sábado, 9 de maio de 2026

A primeira vez em que o Velvet Underground apareceu na TV nos EUA

 


No último dia do ano de 1965, os telespectadores que sintonizavam a CBS foram presenteados com uma reportagem de 6 minutos apresentada por Walter Cronkite (famoso jornalista e âncora da TV nos EUA, que apresentou o principal jornal da rede CBS por 19 anos - entre 1962-81) intitulada "The Making of an Underground Film". Esta reportagem deu mencionou e deu destaque a uma então nova banda chamada "The Velvet Underground", pela primeira vez na TV. O verdadeiro foco da reportagem era a cena do cinema underground, em particular de um cineasta experimental chamado Piero Heliczer. Quando a CBS ligou para produzir a reportagem, Heliczer estava filmando um curta de 12 minutos chamado "Dirt", que incluía o Velvet Underground e essa era a cena que Heliczer estava filmando naquele dia. (Por alguma razão, nenhum dos membros da banda aparecendo vestindo camisa) Heliczer seria, na verdade, uma figura importante no desenvolvimento do som do VU, como demonstrarei a seguir.
Jonas Mekas, o cara que introduziu Andy Warhol no mundo dos filmes
O repórter Peter Beard inicia a reportagem do lado de fora do "Bridge", um teatro localizado na 4 St. Marks Place, no East Village, um dos primeiros centros de artes alternativas de NYC. Na verdade, você pode ver claramente a palavra "FUGS" ao lado de Beard na fachada do teatro. Notavelmente, Cronkite entrevista "o padrinho do cinema de vanguarda americano", Jonas Mekas e o rei indiscutível dos filmes abstratos super experimentais, Stan Brakhage. A CBS até mostra mais de 30 segundos de um filme de Brakhage, presumivelmente parte do curta "Two: Creeley/McClure", que é uma montagem rápida de imagens tremidas e borradas - quase parecendo uma brincadeira da CBS sobre a cena underground. Naturalmente, a CBS também analisa "Sleep", de Andy Warhol (um dos primeiros experimentos dele com filmagens - mais de 5 horas contendo John Giorno, na época amante de Warhol, dormindo), e documenta Warhol filmando uma de suas próprias festas, na qual Edie Sedgwick aparece alegremente dançando. O impulso para esta reportagem da CBS foi o interesse no então novo fenômeno da arte chamada "underground".
Andy Warhol, Edie Sedgwick e Chuck Wein
Em "Up-Tight: The Velvet Underground Story", de Victor Bockris, o guitarrista Sterling Morrison explicou:
"Sempre que ouço a palavra 'underground', lembro-me de quando a palavra adquiriu pela primeira vez um significado específico para mim e para muitos outros em NYC no início dos anos 60. Referia-se ao cinema underground, às pessoas e ao estilo de vida que criaram e apoiaram esta forma de arte. E a pessoa que me apresentou essa cena pela primeira vez foi Piero Heliczer, um autêntico 'cineasta underground' – o primeiro que conheci. Num dia do início da primavera, John [Cale] e eu estávamos passeando pelas ruelas do Eastside e encontramos Angus [MacLise] na esquina da Essex com a Delancey. Angus disse: 'Vamos até a casa do Piero', e concordamos. Parece que Piero e Angus estavam organizando um 'happening' tipo ritual na época – uma apresentação em palco de mídia mista para aparecer na antiga Cinemateca. Era para se chamar 'Lançamento da arma dos sonhos' e foi lançado de forma tumultuada. No centro do palco, havia uma tela de cinema e, entre a tela e o público, vários véus se estendiam em diferentes lugares. Esses véus eram iluminados de diversas maneiras por luzes e projetores de slides, à medida que os filmes de Piero passavam através deles na tela. Os dançarinos dançavam e poesia e música ocasionalmente surgiam, enquanto por trás da tela uma música estranha era gerada por Lou, John, Angus e eu. Para mim, o caminho a seguir tornou-se subitamente claro - eu poderia trabalhar numa música diferente do Rock & Roll comum, já que Piero nos deu um contexto para tocá-la. No verão de 1965, éramos os músicos anônimos que tocaram em algumas exibições de 'filmes underground' e em outros eventos teatrais, o primeiro dos quais foi para os filmes de Piero (acho que Barbara Rubin exibiu 'Natal na Terra' e Kenneth Anger exibiu um filme também). Nessa época, de alguma forma, a CBS News decidiu que Walter Cronkite deveria ter uma reportagem sobre um filme 'underground' que estava sendo feito. Por algum processo de seleção, Piero conseguiu ser o 'cineasta underground' e, como ele já tinha decidido nos filmar tocando de qualquer maneira, entramos na ação (e além disso, tínhamos 'underground' no nome, não é? Talvez alguém da CBS tenha lido Pirandello)".

Do fundo do baú mesmo, essa, heim?  Veja a reportagem:




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