quarta-feira, 15 de março de 2023

“Thriller” (Epic/CBS, 1982), Michael Jackson

 




O sucesso do álbum Off The Wall, lançado em 1979, havia transformado Michael Jackson num astro pop de primeira grandeza. Além de ter vendido milhões de cópias, o álbum proporcionou vários prêmios ao cantor. Naquele momento, Michael se dividia entre a carreira solo, agora em ascensão, com a carreira como vocalista dos Jacksons, banda que também crescia a cada álbum desde que deixou de ser um grupo pop adolescente em meados dos anos 1970 partindo para um som mais adulto e dançante.

No entanto, apesar da visibilidade tanto na carreira solo quanto como membro dos Jacksons, Michael ainda se mostrava insatisfeito. Ele se sentia injustiçado, pois acreditava que o sucesso de público alcançado com Off The Wall merecia uma atenção maior por parte da grande mídia. Um pedido seu à revista Rolling Stone para ser matéria de capa foi negado porque segundo a publicação à época, negros em capas de revista não vendem. Ficou evidente para Michael que a questão racial era o grande entrave. A partir dali, o Michael Jackson jurou que o seu próximo álbum seria impecável, superior ao anterior e que faria um sucesso tão grande que todos iriam lhe implorar por uma entrevista. 

Enquanto Off The Wall seguia fazendo sucesso comercial, Michael mantinha o seu compromisso com os seus irmãos nos Jacksons. Em 1980, a banda lançava Triumph que emplacou os hits “Can You Feet It” e “Love One”, alcançando a marca de 1 milhão de cópias vendidas. No ano seguinte, seguiram com a turnê Triumph Tour onde os Jackons tocaram não só os seus sucessos como também os do álbum solo de Michael, Off The Wall. Alguns shows foram registrados e lançados no álbum duplo The Jacksons Live!, no final de 1981, vendendo mais de 2 milhões cópias. 

Michael Jackson (primeiro à direita) com os irmãos num show da Triumph Tour, em 1981.
Após os compromissos com os Jacksons, Michael agora decide por o seu plano em prática: o de fazer um novo e surpreendente álbum. Para começar, Michael decidiu repetir a parceria com o produtor Quincy Jones, responsável pela produção de Off The Wall. Cercou-se novamente de músicos de alto nível que haviam participado das gravações de Off The Wall como os tecladistas Rod Temperton, David Foster e Greg Phillinganes, o baixista Louis Johnson, o percussionista brasileiro Paulinho da Costa, os músicos da banda Toto como o guitarrista Steve Lukather, o tecladista Steve Porcaro e o baterista Jeff Porcaro, e mais outras dezenas de profissionais renomados. Michael Jackson e Quincy Jones reuniram 30 músicas, e dessas, selecionaram nove para entrar no novo álbum.  

Com um orçamento estimado em 750 mil dólares, o processo de gravação do novo álbum começou em abril de 1982, nos estúdios Westlake Recording, em Los Angeles, Estados Unidos. A obstinação de Michael Jackson e de Quincy Jones na produção de um álbum pop perfeito gerou um estado de tensão entre os dois. Mas no final, acabou tudo se resolvendo.

O engenheiro de som Bruce Swedien e o produtor Quincy Jones no processo de mixagem do álbum Thriller.

Em 18 de outubro de 1982, era lançado o single de “The Girl Is Mine”, o primeiro do novo álbum que estava em fase de finalização. A canção, um dueto de Michael Jackson com o ex-beatle Paul Mc Cartney, teve o seu single alcançando o 1º lugar da parada da Billboard Hot 100, nos Estados Unidos e 8º lugar na parada de singles do Reino Unido. Apesar do bom desempenho comercial, a recepção foi um tanto quanto “morna”, já que Michael vinha de uma álbum dançante como Off The Wall, logo imaginava-se como primeira música de trabalho do novo álbum algo mais impactante e agitado, e não uma canção pop romântica “açucarada”.

Finalmente, em 30 de novembro de 1982 o álbum Thriller, sucessor de Off The Wall chega às lojas. Thriller apoia-se numa base bem equilibrada de pop, funk, R&B, rock e baladas românticas, uma receita infalível para um álbum que pretendia ser acessível e agradar as massas. Era justamente isso que Michael queria para o seu novo disco: um trabalho que fosse capaz conquistar e superar o seu álbum anterior, e alcançasse um nível de popularidade que o transformasse num astro maior do que ele já era, dando assim a resposta para aqueles setores da imprensa musical que teriam tratado com desdém o seu êxito com Off The Wall.  Para tanto, Michael se empenhou como nunca para gravar um álbum pop perfeito, desde a seleção de repertório até a produção do disco, passando por novas coreografias e novidades que o astro estava preparando para pegar todos de surpresa.

