segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Do Pior Ao Melhor: U2

 

Do Pior Ao Melhor: U2

No dia 25 de setembro de 1976, nascia uma das maiores bandas da história do rock, e com certeza, por mais detratores que discordem, a maior banda da Irlanda: U2. A carreira de Bono (vocais), The Edge (guitarra, vocais), Adam Clayton (baixo) e Larry Mullen Jr. (bateria) e recheada de altos, baixos e mais altos ainda. São 15 álbuns de estúdio no total, que dividem-se em blocos exatos de três discos, caracterizados por fases bem distintas ao longo desses 48 anos de carreira. Além disso, há vários ao vivos, e o projeto Passengers, ao lado de Brian Eno, que não irei incluir aqui por não ser um disco oficial do U2, apesar do quarteto se fazer presente. 

Sei que causarei polêmicas aqui, mas ao mesmo tempo, deixo bem clara qual dessas fases é a minha favorita. Vamos então a esse Do Pior Ao Melhor, e esperando para ver o que o U2 irá preparar para uma nova fase, se é que ela virá, já que ao que parece, os caras deram de Elvis e parecem rumar à aposentadoria em Las Vegas.


15. Songs of Surrender [2023]

O último álbum do U2 é também o último disco que recomendo para alguém que não conhece a banda. A reinvenção de faixas clássicas do grupo não funciona em momento algum. Seja na versão enxuta (com 16 faixas) e principalmente na versão completa (com 40! músicas), o que fica ao final da audição é a pergunta “pra que lançarem isto?”. Sem Larry Mullen Jr. de forma direta, e tão pouco Adam Clayton, Bono e The Edge parece que resolveram brincar de tocar algumas músicas da banda em formato acústico, e decidiram gravar isso. A qualidade das versões ficou muito abaixo das originais. As melhorzinhas são “The Little Things That Give You Away” e “Peace On Earth”. O resto, todas ficaram abaixo ou bem abaixo, e das bem abaixo, impossível não citar “Desire” e “Two Heart Beat as One” como as piores. Essa versão dance de “Two Heart Beat as One” é no mínimo para levar os dois presos por alguns meses. As versões para músicas de Zooropa e Pop, caracterizadas por batidas eletrônicas, ficaram pífias, com admirável raiva para o que os dois fizeram com “If God Will Send His Angels”, que me deu vontade de socar o aparelho de som na primeira vez que ouvi. Por fim, “Cedarwood Road”, “Vertigo” e “Until The End of the World” ficaram tão desnecessárias que a prisão citada acima poderia se ampliar por mais alguns dias. Um dos piores discos desta década, e que creio ser o único a ser o mais fácil de posicionar aqui. 


14. Songs of Innocence [2013]

O polêmico disco em parceria com a Apple inicia a quinta fase do grupo, a qual traz resquícios de todas as demais fases da banda. Em um disco bastante pessoal para Bono, destacam-se “Iris (Hold Me Close)”, “This Is Where You Can Reach Me Now” e principalmente “Cedarwood Road”, para mim disparada a melhor faixa do álbum. Também gosto de ouvir as homenagens aos Beach Boys (“California (There Is No End To Love)”) e aos ídolos punk Joey Ramone (“The Miracle (of Joey Ramone)”) e Joe Strummer (“This is Where You Can Reach Me Now”). Mesmo tendo uma que outra faixa aquém, no geral é uma boa audição. Porém, nada demais. Um disco que passa despercebido, que não nos traz aquela vontade de ouvir novamente, e assim, fica aqui em 14°.


13. All That You Can’t Leave Behind [2000]

Disco que marca o retorno do U2 ao sucesso de crítica entre fãs e imprensa, para mim é um disco bem passável. Tudo bem, aqui estão “Beautiful Day”, “Elevation” e “Walk On”, faixas que ganharam muito destaque na época, mas no final da audição, o que me passa é um disco arrastado e pouco criativo, vide as esquecíveis “Grace”, “Kite” e “When I Look at the World”, que acredito nem os membros do U2 lembram que existem. Curto bastante a simplicidade de “Wild Honey” e as experimentações de “New York”, assim como os bons clipes de “Stuck in a Moment You Can’t Get Out Of” e da citada “Walk On” (gravado no Brasil), mas no geral, por mais que tenha vendido mais de 15 milhões de cópias, não roda no meu aparelho há algum tempo. 


