quarta-feira, 3 de junho de 2026

Grandes álbuns do Prog-Rock: Todd Rundgren's Utopia - "Utopia" (1974)

 
Todd Harry Rundgren nasceu na Philadelphia/PA em 1948. Seu pai , era descendente sueco e sua mãe, descendente de austríacos e alemães. Aprendeu a tocar guitarra sozinho. Aos 17 anos, montou sua primeira banda. Após a formatura do segundo grau, começou carreira musical numa banda de Blues-Rock e, em 1967, formou a Nazz, banda voltada para produção autoral. Com contrato com a SGC Records, uma subsidiária da Atlantic Records, o primeiro single foi "Open My Eyes/Hello It's Me" (de jul/68), ambas composições de Rundgren. 
Foram três álbuns ("Nazz", de out/68; "Nazz Nazz", de abr/69; "Nazz III", de 71) e, neste período, a compositora novaiorquina Laura Nyro lançou seu segundo álbum, "Eli and the Thirteenth Confession", de enorme influência sobre Rundgren. Ele contou: "todos aqueles acordes maiores com sétima e variações em acordes aumentados e suspensos, aquilo teve impacto imediato sobre minhas composições e passei a compor mais no piano. Ela tinha um lado sofisticado de R&B e um jeito bem jazzy de ver as coisas". O restante do Nazz se viu tendo que acomodar tantas mudanças de gosto de Rundgren e tensões surgiram entre o primeiro e o segundo álbum, algo que só piorou durante as gravações do segundo álbum. No seu lançamento, Rundgren já havia abandonado o Nazz e o álbum "Nazz III" foi uma coletânea de sobras montada sem a participação dos músicos. Aos 21 anos, Todd Rundgren, então, decidiu usar seus talentos como produtor. No verão de 69, migrou para NYC e logo se integrou à equipe de Albert Grossman, empresário/produtor muito conhecido (pense Bob Dylan, The Band, Janis Joplin etc.). Grossman havia acabado de fundar a Ampex Records e construído o Bearsville Studios, perto de Woodstock/NY. No Bearsville, Rundgren começou trabalhando na produção de artistas Folk e logo foi promovido a engenheiro de som. Robbie Robertson e Levon Helm (da The Band) o convidaram para fazer a engenharia das sessões para o álbum "Stage Fright" (de ago/70), que alcançou o nº. 5 das paradas (ponto mais alto para o grupo naquele momento) e Rundgren foi apelidado "garoto maravilha do Bearsville". Ele foi programado para a produção do álbum "Pearl", de Janis Joplin (lançado em jan/71, apenas 3 meses após a morte dela, em 4/out/70), mas os planos fracassaram, pois a química entre Rundgren e Janis não rolou.
Albert Grossman e Bob Dylan
Após um período que o próprio Rundgren chegou a pensar que nunca voltaria a se apresentar como artista, ele procurou Grossman com a ideia de um álbum solo. "Runt", de set/70, foi este disco e apresentou uma sonoridade brilhante e canções inspiradas em Laura Nyro. Foi gravado com o baixista Tony Fox Sales (então, com 17 anos) e seu irmão, Hunt Sales, na bateria (então, com 14 anos), ambos depois famosos com Iggy Pop e o Tin Machine, de David Bowie. Um material muito sofisticado, especialmente para um cara tão jovem. De atmosfera única, insular, deixando óbvio o talento de Rundgren, cheio de baladas Soft Rock introspectivas, misturando estilos num som personalíssimo, atraente, Power Pop. O single "We Gotta Get You a Woman" alcançou o nº. 20 nas paradas. Rundgren manteve a carreira de produções e sua reputação na indústria fonográfica só foi crescendo. Ele passou a usar maconha ("uma droga que me dava uma sensibilidade totalmente diferente quanto ao tempo, espaço e ordem"), que o influenciou nas composições para o segundo álbum.
