sexta-feira, 24 de junho de 2022

POEMAS CANTADOS DE CHICO BUARQUE

Chico Buarque

 Vai Trabalhar Vagabundo

Chico Buarque


Vai trabalhar, vagabundo

Vai trabalhar, criatura

Deus permite a todo mundo

Uma loucura

Passa o domingo em familia

Segunda-feira beleza

Embarca com alegria

Na correnteza


Prepara o teu documento

Carimba o teu coração

Não perde nem um momento

Perde a razão

Pode esquecer a mulata

Pode esquecer o bilhar

Pode apertar a gravata

Vai te enforcar

Vai te entregar

Vai te estragar

Vai trabalhar


Vê se não dorme no ponto

Reúne as economias

Perde os três contos no conto

Da loteria

Passa o domingo no mangue

Segunda-feira vazia

Ganha no banco de sangue

Pra mais um dia


Cuidado com o viaduto

Cuidado com o avião

Não perde mais um minuto

Perde a questão

Tenta pensar no futuro

No escuro tenta pensar

Vai renovar teu seguro

Vai caducar

Vai te entregar

Vai te estragar

Vai trabalhar


Passa o domingo sozinho

Segunda-feira a desgraça

Sem pai nem mãe, sem vizinho

Em plena praça

Vai terminar moribundo

Com um pouco de paciência

No fim da fila do fundo

Da previdência

Parte tranquilo, ó irmão

Descansa na paz de Deus

Deixaste casa e pensão

Só para os teus

A criançada chorando

Tua mulher vai suar

Pra botar outro malandro

No teu lugar

Vai te entregar

Vai te estragar

Vai te enforcar

Vai caducar

Vai trabalhar

Vai trabalhar

Vai trabalhar



Viver do Amor

Chico Buarque


Pra se viver do amor

Há que esquecer o amor

Há que se amar

Sem amar

Sem prazer

E com despertador

- como um funcionário


Há que penar no amor

Pra se ganhar no amor

Há que apanhar

E sangrar

E suar

Como um trabalhador


Ai, o amor

Jamais foi um sonho

O amor, eu bem sei

Já provei

E é um veneno medonho


É por isso que se há de entender

Que o amor não é um ócio

E compreender

Que o amor não é um vício

O amor é sacrifício

O amor é sacerdócio

Amar

É iluminar a dor

- como um missionário


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Xote de Navegação

Chico Buarque


Eu vejo aquele rio a deslizar

O tempo a atravessar meu vilarejo

E às vezes largo

O afazer

Me pego em sonho

A navegar


Com o nome Paciência

Vai a minha embarcação

Pendulando como o tempo

E tendo igual destinação

Pra quem anda na barcaça

Tudo, tudo passa

Só o tempo não



Passam paisagens furta-cor

Passa e repassa o mesmo cais

Num mesmo instante eu vejo a flor

Que desabrocha e se desfaz

Essa é a tua música

É tua respiração

Mas eu tenho só teu lenço

Em minha mão



Olhando meu navio

O impaciente capataz

Grita da ribanceira

Que navega pra trás

No convés, eu vou sombrio

Cabeleira de rapaz

Pela água do rio

Que é sem fim

E é nunca mais



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