12. October [1981]

A coisa aqui começa a complicar, mas October ainda não me convence. É um disco de transição dentro de uma banda que começa muito bem em Boy para chegar num patamar alto em War, e por isso fica bem estranho não curtir o mesmo. Mas com a sombra desses dois gigantes, acaba ganhando críticas. Apesar de ter faixas muito interessantes como “Gloria”, “I Fall Down”, e a belíssima faixa-título, somente com Bono acompanhado pelo piano, outras menos inspiradas como “I Threw A Brick Through A Window”, “Scarlet” e “Stranger in a Strange Land” acabam não convencendo. Falta algo nas músicas que tem nos outros discos dessa fase, que é a vitalidade, a guitarra pulsante de The Edge, e em essencial, uma música que marque. Talvez October melhore sua posição daqui uns anos, mas hoje, ainda não entra no meu Top 10.


11. Rattle and Hum [1988]

É difícil fazer um álbum gigante depois de um álbum gigante, e essa tarefa árdua recaiu em Rattle and Hum. Parcialmente gravado ao vivo, o álbum é a trilha sonora do documentário de mesmo nome, e trouxe um U2 voltado descaradamente para conquistar e manter o mercado norte-americano, principalmente ao incluir o monstro do blues B. B. King em “Love Comes to Town”, o rockabilly de “Desire”, as citações New Orleanas de “Angel of Harlem”, a parceria com Bob Dylan em “Love Rescue Me” (sendo que Dylan também é reverenciado na boa versão para “All Along the Watchtower”) e até na versão gospel de “I Still Haven’t Found What I’m Looking For”. Isso acaba me incomodando um pouco, pois essa “norte-americanização” do som dos irlandeses é demasiada para o meu gosto, e parece que cada música crava uma bandeira com listras vermelhas e brancas, com 50 estrelas sobre um fundo azul, no nosso cérebro. Um bom disco, um tanto quanto longo, mas nada mais que isso. O documentário completo é bem melhor do que o que foi registrado aqui. 


10. Songs of Experience [2017]

Bastante experimental, como o nome sugere, é o melhor disco da quinta fase da banda. Daqui sai a melhor música do U2 na última década, “13 (There Is A Light)”, simplesmente de fazer até as paredes da casa chorar. O melhor de Songs of Experience é a diversidade de estilos, que vão desde músicas para pular e cantar em alto e bom som, vide “American Soul” e “Lights of Home”, outra que também pode ficar com o status de melhor música do U2 na última década, e a leveza de “Summer of Love” e “Landlady” por exemplo. Mais destaques positivos para “The Little Things That Give You Away” e “Love is All We Have Left”, faixas nas quais os teclados são bastantes participativos, e com um pequeno deslize em “You’re The Best Thing About Me”, a qual é experimental demais para mim. Um disco que cada vez mais cresce nas audições, e merece mais atenção dos fãs.


9. The Unforgetable Fire [1984]

A grande guinada na carreira do U2 está aqui. Se antes eles eram uma banda com pouca expressão nos Estados Unidos, é com o início da segunda tríade que os caras conquistam “a América” em definitivo, começando com esse bom álbum. Eu tenho um coração dividido aqui. Se por um lado acho o mega-clássico “Pride (In the Name of Love)” uma canção que já deu o que tinha que dar, por outro lado “Bad” é uma das minhas canções favoritas de todos os tempos. Daí complica. “MLK” outra que se tornou famosa aqui, também não me passa tranquilamente. Como o disco tem de positivo as lembranças de Boy em “A Sort of Homecoming”, “Indian Summer Sky”, “The Unforgetable Fire” e “Wire”, mas perde-se em “4th of July”, “Elvis Presley And America”, “Promenade” (bem desnecessária), que me remetem à October, além das clássicas não me agradarem, entra bem abaixo nas minhas escolhas. 


