: "Stone the Crows!" quando os viu pela primeira vez, fornecendo assim seu novo nome. Mas como entrou para história que foi o empresário do Led Zeppelin, Peter Grant, quem deu o nome, claro isto é muito mais digno. O que contei aconteceu no icônico bar "Burns Howff", em Glasgow, em 1969. Até aquele show, a banda se chamava "Power" - um nome até adequado para um grupo que apresentava os talentos extraordinários da cantora Maggie Bell e do guitarrista Leslie Harvey. Além disso, um personagem forte como Grant era a combinação perfeita para o jovem casal, que traçou um plano de vida baseado na busca de seus sonhos musicais. Maggie Bell lembra:
"As tardes de sábado no Howff eram as melhores. Mas eles fechavam às quatorze horas de acordo com as regras locais. Então, eles eram pontuais. Naquela tarde em particular, porém, a coisa mais interessante aconteceu depois que o relógio bateu duas horas. Peter apareceu nesta grande limusine preta – acho que era do Lord Provost (um cargo similar ao do prefeito), porque não havia muitas delas em Glasgow. Ele viera ver Leslie e não sabia que eu cantava, porque você não conseguia me ouvir no Howff. A conversa com o proprietário John Waterson foi rápida. John trancou a porta – 'Essa banda não vai a lugar nenhum! Tenho algumas exigências...' Peter ignorou-as: 'Você é o cara que limpa vidros, não é?' e o empurrou para fora do seu caminho. Foi tudo e eu nunca mais voltei àquele pub".
Leslie Harvey e Maggie Bell
O "Power" foi formado com o tecladista John McGinnis e o baixista Jimmy Dewar (no futuro, baixista/vocalista da banda de Robin Trower), depois que o casal de noivos Harvey e Bell passou um tempo visitando bases militares dos EUA na Alemanha – um rito de passagem dos anos 60 pelo qual muitos músicos passaram. O plano deles era ir para Londres e de lá chegar aos EUA, e eles estavam economizando dinheiro para financiar sua ambição, comprando equipamentos, incluindo um gravador reel-to-reel, para ajudá-los nisto. Devido a uma emergência de última hora na banda "Cartoone", Harvey foi contratado por eles para fazer uma turnê pelos EUA. A experiência o mudou tanto que, em seu retorno, Bell mal o reconheceu em suas roupas hippies, cabelos desgrenhados e óculos redondos tipo John Lennon. Delineando um plano de vida atualizado para ela, eles formaram o "Power" e Harvey pediu aos empresários do "Cartoone" – Peter Grant e Mark London – para conhecê-los. Em poucas semanas, eles se mudaram para Londres, morando com o irmão mais velho de Harvey, Alex, que foi quem encontrou o baterista Colin Allen para eles. Quando a banda, agora chamada "Stone The Crows", entrou no Advision Studios para gravar seu primeiro álbum, a indústria musical havia adotado gosto por bandas que escreviam suas próprias canções - algo que ninguém da banda jamais havia feito. Eles usaram sua amizade com Lulu (cantora, atriz e personalidade da TV, também de Glasgow), para obter conselhos com seu marido, Maurice Gibb (dos Bee Gees - sim, eles foram casados entre 1969-73). De fato, Maurice falou: "Leslie, você tem um violão. Escreva a música primeiro e depois coloque a letra", e foi exatamente o que a dupla fez. Allen se tornou o principal letrista da banda, confiante de que conseguiria fazê-lo, porque sempre teve um bom desempenho em redação na escola.
Seu álbum de estreia autointitulado conseguiu sucesso rápido em 1970 mas era parcialmente formado por covers e o lado B era composto por uma ambiciosa peça de 17 minutos com várias partes chamada "I Saw America". "Escrevi isso por causa de minhas experiências na América em turnê com John Mayall", contou Allen, que era mais velho e experiente que os outros. "A garotinha da cidade de Detroit era uma garota chamada Nancy, que conheci em Miami. Fui a um encontro amoroso com Mick Taylor. Essas foram coisas reais que experimentei e coloquei no papel". Com Peter Grant por trás deles, um ano após a assinatura do contrato, o Stone The Crows viajou pelos EUA. Bell se lembra de ter lutado para se conectar com o público que ficou perplexo com uma mulher branca que possuía o poder vocal que ela transmitia. "Na primeira noite, no Alabama, nem uma pessoa aplaudiu na plateia. Eu disse ao nosso roadie: 'Vá comprar algumas tábuas e faça para mim uma tela para colocar na frente do microfone'. Então, quando as luzes se acenderam, eu estava atrás da tela cantando uma música. Depois da primeira música, quando começaram os aplausos, saí de trás da tela e disse: 'Ok, podemos continuar?'". De volta a Londres, Harvey e Bell foram morar num apartamento e continuaram a trabalhar em seu plano.
