Jan Dukes de Gray foi uma banda inglesa de Acid Folk (ou Folk psicodélico)/Rock Progressivo de curta duração que atuou principalmente no início dos anos 70. Apesar de uma produção relativamente limitada e uma recepção na época morna em termos de vendas, a banda atraiu seguidores cult e assistiu a um renascimento moderado de interesse após o lançamento em 2010 de seu álbum de 1977, anteriormente concluído, mas até então inédito. Jan Dukes de Gray é hoje considerado um dos grupos menos convencionais associados à cena Prog Folk Rock inglesa e em particular seu álbum de 1971, "Mice And Rats In The Loft", passou a ser visto como um álbum seminal do Acid Folk britânico e como uma das relíquias mais originais da era pós-hippie. Vamos hoje rever e reavaliar esta história.
As origens do Jan Dukes de Grey estão ligadas a um grupo musical de Leeds, ativo do início a meados dos anos 60, chamado "Buster Somers Express". Ainda enquanto membro desta banda, o multi-instrumentista/vocalista Derek Noy começou a compor suas próprias canções e a incorporar suas ideias no material do Buster Somers. Percebendo a receptividade positiva e desejoso por se apresentar exclusivamente com seu próprio material, Noy se separou do grupo em 1968 para seguir sua própria direção musical baseada mais no som underground então emergente (caracterizado por bandas como Cream, Pink Floyd e Jethro Tull). Nos seis meses seguintes, Noy compôs 50-60 canções e conheceu o Michael Bairstow (instrumentos de sopro e percussões), explicou que estava interessado em começar uma nova banda, e Bairstow logo concordou. Assim, em dez/68, surgiu a encarnação original da banda, em duo, com Derek Noy (então com 21 anos) e Michael Bairstow (então com 18 anos). O curioso nome "Jan Dukes de Grey" foi inventado por Noy como um título de som exótico, sem nenhum significado especial. Apresentando e refinando as composições originais de Noy pelos próximos meses em palcos locais, o Jan Dukes de Gray assinou contrato em 1969 com a Decca Records.
Em out/69, o álbum "Sorcerers", com 18 faixas (!), foi gravado. O álbum consistia inteiramente em canções originais de Noy que foram descritas pelos jornalistas como ingênuas e instintivas, com boa musicalidade, mas carentes de técnica, especialmente no acompanhamento de flauta. Derek Noy se incumbia dos violões de seis e doze cordas, baixo, teclados (órgão, celesta, piano), tabla, bongôs e vocais. Michael Bairstow tocava clarinete, flauta, sax, percussões e também vocais. A dupla basicamente apresentava canções compostas em violão, bem British Folk, cantadas por Noy e acompanhadas de toda essa variedade de instrumentos, tudo funcionando de maneira complementar e com muita cumplicidade (apesar do formato duo, o Jan Duke de Grey soava como uma banda completa). A voz de Noy era comparável à de Van Morrison. Base quase inteiramente acústica, um toque muito pastoral, porém com letras nada convencionais. No melhor estilo trovador, Noy ia desfilando histórias meio loucas, com ideais ripongas, porém dementes e perturbadoras (pense Folk com elementos psicodélicos, slides, glissandos, percussões étnicas/exóticas). Dezoito faixas num álbum de quase 49 minutos, convenhamos era algo incomum. Falando assim, pode até parecer chato, mas era um álbum bem divertido e o produtor David Hitchcock (da Decca, conhecido por seus trabalhos com Camel, Caravan, Curved Air, Genesis, Mellow Candle, The Pink Fairies, entre outros) construiu ali um joia menor.