8. Boy [1980]

Belíssima estreia oficial da banda. Tudo soando novinho, a guitarra do The Edge revolucionando o rock no estilo de tocar, um Bono sedento por sucesso e por mostrar-se como um líder, e a cozinha Adam Clayton/Larry Mullen Jr. casando como manda o figurino das grandes cozinhas  de todos os tempos. Eu me empolgo muito com a jovialidade do U2 aqui, atirando para um lado diferente do post-punk, seja nas festivas “A Day Without Me”, “I Will Follow”, “Stories for Boys” e “Out of Control”, ou na parte mais soturna de “An Cat Dubh”, a curta (e lindíssima) “The Ocean” e “Twilight”. Uma banda que experimentava novas sonoridades, calcada no baixo de Adam Clayton e nos timbres e notas inovadoras de The Edge. No fundo acho que a oitava posição é injusta para essa grande obra. O problema é que os irlandeses criaram mais sete obras que são espetaculares ao meu ver. A fórmula foi sendo adaptada com o passar dos anos, e assim, o U2 nunca mais gravou algo similar ao que foi feito aqui.


7. How to Dismont an Atomic Bomb [2005]

Misturando o que foi criado em The Joshua Tree com sons mais orgânicos, How to Dismont an Atomic Bomb trouxe ao mundo U2niano mais um grande clássico, “Vertigo”. A guitarra de The Edge está fantástica aqui, e também ao longo de todo o álbum, assim como a voz de Bono estava no auge. Gosto muito de várias faixas onde a distorção prevalece, destacando “City of Blinding Lights”, “Crumbs from Your Table”, “Miracle Drug” e “Yahweh”. Porém, entre tantas faixas pesadas, o zênite do álbum é a suavidade da fantástica balada “Sometimes You Can’t Make It On Your Own”, simplesmente de arrepiar. Outra bonita balada é “One Step Closer”, com Bono cantando como poucas vezes se ouviu na vida. Uma lástima terem registrado algo tão intragável como “A Man and a Woman”, fácil uma das piores canções da banda, se não, How to Dismont an Atomic Bomb estaria fácil no Top 5 deste Do Pior Ao Melhor. 


6. War [1983]

Só por ter “Sunday Bloody Sunday”, War já tem muitos pontos. Daí ao ouvir “New Year’s Day”, outro clássico, uma das minhas faixas favoritas do grupo, não tem como não colocar War em uma posição boa. É o encerramento da terceira fase, que leva para as obras mais aclamadas pelo público e que torna o U2 o gigante que conhecemos hoje na sequência seguinte. War é um disco muito acima de October, mais bem acabado e com arranjos que grudam na mente. Os caras dão uma energia que faltava em seu antecessor, e assim, fincam na nossa mente boas faixas do calibre de “”40″”, “Like A Song …”, “Surrender” e “Two Heart Beat as One”. Como ponto negativo, a pior música do U2 para mim está aqui, “Red Light”, e por isso, assim como o grande deslize de “A Man and a Woman” no álbum da posição 7, War acaba não entrando no Top 5.


5. The Joshua Tree [1987]

Para muitos, este é o melhor disco do U2, e fim de papo. E entendo totalmente aqueles que amam The Joshua Tree. Afinal, o lado A (principalmente as quatro primeiras faixas) é quase um The Best of da banda, já que são simplesmente “Where The Streets Have No Name”, “I Still Haven’t Found What I’m Looking For”, “With Or Without You” e “Bullet The Blue Sky” responsáveis por apresentar o disco ao fã. Só clássicos, e só músicas únicas na discografia dos irlandeses. Lembro como foi a sensação de ouvir elas em sequência na turnê de aniversário do disco, simplesmente incrível. Mas acho que The Joshua Tree cai bastante nas demais faixas, principalmente no lado B. “In God’s Country”, “Trip Through Your Wires” e “One Tree Hill” são boas faixas? Sim, são. Mas perto do que as quatro citadas fazem, acabam soando realmente como músicas Lado B, e assim, não consigo curtir o TODO de The Joshua Tree. Se focasse só no Lado A, certamente o disco estaria em um Top 3 para mim. Só que as obras completas do U2 são mais importantes do que apenas quatro músicas! 


