domingo, 10 de maio de 2026

Sufjan Stevens – Carrie & Lowell (2015)

 


Andei algo descrente de Sufjan Stevens durante algum tempo, confesso. Custava-me ouvir o que o músico ia fazendo, trabalho após trabalho, e perceber que a qualidade dos discos lançados estava bem distante da mestria daquela obra maravilhosa que veio ao mundo em 2005 e que foi, para mim, o melhor disco saído nesse ano, faz agora uma década. Refiro-me a Illinois, obviamente. De lá para cá, na verdade, os álbuns realizados pelo artista de Detroit nunca mais me encheram a alma, nunca mais me surpreenderam nem me encantaram como aquele que atrás referi. Isto de comparar as coisas tem de ser feito, mas é lixado. Concordo com os que dizem que Sufjan Stevens nunca fez um mau disco, mas também espero que alguns concordem comigo a respeito de Illinois, álbum claramente de outro campeonato, bem acima dos que foram, entretanto, saindo.

Chegados a 2015, e quando nada o fazia prever, eis que nos chega, nos últimos dias de março, um novo disco de Sufjan Stevens. E, claro, lá fui ouvir as suas 11 canções, algo receoso, acautelando de antemão mais alguma eventual deceção que pudesse vir a caminho. Engano total, e cá estou eu, de novo, crente nos predicados de Stevens, capaz de ver nele um futuro artístico tremendo, tentando esquecer um ou outro embaraço anterior, como foi, por exemplo, o álbum Age of Adz, de 2010. O seu recentíssimo trabalho dá pelo nome de Carrie & Lowell, e foi gravado em 2014, no estúdio caseiro do músico, em Brooklyn. O conceito do disco gira à volta de um doloroso sentimento de perda, uma vez que sua mãe, Carrie, faleceu em 2012. O outro nome, espelhado no título do álbum, é o do padrasto de Sufjan Stevens. Assim, e para além dessa consciência íntima de dor que vai transparecendo em muitas das canções do disco, está ainda presente a inesgotável temática da memória de um tempo longínquo, em que a família viajava até Oregon para passar férias, pelo que um esgar de saudade surge também a dar um ar da sua graça neste Carrie & Lowell. Parece-me, acima de tudo, um disco em que o artista faz contas com um passado movediço, ora mais distante, ora mais próximo, tecendo nele múltiplas narrativas de solidão, de desencontros, de ausências físicas e espaciais. Ou, em última análise, Carrie & Lowell pode também ser um disco que fecha as portas a um tempo morto, abrindo outras para aquilo que o destino lhe trouxer. Em quaisquer desses vários sentidos, o disco estende até ao ouvinte a sua inequívoca aura romântica, pontuada por sombras e neblinas densas, mas onde nunca falta uma luz (as letras, as melodias, os arranjos, a voz doce de Sufjan Stevens) para nos guiar até um qualquer lugar onde nos sintamos confortados.

“Death With Dignity” abre o disco em grande estilo, o estilo que no artista mais admiro, intimista, próximo dos calores do coração e amigo das almas amigas e acolhedoras. “Should Have Known Better” segue-lhe os passos, e a fragilidade de todo aquele som é arrasadora, no melhor dos sentidos. Não é um disco para o verão, nem para grandes correntes de ar, muito mais próximo dos ínfimos murmúrios dos finais de tarde, quando o sol parece tímido e com vontade de se esconder em casa, para nunca mais voltar. As raízes da folk, que já conhecíamos de alguns dos seus discos anteriores, volta a ocupar aqui um lugar central. Em todas as faixas do disco, aliás, isso é notório. “Fourth of July” tem um lirismo irrepreensível, e é um dos melhores momentos de Carrie & Lowell. Se isto não é tocante (com embalo sonoro a condizer), então o melhor é não fazer caso daquilo que se canta: “Shall we look at the moon, my little loon/ Why do you cry? / Make the most of your life, while it is rife / While it is light”.

