quinta-feira, 23 de junho de 2022

POEMAS CANTADOS DE CHICO BUARQUE

Chico Buarque

 Último Desejo

Chico Buarque


Nosso amor que eu não esqueço

E que teve o seu começo

Numa festa de São João


Morre hoje sem foguete

Sem retrato e sem bilhete

Sem luar, sem violão


Perto de você me calo

Tudo penso e nada falo

Tenho medo de chorar


Nunca mais quero o seu beijo

Mas meu último desejo

Você não pode negar


Se alguma pessoa amiga

Pedir que você lhe diga

Se você me quer ou não

Diga que você me adora

Que você lamenta e chora

A nossa separação


Às pessoas que eu detesto

Diga sempre que eu não presto

Que meu lar é o botequim

Que eu arruinei sua vida

Que eu não mereço a comida

Que você pagou pra mim



Uma Canção Desnaturada

Chico Buarque


Por que creceste, curuminha

Assim depressa e estabanada

Saíste maquiada

Dentro do meu vestido

Se fosse permitido

Eu revertia o tempo

Para reviver a tempo

De poder


Te ver as pernas bambas, curuminha

Batendo com a moleira

Te emporcalhando inteira

E eu te negar meu colo

Recuperar as noites, curuminha

Que atravessei em claro

Ignorar teu choro

E só cuidar de mim


Deixar-te arder em febre, curuminha

Cinquenta graus, tossir, bater o queixo

Vestir-te com desleixo

Tratar uma ama-seca

Quebrar tua boneca, curuminha

Raspar os teus cabelos

E ir te exibindo pelos

Botequins


Tornar azeite o leite

Do peito que mirraste

No chão que engatinhaste, salpicar

Mil cacos de vidro

Pelo cordão perdido

Te recolher pra sempre

À escuridão do ventre, curuminha

De onde não deverias

Nunca ter saído



Uma Menina

Chico Buarque


Uma menina igual a mil

Que não está nem aí

Tivesse a vida pra escolher

E era talvez ser distraída

O que ela mais queria ser

Ah, se eu pudesse não cantar

Esta absurda melodia

Pra uma menina distraída

Uma menina igual a mil

Do Morro do Tuiuti


Uma menina igual a mil

Que não está nem aí

Tivesse a vida pra escolher

E era talvez ser distraída

O que ela mais queria ser

Ah, se eu pudesse não cantar

Esta absurda melodia

Pra uma criança assim caída

Uma menina do Brasil

Que não está nem aí

Uma menina igual a mil

Do Morro do Tuiuti



Vai Passar

Chico Buarque


Vai passar

Nessa avenida um samba popular

Cada paralelepípedo

Da velha cidade

Essa noite vai

Se arrepiar

Ao lembrar

Que aqui passaram sambas imortais

Que aqui sangraram pelos nossos pés

Que aqui sambaram nossos ancestrais


Num tempo

Página infeliz da nossa história

Passagem desbotada na memória

Das nossas novas gerações

Dormia

A nossa pátria mãe tão distraída

Sem perceber que era subtraída

Em tenebrosas transações


Seus filhos

Erravam cegos pelo continente

Levavam pedras feito penitentes

Erguendo estranhas catedrais

E um dia, afinal

Tinham direito a uma alegria fugaz

Uma ofegante epidemia

Que se chamava carnaval

O carnaval, o carnaval

(Vai passar)


Palmas pra ala dos barões famintos

O bloco dos napoleões retintos

E os pigmeus do bulevar

Meu Deus, vem olhar

Vem ver de perto uma cidade a cantar

A evolução da liberdade

Até o dia clarear


Ai, que vida boa, olerê

Ai, que vida boa, olará

O estandarte do sanatório geral vai passar

Ai, que vida boa, olerê

Ai, que vida boa, olará

O estandarte do sanatório geral

Vai passar




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