sexta-feira, 13 de março de 2026

Grandes álbuns do Prog-Rock: Phoenix - "Cantofabule" (1975)

 

Phoenix é mais conhecido no Ocidente como "Transsylvania Phoenix" e é uma banda que foi fundada em 1962, na cidade de Timisoara (perto da fronteira com Hungria e Sérvia), na Romênia. Eles foram pioneiros locais na música feita para o público romeno, ao abordar vários subgêneros do Rock. O caminho estilístico da banda partiu da Beat Music, evoluiu para o Psych Rock e daí para o Rock Progressivo e até o Hard Rock. Por conta de toda a ebulição política na Romênia, muitas bandas tiveram que se adaptar e adotar novos estilos. O Phoenix teve uma evolução das mais inesperadas gerando uma espécie de Etno Rock inspirado no autêntico folclore romeno. O período Beat Music pode ser fixado entre 1962-70, quando a banda foi uma das primeiras do país a tocar guitarra elétrica. Como em tantos outros grupos surgidos naqueles anos, o modelo seguido foi o da banda britânica "The Shadows" (que acompanhou o famoso cantor Cliff Richard no filme "The Young Ones", de 1961). O nome inicial da banda era "Sfintii" ("santos", em romeno), depois alterado para "Phoenix" por sugestão do guitarrista Claudiu Rotaru, para evitar problemas com as autoridades da época. Os primeiros anos foram, em grande parte, de imitação (covers) de bandas da chamada "British Invasion" e com limitada produção autoral própria. A primeira composição própria foi "Știu ca ma iubesti si tu" (tradução: "Eu sei que você também me ama"), gravada na rádio, em 1964. Do ano seguinte, datam outras duas gravações ("Bun e vinul ghiurghiuliu" e "Pădure, pădure"; tradução: "Bom é o vinho Giurghiuli" e "Floresta, floresta", respectivamente), primeiras canções do Rock Romeno inspiradas no folclore local. 
A formação passou por muitas mudanças, mas as figuras mais constantes (nesta fase) foram Nicolae Covaciu (também conhecido como Nicu Covaci, que se tornaria o grande líder da banda) nas guitarras, Béla "Kamo" Kamocsa no baixo/vocais,  Florin (Moni) Bordeianu nos vocais principais, Claudiu Rotaru nas guitarras/vocais e Ioan (Pilu) Stefanovici na bateria. Moni e Covaci foram compositores de todas as composições próprias nesta primeira fase chamada "período Beat" (houve o lançamento dos dois EPs acima, "Vremuri", em 68, e "Totuși sînt ca voi", em 69, este último em tom bastante rebelde com letras "ousadas" para a época). Em 1970, o vocalista Moni saiu para ir para os EUA e sua saída marcou o fim deste primeiro período do Phoenix. Por mais de um ano, a banda foi banida (suas gravações não puderam ser veiculadas na rádio/TV e os shows não foram autorizados). A Romênia era governada pelo ditador Nicolae Ceausescu, partido comunista, situação que perdurou entre 1967-1989. Claudiu Rotaru saiu. A banda se reduziu a Nicu Covaci (guitarras), Dorel Vintilă Zaharia (percussionista), Béla Kamocsa (baixo) e Günther Reininger (teclados e vocais). Seguiu-se um período em que a banda passou a tocar Blues-Rock e repertório com várias composições de Reininger (e letras em inglês). Uma experiência desta fase foi a adição de um segundo baterista, Eugen Gondi, virtuoso local. Depois, Béla Kamocsa saiu e foi substituído por Zoltán Kovács (líder de outra banda, o Clasicii). Pouco depois, Mircea Baniciu entrou para a formação como novo vocalista principal. Houve uma experiência teatral em que a banda participou da produção de "Tiganiada" (primeiro épico em língua romena, escrito entre 1800-12, por Ioan Budai-Deleanu, um texto heróico e também satírico antifeudal e anticlerical). Cada membro da banda interpretou uma personagem, tornando-se atores e fazendo um mini recital ao final. Foi