Todo o disco habita um prazeroso espaço celestial, revelando uma voz à procura de um tempo tragado pelo próprio tempo. Há pequenas analepses em que vislumbramos ambientes distantes, irrecuperáveis. A beleza das canções, dos seus versos e a capacidade de recuperar cacos de existências passadas por parte de Sufjan Stevens, esses são, seguramente, os grandes trunfos de Carrie & Lowell. A delícia deste disco reside muito aí, bem como na capacidade de acolhimento que conseguimos ter (ou não ter) em relação à dor e ao luto. E tudo isso poderá ser determinante para a apreciação deste novo objeto sonoro de Sufjan Stevens.


sábado, 9 de maio de 2026

Sundara Karma – EP1 (2015)


Primeiro as apresentações, que por agora são necessárias: os Sundara Karma são quatro rapazes de Reading, Inglaterra, acabadinhos de sair da escola, e que disputam o sempre perigoso epíteto de “nova melhor banda britânica”. Arriscado tendo em atenção que ainda só têm editado um EP. Pois.

Agora esqueçam o hype – que felizmente ainda não ultrapassou as fronteiras de terras de Sua Majestade – e podemos então analisar o que valem estes imberbes moços. E nada como deixar a música falar.

Este EP1 é a segunda investida gravada dos Sundara Karma, depois de uns singles gravados no ano passado. São quatro, apenas quatro músicas, mas que estão cravejadas de potencial pop.

Estes miúdos não vêm para revolucionar nada. A estrutura é a clássica banda rock – baixo, bateria, guitarra e voz – e o campeonato no qual se movem é o indie rock. A diferença para os milhares de projectos iguais que por aí andam reside no mais importante: nas canções. Nestas, na capacidade de nos agarrar, de afirmar, mais do que uma personalidade, um talento para conjugar notas e emoções.

As primeiras impressões atiram-nos para o melhor dos Vaccines, cortesia da energia jovem de grandes refrões – com uns toques épicos da composição dos Arcade Fire ou reminiscências dos primeiros tempos dos Killers, embora com mais caos e menos lantejoulas, felizmente.

Como cartão de apresentação, este EP1 é excelente, e deixa-nos ansiosos pelo disco de estreia. Fica-nos um único receio sobre o que aí virá: qual das forças que fazem esta banda reinará? A energia pop/rock ou a veia mais comercial que, aqui e ali, vislumbramos? É que os Sundara Karma mostram, nestes temas, que fazem singles com facilidade (ouça-se a maravilha viciante que é “Loveblood”), e isso, às vezes é perigoso. Cá estaremos para julgar.

Para já, é uma estreia em grande. Os Sundara Karma estão apresentados. Acreditamos que, dentro de pouco tempo, já não será preciso explicar quem são.


Miles Davis – Kind of Blue (1959)


Qual é o segredo de Kind of Blue? Porque é que é que quando inspeccionamos a colecção de discos dos nossos amigos ele está sempre lá e se não estiver deixam logo de ser nossos amigos? Porque é que a crítica e o público, eternos Tom and Jerry da indústria musical, fazem um cessar-fogo temporário no que respeita a esta obra-prima? Porque é que 87% dos matrimónios em que um dos cônjuges venera o Kind of Blue e o outro apenas gosta dele acabam em divórcio? As respostas a estas questões não são fáceis e vão demorar o tamanho deste texto.

Miles confunde-se com a própria história do jazz moderno. Aos dezanove anos, começa a fazer gazeta às aulas na Julliard School de Nova Iorque para tocar com Charlie Parker e Dizzie Gillespie, aprendendo mais jazz numa só jam session do que num ano inteiro de conservatório. Parker e Dizzie não eram dois músicos quaisquer, pertenciam à vanguarda que havia revolucionado o jazz com o bebop. Quando Dizzie se vai embora, é Miles que o substitui no trompete, acompanhando o deus Parker. Mas desde muito cedo percebe que nunca seria um virtuoso como Bird e Diz. Miles não esmorece, colmatando as suas limitações técnicas com outros atributos: o timbre, a subtileza, o lirismo, a expressividade. Quem não se pode esconder por detrás da velocidade, tem mesmo que ter algo muito especial para nos dizer.

