quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Crítica Aysha Lima: “Ín.ti.mo”

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Crítica

Aysha Lima

 : "Ín.ti.mo"

Ano: 2023

Selo: Undersoil

Gênero: R&B

Para quem gosta de: Duquesa e Karen Francis

Ouça: Amor e Som, 24 Horas e Segredos e Amor

Ín.ti.mo (2023, Undersoil), escrito assim mesmo, ressaltando a divisão silábica, serve de passagem para um universo guiado em essência pelas emoções. Primeiro álbum de estúdio da cantora e compositora carioca Aysha Lima, o registro dividido em três partes funciona como um delicado estudo sobre as diferentes fases de um relacionamento. Instantes em que a artista, sempre acompanhada pelo produtor André Miquelotti, responsável pelo meticuloso cruzamento de estilos e referências que rompem com o R&B tradicional, se entrega por completo, confessa sentimentos e acaba encontrando no amor a principal fonte de inspiração.

Partindo dessa abordagem fracionada, com três atos bem definidos, a cantora sustenta no bloco inicial a descoberta de um novo amor. Em geral, são composições marcadas pela fluidez das batidas, como uma representação do desejo explícito nos versos. “Essa energia que me faz dançar / Invade meu corpo feito ar … Vem cá, que eu quero sentir o seu corpo no meu / Sinta, o calor da batida entre você e eu“, canta em Amor e Som, música que sintetiza a euforia que move o trabalho nesses primeiros minutos. Canções que destacam a entrega sentimental de Lima na mesma medida em que evidenciam a riqueza de elementos explícita na produção caprichada de Miquelotti, sempre interessando na colorida combinação de ritmos.

Passado esse momento de maior exaltação que ainda conta com a colaboração de nomes como Negalli, Duquesa e Izy Castelano, Lima abre passagem para a porção seguinte do disco. A partir desse ponto, o desejo passa a se misturar com a incerteza dos sentimentos vividos pela artista. E é aqui que o trabalho cresce. Enquanto os versos transitam por diferentes sensações, temas e experiências emocionais, batidas desaceleram de forma a valorizar a construção dos arranjos. Da linha de baixo suculenta e destacada, passando pela sobreposição dos teclados e bases atmosféricas, tudo ganha novo e delicado tratamento.

O resultado desse processo está na entrega de músicas como Segredos e Amor, parceria com Torres e OriginalDé, mas que em nenhum momento diminui o brilho e permanente entrega de Lima em estúdio. Esse mesmo refinamento no processo de criação fica ainda mais explícito com a sequência de faixas entregue logo em sequência. Enquanto PFP (Para Fazer Pretinhos) parte do R&B para mergulhar em uma doce combinação entre reggae e rock, 019 e Estar No Amanhã destacam o reducionismo dos elementos. Canções que se revelam ao público em pequenas doses, reforçando o aspecto sentimental dado ao disco.

Com a chegada de 23 de Novembro, música precedida de um dos muitos interlúdios que ajudam Lima a construir a narrativa do disco, a cantora abre passagem para a porção final do trabalho. Contraponto ao material entregue nos minutos iniciais do registro, em essência regido pela força das emoções e desejo explícito nos versos, a trinca de canções que pontua o álbum destaca de forma melancólica a temática do rompimento. São criações marcadas pelo apuro dos versos, reforçando a vulnerabilidade da artista, porém, musicalmente limitadas quando próximas do restante da obra, vide o fechamento moroso em A Última.

Ainda assim, quando observado em totalidade, esses tropeços em nada prejudicam a grandeza explícita durante toda a execução do trabalho. Embora monotemático, Ín.ti.mo estabelece nessa divisão em três atos um precioso componente de dinamismo e nítida distinção quando próximo de outros exemplares do gênero. Mesmo quando voltamos os ouvidos para as criações de estrangeiros como KehlaniJorja Smith e demais protagonistas dentro do estilo, Aysha Lima em nada deixa a desejar, fazendo do repertório entregue no presente disco um delicado exercício criativo que encanta, provoca e emociona na mesma proporção.



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