quarta-feira, 8 de abril de 2026

Grandes álbuns do Prog-Rock: Blocco Mentale - "Poa" (1973)

 



Rock Progressivo italiano foi uma superação da Beat Music local e de seus valores. Na prática, porém, sabe-se que nem todos os músicos que migraram conseguiram desvincular-se completamente de sua influência-base e questionar os temas imaturos. Desde que o Pop italiano surgiu em 1970, foram necessários mais dois anos para que as ideias do underground e da contracultura dessem origem a um estilo musical moderno alienígena e só graças a uma evolução artística, social e política, grupos muito mais conscientes nasceram a partir de 1972. Eram anos de muitas tensões e austeridade, e a banda que destacaremos hoje certamente lutou para encontrar o seu próprio equilíbrio e representou plenamente o último desdobramento da incerteza entre a celebração da "era de Aquário" (Aquarius era praticamente o mapa astral da nova era alardeada no epicentro hippie na Califórnia da segunda metade dos anos 1960) e o novo rumo contaminante que agora se encontrava totalmente consolidado. Formado na região de Viterbo ("a cidade dos Papas", região do Lácio), o Blocco Mentale (tradução: bloqueio mental) foi formado no final de 1972 a partir da união dos ex-integrantes do Oleum (Michele Arena - bateria; Gigi "Roso" Bianchi - guitarras; Filippo Lazzari - teclados/gaita; Bernardo "Dino" Finocchi - vocais e sopros) com o cantor/baixista/compositor Aldo Angeletti, ativo entre 1965-início dos anos 70 com seu grupo "Aldo e i Falisci" (de Beat Music). Na realidade, todos eram da mesma região: Filippo Lazzari e Michele Arena eram de Viterbo, Aldo Angeletti era de Civita Castellana (cidade a 38Km de Viterbo), Bernardino Finocchi era de Ronciglione (cidadezinha a 23Km de Viterbo) e Luigi Bianchi era da Tuscania (outra cidadezinha a 24Km de Viterbo). Todos vinham de experiências anteriores, porém sem resultados, exceto Angeletti que havia conseguido gravar um single com os Falisci ("Preludio Alla Fine"/Le Rondini Bianche (Luther King)", em 1968, pelo selo Telemondo). Começaram a tocar ao vivo, fizeram vários shows (porém sem tocar em festivais), e então surgiu o contato com o Titania, minúsculo selo italiano. Tudo aconteceu através de conhecidos, houve um teste e o grupo foi aceito, mas tudo bem improvisado. O novo grupo lançou imediatamente seu único álbum, intitulado "Ποα" (uma palavra grega que significa "grama", escrita em letras gregas na capa, mas que todos passaram a se referir pela transcrição "Poa"), ambos lançados em 1973. Não houve qualquer divulgação e só foram impressos 2 mil exemplares do álbum (por isso, "Poa" na edição original é hoje ultra raro e caro). Tinha capa dupla (gatefold) laminada de luxo e com um pequeno orifício retangular na frente, através do qual era possível ver uma margarida (que estava na foto interna). 
A banda fez diversas aparições na rádio RAI, mas na TV foi apenas uma no programa "Ora Musica". Apesar de na capa constar que apenas Aldo Angeletti era compositor, na realidade a música era toda composta pelos cinco (só apareceu o nome de Angeletti por ele ser o único integrante inscrito no SIAE, a Sociedade Italiana de Autores e Editores, o ECAD da Itália). As letras ecológicas (ingênuas) eram todas de Claudio Merloni, um sexto membro de bastidores. Musicalmente, tratava-se de um excelente Prog-Rock tipicamente italiano, sinfônico, com toda aquela musicalidade, tudo muito bem gravado e com destaque para flauta, teclados e percussões. Um álbum belíssimo, influenciado pelos primeiros King CrimsonGenesis (pense aí fase 70-71) e PFM (pense aí "Per un Amico"), alternando seções pesadas (guitarras, sax) e interlúdios suaves (violão, mellotron, flauta), criando música de alta qualidade, rica e cheia de variações. Todo o álbum girava em torno do tema ecológico (natureza, flores, prados verdes), enraizado em sensibilidades Folk, mas com passagens bem mais roqueiras, em contrastes elaborados, tudo fácil e com fluência perfeita. Na capa, uma mensagem: "Gostaríamos de falar sobre a natureza. Com essas poucas faixas, gostaríamos de lembrar o pequeno mundo verde que ainda nos rodeia. Talvez, pudesse existir um mundo diferente daquele que criamos, talvez você possa descobrir também todos os valores da vida que ultimamente temos desconsiderado. Com amor". A banda ainda utilizava partes com vários vocais (espécie de polifonia), no estilo New Trolls, com refrões contagiantes, ainda que todos contribuíssem com seus vocais individualmente em partes do álbum. "Impressione" (com mais de 8 minutos) e "Verde" (com quase 4 minutos) tinham uma beleza serena, suave, cativante, pastoral. Enfim, aquele típico Prog italiano lindo, delicado, melodioso, bem tocado, com toques jazzísticos, teclados sinfônicos e bateria primorosa. Pode até não ser uma obra-prima, mas certamente é um trabalho de incrível qualidade e trata-se de uma adição altamente recomendada para fãs do gênero que busquem algo para além das bandas mais conhecidas.
Apesar da boa qualidade, não fez qualquer sucesso (não houve qualquer apoio ou promoção pela gravadora) e, após o lançamento de um single (bastante melódico, "L’amore muore a vent’anni/Lei È Musica", incorporado ao álbum em relançamentos em CD), a banda se desfez em 75, quando vários de seus mebros foram convocados para o serviço militar obrigatório. Eventualmente, a banda se reformaria com outro nome, "Limousine", e alcançaria um sucesso modesto com um som mais comercial. O tecladista Fillippo Lazzari enfrentaria forte crise depressiva e isto traria dificuldades para a continuidade da banda. Aldo Angeletti, Bernardo "Dino" Finocchi e Michele Arena tentaram seguir em frente. Lazzari, após se tratar, recomeçou carreira colaborando com vários artistas, mas morreu num acidente de carro em 91. 




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