E tudo era escuro, nada existia, até que se fez a explosão e tudo se criou, nasceu, a vida surgiu. Parece algo que já foi lido em algum lugar, uma cópia ou ainda algo relacionado à ciência do universo, a teoria do big bang. Bem, não nego que a lembrança veio da grande explosão.
Foi o que imediatamente lembrei para falar de uma banda que, embora tenha surgido em épocas por mim não vividas, certamente, com o seu avassalador som, a sua música vanguardista nos longínquos anos 1960 para 1970, pode ser comparada a uma explosão que poderia ter varrido do mapa, se não fosse o seu auge, em pleno 1969, a cena do “paz e amor”, do “Flower Power”.
É inacreditável como uma banda pudesse ser tão arrojada, corajosa e densamente perigosa o bastante para ameaçar, com toda a sua virilidade sonora, o status quo musical vigente à época, edificando um estilo, construindo um gênero, uma nova concepção sonora, uma nova perspectiva de encarar e ouvir o rock n’ roll.
Falo da excelente banda escosesa WRITING ON THE WALL, que lançou um verdadeiro petardo sonoro, uma ode ao peso, aos primórdios da música pesada, a gênese do hard rock se fez presente, o heavy metal de vanguarda ditou a inspiração, a referência, independente se é ou não conhecida, obscura ou consagrada.
O álbum “Power of the Picts”, de 1969, sintetiza, em notas musicais, tudo isso. Uma música que se comunica facilmente com qualquer época, qualquer geração, é atemporal, mesmo que denote algumas típicas características do ano a qual fora lançado, mas que certamente, em uma audição livre de pré-conceitos, fará com que balance freneticamente as cabeças ao som agressivo e denso do Writing on the Wall.
A banda, como disse, surgiu na cidade de Edimburgo, na Escócia, em 1966 e foi fundada pela vocalista Linnie Paterson, o guitarrista Willy Finlayson, o baixista Jake Scott, o baterista Jimmy Hush e o tecladista Bill Scott, mas para ganhar mais popularidade, ter uma oportunidade, foi para Londres.
Tinha o nome “The Jury” e tinha como base sonora a soul music, mas logo mudou o nome para “Writing on the Wall”, em 1968, bem como a sua vertente musical, talvez pela pequena, mas substanciosa cena pesada que existia em Londres a começar pelo Black Sabbath, Led Zeppelin, Cream, Deep Purple entre outras mais obscuras.
A banda logo ganhou alguma notoriedade principalmente pelo seu estilo teatral e sonoridade pesada e agressiva. Ainda não tinha gravado o seu álbum oficialmente, mas continuava a fazer seus shows, sendo uma atração bem popular em um clube londrino chamado “London's Middle Earth Club”.
O gerente do local e que passou a ser o gerente da banda, Brian Waldman, além de ter sido o responsável pela mudança do nome da banda, também foi responsável pela sua residência no clube onde frequentemente tocavam.
A banda ganhou a reputação infame de assustadora e que tocava pesado e também violentamente, beligerante. Porém, em 1968, o famoso DJ, radialista, crítico musical e jornalista John Peel ficou impressionado com o som da banda quando esta gravou algumas músicas na BBC de Londres.
Foi a catapulta que o Writing on the Wall necessitava para que o gerente do Middle Earth Club, Brian Waldman, que também tinha um pequeno selo também chamado Middle Earth, gravar o primeiro álbum da banda, “Power of the Picts”, no ano seguinte, em 1969.
Logo o Writing on the Wall se tornaria a banda principal do clube ganhando asas e ganhando relativa fama na Inglaterra, abrindo shows para Ten Years After e estreando no lendário Marquee Club, abrindo shows para o Wisbone Ash.
A banda tinha a seguinte formação quando lançou “Power of the Picts”: Willy Finlayson na guitarra e vocal, Alby Greenhalg nos instrumentos de sopro, Jimmy Hush na bateria, Billy T. Scott nos teclados e Jake Scott no baixo e vocal.