À poesia dos seus improvisos, Miles alia outra virtude: a sua aptidão para pensar o jazz e detectar antes de todos os outros os seus pontos de fractura. Dedicou assim toda a sua vida a questionar os dogmas do bebop e a fazer avançar o jazz em relação a novas linguagens. Dada a sofisticação harmónica e rítmica do bebop, Miles compreendeu que só havia um caminho possível para essa evolução: simplificar outra vez o jazz. Foi assim que Miles patenteou o cool jazz em 1948 (gravando Birth of the Cool), um estilo radicalmente mais suave, lento e contido do que o frenético bebop. Foi assim que Miles esteve na linha da frente do hardbop (com o influente Walkin’ de 1954), um retorno ao feeling blues e gospel que havia ficado esquecido com um cool jazz cada vez mais europeu e cerebral. Mas foi em 1959 – com Kind of Blue – que Miles levou mais longe o seu projecto de simplificação com o chamado jazz modal.

Expliquemos o palavrão. Miles considerava que a própria harmonia era um dos obstáculos à criatividade, aprisionando o improvisador a uma determinada sequência de acordes. Por isso em Kind of Blue experimentou uma nova abordagem: reduzir os acordes ao mínimo, confinando a música a determinadas escalas mas explorando as infinitas possibilidades melódicas que elas encerram.

Miles depressa se apercebeu que não podia ter um pianista qualquer a bordo mas sim alguém que compreendesse as subtilezas da nova abordagem. Foi assim que recrutou Bill Evans, que mais do que mero side man, foi o braço direito de Miles em toda a arquitectura de Kind of Blue. Dizem até as más-línguas que Miles roubou a autoria de “Blue in Green” e “Flamenco Sketches”, na verdade escritas por Evans. Nunca houve disputas na barra do tribunal mas a verdade é que Evans e Miles nunca mais gravariam juntos.

O convite à última da hora a Evans não foi recebido da melhor maneira. Miles já tinha um novo pianista no seu sexteto, Winton Kelly, pelo que seria de muito mau tom deixá-lo de fora do novo projecto. Miles chegou então a um compromisso: deixou Winton tocar em “Freddy Freeloader”, o tema menos modal de todos, que assentava como uma luva na alma blues do pianista. Mas Kelly não sabia de nada e quando chega ao estúdio fica furioso por ver outra pessoa a açambarcar-lhe o piano.

Conta-se também que Coltrane torceu o nariz à ideia de terem um branco na banda. Nos clubes de jazz de Harlem, maioritariamente frequentados por negros, a reacção era a mesma: o que raio estava aquele “branquelas” a fazer num território que não era o seu? E o próprio Miles, que adorava o estilo sóbrio e impressionista de Bill, fazia questão de o deixar pouco à vontade, tratando-o por “whitey”. Evans nunca se sentiu confortável no seio da banda, raspando-se à primeira oportunidade.

Estes gestos racistas de Miles e Coltrane devem contudo ser lidos à luz do seu tempo. Na década de 50, os negros americanos não tinham ainda os mais elementares direitos civis, sendo tratados como cidadãos de segunda pela maioria branca. Miles era de classe média, filho de um dentista cirurgião, mas nem a sua condição social mais favorecida o protegeu do ferrete do preconceito. Nunca esqueceu de em pequeno ser chamado com asco de “nigger” por um desprezível redneck. A este tipo de humilhações, respondeu desde sempre com uma atitude orgulhosa e algo hostil. Nos clubes de jazz da 52nd Street, com audiências maioritariamente brancas, fazia questão de tocar de costas voltadas para o público, um statement político de recusa de qualquer servilismo à maioria branca. Seria admirado pela sua qualidade artística e nada mais, recusando o lugar de submisso entertainer a que tradicionalmente os artistas negros eram confinados. Pela sua atitude altiva e corajosa, Miles tornou-se um herói da comunidade negra, um modelo a imitar por milhares de jovens sedentos de orgulho e dignidade.