O segundo álbum do Stone The Crows, "Ode To John Law", também lançado em 1970, foi outra tentativa louvável, mas falha, de capturar toda aquela magia ao vivo no estúdio. "As melhores gravações que já fizemos foram ao vivo para a BBC", confirmou Allen. "Esqueça toda essa merda de estúdio. Mark [London. o produtor] nos deu liberdade, porque acreditava muito em Leslie. Mas as pessoas estavam sempre tentando fazer as coisas parecerem mais comerciais do que realmente eram". Mas Maggie Bell sempre disse que o trabalho de estúdio deles foi "muito bom, considerando o quão novos éramos naquilo". Enquanto isso, a vida na estrada começou a prejudicar os relacionamentos da banda. Harvey e Bell continuaram mantendo uma parceria forte, mas Allen contou que a bebida de McGinnis começou a irritar, culminando quando ele, bêbado, contou piadas nazistas a um grupo de promotores alemães num restaurante. Ele e Dewar logo saíram da banda, substituídos por Ronnie Leahy e Steve Thompson respectivamente. "Gostei mais da primeira encarnação com Jimmy e John do que da segunda encarnação", disse Allen. "Gostei mais da música que a primeira banda tocava. Tornou-se um pouco mais comum depois. Mas os Crows ainda eram uma das melhores bandas em que toquei. Era uma banda baseada no Blues, mas também era um pouco Prog. Fomos um pouco além dos malditos compassos habituais". Pode-se argumentar que a nova formação só precisava de mais tempo para se adaptar, já que os novos membros não tinham experiência com a ascensão da banda. Mesmo assim, as apresentações ao vivo dos Crows continuaram a ser aclamadas por sua atitude/energia, com Harvey dando as ordens e Bell dando o foco.
Seu terceiro álbum, "Teenage Licks", de 1971 , demonstrou um melhor controle de poder e groove, mas também marcou seu interesse contínuo em sair dos trilhos. Com três de suas nove faixas creditadas a Stone The Crows, em vez de compositores externos, parecia que a banda havia resistido à tempestade da mudança de formação, com a promessa de um trabalho maior por vir.  Mas o destino interveio, de forma trágica, quando Harvey foi eletrocutado e morreu no palco do Top Rank em Swansea, em 3/mai/72. Ele era o único posicionado no palco. "Foi um acaso", contou Bell. "Estávamos parados ao lado do palco, ainda nem tínhamos começado. Leslie disse ao público: 'Há um problema técnico' e tocou no microfone e na guitarra. E foi isso""Ouvimos um zumbido profundo", acrescentou Allen. "Leslie estava com o microfone em uma mão e a guitarra na outra, eles meio que andaram juntos e então apareceu um formato de arco. Levantei-me muito rapidamente e chutei a guitarra da mão dele enquanto ele estava caído no chão. Quero dizer, fale sobre uma tragédia. Leslie usava uma placa dentária e um dos socorristas a deu a Maggie. Ela disse: 'Você pode ir e se livrar disso?' Saí pelos fundos do local e joguei-a em uma lixeira. Você não sabe mais o que fazer. Joguei fora o que sobrou de Leslie Harvey". Maggie Bell ficou em choque vários anos depois. "Mas pensei comigo mesmo: 'Será que vou desistir de tudo isso e voltar para a Escócia e ter dois filhos?' Quero dizer, este foi um sonho que havíamos planejado. Peter disse que não haveria problemas legais se eu não quisesse continuar. Eu disse não, havia um plano. Eu iria me certificar de que terminaria a jornada. Tenho setenta e seis anos e ainda estou fazendo isso. Quer dizer, o corpo está desmoronando, mas a voz ainda é fabulosa!". O desafio de substituir seu líder foi enorme. Mas quando Stone The Crows recomeçou a trabalhar em seu primeiro show sem Harvey, o ícone do Fleetwood Mac, Peter Green, apareceu em cena. "Eu o peguei na estação", lembra Bell. "Ele ficou no porão de Ronnie por quatro ou cinco semanas. Era uma espécie de centro de reabilitação. Ronnie e sua esposa o alimentaram e ficaram com ele. Todos nós cuidamos dele e os