"The Ballad Of Todd Rundgren", de jun/71, trouxe baladas ao piano e mais influência de Nyro. Foi um refinamento musical. Gerou dois singles, "Be Nice To Me" e "A Long Time, a Long Way To Go". Resenhas iniciais foram misturadas, mas este álbum passaria logo, logo a ser considerado um dos maiores álbuns de cantor/compositor daquela época (a revista Rolling Stone o chamou de "o melhor álbum que Paul McCartney nunca fez").  De fato, havia todo um charme caseiro, melódico, sutil, Soft Rock, cheio de humor inteligente, muitas baladas Pop introspectivas, sensíveis, estranhas e charmosas. No final de 71, Rundgren foi recrutado para finalizar o terceiro álbum do Badfinger, um projeto que George Harrison havia abandonado para organizar o Concert For Bangladesh, em Londres ("Straight Up", de dez/71, foi um sucesso). Na sequência, Rundgren retomou o trabalho em seu terceiro álbum solo. Após dois álbuns solo, Rundgren já tinha algum sucesso e um crescente respeito como compositor/produtor. A maior parte do repertório foi composto sob influência da maconha, mas nesta fase, ele também passara a experimentar Ritalina (espécie de anfetamina usado para combater déficit de atenção): "o uso da Ritalina me ajudou a focar no processo, eu trabalhava até doze horas por dia para cumprir o prazo de três semanas". Ele instalou um gravador de oito canais, um mixer e sintetizadores em sua sala para continuar as gravações após deixar o estúdio. Pela primeira vez, Rundgren gravou e tocou tudo sozinho. Quando um álbum e meio já estava pronto, ele decidiu expandir o projeto para um álbum duplo (e rapidamente gravou as últimas poucas faixas com músicos, ao vivo no estúdio). "Something/Anything?", de fev/72, foi lançado logo após o Bearsville conseguir um contrato de distribuição com a Warner Bros Records.  O álbum incluiu várias canções que se tornariam muito famosas e amadas ("I Saw The Light", "Hello It's Me" e "Couldn't I Just Tell You"). Entre faixas Pop e jams estendidas, o álbum foi ao nº. 29 nas paradas e, em três anos, foi certificado como "disco de ouro". Ao longo do tempo, "Something/Anything?" passou a ser considerado um dos trabalhos mais marcantes dos anos 70, influente para inúmeros artistas, recorrentemente lembrando como um dos melhores álbuns de todos os tempos. Não era para menos: canções Pop perfeitas e memoráveis, descaradamente acessíveis, cativantes, lidando com um lado mais cerebral. Havia de tudo, canções tipo Carole King, baladas clássicas, Motown, Power Pop ofuscante, Hard Rock psicodélico, pura estranheza, Blue Eyed Soul e muitas canções brilhantes que não se enquadravam em qualquer estilo específico. Uma jornada incrível e extremamente despretensiosa, repleta de letras autodepreciativas, com senso de humor bizarro, toneladas de pontas soltas, muitos truques de estúdio, canções leves, uma odisseia caleidoscópica através de um artista obsessivo e muito talentoso. Um extraordinário álbum em que toda aquela habilidade musical e um gênio confuso convergiam para criar algo glorioso. 
"A Wizard, A True Star", de mar/73, foi o álbum seguinte e marcou uma guinada. Após o sucesso de "Something/Anything?", Rundgren havia se sentido desconfortável com o rótulo de "Carole King masculina". Decidiu criar um disco mais eclético e experimental. Sua música também começou a ganhar uma direção mais Rock Progressivo (pense Frank Zappa, Yes e Mahavishnu Orchestra). Foi um passo curioso: após ter alcançado sucesso comercial, jogou quase tudo fora. "A Wizard, A True Star" foi totalmente baseado nas experiências de Rundgren com alucinógenos. O álbum incluiu influências de música de teatro, Jazz e Funk. Apesar de não ter tido singles (por decisão de Rundgren), "Wizard" acabou se tornando muito influencial para músicos, sempre lembrado com carinho, "uma verdadeira montanha-russa vertiginosa e inebriante de emoções e mutações de gênero", um álbum futurista e corajoso. Mantida a faceta Pop, porém enterrada em excentricidades de um espírito inquieto, chocante, com canções flutuando dentro e fora de uma névoa nebulosa pós-psicodélica. Um raro álbum de Rock que exigia atenção total do ouvinte que desejasse entender o que se passava naquela viagem sonora. Na sequência, ele produziu "We're An American Band", do Grand Funk Railroad, e o álbum de estreia dos New York Dolls (ambos de jul/73). Em paralelo, ele preparou um show tecnologicamente ambicioso voltado para uma banda que viria a ser conhecida como "Utopia" (consistindo em Tony Sales, Hunt Sales, o tecladista Dave Mason - nada a ver com o guitarrista do Traffic - e o especialista em sintetizadores Jean-Yves "M Frog" Labat). A turnê começou, mas foi cancelada duas semanas depois. Nesta época, Rundgren passara a se tornar fascinado com religião e espiritualidade, lendo muitos livros. "Todd", de fev/74, foi gravado nesta fase novamente sob influência de alucinógenos e bem voltado aos sintetizadores. Sem concessões, era um trabalho impenetrável, cheio de desvios, colisões e algum Pop ocasional (entre o melhor dele). Um álbum difícil, cheio de camadas, com grandes partes instrumentais, com baladas requintadas, Rocks intensos e muita escuridão/demência. Experimentos e excessos deixaram "Todd" um álbum complicado para os não iniciados, mas para os fãs era uma real joia. Outro álbum duplo, com sensibilidades Jazz Fusion, e durante sua gravação, Rundgren se aproximou de Kevin Ellman (bateria) e John Siegler (baixo). Junto com Mark "Moogy" Klingman e Ralph Shckett (ambos tecladistas), ele montaria uma nova formação para o "Utopia", que faria seu primeiro show no Central Park, em ago/73. A banda faria vários outros shows e em dez/73, Rundgren faria uma apresentação no programa 'The Midnight Special" tocando "Hello It's Me" e usando uma roupa totalmente Glam, extremamente extravagante parecendo uma drag queen. 