Paul McCartney e Michael Jackson: dueto em 'The Girl Is Mine", primeira música do álbum Thriller a ser divulgada.

Thriller apresenta em suas faixas uma tendência à época de álbuns de R&B que lançavam mão do emprego cada vez maior de sintetizadores e programações eletrônicas. Ainda assim, havia uma combinação do uso desses recursos com os instrumentos tradicionais como baixo, guitarra, bateria e metais. 

Quem havia se frustrado com a balada “The Girl Is Mine” como primeira música de trabalho do novo álbum esperando que fosse algo parecido com petardos dançantes como “Don't Stop 'Til You Get Enough” ou “Rock With You”, ambos de Off The Wall, foi positivamente surpreendido com a faixa de abertura de Thriller, “Wanna Be Startin' Somethin'”. A música é um funk “arrasa-quarteirão” que não deixa pedra sobre pedra e nenhuma pista de dança vazia. Se Michael queria surpreender com o novo trabalho, escolheu a música certa para abrir o álbum. “Wanna Be Startin' Somethin'” possui uma linha de baixo robusta e furiosa, a cargo do talentosíssimo baixista Louis Johnson, muito bem combinada com a bateria programada que produz uma levada rítmica hipnótica e irresistível. Além do baixo, o naipe de metais dá o toque mais orgânico à música em meio às bases eletrônicas.

Uma curiosidade nessa música é a presença discreta de um instrumento bastante conhecido dos brasileiros: a cuíca. Ela se faz presente em alguns momentos da música e é executado pelo percussionista brasileiro Paulinho da Costa, músico que tem uma carreira sólida nos Estados Unidos e que já tocou com os maiores astros da música pop internacional. Outra curiosidade é que ao final da música a expressão que se ouve repetidas vezes “Ma ma se, ma ma sa, ma ma coo sa", foi tomada emprestada da música “Soul Makossa”, do saxofonista camaronês Manu Dibango, e que fez um grande sucesso em 1972.

Paulinho da Costa: percussão brasileira no álbum Thriller.

A segunda faixa do álbum, “Baby Be Mine”, começa com uma virada de bateria magistral executada pelo baterista Leon Chancler e que remete à introdução de “Rock With You”, do álbum Off The Wall.
 
“The Girl Is Mine”, primeira música de Thriller a ser divulgada, é a terceira faixa do álbum. Michael faz dueto com Paul McCartney cantando uma canção sobre dois amigos que disputam o amor de uma mesma garota. O dueto deu tão certo que Michael e Paul gravaram mais duas músicas juntos, “Say,Say,Say” e “The Man”. Ambas foram incluídas em Piper Of Peace, álbum de Paul lançado em 1983.

Encerrando o lado A, a música que dá nome ao álbum, “Thriller”. A base musical da faixa guarda resquícios da batida rítmica da disco music mesclados com funk. “Thriller” possui uma linha de baixo bastante influenciada pela da música “Give It To Me Baby”, funk disco de Rick James, do álbum Super Freak, de 1981. Na introdução de “Thriller”, um ranger de porta, passos, sons de trovão e uivos de lobo dão um clima de suspense à música e preparam o ouvinte para o que está por vir na música. Composta por Rod Temperton, a letra de “Thriller” tem todos os clichês dos filmes clássicos de terror. Baseado nisso, foi produzido um videoclipe com porte de curta metragem (pouco mais de 14 minutos) e uma linguagem estética totalmente cinematográfica. No videoclipe, Michael contracena com a atriz Ola Ray, se transforma em lobisomem e dança acompanhado por um grupo de zumbis, numa das mais marcantes coreografias em videoclipes da história da cultura pop. “Thriller” encerra com narração e gargalhada macabra de Vincent Price (1911-1993), ator que se consagrou em filmes de terror e suspense nos anos 1940 e 1950.

