O Steely Dan permaneceu bastante discreto durante os anos 80, tanto individual quanto coletivamente, aparecendo apenas para trabalhos ocasionais na produção. Então, quando Donald Fagen surgiu em 1991 como parte de um grupo chamado The New York Rock And Soul Revue, o álbum ao vivo resultante foi um grande sucesso. Para algumas pessoas, pelo menos.
Live At The Beacon foi gravado em duas noites no maravilhoso teatro de Manhattan que dá nome ao álbum e entrega praticamente o que a dupla promete em seu nome. Um grupo de músicos locais, tanto de shows quanto de estúdio, acompanha Fagen e vários convidados especiais em uma variedade de músicas, a maioria de décadas anteriores, em uma espécie de cruzamento entre Paul Shaffer e a All-Starr Band de Ringo. Michael McDonald e Phoebe Snow são os vocalistas mais proeminentes, começando com um dueto em "Knock On Wood". Donald se apresenta para uma versão descolada de "Green Flower Street" , e Phoebe canta "Shakey Ground" e "At Last". Michael responde com "Lonely Teardrops", então Boz Scaggs aparece para cantar "Drowning In The Sea Of Love", mas não toca guitarra. (Em vez disso, o fiel acompanhante Drew Zingg recebe a chamada.)
A lenda do blues Charles Brown ganha destaque com seu clássico "Driftin' Blues" e se junta a Donald e Phoebe em "Chain Lightning" , do Dan . Os irmãos Brigati representam os (Young) Rascals em "Groovin'", e há um desvio infeliz para Michael cantar "Minute By Minute" antes da multidão se reunir para "People Got To Be Free". O bis é um maravilhoso "Pretzel Logic" , em que Michael canta o verso sobre os sapatos.
É um álbum bacana, mas não necessariamente sem graça. E nunca mais se ouviu falar deles. Os yuppies adoraram e, com sorte, se aprofundaram nos catálogos dos artistas convidados.
Uma música bastante apropriada para hoje, e que estou mais do que feliz por ter encontrado antes! Peter Wrenleau, mais conhecido como Peter Wale, é natural da África do Sul, mas deixou sua terra natal em meados da década de 1970. Chegando aos EUA em 1974 para impulsionar sua carreira musical, demorou um pouco para que ele emergisse e sua música alcançasse o grande público, mas ele está chegando lá!
Lançando um LP na África do Sul em 1972, "The Memoirs Of Hakeford Wart (Goodbye Capetown)" foi um trabalho independente de Peter. Surgiu, desapareceu e permaneceu relativamente despercebido até recentemente. Originalmente contendo quatro faixas, este disco foi redescoberto há alguns anos pela gravadora canadense Strawberry Rain (uma gravadora especializada em reedições de alta qualidade de músicas raras e fora de catálogo). Quando relançaram o álbum (embora, infelizmente, com uma tiragem limitada a 300 cópias), incluíram gravações de um último show de Peter antes de embarcar em um iate e partir em busca de novas aventuras.
Para explicar melhor o disco e a história dessas músicas, colei um artigo que encontrei no YouTube. Acompanhando um álbum intitulado Folk Funk & Trippy Troubadours Volume One , este texto detalha a vida e as aventuras deste discreto cantor e compositor:
Originalmente presente no álbum privado de Peter Wale, "The Memoirs Of Hakeford Wart (Goodbye Cape Town)", de 1972, "One Quiet Sultry Sunday" foi idealizada durante uma colaboração improvisada com o guitarrista Allan Faull, à sombra do Monumento a Rodes, nas encostas mais baixas da Montanha da Mesa.
Anteriormente líder da curta banda sul-africana Wakeford Hart, que atuou na cena underground de rock local no início dos anos 70, Peter continuou a tocar com outros músicos e como artista solo, mas aos poucos foi ficando insatisfeito com a cena musical local e decidiu que queria viajar e conhecer o mundo.