Logo após a gravação de "Sorcerers", o ex-baterista do Buster Somers, Denis Conlan, juntou-se ao Jan Dukes de Grey e novos shows começaram. O som da banda mudou consideravelmente durante este período para se tornar mais fortemente progressivo e improvisado. Este novo som ressoou favoravelmente no circuito universitário e logo eles alcançaram um pequeno sucesso, abrindo para bandas de grande nome como Pink Floyd em nov/69 e The Who em mai/70. Apesar desse incentivo, as vendas de "Sorcerers" (lançado em jan/70) foram medíocres e a banda foi forçada a assinar com o selo britânico independente Transatlantic Records para seu próximo álbum, o épico "Mice and Rats in the Loft" (lançado em jun/71). Marcadamente diferente do álbum de estreia, este segundo LP era menos fragmentado e mais "extremo". As durações muito mais longas das faixas proporcionaram à banda a oportunidade de expandir seu som (agora mais improvisado) e de desenvolver temas progressivos complexos de uma maneira selvagem e maníaca. Apenas três faixas: no lado 1, "Sun Symphonica" (com quase 19 minutos); no lado 2, "Call Of The Wild" (com quase 13 minutos) e "Mica and Rats in the Loft" (com mais de 8 minutos). Épico, espécie de ataque sônico, foi o auge do Jan Dukes de Grey. Instrumental inteligente, contando com uma orquestra de apoio, a voz teatral de Noy, jams intensas, com passagens misteriosas e únicas, mais letras com histórias arrepiantes (a faixa-título, por exemplo, descreve um sacrifício religioso: "The blade descended like lightning/Tore him open from chest to gut/And the priest thrust his hand inside/And ripped out the still beating heart" - tradução: "A lâmina desceu como um raio/ Rasgou-o do peito às entranhas/ E o padre enfiou a mão dentro/ E arrancou o coração que ainda batia"). Real pérola Prog Folk Rock, "Mice and Rats in the Loft" trouxe musicalidade excepcional, num conjunto rodopiante de instrumentos e atmosferas selvagens/sombrias (pense num Mark Bolan tocando ao redor da fogueira junto com Syd Barrett e com acompanhamento do Jefferson Airplane, todos depois de tomarem ácido). Os violões não soam padrão e Noy ataca as cordas de maneira áspera e percussiva. Há instrumentos de câmara em oposição ao som bastante tribal da banda. Sopros alucinados, vários efeitos, espírito da contracultura no ar, acordes estranhos, andamentos variados, mudanças quase psicóticas com improvisações energéticas/pulsantes. Com dois multi instrumentistas talentosos à vontade, o Jan Dukes de Grey se esbaldou nos arranjos adicionando flautas, clarinetes, sax, trompete, trombone, violoncelo, violino, violões múltiplos, gaita, baixo, guitarra, percussões e o escambau. Elementos psicodélicos criando poder emocional bruto, som despojado, atmosferas cruas, criatividade no talo, longos solos, tipo de música que não é cópia de nada (trabalho de alta originalidade), condensando Acid Folk com o Avant-Prog do estilo Canterbury e um som de música de câmara. Distorcido, hipnotizante, visceral, uma verdadeira experiência auditiva. As vendas de "Mice and Rats in the Loft" foram novamente mornas e os custos de gravação adiantados pela Transatlantic significaram que era necessário fazer economias em publicidade. O Jan Dukes de Grey continuou realizando shows locais e adicionou o ex-tecladista/saxofonista do Buster Somers, Eddy Spence, no final de 1970. Bairstow deixou a banda no início de 1973 para ser substituído pelo guitarrista Patrick Dean, um fã que escreveu resenhas elogiosas sobre a banda para o jornal Yorkshire Evening Post. No final de 1973, Conlon também deixou a banda e foi substituído pela esposa de Noy, Fiona Dellar. Dois outros músicos, o baixista Danny Lagger e o baterista Maurice McElroy juntaram-se logo depois.
Em abr/74, a banda mudou seu nome para "Noy's Band" e contratou o baixista Alan Ronds para assinar com o selo Dawn Records. Como Noy's Band o grupo lançou apenas um single, uma reinterpretação de "Love Potion Number 9" combinada com o lado B, "Eldorado". Quando este lançamento fracassou, a banda começou a se desfazer, finalmente se separando em ago/75. Noy, Dellar e McElroy então se juntaram ao músico Nick Griffiths para se apresentar brevemente na banda "Rip Snorter", entre 1976-77. Em paralelo, Noy começou a planejar um novo projeto. Esta nova encarnação do Jan Dukes de Grey consistiu principalmente em Noy, Dellar, McElroy e o recém adicionado tecladista Peter Lemer. Convidados adicionais, incluindo ex-membros da própria banda, bem como uma série de outros músicos, também contribuiriam de maneira específica. Na época, o baterista do Pink Floyd Nick Mason estava muito envolvido com o Britannia Row Studios e Noy conseguiu uma oferta para produção de um novo álbum do Jan Dukes de Grey. Assim surgiu "Strange Terrain", o terceiro disco deles, que levou pouco mais de um ano para ser concluído. Artistas convidados em várias faixas incluíram Ray Cooper, o ator Michael Gothard (tocando saxofone) e a atriz Lydia Lisle, entre outros. Entretanto, o álbum não foi lançado e a banda se dissolveu definitivamente logo depois. Ele só seria finalmente lançado em 2010 pelo selo Cherrytree.







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