Vincent Price: o astro dos filmes de terror fez a voz macabra em "Thriller".
Assim como o lado A, o lado B de Thriller começa também de maneira surpreendente, desta vez com um rock. Composta por Michael Jackson, “Beat It” foi como um desafio para o astro adentrar num gênero que não é seu habitat natural. No entanto, Michael foi brilhante, surpreendendo até mesmo o público tradicional de rock. O grande destaque de “Beat It” é Eddie Van Halen, guitarrista da banda Van Halen que faz um solo de guitarra fantástico. Contudo, vale destacar também o desempenho dos outros músicos em “Beat It” como o baterista Jeff Porcaro, e os guitarristas Steve Lukather e Paul Jackson Jr. que fizeram a “parede” sonora de guitarras dando uma “musculatura” necessária para que a música tivesse o peso e a agressividade tão comuns numa base instrumental de rock. Os riffs de guitarra de “Beat It” foram criados por Lukather assim como foi ele quem tocou baixo. Lukather é um velho conhecido de artistas da música brasileira, são dele os solos de guitarra de “Realce”, de Gilberto Gil, e de “On The Rocks”, de Rita Lee.

“Beat It” ganhou videoclipe, onde Michael aparece para pacificar duas gangues através da dança. Assim como o videoclipe de “Thriller”, o de “Beat It” possui coreografia coletiva e fez muito sucesso, inaugurando a tendência das coreografias em grupo nos videoclipes de música pop.

Eddie Van Halen: solo de guitarra espetacular em "Beat It".

A faixa seguinte, “Billie Jean”, começa com uma longa e cuidadosa introdução com uma bateria seca e reta, seguida depois por uma linha de baixo pulsante e envolvente, mais uma bela contribuição do baixista Louis Johnson. “Billie Jean” trata sobre uma garota que tem uma fixação por um homem, o qual ela insiste em dizer que é pai de seu filho. A música seria autobiográfica, pois Michael teria feito a música inspirado nas histórias das groupies que tinham aventuras sexuais com os seus irmãos durante as turnês dos Jacksons.

“Billie Jean” tornou-se popular não somente pela música em sim, mas também pelo seu videoclipe, onde Michael estrela num traje bem elegante e é perseguido por um paparazzi. Além da coreografia, outro ponto marcante do videoclipe é que quando Michael caminha, a calçada acende, e o que quer ele toque, se ilumina.

Michael Jackson em cena do videoclipe de "Billie Jean".

Depois de duas faixas dançantes, a suave e romântica “Human Nature”. Calma e melódica, sustentada por camadas de sintetizadores, “Human Nature” trata de sonhos e desejos, tendo a paisagem noturna de uma grande cidade como cenário. Michael canta de maneira sussurrada e sensual.

O funk disco “P.Y.T.(Pretty Young Thing)” é mais uma faixa dançante de Thriller. A partir do meio da faixa, uma linha de percussão dá um tempero especial enriquecendo a base instrumental da música. Merece destaque a participação de Janete Jackson e La Toya Jackson fazendo os vocais de apoio.

Contrastando com o começo frenético e dançante do início do álbum, a balada “The Lady In My Life” encerra Thriller de maneira tranquila e carregada de muito romantismo. Na reta final da canção, Michael expõe todo o seu talento como um intérprete, alternando a maneira de cantar, entre o suave e o intenso. 

A recepção de Thriller superou todas as expectativas. O álbum revelou-se o maior fenômeno comercial da história da indústria fonográfica. Thriller gerou sete singles, “The Girl Is Mine”, “Billie Jean”, “Beat It”, “Wanna Be Startin' Somethin’”, “Human Nature”, “P.Y.T. (Pretty Young Thing)” e “Thriller”, todos com ótimos desempenhos nas paradas de singles dos Estados Unidos.

O baixista Louis Johnson: presente no álbum Off The Wall, retornou em Thriller.

Porém, sem sombra de dúvidas, além da qualidade artística do álbum, outro fator que contribui de maneira decisiva para o sucesso comercial de Thriller foram os videoclipes de “Billie Jean”, “Beat It” e “Thriller”. Michael enxergou nesse tipo de linguagem de expressão uma forma eficiente de divulgar o seu trabalho. É evidente que não que essa linguagem na era uma novidade para o cantor, já que para o álbum Off The Wall, ele já havia produzido dois vídeo clipes (“Don't Stop 'Til You Get Enough” e “Rock With You”). Mas eram videoclipes de baixo orçamento, apesar de eficientes. Ele queria surpreender o público, fazer algo diferente, impactante visualmente, e isso fazia parte do seu plano para conquistar o reconhecimento, tornar-se um astro respeitadíssimo e dar a resposta àquela parcela da crítica musical que viu com desdém o sucesso de Off The Wall.