No final de 1971, Peter juntou-se à tripulação em uma viagem de iate que planejava partir da Cidade do Cabo para o Rio de Janeiro. Mas, antes de partir para sua viagem oceânica, Peter decidiu fazer mais um show com os amigos e o show ao vivo foi gravado. Em seguida, foi prensado em uma tiragem muito limitada de vinil, com menos de 200 cópias. O álbum original continha quatro músicas das quatorze gravadas. Infelizmente, poucas foram vendidas e acredita-se que restem menos de dez cópias.
Durante a viagem de 39 dias, o iate virou, por pouco. O plano original era retornar à Cidade do Cabo após uma temporada no Brasil, mas, longe da sombra do Apartheid, a atração por ambições maiores cresceu forte para Peter, e ele continuou viajando.
Em 2010, já morando em Seattle, Peter recebeu notícias da África do Sul. Robert Gush havia encontrado as fitas master originais de todo o concerto de 1972 e conseguiu transferi-las para o formato digital. Peter foi contatado por Jason Connoy, da Strawberry Rain Music, de Toronto. Uma reedição expandida em três LPs, com todas as quatorze músicas, foi planejada. Levou cinco anos para se concretizar e foi finalmente lançada em 2019.
Peter ainda está envolvido na arte de compor canções e mora com Rachel em um café abandonado nas Blue Mountains, no leste do Oregon.
One Quiet Sultry Sunday oferece mais de dez minutos de escapismo prazeroso, impulsionado pelos meandros hipnóticos de uma melodia de flauta e uma serenata de violão delicadamente dedilhada. O contraste entre a letra e a música é interessante, pois a melodia oferece a promessa de algo leve e onírico, enquanto a letra aborda um tema completamente diferente. Esta história aparentemente despreocupada se apega às riquezas do passado, enquanto luta contra as constantes tensões do presente. Quanto mais ouço esta faixa, mais a adoro...
Pode não ser possível obter um dos LPs limitados que a Strawberry Rain lançou alguns anos atrás, mas (boas notícias!) todas essas músicas agora estão disponíveis para download na página do Bandcamp de Peter Wale
Neil Young sempre serviu, desde meados dos anos 60, como um barómetro dos tempos. Muito mais do que apenas um músico, nunca se coibiu de usar a sua arte como forma de retratar a sociedade, intervir sobre ela, dizer o que pensa, muitas vezes lançando temas ou álbuns inteiros poucas semanas depois de um evento que fez o seu país adoptivo, os EUA, questionar o seu rumo.
Daí que seja absolutamente adequado que seja a sua voz a ser escutada quando a nação mais poderosa do mundo encara uma das potencialmente mais decisivas encruzilhadas da sua história recente. A poucos dias de termos o perigosíssimo Trump na Casa Branca, é impossível não ouvirmos Peace Trail à luz desse facto.
Ainda assim, o disco não foi gravado depois da eleição, o que torna ainda mais extraordinário o exercício, porque o álbum aborda muitos temas que foram focados na campanha eleitoral. Mais, aborda uma paisagem lírica que, à partida, colocaria Neil entre os brancos desiludidos com a globalização que levaram à vitória do milionário republicano.
O mundo está a mudar, a América também. Young, com os seus 71 anos, continua atento como sempre. E, sempre de antenas no ar, quando encontra o tom e a mensagem certa, corre para a garagem e grava um disco. Foi assim com Peace Trail. Inclusivamente, acabou por não o gravar com os Promise of the Real, que com ele fizeram o anterior The Monsanto Years. A razão explicou-a o próprio: os filhos de Willien Nelson andavam na estrada, em digressão, e Young não quis esperar por eles – “quando está ali, está ali, e tens de atacar”.
