Young Flowers - Dinamarca - 1968
Depois de um longo tempo só na passividade, vamos retomando aos poucos a atividade resenhista no Mural. Obras, viagem internacional (podemos até falar dela, posteriormente) e uma barbeiragem da prefeitura que cortou meus cabos de internet em uma obra na rua, me escantearam da redação. Mas vamos retomar logo de cara com uma raspada lá do fundo do baú da obscuridade setentista. A banda dinamarquesa Young Flowers, um power trio daqueles, pesado e psicodélico que, ao desavisado ouvinte, poderia ter saído das profundezas da Bay Area na virada dos anos 60 pros 70, ou mesmo da elétrica cena nova-iorquina (ou londrina). Se os países escandinavos hoje são pródigos em um rica cena rock and roll de várias vertentes (mas especialmente da música pesada), nos longínquos anos 70 não parecia ser diferente. O mundo é que era outro e a gente é que não tinha lá muito acesso.
O grupo foi formado, vejam só, em 1967, em pleno ano do Summer of Love, na agitada Copenhague. E a banda surgiu da fusão de outras 3, o que mostra quão prolífica deveria ser a cena naquele país. Os grupos eram os igualmente desconhecidos Defenders, Seven Sounds e Les Rivals, que cederam cada um membro para a futura banda: o guitarrista e vocalista Peer Frost, o baixista e vocalista Peter Ingemann e o baterista Ken Gudman. São nítidas as influências no som dos dinamarqueses dos grandes trios da época, o Cream e o Experience de Hendrix. Mas a música deles tinha muita personalidade e a guitarra de Frost é de primeiríssima qualidade, proporcionando uma potência sonora arrebatadora. O baixo musculoso de Ingeman e as pancadas fortes de Gudman nas peles da bateria proporcionam um som forte e incorporado como uma saborosa stout tomada em um crânio em temperatura ambiente ao melhor estilo viking. As vocalizações bluesy dão o contorno ideal a um som que agrada em cheio aos loucos amantes do hard setentista, com toda a certeza do mundo.
O trio gravou dois excelentes álbuns de estúdio pelo selo local Sonet, Blomsterpistolen, de 1968 e nº 2, no ano seguinte. O trio agitava os circuitos roqueiros do norte europeu com incursões também pelas sempre receptivas Alemanha e Suíça, se separando ainda na primeira metade dos anos 70.Depois que se separaram, Peer Frost foi tocar com a banda de jazz-rock Midnight Sun e em seguida foi para a Savage Rose. Os demais membros continuaram ativos na cena musical dinamarquesa.
Com o advento da digitalização musical e as facilidades da internet, a qualidade da banda passou a ser dividida por uma gama maior de apreciadores. Em 2002 surgiu um álbum ao vivo com registros de shows de 1969, lançado pela Karma Music, que também colocou no (restrito) mercado, dois anos depois, Dr. Sessions, que reúne gravações ao vivo em estúdio para um programa de rádio, com petardos dos álbuns de estúdio, puxados por uma versão arrebatadora de The Pusher, do Steppenwolf (é o cd que eu tenho). A banda voltou à ativa no início da década passada e registrou Reunion, em 2015, pelo selo Ping, com músicas novas e versões diferentes de seus “clássicos” e On Air em 2018, apenas em LP duplo. Em março deste ano saiu Den Bla Lojtnant, em vários formatos, com músicas novas entremeadas por entrevistas, tudo num bom e claro dinamarquês. Enfim, um supergrupo da era de ouro do rock, que está na ativa em plena era da comunicação veloz, virtual e sem fronteiras, mas que continua sendo um tesouro perdido.



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