Esta história começa em Roma, em 1965. Um jovem grupo musical de autodenomina "Under 2000" e passa a tocar nas casas noturnas da capital, todas as noites, encarando aquilo como um trabalho, mas também como ótima diversão. Foi nesses clubes de dança que eles começaram a criar/compor sua própria música e a partir daí frequentar estúdios de gravação locais. O tempo passou e, em 1970, Remo Baldasseroni (teclados), Fabio Fabiani (guitarras), Aldo Parente (baixo) e Sandro Laudadio (bateria e vocais) foram notados pela qualidade de suas vozes (muito agudas e com falsetes brilhantes) e pela forma de tocar por um produtor austríaco, Eddy Korsche, que lhes propôs que emprestassem suas vozes para backing vocals num single 45 RPM cantado por Massimiliano Baratta, "Pover'uomo" / "Qualcosa che si butta via", lançado pela Help!, um selo italiano de música Pop distribuido pela gigante RCA.
Naquele mesmo ano, Korsche produziu os primeiros singles 45 RPM do "Under 2000", via Help!. O primeiro foi "Preghiera D'Amore" / "Taglia La Corda", lançado em jun/70, cantado inteiramente pelo baterista Sandro Laudadio com apoio dos demais. Houve também uma versão em inglês, "Oh My Love" / "Let's Get Together", também cantada por Sandro. Em nov/70, surgiu o terceiro single, "Se Tu Fossi Un'Amica" / "Avvicinami A Te", cantado agora pelo guitarrista Fabio Fabiani com apoio dos demais. Neste single, eles contaram com a participação de Maurizio de Angelis (violão - ele e seu irmão Guido eram grandes compositores de trilhas sonoras na época). O estilo musical aqui era Beat Music liderada pela guitarra/órgão, inspirada pelo Rock psicodélico (algo não muito distante do que fez os New Trolls no início). Então, o baixista Aldo Parente resolveu sair (ele tentaria uma carreira solo no projeto "Folkaldo" e depois como "Franco Maria Giannini", sem sucesso, mas com um álbum lançado em 1974, " Affresco", cultuado por colecionadores). O tecladista ítalo-tunisiano Remo Baldasseroni também saiu e os dois remanescentes formaram o "Il Paese Dei Balocchi" (ao adicionar Armando Paone nos teclados/vocais e Marcello Martorelli no baixo) com foco no Rock Progressivo.
Em 1971, o grupo foi notado pelo produtor Adriano Fabi (irmão de Claudio Fabi, produtor da PFM), que lhes produziria o primeiro e único álbum, "Il Paese Dei Balocchi", lançado pela CGD (Compagnia Generale Del Disco), de Milão (então adquirida pela Sugar Music e com um acordo com a CBS para distribuição). Este LP foi a primeira produção de Adriano Fabi e contou com a colaboração do maestro Claudio Gizzi nos arranjos de cordas. Foram duas semanas de gravações. Com apoio e promoção, a banda conseguiu inclusive participar do histórico mega concerto em 1972 na Villa Pamphili (o Festival Pop di Villa Pamphili, ocorrido entre 25-27/mai/72, com 100 mil pessoas), em Roma, que durou três dias e onde tocaram dezenas de grupos de Rock de todo o mundo (os italianos Banco del Mutuo Soccorso, The Trip, Toad, Osanna, Garybaldi, Questa Vecchia Locanda, Fholks, Il Punto, Blue Morning, Aum Kaivalya, Richard Benson, Raccomandata Ricevit di Ritorno, Strana Famiglia, Cammello Buck, Osage Tribo, Procession e Semiramis, e também as bandas internacionais Van Der Graaf Generator, Hawkwind e Hookfoot). Também participaram de outros mega concertos como no Mostra d'Oltremare, em Napoli, e no Piper Club, espaço histórico da capital Roma naqueles agitados anos. Também foram convidados para vários programas de TV em dez/72 e jan/73 (inclusive na Suíça).