A faísca aqui foi a tentativa governamental de permitir a construção de um oleoduto em território índio sagrado, no Dakota. Young é desde há muito um ambientalista e um defensor dos direitos dos índios americanos, e a sua revolta foi o que bastou para que os dedos começassem a mexer sozinhos, à procura mais uma vez da guitarra que dê corpo aos seus pensamentos. Socorreu-se de músicos de sessão que conhece há muito e desabafou, novamente. Os Crazy Horse não estão oficialmente mortos, Young faz questão de o dizer, mas cada dia que passa é menos provável que voltem a gravar juntos.
O disco arranca exactamente com “Peace Trail”, um tema lento, ameaçador mas ainda assim muito bonito, em que fica marcado lema do álbum: “something new is growing”. Segue-se “Can’t stop working”, uma tema obviamente pessoal e confessional. Young explica que gosta de trabalhar e que isso pode ser mau para o corpo mas é bom para a alma, ao som de guitarra acústica e uma harmónica suja. “Indian Givers” volta ao Young activista e panfletário, pegando no ataque à terra sagrada dos índios do Dakota, cuja terra lhes foi tirada, depois dada, e agora de novo desrespeitada.
“Show me” traz de volta a harmónica e a guitarra acústica para uma música lenta, que podia ter sido uma das belas baladas de Young se ele a tivesse trabalhado para tal. Mas, aqui, o que interessa é produzir e gravar, andar em frente, e essa é uma das fraquezas deste disco. “Texas Rangers” é ainda mais desinspirada, apostando numa dissonância que acaba por não funcionar.
As coisas voltam ao trilho certo com “Terrorist Suicide Hang Gliders”, que arranca com a velha harmónica que é também som de marca registada do músico canadiano. O tema é o terrorismo, o medo, a confusão com que um cidadão normal lida com ameaças que não vê nem entende. É também uma das músicas que melhor faz a ponte para a América de Trump: “I think I know who to blame, it´s all those people with funny names/ moving into our neighborhood, how can I tell if they’re bad or good?”. Regressemos a “Indian Givers” e à frase, toda ela um manifesto: “bring back the days when good was good, lose these impostors in our neighborhood”, embora neste caso o medo seja do invasor do progresso em forma de máquinas e da exploração dos recursos naturais, envenenando a água e os solos.
“John Oaks” é mais um hino ambientalista, e uma nova prova da capacidade de Young pintar vinhetas que, em poucos minutos, criam uma personagem de carne e osso que não esquecemos facilmente. Aqui essa personagem é John Oaks, um homem simples e bom que se tenta impor contra a exploração dos políticos e a ocupação da terra, acabando por ser morto pela polícia.
Em “My Pledge”, tal como mais à frente em “My new robot”, é recuperado o velho som de voz digital que tanto chocou no falhado Trans, dos anos 80, uma distopia sonora que nos últimos anos tem sido alvo de uma reapreciação positiva. Em ambos os temas, é a voz de um velho cuja geração foi deixada para trás e que olha incrédulo para milhares de jovens a andarem nas ruas de olhos fixados no ecrã de um telemóvel. O que não deixa de ser curioso vindo de um homem que dedicou muitos anos da sua vida a desenvolvimentos tecnológicos, como um carro energeticamente eficiente ou o sistema de som Pono.
“Glass Accident” pega num tema doméstico, vidros quebrados no chão de casa, e cria uma metáfora sobre os problemas e quem os resolve (deixamos para os outros, limitando-nos a avisar? ignoramos? resolvemos nós?), numa música bonita ainda que não muito trabalhada. O já mencionado “My new robot” fecha Peace Trail com mais uma queixa sobre a tecnologia e a moderna dependência dela.
Peace Trail oscila sempre entre estes dois pólos, o Young que olha para a sociedade e o Young que olha para si próprio e questiona qual é, agora, o seu lugar. É, assim, um disco surpreendentemente pessoal, porque o indivíduo, neste caso o próprio, raramente está afastado das causas pelas quais luta. Um homem de 71 anos, cansado fisicamente mas paradoxalmente infatigável, que se recusa a parar, a calçar as pantufas, a deixar andar. Mas que não consegue deixar de ansiar pelos dias mais claros, mais simples, mais tranquilos do passado. Um álbum que serve como banda sonora dos dias de Trump, embora nunca se assumindo totalmente, deixando-nos sempre com a incómoda dúvida sobre se Young está a apoiar o discurso do medo do novo presidente ou apenas a ser o cronista de receios que o americano médio rural sente.
