Eh Companheiro
José Mário Branco
Eh companheiro, aqui estou
Aqui estou pra te falar
Estas paredes me tolhem
Os passos que quero dar
Uma é feita de granito, não se pode rebentar
Outra de vidro rachado pras duas pernas cortar
Eh companheiro, resposta
Resposta te quero dar
Só tem medo desses muros quem tem muros no pensar
Todos sabemos do pássaro cá dentro a querer voar
Se o pensamento for livre, todos vamos libertar
Lalá lalá lará laralalá
Lará lará lará laralalá
Lará lará lará laralalá
Eh companheiro, eu falo
Eu falo do coração
Já me acostumei à cor
Desta negra solidão
Já o preto que vai bem, já o branco ainda não
Não sei quando vem o vento pra me levar de avião
Eh companheiro, respondo
Respondo do coração
Ser sozinho não é sina nem de rato de porão
Faz também soprar o vento, não esperes o tufão
Engrenagem
José Mário Branco
Do berço à cova sem parar
Caminho fora sempre a andar
Cá vou levando a minha vida
Um minutinho a descansar
A vida inteira a trabalhar
Suor sem conta nem medida
Pra ter um companheiro nesta viagem
Vou meter um pauzinho na engrenagem
Do berço à cova sem vagar
Enxada à terra barco ao mar
A mão e a máquina a compasso
Os bois no campo a lidar
E o serventio a trabalhar
Todos com o mesmo cangaço
Pra ter um companheiro nesta viagem
Vou meter um pauzinho na engrenagem
Do berço à cova Sol a Sol
Por pão, amor e futebol
Dor no sapato e dor na espinha
Canta-se o fado em lá bemol
Morde a sardinha no anzol
E o tubarão segura a linha
Pra ter um companheiro nesta viagem
Vou meter um pauzinho na engrenagem
Do berço à cova sem parar
Caminho fora sempre a andar
Cá vou levando a minha vida
Um minutinho a descansar
A vida inteira a trabalhar
Suor sem conta nem medida
Pra ter um companheiro nesta viagem
Vou meter um pauzinho na engrenagem

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