Já falámos de três grandes: o líder Miles no trompete, Bill Evans no piano e Coltrane no saxofone-tenor. Um quarto grande solista junta-se à dream team: Cannonball Adderley no saxofone-alto. Mais gigantes do jazz por metro quadrado seria impossível, algo muito semelhante a Maradona, Pelé, Eusébio e Ronaldo jogarem todos na mesma equipa. A secção rítmica é também irrepreensível: Paul Chambers no contrabaixo e Jimmy Cobb na bateria são Bento e Damas na mesma baliza.  Ninguém bate o olheiro Miles em farejar novos talentos. Pouco tempo depois, quase todos fazem furor como líderes das suas próprias bandas.

Há outra característica importante deste sexteto: a de juntar num só corpo sensibilidades muito diferentes, permitindo a Miles explorar todo o cambiante de contrastes. Onde Miles e Evans são contidos e minimais, Coltrane e Adderley são palavrosos e extravagantes. Da mesma maneira, a cor quente e exuberante do saxofone de Adderley dá o contrapeso perfeito ao negrume de quase todo o disco.

Só músicos desta estirpe estariam à altura do desafio proposto por Miles: gravar Kind of Blue com a máxima espontaneidade possível. Sabemos bem, desde os velhos tempos de New Orleans, que a improvisação faz parte da própria essência do jazz. Porém, Miles e Evans levam essa frescura um pouco mais longe, atirando os seus colegas aos leões antes de qualquer ensaio. Para sua protecção, nada mais do que um esboço muito vago do esqueleto dos temas, mostrado poucos minutos antes da fita começar a correr. Kind of Blue capta assim o momento da descoberta, músicos brilhantes explorando pela primeira vez os territórios virgens e selvagens do jazz modal.

E o resultado é de uma encantadora simplicidade, o jazz na sua forma mais depurada. Ora prestem lá atenção à entrada de Miles em “Blue in Green”, uma longa nota e depois outras duas, mas de tal forma expressivas que toda uma curta-metragem é de imediato projectada na nossa cabeça: um bar pela noite dentro desenhado a fumo e uma silhueta ao balcão com dois copos de whiskey – um para o desgraçado, outro para o seu desgraçado coração. Quem conseguir também com apenas três notas convocar tamanha miríade de sensações, que atire já o primeiro trompete.

O próprio nome “Kind of Blue” dá-nos duas pistas fundamentais sobre o disco.

Em primeiro lugar, identifica logo o tom lânguido e taciturno que atravessa todo o álbum. Ora reparem na improvisação de Coltrane em “Flamenco Sketches”, melancólica como um domingo à tarde da nossa infância. Ou ainda o solo de Evans no mesmo tema, gotas da chuva caindo devagar pela goteira e uma menina apanhando-as com a mão com todo o cuidado mas ficando triste quando uma das gotas se magoa contra o chão. Kind of Blue é assim, uma escultura minimal onde se desbastou tudo o que era fútil e redundante, deixando-se apenas a melancolia no seu estado mais puro.

O título do álbum remete-nos igualmente para o diálogo com os blues, agora reinventados à luz dos princípios modais. Miles tem aliás este dom: o de inventar o futuro do jazz num diálogo permanente com o seu passado. O jazz nasceu do blues e nas várias linguagens inventadas por Miles esta ligação com as suas origens foi sempre reactualizada. O carinho de Kind of Blue pela tradição que o antecedeu estende-se mesmo a outros estilos: nos sopros uníssonos de “So What” e “All Blues” há uma clara referência ao velho swing de New Orleans, assim como o saxofone sempre garrido de Cannonball Adderley é bebop no seu estado mais puro.

Mas mais do que o aspecto técnico assim e o aspecto histórico passado, o que realmente faz de Kind of Blue um disco tão especial é o seu profundo humanismo, a forma como tantas décadas volvidas ele continua a tocar certeiro nos “segredos dos locais, que no fundo são iguais em todos nós”.

Deus não existe, o paraíso também não. E para que serviriam eles quando já temos a magia de Kind of Blue?