O projeto "Utopia" embarcou numa primeira (e bem sucedida) turnê em mar-abr/74 (após a qual Rundgren continuou seus trabalhos de produção). A estreia da banda em gravações foi com o álbum "Todd Rundgren's Utopia", de out/74, que marcou a primeira aventura completa de Rundgren no Rock Progressivo. Embora no futuro o Utopia tenha se voltado a um som mais Pop Rock, nos três primeiros anos, a coisa foi 100% Prog-Rock. O nome "Utopia" vinha de uma estrofe do álbum "A Wizard, A True Star" ("wait another year, Utopia is here"). O álbum era composto por apenas quatro faixas longas e complexas, quase 60 minutos. Com Rundgren (vocais, guitarras), três tecladistas (Klingman, Schuckett e Labat), mais a cozinha rítmica (Siegler e Ellman) - todos já tendo tocado com Rundgren em seus álbuns solo - o disco abria com a "Utopia Theme" (quase 15 minutos), gravada ao vivo num concerto (no Fox Theatre, em Atlanta/GA, em abr/74), passava por "Freak Parade" (mais de dez minutos) e fechava o lado 1 com "Freedom Fighters" (a menorzinha, com apenas 4 minutos). Todo o lado 2 era ocupado com "The Ikon" e seus 30 minutos de duração (desafiando os limites do vinil - o som precisou ser comprimido para caber o que resultou numa perda de qualidade - a versão em CD eliminou este problema). Lançado pela Bearsville Records, era uma expansão e tanto dos estilos musicais experimentados por Rundgren. Muitos roqueiros nem sabem deste álbum já que por vir de Rundgren trata-se de algo "fora do radar", mas é um grande erro. Um dos álbuns Prog mais definitivos da história. Pena que esta formação só existiu neste trabalho (cada futuro álbum do Utopia seria bem diferente e este foi disparado o melhor). Outro ponto: trata-se de Rock Progressivo americano e uma das obras-primas do gênero. Sintetizadores psicodélicos, solos de teclados modulados, bateria/baixo barbarizantes, solos de guitarra escaldantes, lindas harmonias vocais, enfim, um disco desbundante. Criatividade solta (dando toda a liberdade para Rundgren se sentir livre do confinamento do formato padrão das canções), numa abordagem empolgante (e até surpreendente, na época, para fãs de Rundgren). Rundgren viu o que bandas como Yes, ELP, King Crimson, etc. estavam fazendo ao criar álbuns realmente elaborados e obtendo grande sucesso e embarcou na mesma lógica. Na época de seu lançamento, jornalistas foram rápidos em detonar o álbum acusando-o de pretensioso, pomposo, excessivamente indulgente etc. De fato, toda a música neste primeiro "Utopia" era inacreditavelmente complexa, com solos extensos, múltiplos teclados, diferentes temas, muitas mudanças de ritmos, o Prog-Rock em seu aspecto mais extremo (e nada do lado Pop de Rundgren). Muitos até consideram este como o "ultimate Prog-Rock album of all time" (o que eu considero um baita exagero e não concordo). Sem dúvida, uma obra monumental, com todo tipo de excessos musicais, mas com música de verdade, sólida, escrita por um gênio que montou uma banda de músicos incrivelmente talentosos para ajudar-lhe a realizar uma visão bizarra. É até incrível que funcione tão bem! Grande foco, superando quase todas as outras bandas Prog em termos de destreza instrumental e escopo épico, voltas e reviravoltas adoráveis, melodias entremeadas com momentos selvagens, interações esplêndidas, voos deslumbrantes de sintetizadores, guitarras ardentes e cortantes, performances sensacionais, muitas e variadas ideias musicais, múltiplos climas, tanta profundidade e sofisticação musical que não há como não ver este álbum como memorável. Se as explorações musicais começadas em "A Wizard, A True Star" explodiram em "Todd", um álbum que buscou caminhos instrumentais obtusos e aproximou Rundgren do Rock Progressivo, no projeto "Utopia" o Prog-Rock era de corpo e alma, uma banda que trabalhava como coletivo, mas da qual inegável quem era a força motriz. Infelizmente, logo após o lançamento deste disco, Labat saiu. Rundgren continuou sua carreira solo (mantendo o projeto "Utopia", em formações variadas, em paralelo pelo menos até 1986 com eventuais reuniões depois). 



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