segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Alamo - Alamo (1971)

 

Definitivamente o hard rock estadunidense ainda tem a capacidade de nos revelar grandes pérolas obscuras. Verdadeiras pepitas sonoras que ainda sequer foram descobertas, inalcançadas, prontas para serem reveladas em garimpagens para lá de fantásticas e encontradas no mais belo estado bruto do mais puro e genuíno rock.

Não se enganem que o hard rock americano se limita a bandas manjadas, conhecidas como Van Halen, temos um universo a se desbravar que estão, empoeiradas, nos baú do rock.

Lembro-me que esta banda que será abrilhantada nesta humilde resenha eu descobri, claro, em minhas garimpagens pela grande rede e quase que despretensiosamente eu encontrei uma banda com um nome um tanto que inusitado, pelo menos para mim, e nela me aventurei, confesso que sem muitas expectativas acerca de sua qualidade sonora.

Comecei a ouvir! O “play” me revelou uma pérola, literalmente um primor sonoro que sempre me pergunto o motivo pelo qual essa banda não atingiu êxito em sua história.

O fato é que essa pergunta suscita vários questionamentos e muitas possíveis respostas e que talvez, nos dias de hoje, não seja mais relevante comentar sobre essas questões, sobretudo pelo fato que muitas dessas bandas estão, graças ao advento da internet, redes sociais e pessoas abnegadas, ávidas, como esse que vos fala, pelo novo, faça que essas bandas, esses álbuns ganhem a luz.

Então sem mais delongas vamos às apresentações! O nome da banda é ALAMO e, como disse, foi formada nos Estados Unidos, mais precisamente na região do Menphis, Tenessee. Área boa, área dominada pelas bandas de country rock, de blues, aquelas bandas “caipiras” com sons bem peculiares, característicos da música popular americana.

Alamo

Mas não se enganem com o Alamo! Você foi enganado pelas circunstâncias do esteriótipo. O Alamo traz elementos de blues sim, em algumas faixas do seu único álbum, homônimo, lançado em 1971, mas também entrega um hard rock vigoroso, com “pitadas” generosas de rock psicodélico, em voga no início dos anos 1970, tendo a condução magistral de um belo órgão, belos teclados, dando uma textura bem interessante ao contexto sonoro da banda.

Os primórdios, o embrião do Alamo começa em 1965 com o guitarrista Larry Raspberry, que tocou com a banda Gentrys, atingindo as paradas de sucesso com a música “Keep On Dancing”.

Gentrys - "Keep On Dancing" (1965)

Adicionando, junto com a guitarra de Raspberry, o teclado excepcional e poderoso do tecladista Ken Woodley que fora membro da banda Cosmos. Esse foi o “miolo”, a “espinha dorsal” do que viria a ser a nova banda do pedaço em Tenessee, o Alamo.

Juntando-se a Woodley e Raspberry Larry Davis escalado para tocar no baixo e fechando o time entraria Richard Rosebrough assumindo a bateria. Pronto! A banda estava formada!

O álbum “Alamo” foi finalmente lançado em 1971 pelo famoso selo “Altantic Records” e foi vendida à imprensa especializada como uma espécie de novo “Led Zeppelin”. Lamentável! Lamentável que, mais uma vez, os formadores de opinião influencia negativamente no futuro das bandas antes ainda de seu nascimento. Talvez esse tenha sido o início do fim da banda que precisava ser associada a uma banda de sucesso à época, como o Led Zeppelin, para ganhar alguma publicidade e gerar algum lucro à indústria fonográfica.

Já que o Led Zeppelin foi mencionado vale, como curiosidade, ressaltar que o Alamo e o próprio Zeppelin tocaram em um festival importante da época chamado Atlanta Pop Festival em 1969, antes mesmo do Alamo lançar seu único álbum auto-intitulado.

Atlanta Pop Festival (1969)

Então dissequemos este belíssimo álbum, porque afinal é de música que precisamos, é da importância desta que faz da nossa vida, algo mais alegre, por mais efêmero que possa ser, levando em consideração que este foi o único trabalho dessa incrível banda. Um volumoso hard rock calcado em riffs e solos de guitarra e de teclado do mais puro rock sulista.

O álbum é inaugurado com a faixa “Got To Find Another Way” que já tem a introdução do poder avassalador do riff da guitarra e da bateria marcada e de forte pegada com aquele vocal rouco, alto e rasgadão. Aquele exemplar de um típico hardão setentista.

"Got To Find Another Way"

“Soft And Gentle” segue um pouco mais desacelerado, o esforço da banda em trazer uma balada fundamentada em solos mais intensos e fortes de guitarra e de fato conseguem sucesso, pois traz também uma atmosfera bem interessante com as linhas de teclado.