Não sendo um mau disco, longe disso, é daquelas obras para ser consumida e vivida no momento, a quente. Young luta contra o tempo, contra a inércia, contra o marasmo. Mas talvez seja tempo de parar para pensar, para descansar os seus incontroláveis dedos e burilar melhor a sua música. Não será fácil para quem sente o tempo a fugir e não sabe quanto mais discos conseguirá fazer. Mas a verdade é que o último enorme disco de Neil Young, Sleeps with Angels, é do já longínquo ano de 1994. Se nos últimos 20 anos não lançou um único mau disco, também é verdade que gostaríamos de o ver gravar com a ambição de fazer um grande álbum, do princípio ao fim, em vez de mais uma mensagem preocupada e zangada sobre os desenvolvimentos do último ano. Talvez seja essa a oportunidade para ir buscar os velhos Crazy Horse e, assim, voltar a entrar na clássica noite americana, uma última vez.
TheConfessions of Dr. Dream and Other Stories terá sido o último dos grandes discos do músico inglês, mas representa muito mais do que isso. É, acima de tudo, um dos álbuns mais ambiciosos da primeira metade dos anos 70.
Depois de uma estrondosa série de quatro trabalhos seguidos, Kevin Ayers fechava essa sucessão de obras primas com um quinto disco de exceção, The Confessions of Dr. Dream and Other Stories. Para trás ficaram, vejam só, as seguintes pérolas: Joy of a Toy (1969), Shooting at the Moon (1970), Whatevershebringswesing (1971) e Bananamour (1973). Não se poderia pedir mais, mas se mesmo assim quiséssemos fazê-lo, Kevin Ayers não nos teria dado o que gostaríamos, uma vez que até ao ano da sua morte (2013), os seus interesses foram claramente outros, e os álbuns que foi gravando em pouco poderão ser comparáveis aos que acima sublinho. Talvez Sweet Deceiver (1975) e The Unfairground (2007) sejam aqueles que mais se aproximam dos seus melhores trabalhos, mas mesmo assim não terão nunca o estatuto dos primeiros cinco.
Disse há pouco que The Confessions of Dr. Dream and Other Stories é um álbum que espelha uma tremenda ambição, talvez mesmo alguma pompa e faustosidade. Recordo que para a sua gravação foram gastas £32,000, o que era, em 1974, uma bem avultada verba. Como se não bastasse, o disco foi gravado com a utilização de mais de vinte músicos, destacando-se, por exemplo, os amigos Mike Oldfield e Nico, mas também aquele que viria a ser o futuro compagnon de route de Kevin Ayers, o extraordinário guitarrista Ollie Halsall, para além de Mike Gils (baterista dos King Crimson) e de Mike Ratledge, o organista dos enormes Soft Machine, banda a que pertenceu Kevin Ayers antes da sua caminhada a solo.
O disco abre com uma bonita e animada canção pop que serviu de single de apresentação do disco: “Day By Day”. Nada mais enganoso, no entanto, uma vez que os restantes dez temas do álbum em nada se aproximam da sonoridade festiva da faixa inicial. O que começa como um disco solarengo e acessivelmente pop, logo se revelará bem mais denso e obscuro, uma espécie de aventura psych-prog, repleta de maneirismos bem típicos de Ayers, como temas que englobam fases diferentes (“It Begins With a Blessing / Once I Awakened / But It Ends With a Curse” e “The Confessions of Dr. Dream”, faixa com quase vinte minutos de duração, embora dividida em quatro momentos bem distintos), mas também o recurso a vários estilos sonoros, que por estranho que pareça acabam por se incorporar num todo muito lógico e coerente.