Deste primeiro LP, foram impressos apenas 1.800 exemplares (um teste de mercado). A temática do disco era bem pessimista, porque era uma época difícil e o grupo não acreditava nas "instituições oficiais". Todos estavam enjoados e sentindo-se oprimidos por tudo aquilo que os rodeava (Vietnã, política, respeitabilidade hipócrita etc.) e muitas perguntas sem respostas convincentes. Esta foi a inspiração "espiritual" para a criação do álbum, uma espécie de busca por respostas. Por isso, em termos gerais, o LP funcionava como uma jornada do homem para dentro de si, por isso o nome "Il Paese Dei Balocchi" (tradução: a terra dos brinquedos), onde todos gostariam de viver, fugindo de uma realidade que não satisfazia e onde o poder era controlado por controladores de fantoches. Uma busca da própria identidade humana, passando pelo bem/mal, uma reflexão sobre quem somos, por que estamos aqui e para onde vamos, uma busca em vão, porque no final se descobria que a realidade crua vivida nada mais era do que um espelho/reflexo da própria alma interior. Tudo isso era ilustrado através de personagens (o rei déspota, o flautista etc.) que refletiam estados de espírito contrastantes, pontos fortes e fracos, o bem e o mal, atmosferas e ambientes nesta "jornada". Era a época da Guerra do Vietnã, das aglomerações/movimentos gigantescos de jovens, dos primeiros mega concertos (Woodstock, Villa Pamphili, Ilha de Wight etc.), a contracultura, as busca por mudanças políticas e sociais. Também foi a primeira experiência do maestro Gizzi com um grupo de Rock, mas seus arranjos de cordas sobre os temas criados pela banda capturaram perfeitamente o espírito. A banda preparou arranjos vocais especiais e houve gravações com coro em igreja (na Basilica del Sacro Cuore Immacolato di Maria que possuía em sua parte inferior um estúdio de gravações, o Forum Studios, fundado em Roma em 1970 por Luis Bacalov, Ennio Morricone, Piero Piccioni e Armando Trovajoli, contando com o compositor/maestro Bruno Nicolai, os engenheiros de som Sergio Marcotulli e Pino Mastroianni) buscando capturar sonoridades, reverberações e atmosferas. A banda ainda aproveitou o magnífico órgão de tubos da igreja, um Mescioni do século 19, no qual o novo tecladista Armando Paone tocou temas que remetiam à uma viagem transcendental da condição humana e dos estados de espírito presentes no álbum. Em algumas canções, como "Evasione", eles se entregaram à improvisação buscando notas/atmosferas "irrepetíveis". O maestro Gizzi acrescentou violinos (ele teve que adaptar as passagens orquestrais de cordas à isto), o que produziu passagens vivas e acertadas para os temas. O resultado foi uma obra fortemente enraizada na melhor tradição romântica do Prog italiano com belíssimas passagens instrumentais e orquestrações eruditas. Puro Progressivo sinfônico, mais teclados incríveis criando atmosferas encantadoras. Lembra uma grande trilha sonora épica, conceitual, capaz de oferecer um mergulho ao ouvinte para ali se perder. Gravação excelente, muitas passagens lentas e silenciosas, interrompidas por explosões sinfônicas, lindos vocais em italiano, tudo de alta qualidade. Uma verdadeira joia perdida para fãs de Prog italiano da década de 70, um pouco psicodélico, talvez gótico, combinando ELP, Camel, Moody Blues e erudito (Vivaldi, por exemplo), criando uma espécie de mistério, música onírica, em ótimas composições.
A banda tocou em vários grandes festivais italianos e aparições na TV (como já citado acima) entre 72-73, antes de se separar. Material para um segundo álbum foi escrito e gravado em forma de demo (tudo foi gravado ao vivo em estúdio em fita K7, contendo erros, mas para registrar uma ideia real do resultado final pretendido - reportadamente uma continuação da estreia, porém com mais vocais e mais acessível, isto é, mais receptivo ao grande público), mas tragicamente nunca foi lançado, porque a banda acabou em 74, quando, por questões de sobrevivência, o tecladista Armando Paone decidiu ir tocar no Golfo Pérsico como pianista de bar em hotéis. Os remanescentes ainda continuaram a tocar, mas insatisfeitos com a música porque não encontravam um substituto "válido" para os teclados. Em 75, voltaram a se juntar com Paone, mas não para tocar a música da banda, mas para tocar Pop em casas noturnas no estrangeiro (na Alemanha, Áustria, França, Suíça, Hungria etc.). O baixista Marcello Martorelli não os acompanhou, porque estava prestes a se casar. Foi uma pena, mas eles desejavam viver de música e aquilo foi o que se apresentou. Depois de vários anos de vida musical nômade por toda a Europa e tocando sob o novo nome "Wish", em 79, finalmente eles se separaram. Fabio Fabiani e Sandro Laudadio continuaram morando na Suíça, onde ainda moram com suas famílias e mantendo amizade (Sandro mora em Müllheim e Fabio há 60Km em St. Gallen).









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