José Mário Branco
José Mário Monteiro Guedes Branco, mais conhecido como José Mário Branco[1] (Porto, 25 de maio de 1942 - Lisboa, 19 de novembro de 2019), foi um músico e compositor (cf. cantautor) português. É descrito como "um dos nomes maiores da canção portuguesa". Foi militante do Partido Comunista Português (PCP) e obrigado a exilar-se em 1963 pela ditadura do Estado Novo, até regressar da França em 1974 com a Revolução dos Cravos.[2]
Biografia
Filho de professores primários, cresceu entre o Porto e Leça da Palmeira, sendo marcado pelo ambiente luzidio e inspirador desta vila piscatória. Iniciou o curso de História, primeiro na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, depois na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, não o tendo terminado.[3][4]
Expoente da música de intervenção portuguesa, começou por ser ativo na Igreja Católica. Depois aderiu ao Partido Comunista Português e foi perseguido pela PIDE, até se exilar em França, em 1963. Em 1974 regressou a Portugal e fundou o Grupo de Acção Cultural - Vozes na Luta!.[3][5][4][6]
Como interveniente em concertos ou álbuns editados, como cantautor e/ou como responsável pelos arranjos musicais, José Mário Branco é autor de uma obra singular no panorama musical português. Entre música de intervenção, fado e outras, são obras famosas os discos Ser solidário, Margem de Certa Maneira, A noite, e o emblemático FMI, obra síntese do movimento revolucionário português com seus sonhos e desencantos. Esta última foi proibida pelo próprio José Mário Branco de passar em qualquer rádio, TV ou outro tipo de exibição pública.[7] Não obstante este facto, FMI será, provavelmente, a sua obra mais conhecida.[5][8][6]
O seu ultimo álbum de originais, intitulado Resistir é Vencer,foi lançado em 2004 , em homenagem ao povo timorense, que resistiu durante décadas à ocupação pelas forças da Indonésia logo após o 25 de Abril. O ideário socialista está expresso em muitas das suas letras.[9][5][6]
Trabalhou com diversos outros artistas de relevo da música de intervenção e outros géneros, nomeadamente José Afonso, Sérgio Godinho, Luís Represas, Fausto Bordalo Dias, Janita Salomé, Amélia Muge, Os Gaiteiros de Lisboa e, no âmbito do Fado, Carlos do Carmo, Camané e Katia Guerreiro.[10][6] Do mesmo modo compôs e cantou para o teatro, o cinema e a televisão, tendo sido elemento da companhia de teatro A Comuna.[5][6]
Em 2006, com 64 anos, José Mário Branco iniciou uma licenciatura em Linguística, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Terminou o 1.º ano com média de 19,1 valores, sendo considerado o melhor aluno do seu curso. Desvalorizou a Bolsa de Estudo por Mérito que lhe foi atribuída, dizendo que é «algo normal numa carreira académica».[11][3][4]
Em 2009 voltou às atuações públicas com dois concertos intitulados Três Cantos, juntando «referências não só musicais mas também poéticas do que é cantar em português»: José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto.[12][5]
Morreu aos 77 anos, de paragem cardio-respiratória, na madrugada do dia 19 de novembro de 2019, em Lisboa.[13][3]
Discografia
A entre a discografia de José Mário Branco encontram-se: [14][15][16]
A solo
- Seis cantigas de Amigo (EP, Arquivos Sonoros Portugueses, 1969) EP
- Ronda do Soldadinho (Single, Ed. Autor, 1969) Single
- Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (LP, Guilda da Música, 1971) LP/CD
- Margem de Certa Maneira (LP, Guilda da Música, 1972) LP/CD
- A Mãe (LP, 1978) LP
- Marchas Populares (EP, Diapasão, 1978)
- Gente do Norte- Moncorvo Torre e Gente/Cantar de Viúva de Imigrante (Single, Diapasão, 1978)
- O Ladrão do Pão (EP, Diapasão, 1978)
- Ser solidário (2LP, Edisom, 1982)
- FMI (Maxi, Edisom, 1982)
- Qual é a tua ó meu / S. João do Porto (Single, Edisom, 1982) [17]
- A Noite (LP, UPAV, 1985)
- Correspondências (LP, UPAV, 1990) LP/CD
- José Mário Branco ao vivo em 1997 (CD, 1997) CD
- Canções escolhidas 71/97 (CD, 1999) CD (Colectânea) [18]
- Resistir é vencer (CD, 2004) CD
- Inéditos (1967-1999) (CD, 2018)
- Colectivos
- A Confederação (LP, Diapasão, 1978) LP banda Sonora - com Sérgio Godinho e Fausto
- Festa em Abril (1987), com Adelaide Ferreira, Fernando Tordo, José Beato, Jorge Palma, Maria Guinot, Pedro Barroso, Tozé Brito[19]
- Maio Maduro Maio (2CD, Sony, 1995) - com Amélia Muge, João Afonso e Rui Júnior.