ensaios correram muito bem. E então, na noite anterior ao show, ele liga e diz: 'Não consigo fazer isso. Vocês irão ficar muito famosos. Não quero ser famoso. O que diabos vamos fazer agora?". Harvey e Bell eram amigos do guitarrista do Yes, Steve Howe, e ele concordou em ajudar. "Steve ficou acordado a noite toda, aprendendo as músicas e nos salvou", diz Bell. "Não consigo nem me lembrar de ter subido no palco. Foi simplesmente uma explosão. O público apoiou muito e Steve nos deixou orgulhosos". Com a possibilidade de as coisas voltarem aos trilhos, a banda escolheu o guitarrista Jimmy McCulloch como seu novo membro. "Fizemos ótimos shows com Jimmy", diz Allen. "Ele tinha um grande talento, mas não era o tipo de líder que Leslie era. Havia uma grande diferença no tipo de música que eles gostavam – eu gostava do que Leslie gostava – mas ambos eram ótimos no que faziam"
As gravações finais de Harvey foram lançadas no quarto álbum do Stone The Crows, "Ontinuous Performance", lançado quatro meses após sua morte, e incluíu duas faixas com a guitarra de McCulloch. O disco fechava com "Sunset Cowboy", uma homenagem pessoal a Harvey. "Estávamos ensaiando em Devon e o estúdio também era um estábulo", diz Allen. "Então pensamos em sair e andar a cavalo. E já era meio tarde. Então 'Sunset Cowboy' foi um reflexo de como eu via as coisas naquela época, sabe? E foi dedicado a ele". Apesar de "Ontinuous Performance" ter entrado no Top 40, e de Bell ter sido eleita a melhor vocalista feminina da Grã-Bretanha em uma enquete do Melody Maker, o álbum e sua turnê associada deixaram Bell com a sensação de que "nunca iria dar certo", citando "atitudes" que ela não sente necessidade de revisitar. Allen contou que a política da indústria estava em jogo e que um desentendimento com o tecladista Ronnie Leahy foi usado como uma alavanca para dividir a banda. "Acho que durante muitos dos meses anteriores ao rompimento, Peter [Grant] e Mark [London] estavam se reunindo e conversando sobre como conseguir um acordo para Maggie - e foi o que aconteceu", disse Allen. "Acho que Ronnie ficou um pouco chateado com Mark ou com alguém, e a próxima coisa que percebi foi que a banda havia terminado. Foi uma verdadeira surpresa".
O que poderia ter acontecido é ilustrado nas carreiras de vários membros. McCulloch juntou-se aos Wings (de Paul McCartne); Dewar entrou na banda de Robin Trower; Leahy tocou com o Nazareth, Steve Howe e Jon Anderson; Allen adicionou o Focus ao seu currículo, que já incluía John Mayall, Mick Taylor, Bob Dylan e muitos outros. O baterista acredita que o Stone The Crows "não estava necessariamente" condenado. "Fizemos muitos shows que foram realmente bem sucedidos", contou. "Acho que a administração estava apenas esperando uma chance de nos despedir e assinar um grande contrato com a Atlantic para Maggie – que foi basicamente o que eles fizeram. Dinheiro, cara. Fode tudo. Infelizmente, isso não fez muito por Maggie. Ela teria ficado melhor se tivesse ficado na banda". Bell e Allen se reuniram no British Blues Quintet, de 2006 a 2013. "É incrível o número de álbuns do Stone The Crows que Maggie e eu tivemos que assinar quando estávamos na estrada com o Quinteto", falou Allen. "É ótimo que esses álbuns estejam disponíveis e ainda sejam ouvidos". Apesar da tragédia da morte de Harvey, Bell – que lançou dois álbuns solo após a separação – lembra com carinho da viagem de quatro anos da banda. "Fizemos o melhor que pudemos", ela ri quando solicitada a resumir tudo. "Fui amiga de Peter até o dia em que ele morreu. Ele era realmente um homem maravilhoso e sei que fez tudo o que pôde pela família de Harvey, quando Leslie morreu. Peter me ensinou a ser forte. A única maneira de você se ferrar é deixar alguém te enfraquecer. Então não faça isso!".





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