"A Battle in Your Head":
Como um sinal dos tempos, "At the Mountains of Madness" é um álbum conceitual. Mas, para minha grande alegria, ele se aproxima muito mais da psicodelia deslumbrante do que do rock progressivo bombástico, e o álbum também é baseado em guitarras e bastante pesado. A música é excentricamente melodiosa e, como esse tipo de excentricidade sobrevive bem ao tempo, o álbum soa totalmente novo, mas também nos traz aquele zeitgeist específico da era da loucura florida.
Nas Montanhas da Loucura: Crônica de um Doce Veneno
Retornar a este álbum foi como abrir uma caixa lacrada com piche e sol do meio-dia. Uma caixa que continha os ecos de dias corridos, copos de rum sem gelo e densas baforadas de fumaça azul que não só turvavam a visão, mas também aguçavam a audição.
At the Mountains of Madness não foi apenas um álbum para mim: foi um pano de fundo, alimentou muitas manhãs e, acima de tudo, foi uma espécie de animal mitológico que rastejou sobre meu toca-discos repetidas vezes, até que a agulha soubesse seus rugidos de cor. Naquela época, eu o devorava com tanta paixão que ele deixou suas marcas, aquelas que se tornam mais perceptíveis com a idade, quando você volta e ouve não apenas com os ouvidos, mas com as cicatrizes. Ouvi-lo hoje, mais velho, mais calmo, mais cercado de discos do que de excessos, foi como reencontrar um velho amigo que, sem mudar de roupa, me diz coisas diferentes. Há algo em sua ferocidade que eu antes ignorava. Talvez eu fosse jovem demais para notar aquela ponta escondida entre os riffs, aquele senso de ritmo tão no limite, tão escorregadio. Hoje eu o percebo com uma clareza diferente: este álbum exala poder, sim, mas também atravessa certos precipícios que lhe dão personalidade e o tornam ainda mais memorável.
É um álbum de contrastes: psicodelia com lampejos de blues pesado, road rock com floreios progressivos, jam sessions que parecem invocações. A alquimia que Blackfeather cria neste álbum é densa, quase venenosa, mas, ah, como o veneno é doce quando vem com esse tipo de groove! A Austrália, naquele breve período entre 1970 e 1971, precisava de seu rugido. E Blackfeather o entregou com um sorriso torto, deixando claro que nem todo o fogo veio de Londres ou São Francisco. Este álbum, para quem sabe ser paciente, revela seus encantos como uma infusão lenta: começa frio, um tanto hesitante, mas, à medida que avança, desencadeia um festival de riffs poderosos, melodias cativantes e uma produção que — sem buscar virtuosismo — emprega uma energia direta, fluida e extremamente eficaz.
É uma obra-prima progressiva? Acho que não. É uma peça cult essencial para entender o rock australiano dos anos setenta? Sem dúvida. Este não é um álbum para quem busca a perfeição. É para quem ama as arestas, as rachaduras, a fermentação. É um álbum que parece vivo e, como tudo o que vive, às vezes vacila... mas nunca para de avançar. E isso, caro leitor, é o que distingue álbuns que transcendem. Blackfeather nunca soou como uma escola progressiva, mas sim como um ritual selvagem e livre. Há beleza nessa desordem. Em sua mistura de estilos, há uma declaração. E em sua voz, um eco ainda ressoa daquela era vertiginosa em que tudo era possível e as montanhas da loucura estavam logo ali na esquina. Até logo.
01.At the Mountains of Madness
02.On This Day That I Die
03.Seasons of Change Part 1
04.Mango's Theme Part 2
05.Long Legged Lovely
06.The Rat (Suite):
a.Main Title (The Rat)
b.The Trap c.spanish Blues
d.Blazwaorden (Land of Dreams)
e.Finale (The Rat)
CODIGO: D-10

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