 

ABC – The Lexicon Of Love (1982)

 


Escrever sobre The Lexicon of Love, dos ABC, é um exercício misto de nostalgia e prazer. A razão, se apenas uma houvesse, seria fácil de explicar, mas nem tudo é tão simples assim. O disco saiu em 1982 e nessa altura, tinha eu 14 para 15 anos, os ABC surgiram como a next big thing mundial. A new wave ganhava força, e o toque funky que transbordava do disco, tornava-o ainda mais delicioso. Os ABC estavam em toda a parte, sobretudo na televisão, com o teledisco de “The Look of Love (Part One)”. O disco, que andava comigo para todo o lado numa cassete BASF de cor verde (ferro super LH I, lembram-se?), encheu completamente as minhas medidas de teenager. Poucas vezes terei vibrado tanto com um álbum pop, tirando os particulares casos dos discos dos Blondie, uma vez que era (e confesso ser ainda) totalmente fanático pela loiríssima Debbie e restante companhia. Nesse tempo, deixem-me contextualizar, surgiram também dois discos que competiam pelo podium da minha predileção. Eram Select, da igualmente loira Kim Wilde, e Pelican West, dos Haircut 100. Mas, para dizer a verdade, o primeiro lugar sempre foi dos ABC. Tudo isto acontecia na cabeça de um jovem rapaz (eu, como já terão percebido) completamente apaixonado por música, numa época em que essa mesma música evoluiu para lugares tão novos e estimulantes, como também para outros menos interessantes e embaraçosos, digamos assim. No início dos anos 80, bandas como Duran Duran, Spandau Ballet e Classix Nouveaux (os new romantics, pois claro) surgiram em força, e isso mexeu com muita gente. Eu não escapei a esse vírus. No entanto, sobrevivi a males maiores, e quase todos os nomes referidos, pouco tempo depois, mais não representavam para mim, do que boas recordações de um tempo igualmente bom, o da juventude. Ainda tenho discos de todos eles, e vários, na minha coleção de LPs e Cds. Guardo-os com gosto, obviamente.

Mas voltemos a The Lexicon of Love e aos ABC. Todo o álbum é perfeição pop, estilização e charme. Repleto de ótimos temas, o disco varreu os tempos em que surgiu, impondo-se nas rádios, nos jornais, nas revistas e na televisão, como já referi anteriormente. Tornou-se um instant classic, e até hoje perdura como o melhor registo da banda. Depois de o terem feito, os ABC tornaram-se vultos maiores da cena pop mundial, mas o futuro não lhes sorriu. Foi sempre a perder, como diz a canção. (Mesmo assim, não quero deixar de referir o disco seguinte, de que gostei e gosto ainda, intitulado Beauty Stab, de 1983.) The Lexicon of Love, produzido pelo grande Trevor Horn dos Yes e dos The Buggles, vinha carregado com cinco hit singles, todos eles com brilhantismo suficiente para ainda hoje não envergonharem os seus criadores. Falo de “The Look of Love (Part One)”, “Poison Arrow”, “All of My Heart”, “Tears Are Not Enough” e “Valentine’s Day”. Para além destes temas, que dispensam quaisquer apresentações, The Lexicon of Love trazia outros de igual estatura. Todos prontos a fazer-nos dançar, canções mais ou menos ritmadas e para todas as situações. Tocava muito em festas de garagens, e parte das minhas boas memórias desse disco residem precisamente nesses momentos. Alguns deles mais íntimos que festivos, se é que me faço entender.