4. No Line On The Horizon [2009]

Lembro até hoje a primeira vez que ouvi este disco, e como fiquei apaixonado pelo mesmo. Parecia que o U2 estava voltando às propostas audaciosas de fazer músicas diferentes e grudentas, que eu tanto curto. Um disco de hinos para a nova geração de fãs, os quais são a espetacular faixa-título, “Magnificent” e “Moment of Surrender”, e obscuridades incríveis a serem descobertas, chamadas “FEZ-Being Born”, talvez a última revolução musical dos caras, “Cedars of Lebanon” e as pauladas “Breathe” e “Get on Your Boots”. No Line on the Horizon soa redondinho do início ao fim, fez o U2 vender absurdamente e, encerra aquela que considero a segunda melhor tríade de lançamentos da banda, só superada pelo que foi produzido nos anos 90.


3. Achtung Baby [1991]

Achtung Baby abre a terceira fase do U2, que compreende este, Zooropa e Pop. É a fase mais criticada e crítica do grupo. Com o status de gigante, Bono e cia. dão-se a liberdade de fazer experimentações musicais, migrando para o mundo do techno-rock, misturando muitos elementos eletrônicos com guitarras distorcidas e baterias programadas, saindo da crueza musical que caracterizou o grupo nos anos 80, e assim afastando aquela geração de fãs. Mas conquistando novos ao longo do tempo, e cada vez mais seguidores dessa tríade nos últimos anos. Meu irmão Micael, colaborador aqui do site, é um dos fãs “oitentistas” que detesta o que ele chama de “bateção de lata que o U2 inventou” nessa fase, mas eu, pelo contrário, adoro cada segundo do que foi feito nestes três discos. Em especial sobre Achtung Baby, entendo todo o choque que ele causou na época. Concentrando-se só nas músicas, como não gostar de “Acobrat”, “Even Better than the Real Thing”, “Until the End of the World”, “The Fly”, “Zoo Station” e a encantadoramente fantástica “UltraViolet (Light My Way)”, com seus ritmos avassaladores e totalmente diferente de tudo o que o U2 havia feito até então? Acho este o ponto central desse período, os irlandeses não tiveram medo de evoluir musicalmente, não importa qual o caminho que iriam seguir, saindo do estilo que consagrou o grupo e, audaciosamente, explorando algo totalmente inédito, que só iria ser aperfeiçoado nos dois discos posteriores.  E poxa, o disco simplesmente tem a melhor balada do U2, “One”. Quer mais? Somente em Zooropa e Pop para achar algo ainda melhor! 


2. Zooropa [1992]

Durante muito tempo Zooropa foi meu preferido do U2, por culpa de três faixas: “Lemon”, “Numb” e “Stay (Faraway to Close)”, não por acaso os três singles do disco. Se fosse fazer um Top 3 das minhas músicas favoritas do U2, “Lemon” estaria lá ao lado de “Please” e “Bad” (com “”New Year’s Day” correndo por fora). Que música! Ela bate em mim de um jeito raro, que dá vontade de sair cantando e dançando pela casa, e mandando o mundo se foder. O disco é uma aula de techno-rock, de forma que só o U2 conseguiu fazer, e ao longo de quase uma hora, passamos por belezuras do porte de “Daddy’s Gonna Pay for Your Crashed Car”, a complexidade de “The First Time”, ou a enigmática “Some Days Are Better Than Others”. Têm-se ainda as surpreendentes “The Wanderer” (com Johnny Cash) e, como não citar, a espetacular faixa-título, que abre o disco e coloca a casa abaixo hipnotizando através da guitarra e do baixo, e os vocais sussurados de Bono. Muitas críticas contra a TV, contra o consumismo, contra tudo e contra todos, e que foram levadas ao extremo no álbum seguinte, que é justamtente o melhor da banda!