uma experiência de muito sucesso. Já em meados de 1971, Liviu Butoi, músico de Jazz que tocava faluta, sax e oboé, também ingressou no Phoenix. Em meio a uma série de concertos, vão surgindo novas canções próprias. "Dorința" (trad.: Desejo), "Amintește-ți" (trad.: Lembrar), "Niciodată" (trad.: Nunca) e "Te întreb pe tine, soare..." (trad.: Eu te pergunto, Sol) são desta época. Parte das novas canções são numa linha mais Folk e sugerem um estilo bem específico (agregando influências do folclore arcaico). Zoltán Kovács e Dorel Vintilă Zaharia, então, saíram e foram substituídos por Josef (Ioji) Kappl (baixo) e Cornel Liuba (bateria), respectivamente. No final daquele ano, Liuba foi substituído por Costin Petrescu e, assim, a banda começaria um fase estável e esta formação (Mircea Baniciu nos vocais/guitarra de 12 cordas; Nicu Covaci nas guitarras/flauta/composições/arranjos; Josef Kappl no baixo/violino; Costin Petrescu na bateria; Valeriu Sepi nas percussões) seria a que criaria o chamado "Etno-Rock" (período 1971-77), uma ideia de ouro deles, que geraria álbuns espetaculares que permaneceriam na memória pública por muitos anos. 
Phoenix em 1972–73: Nicu Covaci, Valeriu Sepi, Mircea Baniciu, Josef Kappl e Costin Petrescu.
O ditador Nicolae Ceausescu havia em jul/71 soltado proibições a respeito da criação artística na Romênia, o que paralisou muitas bandas de repertório ocidental (governos da então "cortina de ferro" soviética tinham aversão ao Rock, que era visto como uma ferramenta capitalista norte-americana usada para corromper a mente dos jovens proletários). Foi o empurrão que faltava ao líder Nicu Covaci para decidir iniciar um novo caminho para o Phoenix. Foram três álbuns espetaculares. 
O primeiro deles (primeiro LP gravado na Romênia por uma banda romena), "Cei Ce Ne-Au Dat Nume" (trad.: Aqueles que nos deram nomes), de 73, trouxe um Psych Rock pesado, com climão Garage e Prog e os elementos étnicos/Folk. Letras em romeno, vocais únicos, musicalidade excelente, faixas que formavam uma espécie de Opera Rock (todo o lado A), sons derivados do folclore local. No lado B, apenas três canções, "Nunta" (de mais de 4 minutos), "Negru Vodã - Baladã" (de quase 15 minutos) e "Pseudo-Morgana" (de quase 7 minutos), com jams matadoras e solos celestiais. Acaba sendo um trabalho muito peculiar porque todas as partes de Prog Rock eram frequentemente misturadas à flautas, violinos, violões e extensas partes de percussão criando atmosferas étnicas. O segundo álbum, "Mugur De Fluier" (trad: Botão de Fluier, um instrumento romeno), de 74, trouxe a participação do ex-tecladista deles, Günther Reininger, e tinha o subtítulo: "uma introdução a um concerto sobre a música antiga dos romenos", aumentou a aposta no Folk Rock criativo, na essência folclórica, no aspecto artístico e de valores étnicos. Abundante e elegante uso de um particular cruzamento entre Folk Rock e as tradições romenas. Poético, de sutileza surpreendente, bem menos cru do que o primeiro álbum, resplandescente em cultura, chama artística, usando música do sul dos Balcãs e ritmos do norte, inspirações de música cigana, tudo tocado com grande sensibilidade, misturando elementos arcaicos com Art Rock. Utilizando poetas (Şerban Foarţă e Andrei Ujică) para criar as letras de grande ênfase, espécie de bordado de tal música tão exuberante e profunda, o Phoenix abre janelas para histórias imaginativas. Tudo soa como uma bela poesia, num esplêndido resultado de raízes folclóricas. "Mugur De Fluier" era leve e agradável, mas seu conceito elevava à arte com suas letras e toda a musicalidade radiante e folclórica.