A sequência com “The World We Seek” tem o destaque sensacional das teclas de Woodley e o baixo potente e cheio de groove dá o tempero necessário para que esse faixa seja super dançante e muito solar.

"The World We Seek"

E eis que surge nada menos que uma das melhores faixas do álbum, “Question Raised” que, sem dúvida, é uma das mais pesadas também. Começa veloz, pesada, intensa, frenética. Cheia de energia tem uma simbiose maravilhosa entre a guitarra e o teclado em uma espécie de disputa saudável fazendo da faixa um trovão sonoro.

"Question Raised"

“Bensome Changes” inicia com um breve solo de bateria e irrompe em um blues rock volumoso, mesclado a um hard rock e um vocal excepcional que remete a uma espécie de protos toner, dado o seu peso.

Segue com “All New People” com novamente o protagonismo do órgão e da guitarra com uma sonoridade mais simples, porém direta, cheia de dinamismo e intensidade.

"Bensome Changes"

“Get the Feelin'” já inaugura com baixo e guitarra dominando a área, com uma bateria cheia de gingado, a típica música sulista, enaltecendo a pureza da música popular norte americana. Talvez seja a faixa mais complexa do álbum com algumas mudanças de ritmo, de ambiente, variando muito, mostrando a destreza instrumental dos músicos.

E fecha, com chave de ouro, com a faixa “Happiness Is Free” que também é desacelerada, com uma pegada bem comercial, mais radiofônica, mas com muita qualidade tendo o vocal mais limpo, límpido, discreto talvez, e riffs ocasionais de guitarra e alguns solos simples, mas bem executados.

"Get the Feelin'"

O tempo de vida do Alamo foi curto, logo pereceu, mas a maioria dos músicos que nela fez parte seguiu as suas vidas e carreiras musicais em outras bandas e projetos.

Larry Raspberry seguiu em carreira solo por algum tempo e logo depois formou a banda Larry Raspberry & the Highsteppers cuja vocalista, Carol Ferrante, ex-miss Tenessee, uma celebridade local, que também tentara o concurso de Miss America. Richard Rosenbrough se juntou a Lee Baker & The Agitators. E os demais integrantes passaram a tocar em bandas como Hot Dogs e Big Star. O álbum “Alamo” foi relançado em 2008.



A banda:

Richard Rosebrough na bateria

Ken Woodley nos teclados

Larry Raspberry na guitarra e vocal          

Larry Davis no baixo


Faixas:

1 - Got To Find Another Way

2 - Soft And Gentle

3 - The World We Seek

4 - Question Raised

5 - Bensome Changes

6 - All New People

7 - Get The Feelin'

8 - Happiness Is Free


"Alamo" (1971)



Guru Guru - Live Essen (1970)

 

O ano era 1968, Alemanha Ocidental. A cena contracultural alemã conhecida como “Krautrock”, que antes da música eram grupos de hippies insatisfeitos com a sociedade germânica conservadora no pós guerra e seus comportamentos e que logo buscaram na cultura musical minimalista a sua forma de comunicar-se e traduzir as suas mensagens começava a se manifestar.

Bandas começaram a surgir dessas comunidades, a cena era um embrião. Bandas como Kraftwerk, Can e Amon Duul II eram os expoentes, os precursores, com as suas músicas experimentais, psicodélicas, lisérgicas e de difícil digestão para uma sociedade que ouvia basicamente os enlatados pop dos Estados Unidos.

Mas o miolo de outra grande banda que representaria, com maestria, a cena krautrock na Alemanha viria com a reunião de dois amigos, o baterista Mani Neumeier e o baixista Uli Trepte que se conheceram em 1963 e se juntaram a uma banda de jazz que se chamava Irene Schweizer Trio, da pianista suíça Irene Schweizer.


Irene Schweizer Trio com o álbum "Jazz Meet India", de 1967

Em 1968 quando Irene seguiu seu próprio caminho e o Trepte mudou para o baixo o “Guru Guru Groove” foi formado calcado nas experimentações e improvisações jazzísticas que aprenderam no passado com a banda da pianista suíça Irene Schweizer mais o vigor e o peso do rock n’ roll e algumas pirotecnias oriundo da energia do baterista Mani e o talento de Tepte.

Com o conceito formatado e algumas mudanças na formação eles se juntaram ao ex-guitarrista do Agitation Free, Ax Genrich e definiram que essa era a formação ideal para um tipo de apresentação ao vivo pautado na energia no palco e que Genrich correspondia plenamente e o nome da banda foi encurtado para GURU GURU.

Guru Guru

Seu primeiro contrato com uma gravadora já, claro, com o intuito de registrar o seu primeiro trabalho foi com a gravadora Ohr que à época era conhecida por recrutar bandas e músicos com uma sonoridade de vanguarda, entrando aí a cena krautrock.

