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| Bertram, Hemlinger, Thibault + Pons (sentado) |
Era o início da década de 70 e o Prog-Rock era a nova onda. Se na Holanda, Itália e Alemanha, o movimento foi forte, na França, houve apenas alguns grupos. Certo mesmo foi a influência da sonoridade vinda de Canterbury, na Inglaterra, com toda a força musical do Soft Machine e do Caravan, que misturavam Rock, Pop e Jazz, em arranjos complexos e variados (além disso, com a presença de Daevid Allen em território francês e seu Gong) infundiu o espírito e inspirou grupos locais. O Moving Gelatine Plates foi um deles. Claro o alcance da banda ficou limitado com a mídia local voltada para as bandas estrangeiras e considerando o estilo escolhido da Canterbury Scene (não o mais acessível ao grande público). Porém, em retrospecto, pode-se dizer que o MGP foi uma das melhores bandas francesas, no sentido da qualidade, exibindo originalidade e inventividade próprias, música preenchida com um senso de humor e uma irreverência que os distinguia. Claro, com um lema "arte pela arte", aquele tipo de música (amplamente não comercial) e a postura de recusar certos concertos para "não se comprometerem" e manterem a "essência marginal"/purista, a visibilidade da banda foi restrita. Por outro lado, ela ganhou o ar de misteriosa, da qual muitos falavam (no boca-a-boca), mas poucos tinham visto ou ouvido. A apresentação no Le Bourget conquistou-lhes uma espécie de culto de seguidores, ainda que sem qualquer gravação lançada. Naturalmente, a banda foi sendo convidada para outros festivais (o badalado "Popanalia 1970" de Jazz e Rock foi um deles, acontecido em Biot em 5/ago tendo como atrações pelo lado do Jazz Archie Shepp, Art Ensemble Of Chicago, Don Cherry etc., e pelo lado do Rock, Eric Clapton, Gong, King Crimson, Soft Machine, Moody Blues, Pink Floyd, Traffic, Plastic Ono Band etc.). Este festival também foi organizado por Claude Rousseau e atraiu 30 mil pessoas. A banda também participou de shows com grandes nomes da época (Magma, Gong, Triangle, Total Issue, East Of Eden, Jean-Luc Ponty etc.).
Todos estes concertos no verão de 1970 em Paris e arredores culminaram na gravação das faixas "London Cab" (de 8 minutos e meio) e "X 25" (de 2 minutos), gravadas em 4 pistas no Saravah Studio. Elas foram impressas num disco de acetato flexível pela etiqueta AKT (distribuída pela CBS) por iniciativa do baterista Claude Delcloo, fundador da revista "Actuel" (inicialmente focada em Avant-garde Jazz, mas em 1970 ampliada para cobrir vários artistas underground e da contracultura) e entusiasta do MGP. Este disquinho foi emprestado a Patrice Blanc-Franquart e ele o fez chegar à José Arthur, radialista/ator/humorista, que o veiculou no seu programa Pop-Club, na rádio France Inter. Que surpresa foi a banda se ouvir no rádio! Claude Rousseau sentia-se impulsionado a recuperar o dinheiro já investido na banda. Uma turnê pela costa francesa do Atlântico foi usada para pagar as dívidas e, em troca, a banda se viu livre de qualquer compromisso em jan/71. Finalmente, no mês seguinte, curiosamente, a banda aceitou a assinar com a CBS, desde que todo seu trabalho não estivesse sujeito a qualquer regra. O repertório foi fruto de esforço conjunto. Se um músico trazia toda sua parte pronta, os demais acrescentavam suas partes. Se ele trazia apenas um tema, todo o grupo trabalhava nas sequências e harmonizações. Bertram, Thibault e Coulon improvisavam nos ensaios por três horas, gravando tudo e depois selecionando as partes mais interessantes merecedoras de retrabalho. Não havia regras e a liberdade era total.