Com a ajuda da gravadora, Michael investiu pesado nos três videoclipes que ganharam um caráter cinematográfico, principalmente o da faixa “Thriller”, que contou com a direção de John Landis, o mesmo diretor do filme Um Lobisomem Americano Em Londres, de 1981. Tanto no videoclipe de “Thriller” quanto no de “Beat It”, a direção de coreografia foi de responsabilidade do coreógrafo Michael Peters (1948-1994). Peters chegou a participar do videoclipe de “Beat It” como o líder de uma das gangues: ele é o sujeito vestido de branco, de óculos escuros e cara de mau. Ambos os videoclipes estabeleceram a coreografia coletiva nos videoclipes como um padrão, uma receita que seria seguida a partir de então por todos os astros pop que tinham a dança como uma de suas formas de expressão como Madonna, Britney Spears, Lady Gaga entre tantos outros. E isso, se deve a Michael Jackson.

Cena do videoclipe de "Beat It": além de elaborar a coreografia, o coreógrafo Michael Peters (de branco à esquerda)
também participou do videoclipe como chefe de uma das gangues. 

Mas para que os videoclipes de “Billie Jean”, “Beat It” e “Thriller” ganhassem projeção midiática, Michael teve que enfrentar a resistência da MTV norte-americana, canal a cabo inaugurado em 1981 e que rapidamente havia conquistando um grande público jovem. Era o principal veículo televisivo dedicado exclusivamente à música. A emissora até então, só exibia videoclipes de artistas brancos. Michael conseguiu furar a barreira racial da emissora com o apoio da gravadora CBS. A exibição dos seus videoclipes se tornou um fenômeno de audiência na emissora. O videoclipe de “Thriller” chegava a ser exibido duas vezes a cada hora devido aos inúmeros pedidos dos telespectadores. Michael não só conseguiu abrir espaço para si, como também para todos os outros artistas negros. Foi uma grande vitória contra o racismo.

A qualidade das canções e os videoclipes de “Billie Jean”, “Beat It” e “Thriller”, impulsionaram as vendas do álbum e transformaram Michael Jackson num astro da música como não se via desde Elvis Presley nos anos 1950. Thriller fez de Michael um fenômeno pop de escala mundial, batendo recordes de vendas de discos em vários países, empilhando discos e mais discos de ouro e platina. Aquela parcela da crítica que o tratou com desdém na época de Off The Wall, o via agora como um “semideus” pop. Michael passou a estampar as principais capas de revista do planeta e a emplacar boa parte das faixas de Thriller nas principais paradas de sucesso do mundo. 

Michael Jackson cercado por zumbis no videoclipe de "Thriller".

O ano de 1983, por exemplo, foi o ano de Michael Jackson. Ele era talvez a figura mais popular do planeta naquele momento. Naquele ano, durante a festa dos 25 anos da Motown, que reuniu astros daquela gravadora e também ex-contratados, Michael fez uma apresentação antológica quando cantou “Billie Jean” e fez o passo moonwalker, levando ao delírio o público presente ao evento e os milhões de espectadores norte-americanos que viram tudo em casa pela TV. A gravadora CBS gentilmente liberou Michael e os Jacksons para se apresentarem na gravadora onde começaram a carreira.

As vendas estratosféricas de Thriller fizeram o álbum entrar no Guiness Book (o livro dos recordes) em 1984 como o álbum mais vendido de todos os tempos com a marca de 40 milhões de cópias vendidas até então. Estima-se que até o momento, Thriller já superou o índice dos 100 milhões de cópias vendidas em todo o mundo, uma marca que dificilmente será superada. Além dos altíssimos índices de vendagem, Thriller é reconhecido também pelos muitos prêmios que conquistou. Em 1984, conquistou oito prêmios Grammy, dentre os quais “Álbum do Ano”, “Melhor Performance Vocal Pop Masculino” e “Melhor Canção de R&B”(por “Billie Jean”).

Michael Jackson e o produtor Quincy Jones na premiação do Grammy, em 1984.