Em The Confessions of Dr. Dream and Other Stories tudo é bastante particular e único. Depois de tantas vezes ter ouvido este disco, e depois de o ter feito em fases tão diferentes da minha vida, algo me parece inalterável nesse extenso rol de audições. Há nele uma tensão permanente, uma frieza sonora tocante que apenas em dois momentos não está presente: no início, com a já referida “Day By Day” e no fim, com a serena “Two Goes Into Four”. O resto do álbum é a prova da sublimação do génio torto de Kevin Ayers, autor excecional, tantas vezes injustamente esquecido.
Depois de The Confessions of Dr. Dream and Other Stories tudo passará a ser diferente, como há pouco referi, na obra do músico e compositor inglês. Lembrar este disco como o fim desse seu período dourado fará ainda mais sentido se ouvirmos os seus quatro trabalhos anteriores. A magia de Ayers ainda hoje é evidente e relevante, e o tempo não conseguiu domá-la, prova maior da sua enorme qualidade. O tempo só passou por nós, não por ele e pelos seus magníficos discos.
O disco de estreia dos The Rite of Trio não é (só) jazz nem é (só) rock, e essa é sua maior virtude. É no cinzento que eles estão bem – e é também aqui que poderão continuar a crescer, alheio a quaisquer questões de cariz mais académico.
A pergunta é feita, no disco, logo ao início: “Sabes tocar jazz?”. No entanto, poderia ser substituída por outra, bem mais pertinente: “Sabes o que é jazz?”. Mais de um século após a sua origem nas comunidades afro-americanas de Nova Orleães, ainda é difícil definir com rigor aquilo que constitui, ou não, jazz. Para muitos puristas, o jazz acaba com as experiências free e avant-garde do meio do século; para outros, é precisamente este grau de experimentação e improvisação que constitui o verdadeiro jazz, primitivo e sem regras. É um bocado como colocar na mesma mesa redonda os mestres do rock progressivo e os punks… Todos estrebucham e, provavelmente, ninguém será dono da razão absoluta.
Portanto: não importa saber se os The Rite of Trio sabem tocar jazz ou se isto é jazz sequer. Até porque a música está acima disso. Tem semelhanças, claro, com o género, não só ao nível da instrumentação usada mas também dos tempos e variações. Mas, por outro lado e principalmente, bate tão duro como os discos rock que tendemos a mitificar. Nem o poderia ser de outra forma, visto que é conhecido o apreço dos membros dos Rite of Trio – que, como o nome indica, são um trio – pela forma mais eléctrica de se fazer música.
Quando ouvimos essa pergunta logo aos primeiros segundos de “Serious Business” sabemos, assim sendo, qual é o mote inteiro para GETTING ALL THE EVIL OF THE PISTON COLLAR!, statement feito todo em maiúsculas e com exclamação no final para que não se perca no vazio informativo: colocar três rockers a tocar jazz, ou pelo menos a tocar aquela que é, para si, a sua definição de jazz. Experimentar com o género, baralhar, voltar a dar, até que o corpus final a isso se assemelhe. Não ser inteiramente uma coisa nem outra – isto é, navegar no cinzento sem optar por fincar bandeira no preto ou no branco – é a sua maior virtude, e o maior elogio que os The Rite of Trio podiam fazer aos improvisadores de todo o mundo.
Uma improvisação que até parece estar bem patente nos próprios títulos dos temas aqui incluídos: “Grab A Chair, Pick A Card”, “Slightly Out Of Tone”, “Challenging A Jazz Demigod”… Todos eles parecem indicar o sentimento de partida dos The Rite of Trio; erguer o dedo do meio aos puristas, e colocá-lo depois na guitarra (para um doce sabor a feedback ou um riff de se colar ao goto), no contrabaixo (dando azo ao groove indispensável) ou na bateria (para a porrada, mesmo). Por outro lado, ainda existirão puristas no jazz – exceptuando Wynton Marsalis – ou terão sido, todos eles, engolidos pela revolução ribombante da realidade?