Uma das características mais interessantes do primeiro longa duração dos ABC reside na teatralidade das suas canções, como é fácil perceber pela capa (hitchcockiana, maravilhosa, intemporal, icónica) e pela introdução orquestral da brilhante “Show Me”, logo na abertura do disco. Martin Fry, o vocalista e principal mentor do grupo, estava no centro de todas as atenções, impondo a sua voz por sobre canções de amor distorcido. A balada “All of My Heart”, que Brian Ferry gostaria certamente de ter feito, era a preferida das meninas (de novo a recordação das tais festas…), e o impacto daqueles cinco minutos e picos fez milagres em muita e boa gente. Eu sei bem do que falo…

Resumidamente, The Lexicon of Love é um disco que aconteceu no tempo certo, com as canções certas, a produção certa, um trabalho em que tudo deu certo. É, portanto, um prodígio sonoro, um portento de ritmo, de energia, de estilo (discutível, como são todos os estilos e todas as tendências), de classe pop orelhuda, sem receios de se assumir como tal. Ainda hoje tenho um soft spot inequívoco pelo disco. Pelo disco, mas também pelo que ele representou para mim, daí a tal mistura de sentimentos a que me referi no início deste texto. E estou bem desconfiado que assim continuará para sempre.


Pluto – Bom Dia (2004)


Bom Dia é o meio, entre o que fez e o que faria. Mas é um produto acabado, que vale por si mais do que por qualquer nostalgia. Um disco imenso, um dos melhores das últimas décadas na música portuguesa, e que merecia ser mais conhecido e celebrado.

No final de 2000, os Ornatos Violeta anunciam o fim da banda, deixando uns poucos milhares de fãs apaixonados órfãos dos seus artistas preferidos. Nos anos seguintes, não houve nada senão silêncio da parte de Manuel Cruz, força motriz por trás dos Ornatos e provavelmente o mais interessante compositor de canções da sua geração, como haveríamos de constatar com o passar dos anos.

Mas o silêncio não significava inacção, sobretudo para um artista tão impaciente e inquieto como Cruz. O projecto seguinte, Pluto, surge em 2002, assente em boa parte do histórico chassis dos Ornatos: Manuel Cruz e Peixe, o guitarrista.

O disco de estreia, e infelizmente único disco até agora, dos Pluto, é editado em 2004. Bom Dia vê a luz com esta saudação de começo, de início de ciclo, de vida nova. Apesar disto, não é um álbum luminoso, matinal. A própria capa remete-nos para o espaço, a eterna noite das estrelas. E é de noite que falamos, de pensamentos que nos assaltam quando o cansaço do dia já fez o seu estrago, quando a fragilidade da almofada nos faz pensar naquilo que não queremos.

A própria energia do disco é feroz, violenta, de ataque ou até, quem sabe, de vingança. É o som de alguém que tem algo a provar, que ainda é relevante, que ainda tem muito para dar e para dizer ao mundo. É o som de Manuel Cruz e os seus fantasmas, como sempre, claro, mas aqui sem barreiras, sem disfarces, sem medo, ou atacando raivosamente esse mesmo medo.

Se os Ornatos nos conquistaram com o seu pop/rock idiossincrático, nos Pluto temos rock puro e duro.

Veja-se “Entre Nós”, que abre o disco. Uma sonoridade de raiva contida, numa guitarra quase grunge, com Cruz a dissecar, como só ele sabe, sobre relações e desencontros. “Sexo Mono” segue-se com início num riff vintage, quase Nirvana, para ir subindo de intensidade com um teclado discreto colheita Faith no More e a guitarra de Peixe, oscilando entre o delicado e o tresloucado, na mesma música.

“Segue-me À Luz” é outra fortíssima malha rock, feita de existencialismo, dúvidas e temores. “O 2 Vem Sempre Depois” começa com um riff de guitarra quase cabaret, sendo uma das várias grandes pérolas rock do álbum. “A Vida Dos Outros” é outro clássico, e ainda vamos na quinta música do disco! Um som claustrofóbico, acelerante, rock em estado puro movido a guitarra e bateria, numa letra sobre segredos e mentiras com a qual necessariamente nos identificamos.

“Convite” é o primeiro momento realmente calmo da rodela, e um tema que poderia, este sim, ter feito parte de O Monstro Precisa De Amigos, o último disco de originais dos Ornatos Violeta. Ouvimos aqui Cruz no seu mais exposto e mais sensível. “Prisão” lembra “Tanque”, desse disco, e é um assalto rock, poderoso do princípio ao fim, sobretudo a caminho deste.