No decorrer dos anos após o sucesso do álbum Thriller, Michael esteve envolvido em outros projetos. Ainda em 1984, Michael gravou o último álbum como membro dos Jackons, Victory, que foi sucedido por uma grande e bem produzida turnê, a Victory Tour. Em 1985, juntamente com Lionel Ritchie e o produtor Quincy Jones, Michael criou o projeto USA For Africa que reuniu os maiores astros da música norte-americana para a gravação de um álbum cujo lucro seria revertido para combater a fome da Etiópia. A canção “We Are The World” composta por Michael e Ritchie, reuniu mais de 40 astros da música dos Estados Unidos como Cyndi Lauper, Bob Dylan, Diana Ross, Stevie Wonder, Madonna, Ray Charles, Bruce Springsteen dentre outros.

Michael só lançaria um novo álbum solo em 1987, cinco anos após Thriller. O álbum Bad foi cercado de muitas expectativas, e que apesar de não ter tido o mesmo impacto de Thriller, teve um bom desempenho comercial. A partir de Bad, suas esquisitices e excentricidades se acentuaram. Sua vida particular passou a ser mais exposta desde o problema de vitiligo a até acusações de pedofilia.

Mesmo assim, é inegável o legado a influência da arte de Michael Jackson sobre os artistas pop contemporâneos como Bruno Mars e Justin Timberlake. É possível notar no trabalho deles influências da música Michael, sobretudo dos seus discos Off The Wall e Thriller.

Faixas

Lado A
  1. “Wanna Be Startin' Somethin'” (Michael Jackson)          
  2. “Baby Be Mine” (Rod Temperton)
  3. “The Girl Is Mine” (Jackson), participação especial Paul McCartney
  4. “Thriller” (Temperton – Jackson) participação especial Vincent Price 
Lado B 
  1. “Beat It” (Jackson), participação especial de Eddie Van Halen
  2. “Billie Jean” (Jackson)
  3. “Human Nature” (Steve Porcaro - John Bettis)
  4. “P.Y.T. (Pretty Young Thing)” (James Ingram- Quincy Jones)
  5. “The Lady In My Life” (Temperton)

Ouça o álbum Thriller na íntegra


"Billie Jean" (videoclipe original)


"Beat It" (videoclipe original)


"Thriller" (videoclipe original)



“Correndo O Risco” (Warner, 1986), Camisa de Vênus

 


O biênio 1984/1985 foi bastante positivo para a banda Camisa de Vênus. Em 1984, o quinteto baiano assinou com a gravadora RGE, e naquele mesmo ano lançaram Batalhões de Estranhos, segundo álbum de estúdio do grupo e que emplacou os hits “Eu Não Matei Joana D’Arc”, “Hoje” e “Lena” que deram ao Camisa de Vênus visibilidade na grande mídia. O bom desempenho comercial de Batalhões de Estranhos garantiu ao Camisa de Vênus um ano de 1985 bastante proveitoso com a banda passando a ter frequência garantida nas rádios e nos programas de TV, além é claro, de tocar para plateias cada vez mais lotadas.

Logo no início de 1986, após um show no Parque Lage, no Rio de Janeiro, o Camisa de Vênus recebeu em seu camarim a visita de uma figura que daria um novo rumo na já próspera carreira do quinteto. A figura em questão era André Midani, então diretor da gravadora da Warner, que nos anos 1960, conduziu a gravadora Philips e revelou novos talentos que se tornariam gigantes da MPB como Elis Regina, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Mutantes, entre outros artistas notáveis. Midani conhecia a “má fama” do Camisa de Vênus, de ser uma banda desbocada e rebelde, mas mesmo assim mostrava-se interessado no trabalho do grupo e na sua performance arrasadora no palco. Estava disposto a levar aquele “insulto” (como ele mesmo qualificou a banda) para a sua gravadora.  André Midani fez uma proposta que Marcelo Nova e seus companheiros não puderam recusar. Aceitaram.

Como devia ainda um álbum à RGE, previsto no contrato com aquela gravadora, a saida mas rápida para cumprir o trato antes de deixar a RGE e partir para a nova companhia era gravar um álbum ao vivo. Em 8 de março de 1986, sob a produção do produtor Pena Schimidt, o show do Camisa de Vênus no Caiçara Music Hall, em Santos, São Paulo, foi todo gravado ao vivo. O material gravado gerou o álbum ao vivo, lançado em meados do mesmo ano de 1986. Das dez faixas, oito foram censuradas por causa dos palavrões. Mesmo assim, Viva conseguiu a proeza de vender mais de 180 mil cópias, cativando o público com uma sonoridade crua e agressiva, sem nenhum tratamento de pós-produção em estúdio, mantendo as imperfeições de áudio do palco.