O Writing on the Wall, com o seu álbum debaixo dos braços, intensificou o seu apelo visual, com muita teatralidade, com os integrantes vestidos de sumo sacerdotes, caçadores de bruxas etc, mas não conseguia ter as suas músicas tocadas nas rádios e o argumento era óbvio: som pesado e pouco acessível. Ganhou um mundo marginalizado. “Power of the Picts” conta com um avassalador hard rock, com pitadas generosas de blues, psych, muita lisergia, um verdadeiro acid rock.
O álbum começa com “It Came on a Sunday” com um duelo sensacional de teclado e riffs poderosos de guitarra com uma levada meio blues rock e um vocal sombrio e imperioso que lembra, bem como a faixa, um pouco o baixista e vocalista Jack Bruce e o seu Cream.
"It Came on a Sunday"
“Mrs Coopers Pie” vem pesada e alternando entre o sombrio patrocinado pelo teclado e solos animados de guitarra, uma música versátil. “Ladybird” é praticamente a sequência e tem o destaque frenético dos teclados e um hard bem cadenciado.
"Ladybird"
Até que surge uma das melhores e maiores, com oito minutos de duração, faixas do álbum: “Aries”. Um som sombrio, envolto em uma atmosfera densa com bateria batendo forte, teclado alto e altivo, riffs de guitarra pegajosos trazendo à tona um heavy metal vanguardista e muito, muito peso e agressividade.
"Aries"
“Bogeyman” começa engraçada com a gaita de fole, instrumento típico de seu país, a Escócia, mas logo irrompe em um hard rock pesado e sem piedade! “Shadow of Man” começa introspectiva, ameaçadora, com um teclado sombrio e bateria leve, mas depois vem o riff metálico de guitarra, digno de qualquer aprovação de headbanger, com um hard mais psicodélico.
"Shadow of Man" (Live)
"Hill of Dreams"
E fecha com “Virginia Waters” com mais um duelo entre guitarra e teclado, que, além do peso, traz velocidade, um típico heavy metal oitentista, com um vocal meio desleixado e debochado bem interessante, diria engraçado.
“Power of the Picts” não teve sucesso fora da Escócia, a ida à Inglaterra não ajudou muito nesse sentido. Mas enquanto faziam suas apresentações, gravava músicas novas ocasionalmente, unindo, até 1973, material suficiente para gravar um novo álbum o que aconteceu, um ano antes, 1972, mas não foi lançado à época, bem como um terceiro também, mas que teve o mesmo triste fim.
A banda se desiludiu e com o roubo de seus equipamentos causou o fim das suas atividades em 1973. Algumas compilações e reedições aconteceram desse material não lançado, mas carecem de legitimidade.
O debut, “Power of the Picts” foi relançado em 2007 pela Orc Records com material bônus, incluindo boa parte do material de estúdio não lançado anteriormente. A vocalista Linnie Paterson foi para o Beggar's Opera, o guitarrista Willy Finlayson passou a trabalhar com as bandas Meal Ticket, Bees Make Honey e a sua própria banda, Hunters, além de uma aparição no Manfred Mann. Robert 'Smiggy' Smith juntou-se ao Blue, Alby Greenhalgh juntou-se à banda de rockabilly Flying Saucers e o baixista Jake Scott formou o obscuro grupo de jazz Xu-Xu Plesa.
A banda:
Willy Finlayson na guitarra e vocal
Alby Greenhalg nos instrumentos de sopro
Jimmy Hush na bateria
Billy T. Scott – nos teclados
Jake Scott – no baixo e vocal
Faixas:
1 - It Came On Sunday
2 - Mrs. Coopers Pie
3 - Ladybird
4 - Aries
5 - Bogeyman
6 - Shadow Of Man
7 - Taskers Successor
8 - Hill Of Dreams
9 - Virginia Water
Para audição de "Power of the Picts"







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