- Três Cantos: Ao Vivo (CD, EMI, 2009) - com Sérgio Godinho e Fausto
- Com o GAC - Vozes na Luta[20]
- A cantiga é uma arma (1976) LP/CD[21]
- Pois canté! (1977) LP/CD
Colaborações
- James Ollivier – James Ollivier (1968) LP, Boite à Musique
- Jean Sommer – Beauté (1968) LP, Barclay
- Jean Sommer – La fête est à nous (1971) Single, Unisson
- José Afonso – Cantigas do Maio (1971) LP, Arnaldo Trindade, Orfeu
- José Jorge Letria – Até ao pescoço (1972) LP, Sassetti, Guilda da Música
- José Afonso – Venham mais cinco (1973) LP, Arnaldo Trindade, Orfeu
- José Afonso – Fura Fura (1979) LP, Arnaldo Trindade, Orfeu
- Quarteto Música Em Si – Página em branco (1980) Songle, Arnaldo Trindade, Orfeu
- José Afonso – Como se fora seu filho (1983) LP, Sassetti, Triângulo (3 temas)
- Carlos do Carmo – Um homem no país (1983) LP, Polygram, Phiiips
- José Afonso – Galinhas do mato (1985) LP, Transmedia, Schiu!, em colaboração com Júlio Pereira e José Afonso[22]
- Janita Salomé – Olho de fogo (1987) LP, Transmedia, Schiu!
- Carlos do Carmo – Que se fez homem de cantar (1990) LP, Polygram, Philips (2 temas)
- Amélia Muge – Todos os dias... (1994) CD, Sony Música, Columbia
- Gaiteiros de Lisboa – Invasões bárbaras (1995) CD, Farol
- Camané – Uma noite de fados (1995) CD, EMI — Valentim de Carvalho
- Vários Artistas – Bom dia, Benjamim (1995) CD, Movieplay[23]
- Amélia Muge – Taco a taco (1998) CD, Polygram, Mercury (6 temas)
- Camané – Na linha da vida (1998) CD, EMI – Valentim de Carvalho
- Camané – Esta coisa da alma (2000) CD, EMI – Valentim de Carvalho[24]
- Camané – Pelo Dia Dentro (2001) CD, EMI
- Canto Nono – O Porto a 8 vozes (2003) CD, EMI
- Camané – Sempre de Mim (2008) CD, EMI
- Sérgio Godinho e Fausto – Três Cantos (2009) 2 CD/DVD, EMI
- Camané – Do amor e dos dias (2010) CD, EMI[25]
Espectáculos
- Ser solidário (1980–1982) - no Teatro Aberto em 1980 e 1981, na Aula Magna em 1982, e digressão pelo país nos anos seguintes
- A noite (1985) - no Coliseu dos Recreios (Lisboa)
- Fim de noite (1987) - no Teatro Villaret (Lisboa)
- Correspondências (1991/92) - digressão
- Maio, maduro Maio (1991) – Com Amélia Muge e João Afonso[26]
- Ao vivo em 1997 (1997) - no CCB (Lisboa), no Coliseu (Porto), no Teatro da Trindade (Lisboa) e no Teatro Gil Vicente (Coimbra)
- Festival Outono em Lisboa (1998) - no Teatro Camões (Lisboa)
- Bom dia, Benjamim (ao vivo) (1998) - orquestração e direcção musical, no CCB (Lisboa)
- Do Natal aos Reis (1998) – Com Jean Sommer, no Teatro Rivoli (Porto)
- As margens da alegria (1999),[27] em Famalicão, Loures, Seixal e Loulé
- Porto 2001 - FM Estéreo (2001) – Grupo a capella Canto Nono, composição e direcção musical, no Teatro Helena Sá e Costa (Porto)
- Três Cantos (2009) – Com Sérgio Godinho e Fausto,[28] no Campo Pequeno (Lisboa) e no Coliseu (Porto)
Teatro
- Grupo de Teatro da Liga [29]
- Farsas, de Gil Vicente;
- Auto da compadecida, de Ariano Suassuna;
- As espingardas da Tia Carrar, de Bertolt Brecht;
- Aerofagus (escreveu 26 canções).