Camisa de Vênus no show no Caiçara Music Hall, em Santos, em março de 1986,
onde foi gravado ao vivo o álbum Viva.

De contrato assinado com a Warner, o Camisa de Vênus entrou em estúdio em agosto de 1986 para gravar o seu terceiro álbum de estúdio, o primeiro pela nova gravadora. Com produção de Pena Schimidt, as gravações do novo álbum do Camisa ocorreram no estúdio RAC, em São Paulo, e foram concluídas em setembro do mesmo ano.

Intitulado Correndo O Risco, o álbum que marcou a estreia do Camisa de Vênus na Warner foi lançado em 7 de novembro de 1986. O lançamento do novo disco causou um certo mal estar entre o Camisa de Vênus e a parcela mais radical dos seus fãs que viu na ida do quinteto para uma grande gravadora uma “traição”, já que a banda teve as suas origens no punk e negava o mercantilismo musical.

Por outro lado, uma outra parcela dos fãs não deu importância a esses detalhes e adoraram o álbum. Correndo O Risco é um álbum muito bem produzido e apresenta um Camisa de Vênus mais maduro e diversificado musicalmente, diversificação essa que já era percebida desde o segundo álbum, onde experimentou com o pop, a new wave e reggae. No novo álbum, a banda flerta com o blues, o rockabilly, o country e até com a música erudita. As guitarras soam melhor e mais calibradas em Correndo O Risco, diferente da sonoridade fraca que possuíam nos dois primeiros álbuns de estúdio da banda. O som da banda está mais vigoroso, Marcelo Nova canta melhor do que nunca.

Camisa de Vênus numa pausa das gravações de Correndo o Risco para uma sessão de fotos.
Em pé, da esquerda para a direita: Robério Santana e Gustavo Mullem. Sentados, da esquerda para a direita:
Karl Hummel, Aldo Machado e Marcelo Nova..

Correndo O Risco começa com uma viagem no tempo através do rockabilly “Simca Chambord”, nome de um carro que marcou época na indústria automobilística brasileira. Na música, o carro antológico serve de fio condutor para o Camisa de Vênus contar um pouco de uma passagem da História do Brasil, entre a prosperidade do governo do presidente João Goulart e o golpe que ele sofreu quando foi derrubado do poder pelos militares em 1964, e mergulhou o país em vinte anos de ditadura militar.

“Mão Católica” é uma crítica direta e sem rodeios à Igreja Católica, que para expandir o Cristianismo pelo mundo ao longo da História, usou o artifício da culpa como instrumento de repressão e dominação de seus fieis: “Nascer com o mal na alma / Pro batismo libertar / Carregar a cruz de toda culpa / E coloca-la no altar / Domingo tem a missa obrigatória / Ajoelhar perante a santa inquisição / Pras bruxas temos a fogueira / Pros santos nós temos o perdão”.

O blues “Morte Ao Anoitecer” possui uma letra mórbida e soturna, que mais parece de canção de alguma banda gótica. Em “Deus Me Dê Grana”, o Camisa mostra o que sabe fazer bem: crítica social com humor. A letra fala se um sujeito que desempregado que pede dinheiro a Deus para saldar as suas dívidas.

Simca Chambord 1963: homenageado pelo Camisa de Vênus com uma música que leva o nome do carro.

A faixa seguinte é a regravação de “Ouro de Tolo”, sucesso de Raul Seixas nos anos 1970. Diferente da versão original, mais voltada para o folk rock, o Camisa injetou mais eletricidade com uma versão rock e deu uma “atualizada” na letra: sai o Corcel 73 da versão original, entra o Monza 86; cruzados ao invés de cruzeiros; vídeo game no lugar do tobogã.

O medo, a angústia e a insegurança no mundo contemporâneo são temas presentes em “Só O Fim”, canção que se tornou um dos grandes sucessos da carreira do Camisa de Vênus. A música possui uma estrutura melódica curiosa. No trecho do refrão, remete e muito a “Gimme Shelter”, enquanto que o restante da canção lembra “Time Waits For No One”, ambas as músicas dos Rolling Stones, respectivamente lançadas em 1969 e 1974.