Colocar Rainer Maria Rilke, ou as suas palavras, a fechar o álbum só demonstra a confiança que estes três músicos têm no seu próprio trabalho – escapar ao medo, figurado ou não: “isto é jazz?”; “isto é a nossa visão?”; “isto demonstra, na plenitude, o que sabemos fazer enquanto unidade?”. So through the falling torrent of our fears / Our joyous force leaps like these dancing tears, citam eles, coadjuvados pela voz de Beatriz Nunes. GETTING ALL THE EVIL OF THE PISTON COLLAR! não é apenas título ou statement, é prova de uma força que gostaríamos de encontrar (também!) noutros lados. Talvez este disco possa servir-lhes de inspiração.
Ao quarto álbum, J. Cole cimenta-se como um dos líderes de um hip-hop adulto, intricado e pessoal, mas aberto a outros géneros, como o R&B e o jazz. Longe da febre radiofónica, é um exercício maduro de beleza que promete perdurar, vindo de um olhar que parece observar, de longe, o histronismo dos dias.
Os A Tribe Called Quest bem avisaram, no tema “Dis Generation”, que integrou o último álbum do grupo: Talk to Joey, Earl, Kendrick and Cole, gatekeepers of flow / They are extensions of instinctual soul / It’s the highest in commodity grade / And you could get it today. Um mês depois chegou a primeira resposta, via 4 Your Eyez Only, de J. Cole. Uma resposta de alto gabarito.
É bonito ver referências a apadrinharem os novos craques, melhor ainda quando têm olho para a coisa e sabem distinguir o essencial do acessório (e não faltam por aí, no hip-hop como noutros géneros, malabaristas das palavras, mestres da banalidade que daqui por bons anos serão recordados com embaraço).
No seu novo álbum, J. Cole – que já se vinha aproximando da mestria desde, pelo menos, Born Sinner, de 2013 – encontra, ou pelo menos cimenta, o seu lugar no panorama hip-hop norte-americano. É fácil encontrar algumas referências (por exemplo, a de Nas), mas é difícil não reconhecer que cada vez mais Cole vai fazendo erguer uma voz própria, criando uma musicalidade singular, que parece pintar com a mesma delicadeza e maturidade paisagens interiores (o amor, a obsessão com a morte, a espiritualidade e a fama, o cansaço e os demónios) e exteriores (as críticas ao consumismo, à prisão imposta pelas tecnologias, ao racismo e aos estereótipos).
Onde outros são expansivos e viscerais, Cole é introspectivo e “quente”, num exercício de depuração lírica e instrumental (a delicadeza e bom gosto dos arranjos, cheios de alma, do piano ao baixo, do violino ao trompete, e por aí em diante) que atinge o pináculo em canções como o tema-título e “She’s mine Pt. 1” (vale a pena para abrir um longo parêntesis para colocar um excerto fabuloso desta última: I would like to paint a picture, but it’ll take more than a day / It would take more than some years to get all over all my fears / Preventing me from letting you see all of me perfectly clear / The same wall that’s stopping me from letting go and shedding tears / From the lack of having father and the passing of my peers / While I’m too scared to expose myself / It turns out, you know me better than I know myself).
Mais do que a força ou poder de temas específicos (o disco parece pouco radiofónico e, estando longe de conhecer o seu impacto, diria que será difícil ter aqui um single que fique na história), 4 Your Eyez Only vale sobretudo como peça compacta, que parece marcar a diferença face a quase tudo o resto que a rodeia, dentro do género. E parece também um disco que, pouco dado a estéticas modernas (aquelas de que muitos aproveitam, porque é preciso entrar na crista da onda…), envelhecerá bem, num canto só seu. Chamem-lhe soulful (está impregnado de R&B e jazz), chamem-lhe obra de um espírito singular. Chamem-lhe o que quiserem, porque o tempo tratará de o preservar.