1. Pop [1997]

Chovam as pedras. Eu sei que vão me chamar de louco, mas tenho convicção que Pop é o melhor disco do U2. Totalmente conceitual, criticando “a americanização do mundo”, como o próprio Bono afirmou na época, ao se pegar esse conceito e como o U2 construiu as músicas para mostrar o que é a a ascensão e a queda do consumismo, criticando isto através de músicas sensacionais, sem se focar em ser um U2 de sucessos, a ficha cai. Eu demorei muito tempo para gostar de Pop (como cito aqui), para entender a obra-prima que os caras criaram aqui, detestava o disco, até que um dia, bateu. Uma pena que a ampla maioria dos fãs e da imprensa criticam o disco apenas por músicas individuais, e não pegam o todo. Do ritmo festivo e alegre de “Discothèque”, passando pela euforia de “Mofo” e “Do You Feel Loved”, chegando na decadência moral da sociedade em “Last Night on Earth” e “Gone”, para tudo sucumbir em “Wake Up, Dead Man!”, um sopro de esperanças para um povo viciado no consumismo, tudo foi feito perfeitamente ao meu ver, e tudo se encaixa. Talvez não seja tão perfeito, por que poucos compreendem o que cada segundo de Pop quer dizer. Mas tenho mostrado isto para alguns amigos, e acabo convencendo-os de que o que foi registrado no final da década de 90 é um prenúncio de tudo o que está acontecendo no mundo ainda hoje, e para pior. Pop e Zooropa são meus discos favoritos do U2, só que cada vez que ouço “Please”, Pop ganha mais e mais pontos. E joguem às pedras! 

Stone Flower (CTI Records, 1970), Tom Jobim

 



No início da década de 1970, Antônio Carlos Jobim (1927-1994), ou simplesmente Tom Jobim, já não pertencia apenas ao Brasil. Depois de ter revolucionado a música popular com João Gilberto (1931-2019) e Vinicius de Moraes (1913-1980), e de ter conquistado o público norte-americano ao lado de Stan Getz (1927-1991) e Astrud Gilberto (1940-2023), o maestro carioca tornara-se uma entidade cosmopolita, dividido entre a mata e o arranha-céu, entre o canto do sabiá e o ruído das ruas de Nova York. Quando grava Stone Flower, em 1970, ele está imerso nessa dualidade. Mora parte do tempo nos Estados Unidos, onde encontra o clima ideal para aprofundar sua pesquisa sonora sob a tutela de Creed Taylor (1929-2022) — o produtor da CTI Records, selo que transformaria a sofisticação da bossa nova em uma nova forma de jazz de câmara tropical. 

É um disco feito à meia-luz, moldado na penumbra dos estúdios da Van Gelder, em Nova Jersey, sob o ouvido clínico do engenheiro Rudy Van Gelder (1924-2016) — o mesmo que captou o hálito quente de John Coltrane (1926-1967) e o som azul de Miles Davis (1926-1991). Ali, Tom se vê cercado por músicos como Eumir Deodato, Airto Moreira, Urbie Green (1926-2018) e Hubert Laws, todos brasileiros ou estrangeiros já convertidos à espiritualidade da bossa nova. Stone Flower nasce dessa confluência: o encontro entre a contenção harmônica de Jobim, a precisão jazzística americana e o frescor inventivo de uma música que parecia brotar da terra e da água. 

Stone Flower é uma obra que não busca o impacto, mas o equilíbrio. É o som de um arquiteto que esculpe o tempo, que planeja o silêncio e o som como quem constrói um jardim japonês. Cada faixa é um pequeno mundo autossuficiente, sustentado por um sopro de flauta, por uma percussão que soa como chuva distante ou por um piano que parece conversar com o vento. A atmosfera é de introspecção, como se Tom, entre a mata e a metrópole, tivesse encontrado o ponto exato onde a saudade se torna ciência. 

A sonoridade de Stone Flower é de uma delicadeza quase mineral. Tudo é lapidado — não há sobras, não há pressa. O disco parece girar em torno da ideia de equilíbrio, um conceito que Jobim perseguiu como quem busca o desenho ideal de uma folha. O piano é discreto, mas profundamente expressivo; o violão, quando aparece, é como um traço de carvão sobre o papel; a percussão de Airto Moreira é leve como uma respiração. Os metais e madeiras orquestrados por Deodato se entrelaçam em movimentos suaves, sustentando a tensão entre o erudito e o popular, entre o natural e o urbano. 

