Calema - Consciência (Novo Single 2020)
quinta-feira, 5 de janeiro de 2023
CRONICA - IRON BUTTERFLY WITH PINERA & RHINO | Metamorphosis (1970)
A vida é cruel! Pois uma vez que a borboleta de ferro oferece um álbum coerente e acima de tudo artisticamente bem-sucedido, não encontra o sucesso que merecia. Na melhor das hipóteses, um sucesso de estima ligado ao fato de ser produzido por uma formação lendária. Isso é vida. É assim.
Após o lançamento da live publicada em abril de 1970, Erik Brann bate a porta do combo. Doug Ingle, Ron Bushy e Lee Dorman recrutam dois guitarristas: o músico de estúdio Larry Reinhardt conhecido como Rhino e o ex Blues Image, Mike Pinera. Esta nova formação rapidamente entrou em estúdio em nome da Atco para lançar o 5º álbum do Iron Butterfly (mais precisamente Iron Butterfly With Pinera & Rhino) publicado em agosto de 1970.
Este disco é composto por 9 peças. Começa com um breve instrumental, de 40 segundos, intitulado “Free Flight” que intriga. No entanto, mesmo que este título seja curto, o ouvinte rapidamente percebe que uma mudança radical ocorreu.
Aliás, a chegada de sangue novo vai transformar o estilo e principalmente a sonoridade do grupo de Los Angeles. De onde vem o nome do disco, Metamorfose com a estranha capa onde se observa sobre um recife se observa um caixão e um berço. Você pode ver a vida e a morte lá. A frente é mais colorida, mais poética e sobretudo menos macabra.
Após esta breve introdução, as coisas sérias começam com “New Day” para um título muito rock. Não há mais órgãos intrusivos. Chega de solos de guitarra assustadores. Adeus a esta voz emotiva que faz demais e luta para convencer. Tchau, tchau, esses coros fantasmagóricos que não levam a lugar nenhum. Os teclados são mais atmosféricos. As partes da guitarra são mais arejadas e mais blues, contrastando fortemente com o estilo dark de Erik Brann. A voz de Doug Ingle, comovente como é, é mais composta e nervosa às vezes. Além disso, divide os vocais com Mike Pinera, mais rock, que traz belas harmonias vocais principalmente na fantástica “Stone Believer” que encerra o lado A.
A terceira música, “Shady Lady” é mais enigmática. “Best Years of Our Life” é ao mesmo tempo furioso e sonhador. Vem a balada pastoral, “Slower Than Guns” com seu belo violão e cítara fornecidos pelo produtor Richard Podolor.
O lado B abre com “Soldier In Our Town” em um registro folk desencantado com um andamento lento. “Easy Rider (Let The Wind Pay The Way)” que segue é mais nervoso onde as guitarras rugindo nos transportam na rota 66.
Atinge a peça de resistência onde o Iron Butterfly esfrega os ombros com o prog nos 14 minutos de “Butterfly Bleu” com break e sur-break. 14 minutos de felicidade que se iniciam num ambiente blueseiro, melancólico, algo pesado onde o órgão conduz a dança. Em seguida, as guitarras em belas harmonizações aceleram o andamento. Nós decolamos. É estratosférico à vontade. Vem o silêncio que dá lugar ao regresso do "Voo Livre". Então o grupo entra em delírio agonizante onde o talk-box é operado. Tudo isso termina na atmosfera blueseira e melancólica.
Um disco que tem uma boa pegada, bem afinado com o seu tempo, bem equilibrado e capaz de competir com os Doors, ao contrário dos LPs anteriores. Infelizmente, isso não impedirá a divisão do grupo. De fato, Doug Ingle se despede do Iron Butterfly que dá seu último show em 23 de maio de 1971. Até seu retorno em 1974 por iniciativa de Ron Bushy que se torna o único membro original (ele morre em 29 de agosto de 2021). Por sua vez, Lee Dorman e Larry Reinhardt formarão o Captain Beyond com o primeiro vocalista do Deep Purple, Rod Evans. Quanto a Mike Pinera, ele se juntará ao Ramatam com o baterista de Jimi Hendrix, Mitch Mitchell e oferecerá seus serviços nos anos 80 a Alice Cooper.