E foi assim que surgiu o debut do Guru Guru chamado “UFO”, de 1970. O nome do álbum é uma clara alusão a sonoridade incomum da banda que trazia uma sonoridade selvagem, forte, eloquente, calcada na guitarra com efeitos eletrônicos arrojados, como pedais de wah wah, tendo a psicodelia como ponto forte e um hard rock intenso para a época, além da inventividade de Neumeier e do baixista Trepte.


As apresentações eram intensas e indulgentes, beirando a agressividade, a potência e a energia de seus integrantes e tido como uma aberração entre até mesmo entre os colegas de outras bandas, sem contar que tinha manifestações políticas e filosóficas, típicos da cena kraut, pois os músicos faziam parte da União Socialista Alemã de Estudantes e fizeram muitos shows nas universidades, divulgando bem “UFO”.

E diante desses vários shows em universidades, em faculdades e também em eventos estudantis, o álbum do Guru Guru, o “UFO”, alçou voos, com o perdão da analogia, ganhando alguma credibilidade e visibilidade. Esse reconhecimento se deu com um convite que a banda recebeu para tocar no 3º Pop & Blues Festival de Gruga-Halle, realizado em Essen, na Alemanha, entre os dias 22 e 25 de outubro de 1970. O Guru Guru tocaria no último dia do festival, 25 de outubro.

Festival de Essen, Alemanha, de 1970

Certamente esse foi o primeiro e mais representativo show do jovem Guru Guru e que traria muita publicidade para os meninos da banda que tocaria nada menos com bandas do naipe de Taste, Fotheringay, East Of Eden e Tyrannosaurus Rex no palco principal, no mesmo dia, mas não no mesmo palco, mas tocaria, em um palco pequeno lateral, com as bandas alemãs como Frumpy, Embryo. Já era muito! 

E essa apresentação teve um registro e que foi lançada apenas em 2003 pela abnegada gravadora Garden of Delights com o título de “Guru Guru – Live at Essen 1970” e é esse álbum que será alvo de resenha hoje. Vale dizer também que a criação da Garden of Delights foi feita com a reincidência de alguns executivos da Ohr que havia gravado o primeiro álbum de estúdio do Guru Guru. Nem tudo é coincidência ou destino!

A qualidade sonora de “Live Essen” é muito boa, pois, como reza a lenda que as músicas, a apresentação foi gravada diretamente da mesa de som do show, sendo o álbum gravado e registrado por intermédio dessa gravação.

A Garden of Delights tem um histórico de gravar shows e/ou pequenas apresentações das bandas alemãs e esse show do Guru Guru em especial traz um caráter de bootleg, mas que, de alguma forma, entrega toda uma estrutura técnica de gravação e de lançamento oficial, sobretudo nos dias de hoje que muitas bandas estão lançando seus materiais antigos para fugir das piratarias.

“Live Essen” é histórico por ter sido um dos primeiros shows do Guru Guru com a formação original, que gravou o seu primeiro álbum, “UFO”, o que torna esse registro memorável e importante, uma das primeiras aparições ao vivo de uma das mais emblemáticas bandas da cena kraut, do rock alemão, o Guru Guru.

O registro ao vivo conta com apenas três músicas, mas músicas com aquele estilo que fez do Guru Guru importante na cena, com muita improvisação instrumental, com faixas longas e uma energia incomum para as bandas da época que pautavam na introspecção do experimentalismo. O Guru Guru era intenso, era forte e trouxe ao kraut o prog com viés hard e “Live Essen” entregava definitivamente.

O álbum é inaugurado com a faixa do álbum “UFO”, “Stone In” que já começa lisérgica aliado a um peso calcado na bateria firme de Mani Neumeier e a guitarra dilacerante de Genrich com uma textura distorcida e perturbadora. É o momento em que a banda está solta para liberar seu processo produtivo e criativo, estavam no auge e essa faixa diz tudo. Repleta de viradas sensacionais e momentos rítmicos pesados e leves. Incrível!

Guru Guru - "Stone In", Live Essen 1970

Na sequência tem a clássica, também do álbum “UFO”, “Der LSD-Marsch”. Ela começa obscura, intimista, ameaçadora. Um exemplar típico de psicodelia totalmente experimental e minimalista que remete, com fidelidade sonora, ao conceito do krautrock. Pode-se notar também “pitadas” generosas de space rock dado as grandes doses dos efeitos da guitarra, mas que, gradativamente vai ficando pesada, intensa e agressiva graças a, mais uma vez, a bateria de Mani e os solos e riffs de guitarra de Genrich.