A sexista e debochada “O Que É Que Eu Tenho Que Fazer?”, é outra faixa do álbum que é a cara do Camisa de Vênus. Na letra Marcelo Nova é capaz de fazer qualquer loucura para ter momentos de sexo com a garota que tanto deseja: “Posso lhe dar calor, e mais se você quiser / Me diga como você gosta, eu quero é ter você, mulher / Posso ser masoquista ou da polícia, não faz mal / Poso até de Rock Star, um símbolo sexual”.

“Tudo Ou Nada” faz referência ao mundo competitivo, materialista, consumista e superficial em que vivemos: “O que parecia tudo, agora é nada / Sem nada nós queremos tudo / Contudo, parece que já não sabemos / De que vale tudo ou nada”.

Raul Seixas teve a sua canção "Ouro de Tolo" regravada pelo Camisa de Vênus 
para o álbum Correndo O Risco. 


A grande surpresa do álbum foi deixada para o fim, a longa e épica “A Ferro E Fogo”. O vocalista Marcelo Nova é acompanhado por uma orquestra sinfônica formada por 26 músicos e um coral de oito vozes, sob a regência do maestro Armando Ferrante Júnior. “A Ferro E Fogo” narra o desejo incontrolável de um grupo de homens em navegar os sete mares, sem temer os romanos e seus galeões ou mesmo as tempestades. “A Ferro E Fogo” surpreende não só por ser uma sinfonia num disco de uma banda que até pouco tempo tinha fama punk, como pela qualidade narrativa da letra, comprovando a capacidade do Camisa de Vênus de escrever canções falando desde sexo da maneira mais “chula” até canções de temáticas existencialistas ou mesmo épicas remetem à Odisseia, de Homero.   

Apesar das acusações vociferadas pelos fãs mais radicais do Camisa de que seus membros eram “traidores” ao assinarem contrato com a Warner, Correndo O Risco agradou o público que comprou mais de 300 mil cópias, fazendo do álbum o mais vendido da discografia da banda baiana. “Só O Fim”, “Deus Me Dê Grana” e “Simca Chambord” tocaram bastante no rádio e ganharam videoclipe. A banda seguiu em turnê nacional.

Com a regravação de “Ouro de Tolo” feita pelo Camisa de Vênus, houve uma aproximação da banda baiana com Raul Seixas, também baiano, e ícone do rock brasileiro. Essa aproximação resultaria num convite para Raul fazer uma participação especial no álbum seguinte do Camisa, Duplo Sentido (1987), na faixa “Muita Estrela, Pouca Constelação”. Isso se desdobraria depois numa parceria entre Marcelo Nova e Raul Seixas após o fim do Camisa, rendendo numa grande turnê pelo Brasil e num álbum de estúdio, A Panela do Diabo, lançado em 1989, e que seria o último trabalho em disco de Raul. 

Faixas
  1. “Simca Chambord” (Marcelo Nova - Gustavo Mullem - Karl Hummel - Miguel Cordeiro)
  2. “Mão Católica”
  3. “Morte Ao Anoitecer” (Marcelo Nova - Gustavo Mullem - Karl Hummel)              
  4. “Deus Me Dê Grana”     
  5. “Ouro De Tolo” (Raul Seixas)     
  6. “Só o Fim” (Marcelo Nova - Gustavo Mullem - Karl Hummel)      
  7. “O Que É Que Eu Tenho de Fazer?” (Marcelo Nova - Robério Santana)  
  8. “Tudo Ou Nada”
  9. “A Ferro E Fogo”

Todas faixas são de autoria de Marcelo Nova, Karl Hummel e Gustavo Mullem, exceto as indicadas.

Camisa de Vênus: Marcelo Nova(vocais), Gustavo Mullem (guitarra solo), Karl Franz Hummel (guitarra base), Robério Santana (baixo) e Aldo Machado (bateria).


"Simca Chambord"

"Mão Católica"

"Morte Ao Anoitecer"

"Deus Me Dê Grana"

"Ouro de Tolo"

"Só O Fim"

"O Que É Que Eu Tenho de Fazer"

"Tudo Ou Nada"

"A Ferro E Fogo"


"Só O Fim" (videoclipe original)



"Deus me Dê Grana"  (videoclipe original)



"Simca Chambord" (videoclipe original)


Comentários A PIEDI NUDI

 Eclissi

A Piedi Nudi Rock Progressivo Italiano


Este terceiro álbum de ''A Piedi Nudi'' é bastante sombrio e pesado.

Seu lado pesado já era bastante perceptível durante seus dois primeiros álbuns, e este é uma continuação desses esforços. Este álbum mostra uma espécie de combinação entre o doom (Sabbath) e o sabor italiano. Ainda assim: o último é IMHHO bastante escasso.