Títulos:
1. Free Flight
2. New Day
3. Shady Lady
4. Best Years Of Our Life
5. Slower Than Guns
6. Stone Believer
7. Soldier In Our Town
8. Easy Rider (Let The Wind Pay The Way)
9. Butterfly Bleu
Músicos:
Doug Ingle: órgão, vocal
Lee Dorman: baixo
Ron Bushy: bateria
Mike Pinera: guitarra, vocal
Larry "Rhino" Reinhardt: guitarra
+
Richard Podolor: cítara, guitarra de 12 cordas
Bill Cooper: guitarra de 12 cordas
Produção: Richard Podolor
CRONICA - CORNUCOPIA | Full Horn (1973)
Grupo originário de Hanover. Cornucopia gira em torno do baixista Wolfang Bartl, do tecladista Christoph Hardwig, do baterista Wolfgang Gaudes, do percussionista/efeitos sonoros Rudy Holzhauer, do cantor Wolfgang Kause e do guitarrista Kai Henrik Möller. Os músicos levam como convidado o saxofonista/flautista Jochen Petersen ex-Ikarus. Cornucopia lançou um álbum em 1973 pela Brain Metronome intitulado Full Horn for a beautiful cornucopia.
Este percurso de 33 voltas é composto por duas pistas curtas (quatro minutos em média) e duas longas, uma das quais ocupa toda a lateral A. Assim Full Horncomeça com "Day Of A Daydreambeliever" de mais de dezenove minutos em oito batidas, uma faixa krautrock completamente louca que vai em todas as direções. Órgão cavernoso vagamente perturbador acompanhando uma guitarra corrosiva na introdução, o todo dá lugar a uma narração com vocalizações fantasmagóricas. Em seguida, torna-se hardcore especialmente no baixo, onde a morte do lixo aguarda o ouvinte desinformado. As guitarras assumem apontamentos metalóides, Wolfang Kause entra num delírio tribal e o sax faz lembrar Van Der Graaf. Depois deste pesadelo, esta faixa continua num rock jazz (e não o inverso) mas também num heavy blues que evoca Colosseum. Regressa à narração que nos mergulha num final avant-garde assustador e apocalíptico.
Comece com um estrondo na festa do chucrute na outra longa faixa que é “Spot On You, Kids” ultrapassando doze minutos. Rapidamente se transforma em hard rock progressivo com ajustes psicodélicos, órgão delirante que nos lembra Floyd no Ummagumma ao vivo e solo elétrico de seis cordas de acid rock. Entre esses dois tours de force estão os dois interlúdios para os fãs de Amon Düül II: “Morning Sun, Version 127 (For The Charts)” e “And The Madness…” que conclui o álbum.
Depois virá o tempo das desilusões e separações. Full Horn foi relançado em CD pela Repertoire em 2002.
Títulos:
1. Day Of A Day-Dream Believer
2. Morning Sun (Versão 127 / Para as paradas)
3. Spots On You, Kids
4. And The Madness…
Músicos:
Wolfgang Bartl: Baixo, Vocal
Wolfgang Gaudes: Bateria
Harry Koch: Vocal, Percussão
Christoph Hardwig: Teclados, Guitarra, Vocal
Kai Henrik Möller: Guitarra, Vocal
Wolfgang Kause: Vocal
Rudy Holzhauer: Percussão
Jochen Peterson: Saxofone, Flauta
Produção : Jochen Petersen
ESPECIAL 2022: OS VIDEOCLIPES DO ANO

A lista que encerra o Especial 2022 do Música Pavê não poderia ser outra se não aquela que carrega em si muito do DNA do site. E escolher os videoclipes do ano não é tarefa fácil, mas a equipe do site e podcast caprichou mais uma vez na hora de selecionar aquelas produções que definiram a época.
Para acessar a resenha completa de cada um dos videoclipes, clique em seu título.