Guru Guru - "Der LSD Marsch", Live Essen 1970

E fecha com a até então faixa nova, que seria lançada um ano depois desse show, em 1971, com o clássico segundo álbum do Guru Guru, a fantástica e animada “Bo Diddley”, do excelente “Hinten”, cuja resenha pode ser lida aqui. Essa começa com a porradaria na bateria de Neumeier e também aquela dose de humor sarcástico que notabilizou na Alemanha o Guru Guru. E entra o baixo pulsante fazendo da “cozinha” uma sinergia sonora perfeita, dando o tempero com a guitarra rosnando em riffs poderosos e agressivos. Definitivamente um exemplar de proto metal, dada a intensidade em que a música foi executada ao vivo, ganhando vida maior.

Guru Guru - "Bo Diddley", Live Essen 1970

“Live Essen” corrobora, em minha humilde opinião a melhor fase do Guru Guru, o power trio que era caracterizado por Tepte, Genrich e Neumeier, a formação que construiu a “era” gloriosa da banda, mais calcada no peso lisérgico, no hard progressivo, aliado a despretensão, a energia, a atmosfera agressiva e por vezes experimental, com o space rock protagonizando. Foi nessa fase que o Guru Guru construiu a sua discografia mais representativa, com “UFO”, “Hinten” e, mais tarde, o excepcional “Kanguru”, lançado em 1972. 

“Live Essen” é a personificação dos anos dourados do Guru Guru, o ápice da representatividade do krautrock menos ortodoxo e extremamente versátil e diverso. Há quem diga que a última faixa, “Bo Diddley” foi cortada, talvez por algum problema técnico ou de ordem organizacional do festival, mas o fato que isso não influencia negativamente em nada o registro mágico de uma banda espetacular ao vivo em pouco menos de 40 minutos. Altamente recomendado!



A banda:

Ax Genrich na guitarra

Mani Neumeier na bateria e vocal

Uli Trepte nos vocais e baixo


Faixas:

1 - Stone In

2 - Der LSD-Marsch

3 - Bo Diddley


Alphataurus - Dietro L' Uragano (1992)

 

Atualmente ou diria desde sempre muitos materiais esquecidos de algumas bandas, que, por algum motivo, caíram no ostracismo, estão ganhando a luz, sendo lançados. Músicas inacabadas, demos tapes, momentos de descontração dos músicos que foram captados etc, são lançados com aquela promessa de algo inesquecível, com aquele discurso de pérola esquecida.

Não se sabem os motivos pelas quais essas músicas são lançadas: caça-níquel? Talvez! O dinheiro ganhando relevância na indústria da música em detrimento da música. Para amenizar a “dor” dos fãs, carentes, viúvos de materiais inéditos de suas bandas preferidas? Bem possível! Alguns álbuns são lançados com aquele título de “edição de colecionador”, pois sabem que, avidamente consumirão esses materiais.

Agora será que a qualidade sonora é ou pelo menos deve ser colocada como possibilidade, haja vista que sobras de estúdio, ensaios e momentos de descontração deve se pontuar com momentos de criação, de criatividade? Quem sabe!

O fato é que não custa conferir tais materiais e tirar as suas próprias conclusões, pois as percepções de música são particulares, afinal o que pode ser ruim para alguns, pode ser muito bom e proveitoso para outros. Mas será que somos influenciáveis? O que quero dizer com isso? Será que, quando amamos uma banda e, claro, sua sonoridade, quaisquer comentários e análises podem vir carregadas de fanatismo, pela cegueira desmedida de “fã”.

Mas não quero aqui levantar, o tempo todo, conjecturas, e deixar o meu depoimento textual de álbum que ouvi, há algum tempo, que fez com que eu revisse os meus conceitos em relação a esses álbuns.

Falo do segundo álbum da banda italiana ALPHATAURUS chamado “Dietro L’Uragano”, lançado há trinta anos atrás, em 1992. Conheci, como outras pessoas, o Alphataurus pelo seu estupendo debut, de nome “Alphataurus’, de 1973 que, apesar de não ter tido aquela visibilidade à época, atualmente está em um status de grande importância para a cena progressiva italiana e que serve, sem dúvida de referência para muitas bandas novas que surgem fortemente na Itália, sobretudo nos últimos 20 anos.

“Dietro L’Uragano” foram esboços, alguns diriam “sobras” deste álbum de 1973 e que seriam usados para o novo trabalho da banda que seria lançado naquela época, ou ainda composições que estavam sendo empreendidas mas que, por algum motivo deixou de ser, essa última é a história mais difundida na história obscura dessa grande banda que merecia, à época, mais credibilidade pelo que produziu.