"Cantofabule" (trad.: Fábulas e canções), de 75, manteve Mircea Baniciu nos vocais/violões, Nicu Covaci nas guitarras, Günter Reininger nos múltiplos teclados, Josef Kappl no baixo/violino e trouxe Ovidiu Lipan na bateria/percussão e Florian Pittis como narrador. A linda capa era obra de Elisabeta e Valeriu Sepi. Este terceiro álbum do agora sexteto é o mais apreciado por fãs do Rock Progressivo e foi o último antes da fuga do regime de Ceaucescu. Originalmente, foi um álbum duplo (quase 70 minutos) e manteve temas tradicionais romenos (e as adaptações feitas pelos poetas Şerban Foarţă e Andrei Ujică, inclusive tomando inspiração num livro de Dimitrie Bolintineanu, 1819-1872, sobre lendas e contos sobre criaturas míticas fantásticas). Alguns apontam um sentimento relacionando este trabalho ao Prog italiano, mas o Phoenix desenvolveu um projeto ambicioso misturando Folk medieval e Hard Rock liderado por uma guitarra cheia de Fuzz, que acaba gerando um Hard Prog com alternância Prog Folk, enquanto há um verdadeiro desfile de criaturas bizarras (unicórnios, sereias, dragões, pássaros estranhos etc.). A cena Prog do Leste Europeu se destaca e gera fascínio exatamente porque reúne bandas e álbuns com fortes referências étnicas. "Cantofabule" é repleto de faixas assombradas, passagens crescentes, momentos de suspense, atmosferas medievais de trovadores, reviravoltas, narração, paisagens acústicas, coral com vozes dissonantes, cravos, flautas doces, um certo espírito psicodélico aqui e ali, climas dramáticos, interações instrumentais bárbaras, mesclando Barroco e Hard Rock, referências étnicas, teclados Psych, num turbilhão fantástico de sons e emoções. Difícil descrever toda a complexidade desta obra, uma verdadeira surpresa para uma banda romena em pleno ano de 1975. Um trabalho marcante, riquíssimo e até relativamente pouco conhecido, mas único, espécie de grito de liberdade criativa (no caso, a obrigatoriedade governamental romena forçou a banda a integrar música Folk tradicional no seu som e, ironicamente, isto foi para melhor), com excelente instrumental. Se o primeiro álbum foi uma mistura de Rock psicodélico com Proto-Prog com fortes elementos do Folk romeno e o segundo álbum foi uma ópera folclórica semi-acústica ambiciosa, este terceiro álbum trouxe Rock Progressivo encorpado, repleto de influências (do Barroco aos teclados Hammond tipo Deep Purple, de momentos espaciais tipo Pink Floyd a esporros lembrando Grand Funk Railroad), um pouco menos folclore local (menos dominante, mas presente), mas com muita guitarra e muito Rock. Um trabalho entre os melhores do Prog do Leste Europeu.




P.S.: Em jun/77, um caminhão com a banda escondida em caixas consegue fugir do país, passando pela alfândega e revistas militares (Nicu Covaci já havia migrado para os Países Baixos um ano antes). A aventura envolveu outros momentos tensos em outras fronteiras, inclusive na Áustria. Mircea Baniciu permaneceu no país. Na Alemanhã Ocidental, começou um período difícil para a banda, cheio de carências e privações. Todos tentaram trabalhos diferentes e também realizaram shows mal remunerados. Moni Brodeianu voltou dos EUA (após um telefonema de Nicu) e reassumiu a função de vocalista principal. Nicu tentou que eles mantivessem o canto em romeno, mas o restante da banda entendeu melhor uma "ocidentalização" do som. Houve disputas estilísticas, houve propostas por gravações mais comerciais (todas recusadas por Nicu) e o resultado foi a separação da banda. Mas a história não parou aí e projetos paralelos, bandas satélites, reuniões ocorreram e parece que o Phoenix existe até hoje.


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