quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Grandes álbuns do Prog-Rock: Mezquita - "Recuerdos de mi Tierra" (1979)


Hoje, faremos uma viagem até o sul da Espanha, região da Andaluzia (composta por 8 províncias: Almería, Cádiz, Córdoba, Granada, Huelva, Jaén, Málaga e Sevilla). Os anos de 1976-79 foram os mais frutíferos para a região, com a produção de um tipo de Rock com sotaque próprio e raízes locais muito bem trabalhadas. Eu destacaria a banda Imán com seu álbum "Califato Independiente", de 78, a banda Azahar com seu álbum "Elixir", de 77 e a banda Mezquita, cujo álbum de estreia é para muitos o melhor do Prog-Rock andaluz. Surgida em 1978, em Córdoba, o Mezquita era composto por José Rafael García (voz e guitarra), Fernando "Randy" López (baixo, percussão), Francisco "Roscka" López (teclados) e Rafael "Pelucas" Zorrilla (bateria e percussão).
Roscka, Zorrila, Randy e José Rafa
Desde a virada para os anos 70, os jovens de Córdoba com interesses musicais já vinham se reunindo na Plaza Séneca ou no pátio da Mezquita-Catedral. Dessas encontros e conversas, surgiram grupos desejosos por dar asas aos seus instintos artísticos. Deles, surgiram dois nomes básicos do Rock espanhol: Medina Azahara e Mezquita (os amigos Randy López e José Rafael em 1969 formaram a dupla Libra Y Tauro; em 70, acrescentaram o baterista Rafael surgindo o "Expresión Trio" e quando o tecladista Roscka entrou, reduziram o nome para apenas "Expresión" tocando um Proto-Prog - muito era apenas um Hard Rock hoje datado com teclados). Eles gravaram dois álbuns entre 1972-77 (selo Musimar). Este grupo perdurou por muito tempo, recebendo inúmeros prêmios regionais e nacionais importantes por sua criatividade e espírito inovador. Em 78, mudam de nome novamente para "Mezquita" tornando-se um dos precursores do movimento progressivo conhecido como "Rock Andaluz". Surgiu então um Rock forte, pronunciado com sotaque de guitarra flamenca e temperado com finas especiarias árabes. Eles ensaiavam não muito longe dali da Mezquita e, em 79, Vicente "Mariscal" Romero, com quem já haviam criado uma relação durante uma infrutífera temporada em Madrid, resolveu contratá-los para seu selo Chapa Discos. O próprio produtor esclareceu numa entrevista porque o Mezquita lhe chamou atenção: "A banda encheu os olhos de todos. Suas canções tinham uma nova força dentre os novos grupos de Rock na Andaluzia. Enquanto alguns outros exploravam o veio das tonadillas (canções tradicionais da Espanha, de origem árabe, acompanhadas de uma execução teatral), o pessoal do Mezquita apanhava as raízes mais árabes e lhes davam um ar de vanguarda absoluto".
O álbum de estreia, "Recuerdos de mi Tierra" (gravado em jul/79, no estúdio Audio-Film, em Madrid e lançado três meses depois), hoje considerado uma das obras essenciais (um tesouro) do Rock Progressivo hispânico, continha um conjunto de canções de qualidade inquestionável, casando estilos aparentemente díspares (como Hard Rock e música árabe-andaluza), tudo sem cair lugares-comuns e se distanciando da banda Triana, grupo que quase todos na Espanha da época queriam se assemelhar. Um destaque eram diálogos entre o violão espanhol e a guitarra elétrica conversando animadamente em várias canções do disco. As influências étnicas (árabes e flamencas) percorriam aquelas seis faixas inventivas e atraentes, criando algo diferente, até incomum, quase totalmente novo. Prog-Rock sinfônico com tempero/sabor espanhol/árabe interessantíssimo. Com vocais em espanhol (e muito expressivos), eles foram muito felizes na mistura criada. Combinando estruturas complexas justapostas com violão flamenco e melodias delicadas, excelentes harmonias vocais, eles misturavam selvagemente elementos tradicionais, orientais e progressivos com grande fluidez, energia e virtuosismo. Música que não desacelera nunca e puro deleite para os ouvidos naquelas mudanças de ritmos implacáveis, compassos estranhos, temas melódicos e execução primorosa. Interações arrebatadoras, muita emoção, atmosferas/texturas mouras/andaluzas/flamencas. "Recuerdos de mi Tierra" era uma obra-prima (comece sua coleção de Prog espanhol por aqui), um Prog com raízes nas tradições locais da bela cidade de Córdoba, com elementos do Yes, do King Crimson, do Rush e do Hard Rock clássico, mas criando algo único, poderoso e exuberante, muito por causa da qualidade dos músicos. Mágica transposição do ideário Prog inglês para a península ibérica espanhola. Uma joia que colocou o Mezquita entre as grandes bandas do país levando-os a dezenas de apresentações, festivais, vendas e muito reconhecimento.
Levaria dois anos para a banda lançar seu segundo álbum, "Califas del Rock" (de 1981), um trabalho tão aguardado que não correspondeu às expectativas e não repetiu a grande recepção do álbum de estreia. Uma espécie de Hard Rock de segunda divisão que não era convinvente. O país passava por outro momento e isto não ajudou na divulgação. Esta desilusão aliada à saída de Randy López (que foi para a banda Medina Azahara) detonou o Mezquita (que ainda gravou uma demo tape para um futuro terceiro álbum) que acabou em 1983.



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