Esse que vos fala, ou melhor, escreve, é um amante do Alphataurus e que, quando conheci seu debut foi como que uma nova janela de perspectivas sonoras se abrindo diante dos meus olhos, abrandando o meu coração e deleitando os meus ouvidos. E quando ouvi “Dietro L’Uragano, afinal, nada mais natural, quando conhece uma banda e aprecia, você busca mais materiais desta para se aventurar em sua sonoridade, foi igualmente arrebatador.

Mas antes de mergulhar fundo em “Dietro L’Uragano” falemos um pouco da história da banda. O Alphataurus Surgiu na cidade de Milão, em 1970, e foi tida como uma das bandas obscuras que povoa a cena progressiva italiana nos anos 1970.

Apesar de atingir essa condição de banda desconhecida conseguiu um contrato com uma nova gravadora chamada “Magma” e lançou seu primeiro grande álbum, “Alphataurus”, em 1973. Provavelmente o conseguiu tal contrato por não ser conhecida e, como o selo era novo, estava investindo em bandas novas e desconhecidas.

"Alphataurus", de 1973

O fato é que “Alphataurus” não conseguiu atingir o êxito comercial esperado apesar de apresentar todas as características típicas do rock progressivo italiano: camadas fantásticas de teclado, vocais dramáticos e bem elaborados, cantados em italiano, claro, uma mistura excepcional de seções leves e pesadas, com viradas instrumentais de tirar o fôlego, até levadas blueseiras e jazzísticas.

A formação da banda neste álbum tinha Michele Bavaro, nos vocais, Guido Wasserman na guitarra, Pietro Pellegrini no piano, hammond, vibrafone, moog, Alfonso Oliva no baixo e Giorgio Santandrea na bateria.

Alphataurus

Reza a lenda que, quando eles estavam se preparando para gravar o segundo álbum, que não tinha nome, ainda em 1973, onde Iniciara os trabalhos de composição, de produção do mesmo, ocorre algum infortúnio que ninguém sabe ao certo, a banda se separa, some da cena progressiva da Itália sem deixar rastros. Os vocais não foram gravados, não foram inseridos nestas composições e tudo indica que o vocalista abandonou a banda ou não teve tempo para gravar a sua parte. Tudo que girou em torno desse “esboço” foi em uma aura de mistérios e incertezas.

O projeto ficou inacabado, não foi concluído. Foi esquecido. A banda finalizou as suas atividades, precocemente. Os músicos seguiram, cada um, as suas carreiras individualmente. O baterista Giorgio Santandrea esteve por um breve período na banda Crystals, enquanto que o tecladista Pietro Pellegrini colaborou, entre outros, com Riccardo Zappa e Premiata Forneria Marconi.

O vocalista Michele Bavaro gravou um disco solo, de viés comercial, no fim dos anos 1970, inclusive esse trabalho teve o foco de exportar a música italiana para o mercado sul americano, tendo visitado o Brasil, inclusive e cantado em algumas cidades, como Cuiabá e Belo Horizonte.

Em 1992, a gravadora Mellow descobriu esse material esquecido, perdido e o lançou, quase dez anos depois do lançamento de “Aphataurus” com o nome “Dietro L’Uragano” e digo, com toda a força de minha alma e coração, de que este álbum, embora tenha uma carga de críticas não muito boas, traz a força e a proposta sonora do Alphataurus, sobretudo impressa no seu primeiro álbum.

As faixas bem elaboradas, com uma “nitidez” absurda que expõe todas as características do rock progressivo italiano: peso, personalidade, alto teor de dramaticidade, com viés sinfônico, com ênfase nos teclados, em solos viajantes de guitarra e uma “cozinha” bem sinérgica e definida.

O álbum traz a seguinte formação: Guido Wasserman na guitarra, Pietro Pellegrini, nos teclados, Alfonso Olive no baixo e Giorgio Santandrea na bateria e vocal.

Então dissequemos, faixa a faixa, esse belo trabalho sim, do Alphataurus e se preparem para a viagem sem passagem de volta, pois sem dúvida trata-se de um trabalho excepcional da banda, mesmo que incompleto, sem vocal.

O álbum é inaugurado logo com uma pedrada, com um arrasa quarteirão: “Ripensando E...”. O trabalho do moog, das teclas emociona, é contemplativa, te tira do chão, faz flutuar. A bateria entra, marcada, seguindo o ritmo viajante, o progressivo italiano se faz presente, é a personificação timbrada nesta música. Pode ser sentida a ausência do vocal, podemos, sem sombra de dúvida, encará-la como um clássico instrumental, a beleza dos instrumentos é inquestionável.

"Ripensando E..."

A “situação” não muda com a faixa seguinte: “Valigie Di Terra”. A introdução agora fica a cargo da bateria, em um estágio meio experimental, entrando e mantendo tal atmosfera os teclados e, gradativamente, vai ganhando substância, corpo, peso, se tornando mais solar, animada, as viradas rítmicas ganhando protagonismo. Outra música digna de reverências.

