terça-feira, 17 de outubro de 2023

Kendrick Lamar – good kid, m.A.A.d. city (2012)

 

A primeira obra-prima de Kendrick. Um retrato tocante sobre crescer num bairro difícil.

Ao segundo disco, Kendrick revela-se um exímio contador de histórias, levando-nos, com a sua escrita humana e comovente, para a turbulenta Compton onde se fez gente. Mas enquanto o gangsta rap da sua infância pouco mais é do que banda desenhada, um estereótipo grosseiro e garrido do bandido amoral, Kendrick é realista e empático, desenhando com precisão as circunstâncias e consequências de se crescer num bairro complicado. A cada passo uma armadilha, em cada esquina um dilema, onde o mais “pequeno isqueiro pode queimar uma ponte”…

Para dar vida ao seu álbum-cinema, Kendrick desdobra-se em múltiplas vozes, timbres e emoções. Virtuoso na métrica, duplica, quando lhe apetece, o número de sílabas por compasso (ou mesmo triplica, como acontece na deliciosa bazófia de “Backseat Freestyle”), sempre com a mais aviltante fluidez.

Por fim, o dinheiro do seu mentor Dr. Dre permite-lhe rodear-se dos melhores produtores da praça (de Pharell Williams e Just Blaze para cima), providenciando batidas e melodias sempre à altura da sua cuidada poesia.

Dois momentos destacam-se, sublimes.

?Pérola nº 1: o trap claustrofóbico de “m.A.A.d city”, onde os sub-baixos trepidantes, os pratos de choque ansiosos, as teclas sinistras e a voz assustada de Kendrick criam um ambiente de estado de sítio, como se também nós estivéssemos lá, interrogados pelos dois gangues rivais, acossados e exilados na nossa própria cidade.

Pérola nº 2: a epopeia de 12 minutos “Sing About Me, I’m Dying of Thirst”, bonita homenagem aos que Kendrick viu partirem demasiado cedo, baleados à queima-roupa na selva de Compton. Na recta final, um sample de vozes femininas tão etéreas como fúnebres amplifica a carga dramática do flow de Kendrick, dorido e ofegante, confessando-se cansado, de correr, de caçar, de roubar, de matar, implorando um minuto de tréguas, uma réstia de esperança, uma esteira onde possa por fim repousar.

Quando reconhecimento crítico, popularidade e consciência política se congregam, nenhum concorrente parece à altura. Havia o Kanye, antes de ter sido engolido pelo seu próprio ego. Saudades…

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