- Groupe Organon[26]
- La Comune de Paris
- O racismo
- A jovem poesia inglesa e americana
- Comuna[26]
- A mãe, de Bertolt Brecht (1977)
- Homem morto, homem posto (1979)
- A Pécora, de Natália Correia (1989)
- Um estrangeiro em casa, de Richard Démarcy (1990)
- Teatro do Mundo [30]
- A secreta família (1979)
- O guardião do rio (1980)
- Ser solidário (1981)
- Cogumelos (1981)
- A gaivota (1982)
- Ano IV D.C. (Calígula, de Camus) (?)
- Balanço I (?)
- Terramoto no Chile (?)
- Outras participações
- Fuenteovejuna, de Calderón de la Barca – Teatro Maison de la Culture de Rennes (1972)
- Liberdade, liberdade – Teatro Vilaret (1974) [31]
- Galileu Galilei, de Bertolt Brecht – Teatro Experimental de Cascais [32]
- A mulher do campo – Teatro da Cornucópia [33]
- Sonho de uma noite de Verão, de Shakespeare – Teatro da Malaposta
- A Morte do palhaço, de Raul Brandão – Teatro o Bando (1991) (com recriação em 2011) [34]
- Gulliver, de Hélder Costa – A Barraca (1997) [35][36]
Cinema
Colaborou com vários realizadores tendo desempanhado várias funções, nomeadamente actor, compositor e voz-off: [37][29]
- A Confederação, de Luís Galvão Teles (1978)
- Gente do Norte, de Leonel Brito (1977)
- O ladrão do pão, de Noémia Delgado
- Silvestre, de João César Monteiro (1982)
- Arábia (curta-metragem), de Rosa Coutinho Cabral (1982)
- Ninguém duas vezes, de Jorge Silva Melo (1985)
- Atlântida: Do Outro Lado do Espelho, de Daniel Del Negro (1985)
- Agosto, de Jorge Silva Melo (1988)
- Três menos eu, de João Canijo (1988)
- O Som da Terra a Tremer, de Rita Azevedo Gomes (1990)
- Aqui d'El Rei! (telefilme), de António-Pedro Vasconcelos (1993), sobre Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque
- Coitado do Jorge, de Jorge Silva Melo (1993)
- Até amanhã Mário, de Solveig Nordlund (1994)
- O Rio do Ouro, de Paulo Rocha (1998)
- A raiz do coração, de Paulo Rocha (2000)
- A Espada e a Rosa, de João Nicolau (2010) [38]
- Mudar de Vida: José Mário Branco, vida e obra (documentário) de Nelson Guerreiro e Pedro Fidalgo (2014) [39]
- A Portuguesa, realizado por Rita Azevedo Gomes (2018) [40]
- Prazer, Camaradas!, de José Filipe Costa (2019) [41]
Rádio
- O seu primeiro emprego foi nos Emissores do Norte Reunidos (1961) [42]
- TSF – Música Portuguesa com certeza (1992–1993) [38][43][44]
Prémios
- 1992 - Prémio José Afonso
- 1996 - Prémio José Afonso
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