"Validgie Di Terra"

Na sequência tem a curta “Idea Imcompiuta” que se destaca, em uma espécie de introdução, os teclados, com a participação da bateria dando uma textura jazzística, mostrando o Aphataurus tal perícia desde os seus primórdios.

E fecha com a excelente “Claudette” que começa lindamente com um piano que depois nos conduz a uma seção estupenda de inspirações sinfônicas avassaladoras e nesse emaranhado de fragmentos sinfônicos tem no fundo um baixo forte, pulsante e vivaz marcando plenamente essa faixa com uma riqueza instrumental invejável. É simplesmente de tirar o fôlego, tantas viradas, tantas percepções sonoras em uma única faixa. Mas na metade da faixa finalmente surge um vocal, a voz do baterista Giorgio Santandrea, discreto, sem tanta potência.

"Claudette"

De fato “Dietro L’Uragano” pode ter sido conhecido como o “projeto inacabado”, sem dúvida, mas com a sensibilidade e a competência de músicos que afloram de forma singular. Há de se deleitar com os instrumentos, a viagem instrumental é garantida e por mais que seja sentida a ausência de um vocal conduzindo todos esses soberbos instrumentos, sobretudo depois de um álbum anterior com um vocal marcante, podemos encarar esse trabalho como uma exibição, sim, instrumental e de grande inspiração.

Em 2010, três dos componentes originais (Pellegrini, Wassermann, Santandrea) reformaram a banda para participar do Progvention de Mezzago, um festival conhecido na Itália. A formação, que inclui o cantor Claudio Falcone, o tecladista Andrea Guizzetti e o baixista Fabio Rigamonti, permaneceu também para alguns shows em 2011. 

E em 2012 finalmente é lançado um álbum de inéditas chamado “AttosecondO”, com a inclusão do baterista Alessandro "Pacho" Rossi e em 2022, após esse período pandêmico, a banda retorna com nova formação e fazendo shows pela Itália. Mas isso é outra história.



A banda:

Guido Wasserman na guitarra

Pietro Pellegrini nos teclados

Alfonso Oliva no baixo

Giorgio Santandrea na bateria e vocal


Faixas:

1 - Ripensando E....

2 - Valigie Di Terra

3 - Idea Imcompiuta

4 - Claudette



 

Showmen 2 - Showmen 2 (1972)

 

O que me encanta em cenas locais de rock é a efervescência, a intensidade e principalmente a sinceridade sonora em que ela é concebida. Fatores comportamentais, sociais, econômicos, todas essas influências são, pelo menos para mim, predominantes na construção das bandas, das músicas e do público que as seguem.

Liverpool, Canterbury, Birmingham, Belo Horizonte, São Paulo, entre tantas outras que nasceram com um aspecto bem “regionalista” ditam, muitas das vezes, com o rock n’ roll de um país inteiro, sobretudo quando atinge determinada projeção e acaba por influenciar aquela garotada ávida por música, ávida por botar para fora toda a sua fúria cotidiana em que o sistema, podre, os impõe.

Diante dessas cenas acima mencionadas, tão conhecidas e que ganharam seus países e até mesmo o mundo com as suas bandas, há aquelas que não ganharam projeção global, mas que influenciaram grandemente o seu país de origem, servindo de referência para a sua cena, servindo de pilar para a edificação de um estilo inteiro: falo da região italiana de Nápoles.

E por que falo de Nápoles? Eu parei para pensar que conheço algumas das principais bandas italianas de prog rock e que são oriundas dessa cidade tão importante para a cultura do País da Bota: Osanna, Il Balletto di Bronzo, Cervello, Città Frontale e uma, em especial, que carrega o nome da cidade e que é uma das grandes bandas de jazz rock italiano, a Napoli Centrale.

E nas minhas mais intensas e necessárias buscas e garimpos por bandas novas, novas percepções de som, de estilos e tudo mais, conheci, quase que por acaso, assistindo a um vídeo, antigo, do início dos anos 1970 de uma apresentação uma banda chamada SHOWMEN 2.

O nome, um pouco inusitado, talvez um pouco indulgente e narcisista, me surpreendeu, me chamou a atenção mesmo que por um curto e simples vídeo empoeirado, nos cantos virtuais da grande rede e me pus a buscar informações sobre ela. Pouco, para variar, encontrei sobre ela, poucos textos, algumas menções sobre, o que mais me “atiçou” a ouvir algo dela.

E achei um álbum chamado “Showmen 2”, lançado há 50 anos atrás, em 1972. Me pus, quase que imediatamente a ouvi-lo, em uma necessidade quase que patológica ou diria vital. Sabe quando a música te arrepia por inteiro? Aquela coisa vital que a música te provoca, o oxigênio necessário que te faz rejuvenescer por inteiro?

