terça-feira, 10 de março de 2026

Kanye West: crítica de Yeezus (2013)

 



Acredito que quem gosta de música, gosta de música. Parece uma afirmação desnecessária, e até mesmo sem sentido, mas não é. Quem gosta de música mantém não apenas a curiosidade geral sobre o que está acontecendo em relação ao assunto, mas, sobretudo, a capacidade intacta de se emocionar ao reconhecer uma obra, uma canção, um disco, que se sobressai ao imenso bombardeio a que somos submetidos todos os dias.

Eu sou um fã de rock. A minha história na música tem o rock como estrada principal. Dentro dele, o heavy metal me alimenta, constantemente e todos os dias. Porém, nestes 40 anos de vida, sempre mantive os ouvidos e o coração abertos aos mais variados gêneros. Já fui indie, adoro pop, sou apaixonado por jazz, gosto de MPB. Esse ouvido heterogêneo não apenas alimenta a minha necessidade de consumir música, como me torna um ouvinte mais completo ao me expor à diferentes formas de fazer música, às mais variadas abordagens sonoras, aos mais variados pontos de partida. É assim que eu sacio o meu ouvido, e junto com esse processo ainda aprendo ao me aventurar pelos mais variados estilos.

Essa é a minha abordagem, a minha maneira, o meu jeito. Cada um tem o seu. Você pode pensar como eu, ou, o que é mais provável, pode discordar de tudo. A escolha é sua.

Três parágrafos não para justificar, mas para contextualizar o porque de você estar lendo aqui na Collectors Room, um site predominantemente sobre rock, um texto sobre o novo disco do rapper norte-americano Kanye West. Se você nos acompanha há um tempo, sabe e já percebeu que, ainda que o rock seja o prato principal, também gostamos de nos aventurar pelos mais variados gêneros. Já falamos de Michael Jackson, de Lady Gaga, de diversos nomes, a princípio, antagônicos ao cardápio principal. A questão é simples: quando há relevância, quando há qualidade, não há preconceito e visões pré-estabelecidas. Afinal, procuramos ser um site sobre música de modo geral, e não um veículo segmentado em um gênero específico.

Isso entendido, vamos ao que interessa. Yeezus é o sexto disco de Kanye West e foi lançado em 18 de junho passado. A produção conta com a assinatura de vários profissionais, incluindo a dupla do Daft Punk (nas três primeiras faixas e também em “Send It Up”). Ele é o sucessor do multi-platinado My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010). De cara, percebe-se que West voltou mais para o rap, distanciando-se um pouco da sonoridade grandiosa e megalomaníaca do trabalho anterior. Essa abordagem já fica clara na capa do CD, minimalista e com apenas um adesivo vermelho com o título do trabalho.

São dez faixas, em um tracklist forte, muito forte. As três primeiras  músicas impressionam pela força. A abertura com “On Sight” e sua batida que mais parece saída de um jogo de videogame de 8 bits serve de cartão de visitas para um disco que cresce a cada nova composição, com direito a grandes surpresas pelo caminho. West entrega uma das músicas do ano já na faixa 2, a deliciosa “Black Skinhead”, rap com fortíssimo acento pop construído sobre uma batida tribal e pesadíssima. O nível se mantém no topo com a sombria “I Am a God”, excelente composição com letra provocativa, onde Kanye solta, mais uma vez, o seu lado provocador.

Aspecto esse que fica explícito na direta “New Slaves”, que critica de maneira áspera a parcela de negros norte-americanos - formada principalmente por atletas, músicos, artistas de cinema e profissionais bem sucedidos - que deixaram de ser escravos das ruas e do preconceito racial histórico de seu país para se tornarem escravos do consumismo e da imagem. Não deixa de ser irônico perceber que o próprio West se enquadra nesse grupo, desfilando com figurinos extravagantes e jóias de vários quilates penduras no pescoço e enfiadas nos dedos.

Para alguém como eu, formado por anos e anos ouvindo discos de rock, é interessantíssimo parar e perceber como as músicas de Yeezus são construídas. Colagens de sons, efeitos e batidas diversos colados em uma produção excepcional, que sim, não tem nada a ver com o andamento tradicional 4 por 4 do rock and roll, mas que mesmo assim proporciona resultados finais incríveis, pesados em algumas horas, climáticos em outras. Talvez o maior exemplo disso aconteça em “Send It Up”, faixa que é construída sobre uma melodia que parece ser feita em cima de um rugido de elefante processado eletronicamente, evoluindo em camadas hipnotizantes.

A música mais comentada de Yeezus é, de forma disparada e com justiça, “Blood on the Leaves”. Em uma sacada de mestre, Kanye West intercala trechos da histórica “Strange Fruit”, uma das canções mais emblemáticas e famosas do blues, um grito primal contra o rascismo imortalizado por Billie Holiday em 1939. Em “Blood on the Leaves”, West utiliza a versão gravada por Nina Simone em 1965, contrapondo os versos clássicos da canção com a sua própria letra, dando um significado contemporâneo a uma realidade que, infelizmente, ainda não se deu por extinta. Antológico e arrepiante, para dizer o mínimo.

Yeezus é um daqueles discos que extrapolam rótulos, vão além de preferências  musicais. Sua força, seu significado, são universais. Kanye West pode ser apenas um negro nascido nos Estados Unidos elevado ao posto de principal rapper da atualidade, mas as suas letras, os seus dilemas, a sua música, são universais. Seu novo disco é excelente, um trabalho que beira o espetacular.

Que os seus ouvidos sejam como os meus, e que você tenha capacidade de perceber isso.


Faixas:
1 On Sight
2 Black Skinhead
3 I Am a God
4 New Slaves
5 Hold My Liquor
6 I’m in It
7 Blood on the Leaves
8 Guilt Trip
9 Send It Up
10 Bound 2







Sem comentários:

Enviar um comentário

Destaque

Goodnight Tonight - Paul McCartney & Wings

  "Goodnight Tonight"  foi gravada por  Paul McCartney  e sua banda  Wings  durante as sessões do álbum  Back to the Egg (1979)  ,...