A diferença em relação aos discos anteriores de Tom, como Wave (1967), é a temperatura. Se Wave ainda trazia o brilho solar do Rio de Janeiro transposto para o Atlântico, Stone Flower é um disco de fim de tarde. A melancolia paira sobre os arranjos, não como tristeza, mas como contemplação. O som parece vir de dentro da floresta, mas filtrado pela técnica impecável da CTI. 

Tom Jobim em 1967, ano em que lançou o aclamado álbum Wave.

O álbum abre com “Tereza My Love” que traz um toque macio de um sonho. O piano de Jobim conduz a melodia como quem escreve uma carta íntima. As flautas de Hubert Laws flutuam sobre um ritmo lento, agradável, quase suspenso, enquanto o trombone de Urbie Green dá contorno a uma emoção que não se revela de imediato. Há um ar de saudade sem drama, uma ternura que nasce do silêncio. É o início perfeito para um álbum que parece fluir como um rio calmo. 

A faixa seguinte, “Children’s Games (Jogos de Criança)”, é dotada de notas que parecem cristalinas. O tema, já conhecido em versões orquestrais anteriores, ganha aqui uma aura impressionista: o piano de Jobim soa como gotas d’água, e a flauta Hubert Laws sopra ventos que lembram Debussy nos trópicos. Jobim cria uma paisagem sonora onde o lúdico e o sofisticado se tocam. É a simplicidade transformada em arte — um traço essencial da genialidade de Tom. 

Com “Choro”, Jobim mergulha nas raízes mais profundas da música brasileira. O título remete à tradição do choro urbano carioca, mas o tratamento é quase camerístico. O arranjo é contido, elegante, construído sobre um diálogo entre flauta e piano que parece evocar o passado sem jamais repeti-lo. É uma síntese entre o Rio antigo e o jazz moderno — o Brasil reinventado no estúdio de Van Gelder. 

Jobim revisita Ary Barroso com reverência e ousadia em “Brazil”, versão internacional da antológica “Aquarela do Brasil”. Sua versão de “Brazil” é uma reinvenção completa, que transforma o hino nacionalista em um mantra harmônico. Enquanto o ritmo exibe sensualidade e encantamento, os arranjos elaborados por Eumir Deodato criam uma atmosfera quase cinematográfica. O Brasil de Tom não é o das bandeiras e carnavais: é o Brasil íntimo, de melancolia e brisa noturna, que ele carrega na alma. 

A faixa-título é o coração do disco. “Stone Flower é uma peça hipnótica, construída sobre acordes repetidos e sutis mudanças de textura. A percussão e o baixo conduzem um ritmo que sutilmente remete ao baião propagado por Luiz Gonzaga. O tema serpenteia com a lógica de uma planta crescendo: lenta, orgânica, inevitável. A percussão discreta de Airto Moreira dá movimento ao que parece imóvel. O resultado é de pura magia. “Stone Flower” soa como uma oração pagã, um rito da natureza transformado em música. É aqui que o título do álbum se revela por completo — uma flor de pedra, símbolo da beleza resistente, do equilíbrio entre o efêmero e o eterno.


Um dos momentos mais introspectivos do disco é a faixa “Amparo”. Ela é quase uma miniatura impressionista, onde o piano e as cordas desenham o contorno de uma lembrança. Há uma delicadeza quase dolorosa na maneira como Tom manipula o espaço — cada pausa tem peso, cada nota tem destino. O tema parece flutuar no ar, como se não quisesse se fixar em lugar algum. 

Em Stone Flower, Jobim revista Ary Barroso (foto) através de "Aquarela do Brasil",


Em “Andorinha”, a natureza fala alto. O tema, que mais tarde apareceria com letra de Chico Buarque, é apresentado como uma peça instrumental de rara pureza. A melodia lembra o voo de uma ave: livre, ondulante, precisa. A flauta de Laws é o fio condutor, e o piano elétrico acompanha em movimentos suaves, quase hipnóticos. “Andorinha” é o Jobim ecológico e filosófico, o homem que enxerga música nos gestos do mundo natural. 