Segue-se “Lição De Adição”, 2:07 minutos de rock sempre a rasgar, antes de “Líderes & Filhos Lda”, uma das canções mais complexas do disco. Há ainda tempo para “Só Mais Um Começo”, um portento de guitarra e bateria, com Cruz a mostrar todo o seu naipe de truques e capacidades. Este tema foi, justamente, um dos singles de Bom Dia, e devia ser matéria de conhecimento obrigatório para quem quer dizer seja o que for acerca da música portuguesa.

A caminho do fecho do disco temos ainda “Bem-vindo A Ti”, talvez o momento mais pop deste conjunto. O álbum fecha com “Algo Teu”, uma delícia de balada, feita de dor, arrependimento, cansaço e desilusão. Manuel Cruz, sussurrante, acompanhado apenas por um discreto piano, menos de dois minutos, mais uma daquelas mini-pérolas que o homem vai largando pelos seus discos, como “Chuva” ou “Letra S”, do disco de estreia dos Ornatos, temas que poderiam fazer a carreira de muitas bandas que por aí andam, mas que na pena desta génio podem ser “desperdiçadas”, assim, num inacreditável understatement que nos faz desejar que ele tivesse desenvolvido a canção até aos quatro minutos da praxe. Não é preciso, não neste universo.

Bom Dia é um disco imperdível e obrigatório, e não apenas para os fãs de Ornatos Violeta. Onde Manuel Cruz junta aos predicados que já trazia dessa banda uma pica e uma energia rock que nos faz apetecer ir para trás do volante e conduzir, rápido e alto. Com uma vantagem, que distingue os bons dos realmente grandes: tudo é feito com a sapiência pop de uma canção bem construída, viciante, implacável. Considero, sem qualquer favor, que este disco está pelo menos ao nível da produção da sua banda de origem, e em certos aspectos até ultrapassa tudo o que foi feito até então.

Anos mais tarde teríamos Foge Foge Bandidomega-trabalho a solo feito com a ajuda de um grande colectivo, e que cimentaria ainda mais o estatuto à parte deste grande autor. Isto antes da investida dos mais recentes Supernada, que mantêm o mínimo olímpico mas que ficam algo aquém da singular obra feita antes.

Bom Dia é o meio, entre o que fez e o que faria. Mas é um produto acabado, que vale por si mais do que por qualquer nostalgia. Um disco imenso, um dos melhores das últimas décadas na música portuguesa, e que merecia ser mais conhecido e celebrado.



DJ Krush – Holonic-The Self Megamix (1998)


Como categorizá-lo? Uma amálgama de pequenas histórias, ambientes andrajosos submersos num fumo escuro e denso? Obscuridade opiácea down-tempo? Bola de neve mirabolante?

Holonic-The Self Megamix. Para os que já me vão conhecendo um bocadinho melhor, o hip-hop não é propriamente a minha “chávena de chá”. No entanto, sou obrigado a reconhecer que há muito bons trabalhos nessa área. No que toca ao hip-hop, tenho duas editoras de referência: a Ninja Tune e a Mo’Wax (ambas londrinas). Atenção, não tenho nada contra o material oriundo dos Estados Unidos. São é escolas completamente diferentes. Uma mais jazzística, outra menos jazzística. Ora, e para os que já me vão conhecendo um bocadinho melhor, é óbvio que escolho a mais jazzística. Eu até já conhecia o DJ Krush. Sabia que era japonês, que tinha um estilo bastante dark, e que gostava de misturar samples de jazz com sons diversos da natureza. O que eu não sabia é que ele tinha tido o arrojo de gravar um self megamix. E se os megamixes são por si conceitos assustadores, então o que dizer de um próprio megamix! Mas há uma coisa que me chamou logo à atenção. A palavra Holonic.

Um hólon (do grego holos “todo”) é algo que é ao mesmo tempo um todo e uma parte. A palavra foi reinventada por Arthur Koestler, no seu livro The Ghost in the Machine de 1967. Koestler foi compelido por duas observações ao propor a noção de hólon. A primeira observação conclui que os sistemas complexos irão evoluir muito mais rapidamente a partir de sistemas simples, se existirem formas intermediárias estáveis nesse processo de evolução. Na segunda, o escritor concluiu que, embora seja fácil identificar sub-conjuntos, as partes, em sentido absoluto, não existe em nenhum lugar.