Mas não vou tecer, pelo menos ainda, comentários sobre o álbum e tentarei falar sobre os primórdios da banda em Nápoles e o quão esta impactou a cena de lá e que, mesmo não tendo atingido o ápice do sucesso comercial, deixou, de forma indelével a sua marca no rock progressivo italiano, principalmente com o seu único álbum.

O Showmen construiu uma história relativamente longa nos anos 1960, talvez uma das primeiras bandas de rock italianas que nasceram em meados desta década, como poucas que vingaram nos anos 1970 e que construíram uma história discográfica consistente. Era a versão pré-Showmen 2, que se chamava meramente “Showmen” e que existiu de 1966 até 1970.

O Showmen foi idealizado pelo baixista e vocalista Mario Musella e pelo saxofonista James Senese e o seu primeiro single, que teve alguma repercussão foi lançado em 1968 e se chamava “Un'ora sola ti vorrei” e que ganhou alguns prêmios e reconhecimento do público e crítica no festival “Cantagiro”, no mesmo ano, 1968. Emplacou outros sucessos radiofônicos em 1969. 

"Un'ora sola ti Vorrei", Cantagiro (1968)

O Showmen trazia na sua estrutura sonora, nos seus primórdios, uma miscelânea, tais como soul music, R&B (Rhythm & Blues), beat e música pop italiana. Uma proposta um tanto quanto arrojada para uma época marcada pelo beat italiano, algo como a psicodelia e música popular italiana, aquele som meio “macarrônico”.

The Showmen (Capa do álbum de 1969)

A banda, à época, era formada por Mario Musella no vocal e  baixo, James Senese no sax, flauta, percussão e vocais, Elio D’Anna no sax e flauta, Giuseppe "Pepè" Botta na guitarra, Luciano Maglioccola nos teclados e Franco Del Prete na bateria e percussão.

A banda, nesta formação original, se separa na transição para a década de 1970, com Mario Musella investindo em uma carreira solo mal sucedida, sem brilho, morrendo em 1979 e Elio D’Anna indo para outra grande e importante banda de Nápoles, o Osanna.

Em pouco tempo James Senese e Del Prete juntamente com Giuseppe Botta que assume o baixo, reformam a banda, com uma nova formação com Gianmichele Mattiuzzo no órgão, piano e vocal, Piero Alonso na guitarra, Mario Archittu no trombone e piano, além de Senese no sax, flauta, percussão e vocal e Giuseppe Botta no baixo e vocal.

Eis então a nova formação e também uma nova vertente na sua concepção de som, seguindo as tendências progressivas que povoava a cena italiana, bem como um novo nome, mas nem tanto: nascia o Showmen 2, um pouco parecida com a história do Amon Duul II, seminal banda alemã precursora da cena krautrock.

A banda, como na época do “antigo” Showmen, começou lançando alguns singles, até para que o público que os acompanhava desde meados dos anos 1960, digerissem a nova estrutura sonora que estavam praticando. E a partir daí finalmente lançaram o seu primeiro álbum simplesmente chamado de “Showmen 2”, em 1972, alvo do texto de hoje.

Mas há alguma confusão com o nome da banda, pois antes do lançamento de “Showmen 2” a banda estava em turnê como Showmen 2, mas os materiais de divulgação dos shows que realizavam os nomearam apenas como “Showmen”, do qual foi tirado alguns singles, inclusive, pelo pequeno selo local, de Nápoles, chamado “BBB” com pouquíssima divulgação.

E falando em gravadora, em selo, a banda foi cogitada para assinar com a conhecida RCA que ficou muito impressionada com a música “Amore che Fu”, mas impôs a condição de seguir com a mesma proposta nas outras músicas o que foi rejeitado pela banda, não acontecendo, consequentemente, um desfecho positivo na negociação. Eles andaram muito com as fitas máster debaixo do braço antes de chegar a negociar com a RCA, mas depois de insucesso com esta gravadora, a banda retorna à Nápoles e negocia com Antonio Taccogna, dono da BBB, conseguindo fechar contrato.

“Showmen 2”, o álbum traz uma levada de beat italiano, algo de psicodelia com pés calcados em um envolvente e intrigante rock progressivo no ápice da cena italiana. Trata-se de um álbum espirituoso, solar, intenso, dramático, com os resquícios de seu não muito distante passado, com a adição de instrumentos de sopro dando uma atmosfera dançante, envolto em uns discretos sons jazzísticos. Como curiosidade na época da “construção” do álbum, os músicos, preocupados com cada nota e arranjo, se deslocaram para Roma para ter a ajuda do baixista do Perigeo, Giovanni Tommaso, que os ajudou prontamente.