“God and the Devil in the Land of the Sun” traz a pulsação mais densa do álbum. O ritmo de Airto Moreira evoca o batuque primitivo, enquanto os metais criam um cenário de tensão espiritual. É o diálogo entre o sagrado e o profano, o sol e a sombra — temas caros a Jobim, que aqui assume um tom quase bíblico, mas sem abandonar o lirismo. É o ponto mais ousado do disco, e também o mais cinematográfico. 

O encerramento do é álbum é uma volta ao lar e traz Tom Jobim cantando uma canção por inteiro neste álbum. “Sabiá”, parceria com Chico Buarque, é uma das canções mais pungentes da MPB. A versão instrumental do álbum preserva a melancolia original, mas acentua sua dimensão contemplativa. O arranjo é etéreo, quase espiritual. Ao fim, o disco se fecha como começou: com doçura e silêncio. O ciclo está completo. 

Chico Buarque e Tom Jobim em 1968: parceiros de "Sabiá", gravada dois anos
depois por Tom para o disco Stone Flower.


Quando Stone Flower foi lançado pela CTI Records em 1970, a crítica norte-americana recebeu o álbum com entusiasmo contido — como algo “elegante demais” para o mercado popular, mas “belo demais” para ser ignorado. Na época, o jazz passava por transformações intensas com Miles Davis e Herbie Hancock explorando a eletricidade e o groove, enquanto Jobim seguia na contramão: suas harmonias eram analógicas, quase orgânicas, e seu tempo era o da respiração. 

O disco não foi um grande sucesso comercial, mas conquistou lugar de respeito entre músicos e colecionadores. Sua influência se estendeu silenciosamente: Herbie Mann, Quincy Jones e Claus Ogerman beberam dessa estética de silêncio e contenção. Décadas depois, Stone Flower seria redescoberto por audiências jovens atraídas pelo charme discreto da CTI Records e pelo apelo atemporal da bossa nova instrumental. 

Para Tom, o álbum representou o amadurecimento máximo de uma fase iniciada com Wave. Se Wave era o encontro entre o Brasil e o mundo, Stone Flower é o Brasil interiorizado — um Brasil sonhado. É o som de um artista que domina plenamente sua linguagem e, por isso, ousa falar menos. 

Com Stone Flower, Tom Jobim reafirma-se como arquiteto do som, mais que compositor. Seu método equilibra emoção e forma, explorando o silêncio e o espaço com contenção e precisão. O título simboliza essa fusão entre natureza e estrutura: a música brota da pedra, unindo rigor e fluidez. Nenhum outro disco seu expressa tão bem essa unidade. Intocado pelo tempo, Stone Flower mantém frescor e mistério — beleza que habita os intervalos entre as notas, revelando um artista maduro que compreende o poder do que se deixa ouvir.

 

Faixas

Todas músicas foram compostas por Tom Jobim, exceto a quarta faixa.

 

Lado A

  1. "Tereza My Love"
  2. "Children's Games"
  3. "Choro"
  4. "Brazil" (Ary Barroso) 

Lado B

  1. "Stone Flower"
  2. "Amparo"
  3. "Andorinha"
  4. "God and the Devil in the Land of the Sun"
  5. "Sabiá" (lyrics by Chico Buarque)

Ouça na íntegra o álbum Stone Flower


“Baby Let Me Kiss You” de King Floyd



O aclamado cantor de soul de Nova Orleans, King Floyd, lançou a contagiante e incrivelmente funky "Baby Let Me Kiss You" em março de 1971. Foi seu sucessor do sucesso estrondoso "Groove Me". A sincopação dessa poderosa canção é fenomenal. Ela se move com um ritmo sensual e funky, apresentando uma linha de baixo poderosa, um arranjo de metais matador e riffs de guitarra extremamente marcantes. Floyd entrega uma performance vocal dinâmica e fervorosa. O narrador expressa seu intenso desejo e atração física por uma mulher que o cativou completamente.

