![Bruce Dickinson – Tattooed Millionaire [1990]](https://d2q9lgeqx691v0.cloudfront.net/content/2025/06/bruce1.jpg)
Em 08 de Maio de 1990, chegava às lojas Tattooed Millionaire, primeiro disco solo de Bruce Dickinson, conhecido e idolatrado por seu trabalho ao lado do Iron Maiden. Como você já deve estar imaginando, não demorou muito para que as especulações começassem: “Será que o Iron acabou?”, “Será que Bruce Dickinson deixou a banda?”. Nem uma coisa, nem outra. A turma de Steve Harris não tinha planos para aposentadoria e Bruce também não desejava largar o posto. Ao menos, ainda não…
O álbum surgiu de maneira despretensiosa. Enquanto os músicos desfrutavam de merecidas férias após concluírem a tour de Seventh Son of a Seventh Son, o cantor recebeu um telefonema de Ralph Simon, cofundador da Zomba Music: “Quer fazer uma trilha sonora”?
Bruce arregalou os olhos, acreditando que aquela poderia ser uma experiência interessante. Já havia um tempo que o rapaz nutria o desejo por um trabalho solo. Portanto, deve ter sido um verdadeiro banho de água fria quando descobriu que não escreveria um álbum por completo. Seria apenas uma música para o mais novo filme de Freddy Krueger: A Nightmare on Elm Street 5: The Dream Child (no Brasil: A Hora do Pesadelo 5 – O Maior Horror de Freddy). O primeiro passo foi convidar seu amigo, Janick Gers, para a nova empreitada.

Os músicos se conheciam há tempos, desde quando Dickinson ainda atendia pelo nome de Bruce Bruce. Nessa época, o performático guitarrista fazia parte do White Spirit. Janick – que havia tocado há pouco com Bruce no Prince´s Trust – havia comentado que estava colocando todo seu equipamento à venda, desiludido com os rumos da indústria musical, e fazendo curso de sociologia, para mais tarde começar a dar aulas. Só que o cara era bom demais para, simplesmente, largar tudo e virar professor…
“Bruce me telefonou e fui vê-lo. Ele mostrou algumas canções com uma sonoridade meio AC/DC. Em uma delas, lhe disse que poderia ser diferente, inseri alguns acordes, enquanto ele fez o refrão… Gravamos em um ou dois dias e ficou ótima! O nome da música? ‘Bring Your Daughter… To The Slaughter’”.
A dupla ficou animada com a composição, acharam que tinha a ver com o projeto e enviaram para os responsáveis pela trilha. O pessoal da Zomba Music adorou o material e logo entraram em contato com o cantor perguntando se tinham mais coisas assim. “É claro que sim, porra”. Só que não… Logo, a dupla teve que se reunir novamente para criar o conteúdo do álbum.
Trouxeram para o time, os mesmos músicos que os ajudaram na gravação de “Bring Your Daughter…”. Ou seja, o baterista Fabio Del Rio, do Jagged Edge (banda que tinha o mesmo empresário do Iron Maiden, Rod Smallwood) e o baixista Andy Carr, do 3 Rivers. “Eu não precisava de um baixista complicado, de um virtuose. Tudo que eu precisava era de um baixista sólido de rock n´ roll”.
Músicos definidos, repertório pronto, era hora de começar as gravações. Para registrar o material, o grupo se trancou no Battery Studios (o mesmo local onde foi gravado o clássico The Number of the Beast), acompanhados de Chris Tsangarides (Y&T, Judas Priest, Yngwie Malmsteen). Todo o processo de criação desse material – contando desde as primeiras composições na residência de Janick Gers até a masterização final – durou pouco mais de 2 meses.
O LP começa com 3 de suas melhores músicas na sequência. “Son of a Gun” é provavelmente a mais pesada e a que mais se aproxima do universo do Maiden. Contando com um forte refrão, é um som que caberia em um álbum como No Prayer For The Dying, facilmente.