The ignorance that make a nigga take his brother life
The bitterness and pain that got him beating on his wife
Niggas die over bitches, disrespect, and dollar bills
Bloodshed that turned the city to a battlefield
I call it poison, you call it real (pop, pop, pop, pop)
Murmur é um dos álbuns mais influentes dos anos 80, pilar da resistência indie contra um mainstream balofo e decadente. O college rock acabado de nascer.
Estamos em 1983, na gorda américa. Reagan está no poder, o cilindro do capitalismo varre tudo à sua frente, a pop frívola domina o tempo de antena. As universidades são dos poucos bastiões de resistência, com as suas estações de rádio independentes como braço armado. O college rock podia estar entrincheirado no canto esquerdo da frequência (entre o 88.1 e o 90.5 FM), mas o sinal de emissão era óptimo, transpondo os muros das universidades, chegando a quem o quisesse ouvir. Se o resto da rádio estava refém dos êxitos fabricados pelas majors, as rádios universitárias punham no ar o que bem lhes apetecia, com especial predilecção pela música das editoras independentes. Não era o dinheiro o que as movia, era o espírito de missão: romper o cerco estético das grandes editoras, levando o bom rock alternativo aos seus ouvintes.
É neste contexto que surgem os R.E.M., colocando o college rock no mapa com o seu grande álbum de estreia (editado pela independente I.R.S. Records). Sofisticados culturalmente, herdeiros da insubmissão punk mas demasiado burgueses para a violência do hardcore lhes dizer alguma coisa, geram uma forte identificação nos estudantes universitários com pretensões artísticas (na sua maioria, brancos de classe média). O lado negro desta comunidade do college rock é fácil de adivinhar: um snobismo cultural indisfarçável e um constante patrulhamento do gosto alheio. Quem for apanhado a ouvir Wham! ou Madonna é proscrito com desdém do círculo de eleitos.
Os R.E.M. amam o pós-punk inglês, e a sua influência faz-se notar em Murmur (especialmente P.I.L. e Gang of Four). Contudo, distanciam-se do seu ódio à melodia e ao classic rock. A explosão do punk acontecera há seis longos anos, era já tempo de fazer as pazes com os anos sessenta, ouvindo sem complexos os discos dos velhos hippies. É assim que os R.E.M. incorporam no seu som os luminosos arpejos de guitarra de Roger McGuinn. Ponham os Byrds e os Gang of Four numa misturadora eléctrica, e terão descoberto o mágico segredo de Murmur.
O college rock dos R.E.M. é o meio termo que faltava entre o radicalismo do punk e o putedo pop que dominava o mainstream. Do punk herdam o ódio ao establishment, uma ética “do it yourself“, o gosto pela simplicidade e pelas texturas rudes; da pop herdam o amor ao melódico e ao dançável. Murmur é o primeiro grande disco a ocupar esse espaço estético (e sociológico), antes vazio. Através do airplay constante das rádios universitárias, não há puto arty que não dance ao som de “Radio Free Europe”- o seu contagioso single.
Sem o sucesso dos R.E.M., outras bandas independentes suas contemporâneas, como os Replacements e os Sonic Youth, talvez nunca tivessem saído da obscuridade. Devolvida a credibilidade indie à melodia e à tradição, muitos foram os grupos a seguir-lhe as pisadas. Sem eles, não haveria porventura Dinosaur Jr., Pixies ou mesmo Nirvana. Murmur mostrou que era possível, apontando o caminho a toda a nação subterrânea.
Ah, já me esquecia – tem também malhas do cacete. Murmur foi um álbum tão influente que é fácil esquecermos o seu valor intrínseco: doze grandes canções que ainda hoje resistem à fuligem do tempo. Uns discos são enormes pelo que simbolizam; outros, imensos pelo que são. Murmur faz a difícil dobradinha.