Contendo faixas (ou bocados das mesmas) dos álbuns a partir de 1994 – Strictly Turntabilzed até 1997 – Milight, DJ Krush transforma essa amálgama num erudito fluxo de livre coesão. Vai repescar o mais pesado de Milight, incluindo alguns segmentos falados desse álbum, sem mergulhar numa vibração tão agressiva como a de Doomy, álbum quase apocalíptico, contracenando com a doçura nipónica de Meiso. Atenção, a música de DJ Krush nunca poderá ser apelidada de alegre. Mas este disco em particular, apresenta um inusitado perfil brincalhão, perfil esse mais adormecido na restante parte do seu trabalho. É por isso que continua a achar que Holonic é uma excelente introdução à obra de DJ Krush.

O melhor dos dois mundos…



The Delta Magpie – Discography 2023-2026 (3 CD)

 


Genre: Blues/Roots Rock
Country: Switzerland (Zug)
Year of release: 2023-2026

2023 “Mad Over You” [EP] (00:22:03)
2024 “Cold In Hand” (00:35:11)
2026 “The World Keep On Turning” (00:38:45)

MUSICA&SOM ☝


Lightning Threads – Trinkets (2026)

 


Country: UK
Genre: Blues Rock, Classic Rock
Year: 2026

1.Nowhere To Go [4:32]
2.Wild One (Radio Edit) [3:24]
3.What Can I Say [3:11]
4.Rags & Riches [3:50]
5.What A Fever Does [3:39]
6.With A Heavy Heart [3:48]
7.Shook (Radio Edit) [2:45]
8.Just Might Be [3:17]
9.Devil Inside Me [2:52]
10.White Dress [4:14]

Total length: 00:35:27

Tom Jane on guitar and vocals
Sam Burgum on bass and vocals
Hugh Butler on drums and keyboards

MUSICA&SOM ☝



TRIDELI – JACKPOT (2026)

 


Hard rock contemporâneo, com um toque funky e um groove contagiante, além de uma produção grandiosa. A banda italiana TRIDELI conquista com composições versáteis e imprevisíveis. Um álbum repleto de surpresas e com a voz verdadeiramente excepcional de Marco Bucci.O compositor e produtor Mike Della Bella apresenta uma banda única e realmente especial que, com sorte, lançará mais músicas incríveis no futuro. Faixas como "Here And Now" ou "The Loser" conquistam você imediatamente. Algo entre DAN REED NETWORK, DAUGHTRY e THE ANSWER. Inacreditável, mas verdade! 

Tracklist:
1. Here and Now (03:48)
2. Everything (04:20)
3. Shame (03:01)
4. The Loser (03:19)
5. Push It (04:09)
6. Ginger Doll (03:24)
7. Somehow Someday (03:20)
8. The Echo (03:32)
9. Let Yourself Go (04:57)

MUSICA&SOM ☝



Sense Of Fear – Infernal Decay (2026)

 


Country: Greece
Genre: Heavy Metal
Year : 2026

Tracklist:
1. Infernal Decay (02:05)
2. Cerberus (04:15)
3. Empathy To Darkness (05:22)
4. Conflict Of Interest (04:43)
5. Ethereal Requiem (02:03)
6. Kiss Of War (06:09)
7. Kleos (Glory) (03:51)
8. Labyrinth (06:00)
9. Riddle Of Shadows (07:57)
10. The Shallow Journey of Your Soul (10:24)
11. Retaliation (04:31)

MUSICA&SOM ☝


Destaque

Osanna ‎– Rosso Rock (2012, CD, Italy)

  Live, released in 2012 Tracks Listing 1. Preludio (4:10) 2. Tema (4:56) 3. Dialogo (2:24) 4. Spunti Dallo Spartito (2:17) 5. To Plinius (2...