“Tattooed Millionaire” já é mais hard rock, mais radiofônica. A letra é, na verdade, uma crítica às bandas de hair metal que estavam em ascensão. Para o cantor, aquela cena era muito voltada à imagem e pouco voltada à música, mas… havia algum rockstar, em especial, que serviu de inspiração? Ao que tudo indica, sim. Durante muito tempo, acreditava-se que a letra era dirigida ao Nikki Sixx (para quem não sabe, o baixista do Motley Crue teve um caso com a esposa de Dickinson), mas em entrevista ao ZN84, realizada em 1998, o cantor admitiu que a música era dedicada ao Axl Rose. “Nunca conheci alguém tão egoísta e cruel quanto ele”.
Na sequência, temos a bonita balada “Born In 58”, com uma letra mais autobiográfica, remetendo ao tempo em que vivia em Nottinghamshire. “Hell On Wheels” vem a seguir. A faixa inicia com uma pegada meio AC/DC antes de cair em um refrão mais melódico, mais pegajoso. Do lado A, acredito que seja a mais fraquinha. Encerra o primeiro lado, a ótima balada “Gypsy Road”, que conta com um solo certeiro de Janick Gers: simples, mas eficiente.
No lado B, temos também 3 grandes destaques: o hard rock festeiro “Zulu Lulu”, a divertida “No Lies” (aliás, não sei é apenas comigo, mas sempre achei que a guitarra da introdução lembrava bastante “Bring Your Daughter…), além da releitura do clássico “All The Young Dudes”, onde os músicos conseguiram imprimir sua identidade sem descaracterizar a música. O resultado final ficou excelente! “Nós a tocamos no Prince´s Trust e é uma música que não costuma ser muito regravada. Para muitos, ela é sagrada, mas não damos bola para isso”. Como é bom viver na Inglaterra, né amigo? Aqui no Brasil, essa música foi gravada até pelo Dominó! E, acredite em mim, você não iria gostar do resultado final.
Bem… O disco ainda trazia as regulares “Lickin´ The Gun” (que conta com um ótimo riff de guitarra, com uma pegada bem anos 70, meio Aerosmith, meio Led Zeppelin, mas a linha vocal nunca me agradou) e “Dive! Dive! Dive!”, composição bem sem sal, mas que traz mais um riff bem bacana criado na veia dos bad boys from Boston (certeza que Janick andou ouvindo “Walk This Way” à exaustão antes de gravar esse som).
Aposto que você está pensando.. “Tá, mas o que aconteceu com ‘Bring Your Daughter… To The Slaughter’, a faixa que originou tudo isso”? A versão de Bruce Dickinson ficou restrita à trilha do filme, uma vez que o chefão Steve Harris pediu para não incluí-la no LP, já que planejava colocá-la no próximo trabalho do Iron Maiden (No Prayer For The Dying), o que de fato ocorreu, mas não sem antes regravá-la com algumas alterações no arranjo, o que nos leva à questão: “Se a música foi lançada na trilha, o Bruce cantou nos shows do disco, e a versão do Iron era outra, por que não deixou o cara utilizar a versão original em seu LP?”. Mistérios do rock n´roll…

No geral, Tattoed Millionaire, é um trabalho excelente, onde acredito que muitos torçam o nariz pelo fato dele ser mais focado no hard rock, de não ser um álbum de heavy metal. Os arranjos são mais simples e até mais comerciais quando comparados ao trabalho criado pela donzela de ferro. Contudo, acredito que o grande erro de boa parte dos ouvintes (e não me refiro somente aos fãs do Iron) é ficar criando expectativas além da conta. A melhor coisa é colocar um álbum para tocar, sem saber o que esperar, e ver o que ele te causa. Quem conseguir ouvir o LP se esquecendo que está ouvindo o cantor do Iron Maiden, irá encontrar um grande disco.
OBS: Os depoimentos presentes nessa reportagem foram retirados dos livros Run To The Hills: A Biografia Autorizada (Mick Wall), Para Que Serve Esse Botão: Bruce Dickinson – Uma Autobiografia e do texto criado por Dave Ling para a edição dupla de Tattooed Millionaire, lançada em 2005.
Faixas:
01) Son of a Gun
02) Tattoed Millionaire
03) Born In 58
04) Hell on Wheels
05) Gypsy Road
06) Dive! Dive! Dive!
07) All The Young Dudes
08) Lickin´ The Gun
09) Zulu Lulu
10) No Lies
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