"Baby Let Me Kiss You" foi escrita por King Floyd e produzida por Elijah Walker. O renomado produtor, arranjador, líder de banda e compositor de Nova Orleans, Wardell Quezergue, foi o responsável pelos arranjos da canção. Foi um single do segundo álbum homônimo de Floyd, lançado em maio de 1971 pela Cotillion Records, uma subsidiária da Atlantic Records. A música teve um bom desempenho nas paradas, alcançando o 5º lugar na parada de singles de R&B da Billboard e o 29º lugar na Billboard Hot 100.

Os músicos que tocaram em “Baby Let Me Kiss You” incluíram Vernie Robbins (baixo), Wardell Quezergue (órgão), James Stroud (bateria), Jerry Puckett (guitarra), Jimmy Honeycutt (saxofone) e Bob Chessman (trompete).

"Baby Let Me Kiss You" foi sampleada em 18 músicas, incluindo "Bombastic" (Shaggy) e "Shoot 'Em Up" (Cypress Hill). A versão da cantora de R&B e disco Fern Kinney foi usada em um episódio da série da Netflix vencedora de três prêmios Emmy, GLOW   (3ª temporada, episódio 2, 2019). "Baby Let Me Kiss You" foi a última música de Pink Floyd a entrar no Top 40 da Billboard Hot 100. 


Milton Nascimento e Jobim Trio – Novas Bossas (2008)

 

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"Novas Bossas" é um álbum lançado em 2008 que une o cantor e compositor Milton Nascimento ao Jobim Trio (formado por Daniel Jobim, Paulo Jobim e Paulinho Braga). O disco revitaliza clássicos da bossa nova e canções consagradas com a fusão do estilo inconfundível de Bituca e arranjos modernos.

Faixas do álbum:
01. Tudo Que Você Podia Ser
02. Dias Azuis
03. Cais
04. O Vento
05. Tarde
06. Brigas Nunca Mais
07. Caminhos Cruzados
08. Inutil Paisagem
09. Chega De Saudade
10. Medo De Amar
11. Velho Riacho
12. Esperanca Perdida
13. Trem De Ferro
14. Samba Do Aviao




Milton Nascimento – Crooner (1999)

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Crooner é o vigésimo-segundo álbum de estúdio do cantor e compositor Milton Nascimento lançado em 1999 pela gravadora WEA  Music. O disco foi feito durante a turnê "Tambores de Minas", baseado no repertório que Milton utilizava em shows que tinha com o grupo Luar de Prata, ainda nos tempos de adolescente em Três Pontas além de passagens por grupos de jazz como W's Boys: nestes dois conjuntos junto de Wagner Tiso, um dos seus maiores parceiros  musicais. O álbum apresenta também um pouco de músicas inéditas, como "Certas Coisas" de Lulu Santos e "Resposta" do grupo Skank. Com a produção de Guto Graça Mello e arranjos concebidos por Wagner Tiso, o disco obteve grande repercussão da parte do público tendo a faixa "Certas Coisas" na trilha sonora nacional da novela Vila Madalena e "Resposta" na trilha sonora da novela Andando nas Nuvens durante o seu lançamento. Em 2000 foram acrescentadas faixas inéditas, como "Killing me Softly" um dos grandes sucessos de Roberta Flack que esteve na trilha da novela Uga Uga e nesse mesmo ano foi vencedor da categoria Melhor Álbum Pop Contemporâneo no Latin Grammy.

Faixas do álbum:
01. Aqueles olhos verdes (Aquellos ojos verdes)
02. Certas coisas
03. Only You
04. Mas que nada
05. Frenesi
06. Não sei dançar
07. Resposta
08. Beat It
09. Se alguem telefonar
10. Rosa Maria
11. Castigo
12. Ooh Child
13. Lagrima flor
14. Barulho de trem
15. Lamento no morro
16. Killing Me Softty
17. Pout pourri: O gato da madame / Edmundo / In the Mood / Cumanã cumana