terça-feira, 10 de março de 2026

Daft Punk: crítica de Random Access Memories (2013)

 




O primeiro disco que ganhei na vida foi Thriller, do Michael Jackson. Isso aconteceu em novembro de 1984, no meu aniversário de 12, época em que comecei a me interessar com mais afinco pela música. Ele é até hoje um dos meus álbuns favoritos, e continua frequentando as caixas de som dos meus dias de tempos em tempos.

Falo do Thriller ao escrever sobre Random Access Memories, novo trabalho da dupla francesa Daft Punk, porque, desde a primeira vez que o ouvi, uma relação direta entre os dois discos ficou clara na minha cabeça. A música de abertura de Random Access Memories, “Give Life Back to Music”, possui uma certa semelhança estilística com a primeira faixa de Thriller, “Wanna Be Startin’ Somethin”, e também com o LP anterior do falecido Rei do Pop, Off the Wall, de 1979. Ambas são funks guiados por uma guitarra esperta, donas de um groove contagiante e arranjos elegantes e muito bem construídos. Característica essa que se mantém em todas as faixas do álbum de Jackson, e, felizmente, também durante todo o novo do Daft Punk. O fato de a tipologia usada nas capas de ambos os LPs ser semelhante revela-se, dessa maneira, não apenas uma mera coincidência.

Random Access Memories é o quarto álbum do duo formado pelo produtores Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter. Ele é o sucessor de Human After All (2005). Entre os dois, o Daft Punk gravou a trilha sonora do filme Tron: Legacy. Essa semelhança de sonoridade com dois dos discos mais emblemáticos de Michael Jackson se explica pela decisão de Homem-Christo e Bangalter em olhar para o passado e prestar tributo ao que foi feito durante o período da disco music. De forma inteligente e com inegável talento, o Daft Punk gravou um disco com pinta de clássico, que veio para marcar e fazer história.

O primeiro single, “Get Lucky”, já deixou todo mundo de queixo caído. Com participação do rapper Pharrell Williams, leva o ouvinte por melodias sinuosas que demonstram, na prática, que é perfeitamente possível fazer música pop sem abrir mão da qualidade e da inteligência. Pharrell também canta em outra canção, a sensacional “Lose Yourself to Dance”, um funk arrasa quarteirão delicioso, daquelas músicas que, ao apertar o play, transformam o dia com a sua força.

Esses são só dois dos principais, e melhores, momentos de Random Access Memories. Há muito mais, em um desfile sonoro impressionante. “Within” é uma balada atmosférica pra você chamar alguém no ladinho e ver estrelas. “Instant Crush”, com o vocal de Julian Casablancas, é onde o Strokes quer chegar com os seus últimos álbuns, mas ainda não conseguiu desbravar totalmente o caminho (apesar do ótimo resultado alcançado em Comedown Machine, último disco da banda).

O refinamento do Daft Punk cerca todo o álbum, e entrega exemplos capazes de causar reações profundas no ouvinte. “Touch”, com a voz do veterano Paul Williams, é um bálsamo de bom gosto, com tudo no lugar, encaixadinho que é uma beleza. A outra faixa a contar com a bela voz de Williams, “Beyond”, também é de cair o queixo, servindo como máquina do tempo que transporta o ouvinte para o centro da pista do lendário Studio 54, lendária cada noturna nova-iorquina que viveu o seu auge durante os anos 1970.

“Fragments of Time” é outro pop cativante, desta vez com a voz do produtor Todd Edwards. “Doin’ It Right”, com a participação de Panda Bear, do Animal Collective, é uma hipnose auditiva que incapacita o ouvinte de pausar o disco antes do seu fim.

Porém, apesar destes diversos pontos altos, o ápice de Random Access Memories está em “Giorgio by Moroder”, uma composição com mais de 9 minutos onde o lendário produtor italiano Giorgio Moroder, um dos arquitetos da sonoridade disco, conta a sua história sobre uma melodia cíclica que se desenvolve em um arranjo espetacular digno dos melhores momentos do Steely Dan e dos álbuns fusions lançados pelo maestro Eumir Deodato no início dos anos 1970. Aqui, o uso do adjetivo “antológico” não é apenas apropriado, mas sim o único elogio possível.

Outro ponto que merece destaque é o fato de, apesar de ser um disco de uma dupla de música eletrônica, Random Access Memories soar totalmente orgânico, vivo, pulsante. A produção é primorosa, uma aula de timbres que, sem exageros, deveria ser estudada durante os próximos anos.

Ainda é cedo para afirmar se Random Access Memories terá o mesmo impacto que Thriller. Provavelmente, não. A realidade hoje é bem diferente daquela encontrada por Michael Jackson em 1982. No entanto, trata-se de um álbum especial, único, daqueles que só saem de tempos em tempos e tornam-se referência, redefinindo caminhos e apontando novas direções. Olhando para o passado, o Daft Punk se reinventou de maneira soberba e avançou umas dez ou vinte casas na frente de todo mundo, mais uma vez.

Perfeição pop: isso define Random Access Memories.

Faixas:
1 Give Life Back to Music
2 The Game of Love
3 Giorgio by Moroder
4 Within
5 Instant Crush
6 Lose Yourself to Dance
7 Touch
8 Get Lucky
9 Beyond
10 Motherboard
11 Fragments of Time
12 Doin’ It Right
13 Contact
14 Horizon







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