domingo, 3 de maio de 2026

Vale a pena assistir: Meu Nome É Gal

 

 Vai fazer três anos que o Brasil perdeu uma de suas mais notáveis intérpretes. A baiana da voz de cristal nos deixou em novembro do ano passado, quando sua cinebiografia estava em plena produção, contando com apoio da própria e dos parceiros de jornada, Caetano e Gil. A cantora é interpretada de forma magistral pela atriz Sophie Charlotte, em mais uma atuação que a credencia ao posto de diva da dramaturgia brasileira, naipe Fernanda Montenegro, para um futuro próximo, já que empilha papéis diversos e exuberantes seja em filmes, peças, séries ou novelas. Entretanto, o filme, que assisti no último fim de semana, deixa um gostinho de que Gal merecia mais pela sua importância cultural para o Brasil. Mas é impossível não se emocionar.

A morte de Gal, aos 77 anos e ainda em pleno vigor, abalou o meio musical e está envolta em uma misteriosa trama que implica sua companheira e empresária Wilma Petrilo. Parceira em mais de 20 anos, ela é acusada de abusos e golpes pelos amigos mais próximos da cantora e está sendo investigada em processo sigiloso. O filme, no entanto, não focaliza essa fase ou toda a longa e rica carreira da cantora. Restringe-se ao período inicial, quando ela deixa a Bahia em 1966, aos 20 anos, para mostrar seu talento no fervilhante cenário do Rio de Janeiro da época, incentivada pelos amigos Caetano e Gil e no embalo do sucesso recentemente conquistado pela também baiana Maria Bethânia.

Meu nome é Gal tem direção dividida entre Lô Politi e Dandara Ferreira, que também interpreta Bethânia. A produção mistura cenas reais de um Brasil conturbado pelo acirramento da ditadura militar, das ferrenhas disputas dos lendários festivais de música e o nascimento do fundamental  movimento tropicalista, pontuado pelos baianos junto a uma geração de artistas brilhantes, que emergiu no período motivado pela resistência à alienação truculenta da sociedade, imposta pelo regime de exceção. Aos poucos, a charmosa timidez da cantora vai dando lugar a uma personagem cada vez mais engajada, libertadora e ativa, especialmente ao mostrar sem filtros sua sexualidade e quando seus amigos são presos e obrigados a se exilar no exterior. E esse é o limite temporal do filme, que termina de forma abrupta dando um gosto de incompletude ou de que ela merecia mais, muito mais.

 Outro aspecto pouco cuidadoso da produção é a rápida transposição dos diferentes períodos da história, que podem tornar confusa a compreensão do espectador menos antenado. As passagens de tempo são marcadas pelas mudanças de visual e vestimentas dos personagens, o que também não deixa de ser um recurso interessante, mas de identificação restrita aos que conhecem melhor as artimanhas daqueles tempos de transformação e desbunde.

O elenco é um tanto quanto irregular. Além da impecável atuação de Sophie, o destaque vai para Luis Lobianco, que interpreta o empresário Guilherme Araújo, responsável por lançar a carreira de Gal e que acompanha os passos de Caetano até hoje. Com um humor equilibrado, Lobianco ameaça roubar a cena sempre que aparece. Outro bom desempenho é o de Chica Carelli, que interpreta a mãe da cantora. Rodrigo Lélis está okay no importante papel de Caetano Veloso, mas Dan Ferreira se mostra bem deslocado e mal caracterizado como Gilberto Gil, outro importante personagem na história de Gal, assim como Dedé Gadelha, namorada de Caetana na época, que recebeu interpretação bem equilibrada de Camila Márdila.

A irregularidade do elenco não chega a comprometer, nem mesmo a atuação caricata e bem aquém do talento de George Sauma, numa inverossímel interpretação de Waly Salomão, parceiro fundamental de Gal na composição do sucesso Vapor Barato, junto com Jards Macalé. A propósito, há momentos do filme em que os personagens no entorno da protagonista parecem ser mais relevantes na história. Por mais fundamentais que eles sejam, o foco é a história da cantora, que só não cai para segundo plano por causa da atuação firme de Sophie.

A parte musical é uma atração especial do filme. Também é retratada de forma rápida e desprovida das principais referências, além do excesso de filtro para caracterizar gravações antigas. Há cenas em que a própria Sophie canta e há aquelas dubladas, num equilíbrio que parece ideal para uma produção do gênero. Longe de ser brilhante e mesmo com todos os defeitos, é um filme arrebatador e obrigatório para os amantes da rica música brasileira. A força e o carisma de Gal são essenciais para que o espectador saia satisfeito do cinema. Vale a pena assistir.



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