Este álbum pode ser mais apreciado pelos amantes do metal (aos quais não pertenço) do que pelos amantes do ISP italiano (aos quais pertenço).

Na verdade, se não fosse por esse duplo efeito, essa banda não deveria ser de grande interesse. Material pesado com algumas passagens sutis e leves ("Le Amanti"). Esta é uma bela demonstração de todo o seu talento: harmonias vocais, instrumentação habilidosa, passagens selvagens. KC é verdadeiramente uma fonte de inspiração também.

O som nos traz de volta aos anos setenta, mas a composição não é tão espetacular para ser honesto. "Senza Ritorno" é bem chato pra falar a verdade. O assustador "Reverendo" prolonga a sensação pesada sem muita inspiração para dizer a verdade. Sub, subpar sábado. Combinado com algum tom italiano. Esta faixa é apenas decente; não mais.

Aqui e ali, há algumas passagens bastante notáveis ​​e delicadas. Isso é melhor experimentado durante "Temporale", que é provavelmente a melhor música que existe.

Eu classificaria este álbum mais no gênero "heavy eclético" (se estiver disponível). "L'Infidele" é bastante claro sobre esse sentimento. A doce parte final está um pouco fora do lugar, mas tão boa! No final das contas, a complexidade da música que aqui se encontra merece três estrelas. Mas não espere nada perto do doce gênero ISP. Pesado é, pesado continua ("Amici D'Infanzia").

O longo e final "Eclissi" apresenta uma forma diferente: alguma influência oriental e mais tranquila no geral.


Comentários A PIEDI NUDI

 A Piedi Nudi

A Piedi Nudi Rock Progressivo Italiano

Esta banda italiana dos anos 90 A Piedi Nudi é o seu nome é bastante desconhecido e também tem uma carreira muito curta que durou até 1999. O primeiro álbum autointitulado lançado em 1994 na Mellow Records é um trabalho pesado, combinando elementos do heavy dos anos 70 prog com seu próprio toque. Alguns arranjos me lembram muito King Crimson até mesmo Campo Di Marte em alguns lugares. Partes de guitarra de Fury com teclados adicionados na mixagem, no geral é um álbum bastante decente, mas longe de ser um interesse real. Algumas partes vocais decentes, mas em alguns momentos Mirko Schiesaro soa muito monótono e desinteressante. Todas as peças têm o mesmo sabor pesado prog todo o caminho, 3 estrelas é o melhor que posso dar, realmente.










Críticas de Música Neo-Prog

 Sygn Yn

Timelock Neo-Prog

Exatamente 30 anos atrás, revi o álbum de estreia do Timelock, 'Louise Brooks', no número 17 do Feedback, bem como revisei 'SI Magazine Compilation Disc Too' na mesma edição que continha a música "Touchdown", que eu realmente senti que era melhor do que qualquer coisa no álbum. Desde então, sua história foi bastante fraturada, e eu não pude acreditar quando recebi seu EP de retorno 'Stay Awake', lançado em 2021, e no ano seguinte veio seu quinto álbum, o primeiro desde 2008. Apenas um das quatro faixas do EP podem ser encontradas aqui, com o corte do título agora aparecendo no álbum em uma versão muito mais longa e completa. Cerca de 30 anos depois da estreia e os fundadores Ruud Stoker (vocal e backing vocals) e Julian Driessen (teclados, sintetizadores) ainda estão lá,

Sempre fui fã dos vocais de Ruud, e os anos não fizeram nada para deteriorá-los, pois ele ainda tem um som muito claro, mas o principal problema desse álbum é a qualidade do material em si. Algumas canções, como "Everlasting", apenas parecem serpentear e parecem um tanto inúteis com melodias repetidas que parecem não estar chegando a lugar nenhum. Olhando para minha análise do EP, parece que senti o mesmo sobre aquele e, na verdade, disse que não tinha certeza se ficaria inspirado o suficiente para conferir o lançamento principal, mas aqui estou eu de qualquer maneira. Como outras bandas neo holandesas dos anos 90, eles costumavam tocar rápido e solto com o som progressivo, muitas vezes chegando muito mais perto do rock melódico e AOR e, infelizmente, um pouco da suavidade que se pode obter desse estilo costuma prevalecer aqui. Existe até um épico de 19 minutos


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