O álbum resultado foi intitulado apenas "Moving Gelatine Plates", gravado em apenas seis dias no Studio Davout, em Paris. Contando com Maurice Helmlinger (órgão, trumpete, saxes e flautas), Gérard Bertram (violão, guitarra e vocais), Didier Thibault (baixo, guitarra de 12 cordas, sintetizador) e Gérard Pons (bateria e percussão), mais ajuda de amigos convidados (Petit-Jean Boret nos arranjos, Jean-Jacques Hertz nas guitarras, Dominique Godin nos teclados, Didier Malherbe e Jean Rubert no sax, Marc Profichet no vibrafone/xilofone, aquele álbum representou o culminar de anos de trabalho, mas também uma espécie de cartão de visita para o desenvolvimento da carreira. Soberbo Jazz-Rock muito próximo do som de bandas de Canterbury (como Soft Machine, Caravan, Hatfield and the North...), mantendo influências psicodélcias, em performances e interações arrasadoras, numa mistura inventiva de Rock e Jazz, com curtos interlúdios vocais (em inglês). Um álbum de 35 minutos magníficos (essencialmente instrumentais), uma obra-prima (que muitos até consideram o melhor deles), apenas cinco faixas, mas todas excelentes, utilizando habilidades extraordinárias criando um Prog-Jazz-Rock feito para o prazer dos ouvintes. Os inegáveis elementos de Jazz mesclavam com o Canterbury Sound e todo um apetite por experimentações, sem sacrificar as melodias e o desbunde instrumental, sem barreiras ou limitações. O álbum retratava bem como eram os shows ao vivo. A CBS lançou-o em jun/71, porém com limitadas divulgação/distribuição, as vendas foram fracas (apenas 10 mil cópias). Além disso, aquele tipo de música interessava menos à mídia (mais focada nos movimentos sociais da época). Infelizmente, problemas financeiros logo passaram a assombrar a banda.
Ainda assim, a ajuda de alguns músicos de sessões (Jean-Pierre Laroque no fagote, Michel Camicas no trombone, Guy Boyer no vibrafone, Jean-Jacques Hertz nas guitarras, Dominique Godin nos teclados, Jean Rubert no sax, Marc Profichet na bateria e Mico Nissim no minimoog), o MGP voltou ao estúdio no final de 71 para gravar um novo álbum intitulado "The World Of Genius Hans", que seria lançado em fev/72 (o álbum foi gravado relativamente logo após o primeiro porque as canções estavam prontas e o contrato com a CBS estipulava um álbum por ano). Apesar da capa curiosa e bizarra (mostrando um homem com cabeça de boi, jaqueta de couro, salsa enfiada nas narinas/orelhas/cabeça, cigarro na boca, com um fundo cor-de-rosa), que parecia remeter ao "Trout Mask Replica" do Captain Beefheart, e até desestimulava as pessoas em comprar o disco, isto era uma pena, afinal tratava-se de um dos melhores álbuns do Prog-Rock francês, sem dúvida. Impressionante musicalmente, com claro ganho na capacidade das composições em relação à estreia, repleto de longas improvisações, em apenas sete faixas, era sim um esforço mais polido e maduro. O Prog fundido ao Jazz, aos elementos de psicodelia e ao humor geraram um poderoso álbum, com enorme complexidade de arranjos, fartos experimentos, musicalidade nas alturas, intrincadas passagens, vibrações hipnóticas, em verdadeiras joias musicais. Mais uma vez, a cena Canterbury era a principal inspiração (particularmente Soft Machine e Caravan), mas havia humor de Zappa e todo o desempenho musical dos músicos. Era o auge da primeira onda do Rock Progressivo, quando todas as bandas tentavam se superar. O resultado era música cada vez mais complexa, criativa e ambiciosa. Extravagâncias musicais aventureiras que demandavam tempo para assimilação, ainda que isto fosse altamente gratificante. O álbum teve recepção até melhor do que a do primeiro, mas não provocou aumento de público nos shows. Resenhas excelentes (pelo menos, dos jornalistas que receberam o álbum). As deficiências promocionais/de distribuição permaneceram e o disco vendeu cerca de 10 mil cópias, como o primeiro. Devido à tais vendas fracas, despesas com equipamentos e a incapacidade da banda de agendar shows, as dívidas foram se acumulando. Surgiram tensões entra a banda e a CBS. Gérard Pons teve que vender sua bateria e sair da banda. Ele chegou a ser substituído por Alain Clarel. Para fazer frente a todos os problemas financeiros, foi necessário vender o órgão e admitir um tecladista com equipamento próprio, Philippe Patron. Como quinteto, o MGP se apresentou no Olympia em mai/72, mas pouquíssimas pessoas assistiram aos shows desta fase. O último show aconteceu em Sartrouville em 4/jun/72. O grupo acabou em 5/ago/72 por causa dos problemas financeiros intransponíveis.







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