Se percebe também algo pop neste álbum, algo radiofônico, comercial, mas garantido pela qualidade garantida pelo prog rock, R&B, jazz e até mesmo levadas blueseiras garantidas pela emoção da guitarra, além, claro, dos arranjos de trompete, flauta, saxofone tornando este álbum especial e único. Os vocais também precisam ser enaltecidos neste trabalho do Showmen 2. São vibrantes, versáteis, criativos e dramáticos tendo a seção rítmica dando uma textura poderosa e complexa.

O álbum é inaugurado com “Abbasso lo zio Tom” com uma típica introdução progressiva com teclados em profusão, mas irrompe em uma explosão de trompetes, de instrumentos de sopro como que em uma big band de respeito. A passagem jazzística impera com os vocais melódicos e gritados, ao mesmo tempo, com viradas interessantes trazendo à tona o beat italiano que fez parte de sua história passada que, entre curtos e intensos solos de guitarra, faz trazer um pouco de lisergia.

"Abbasso lo zio Tom"

Na sequência tem talvez a mais conhecida do álbum: “Amore che fu” que inicia com uma pegada mais folk, violões dedilhados com simplicidade, que depois vem a flauta trazendo uma atmosfera mais contemplativa, viajante, meio experimental, inclusive, mas que vira para uma versão sessentista, mais comercial, pop, mas com extrema qualidade.

"Amore Che Fu"

“Epitaffio” começa introspectiva, soturna, sombria, uma fala assustadora aparece, tensa e ameaçadora, com guitarra distorcida, meio lisérgica, mas logo volta ao clima progressivo impecável, de excelente bom gosto, com belas viradas rítmicas e solos de guitarra curtas e pesadas.

“Corri Uomo Corri” começa com um consistente viés jazzístico, animada, um tanto quanto solar, introduzindo um pouco da dramaticidade típica do prog rock italiano, mas que logo volta para a levada jazzística com o destaque para a “cozinha” da banda em uma sinergia incrível.

"Corri Uomo Corri"

“E la vita continua” traz uma carga forte de dramaticidade, mas forte e intensa, com um lindo vocal melódico praticamente à capela tendo uma textura discreta de teclado ao fundo que é rasgada com guitarras estridentes e suaves, ao mesmo tempo. Um som poderoso não se faz necessariamente com peso. Essa faixa é um exemplo disso.

E fecha com “Ma che uomo sei” sintetiza fortemente o que é o álbum: múltiplo, complexo, versátil. Solos de trompetes introduzem a faixa com intensidade, com força e depois de dedilhados de guitarra o vocal surge forte, de alcance, limpo.

"Ma Che Uomo Sei"

Uma curiosidade sobre a faixa inaugural do álbum, “Abbasso lo zio Tom”, que foi lançado como single tinha letra sobre racismo e “Epitaffio” com textos muito forte, foram consideradas inadequadas e subversivas demais para a época e foram pela RAI, emissora de televisão famosa na Itália, além também da faixa “E la Vita Continua” e essas censuras caíram como uma bomba para as vendas do álbum, que não passou de 4.000 mil cópias, talvez 5.000.

A banda participou de alguns festivais conhecidos e de prestígio na Itália como o de Nápoles, Palermo e os conhecidos "Feste dell'Unità" que eram shows ao ar livre organizados pelo Partido Comunista, muitas vezes tocando com outros grandes nomes da cena progressiva. Tocaram pouco em clubes e discotecas, porque seu som não se encaixava, a não ser que revistasse faixas da época do antigo “Showmen”, mas James Senese evitava ao máximo tocar material desta época.

Mesmo assim a banda não conseguiu alçar voos, sofrendo inclusive com a total falta de apoio e ostracismo. O álbum “Showmen 2” foi inclusive creditado a outra seminal banda de Nápoles chamada Napoli Centrale, que foi inclusive criada pelos integrantes James Senese e Franco Del Prete, quando saíram do Showmen 2, sendo talvez esse o motivo da triste associação, pelo fato do Napoli Centrale ter conquistado certo sucesso na cena jazz rock progressiva na Itália. Ainda assim o álbum é altamente recomendado! Uma pérola empoeirada que certamente merece a luz.



A banda:

Gianmichele Mattiuzzo no órgão, piano e vocal

James Senese no saxophone, flauta, percussão e vocal

Pepe Botta no baixo e vocal

Piero Alonso na guitarra

Franco Del Prete na bateria e percussão

Mario Archittu no trombone e piano

 

Faixas:       

1 - Abbasso lo zio Tom

2 - Amore che fu

3 - Epitaffio

4 - Corri uomo corri

5 - E la vita continua

6 - Ma che uomo sei


"Showmen" (1972)


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