Acompanhe mais do Especial 2022 do Música Pavê
PLANET HEMP + CRIOLO – DISTOPIA
Eu não sabia que precisava tanto de um novo trabalho de Planet Hemp até que foi lançado o single Distopia, em parceria com Criolo, abrindo caminhos para o maravilhoso Jardineiros. E um musicão desses não poderia vir ao mundo sem um videoclipe espetacular. Dirigido pelo próprio Marcelo D2, o clipe possui uma indumentária impecável, no que diz respeito a cenários e figurinos, além de elementos estéticos e jogos de cena que funcionam muito bem, com destaque para um BNegão gigante, que não cabe na sala de uma família tradicional brasileira contemporânea. Repense, reflita, recuse, resista! (Diego Tribuzy)
TERNO REI – BRUTAL
Em seu novo disco, o grupo paulistano buscou um exercício pop, o tipo de pop com referências nostálgicas em busca da canção perfeita. É curioso notar então que a busca pelo Sol criativo encontrou pequenas pérolas sensíveis e levemente tristes como Brutal, aqui capturada com delicadeza pela direção de Vira-Lata e a interpretação notória de Paulo Matos. A letra faz referência a fragmentos de emoções, entre a saudade melancólica e a contemplação do que se viveu. A montagem competente mostra um homem buscando um tipo de redenção, e o plot twist final emociona. (Eduardo Yukio Araujo)
KENDRICK LAMAR – WE CRY TOGETHER
Desde que o álbum saiu, essa é uma das músicas que mais se destacam. É íntima e desconfortável, é como se você estivesse na casa de um amigo e do nada os pais dele começassem a brigar loucamente, jogar verdades que estavam quase mofando dentro de si. No vídeo, Kendrick dá visualidade pra isso, continuamente. E você termina o clipe pensando “caramba, ele meteu essa mesmo?”. Pois sim, ele meteu essa. (Vítor Henrique Guimarães)
ROSALÍA – SAOKO
Rosalía, que está despontando rapidamente na cena mundial, tem lançado clipes a altura de seu sucesso. Em Saoko, vídeo dirigido por Valentin Petit, a artista lidera um grupo de motoqueiras velozes e sensuais, com direito a acrobacias em cima das motocicletas. Com muitos cortes, câmeras bem próximas e imagens em lugares inusitados – acima do ventilador de teto e embaixo do pneu das motos-, o videoclipe é instigante, dançante e muito bem produzido. (Lili Buarque)
JOVEM DIONISIO – ACORDA, PEDRINHO
Chega a ser irônico uma música que ganhou o país viralizando nos vídeos de curtíssima duração do TikTok receber um clipe que é praticamente um curta metragem. No entanto, essa autenticidade é um dos fatores que fazem o grupo curitibano ser o fenômeno que é. Gravado no Bar Dionísio – o mesmo que deu nome à banda e abrigava o tal Pedrinho, que serviu como inspiração para a canção – o clipe carrega várias camadas de simbolismo e resulta em uma obra tão impactante quanto o hit. (Nuno Nunes)
TOVE LO – NO ONE DIES FROM LOVE
Há clipes que conquistam seu espaço de “destaque” por apenas um mérito: Sua enorme qualidade. A cantora sueca, que não costuma economizar em criatividade e excelência nas suas produções, nos deu um vídeo memorável dentro de uma narrativa de ritmo próprio e linearidade de sempre. Há originalidade de sobra, e dificilmente você escutará a música novamente sem se lembrar dos personagens do videoclipe. Missão mais do que cumprida. (André Felipe de Medeiros)
DUDA BEAT – TOCAR VOCÊ
Em 2022, não faltaram videoclipes que explorassem uma estética vintage e passeassem por técnicas de décadas passadas. O da música Tocar Você, todo construído em um estilo de fitas VHS, segue essa mesma linha, mas se destaca por sua excelente montagem e pela forma original com que mistura diferentes tipos de trabalhos visuais antigos. A ótima atuação de Duda Beat também contribui para que ele ganhe um merecido lugar na nossa lista. (Marília Ferruzzi)
RESIDENTE + IBEYI – THIS IS NOT AMERICA
Os versos rasgantes de Residente sempre abordam a história de uma América Latina subjugada pelas potências imperialistas. Ao lado das irmãs Ibeyi, essa narrativa ganha ainda mais força – não apenas para cantar as violências sofridas pelos povos do continente, mas também para mostrar a resistência daqueles que seguem ousando existir. De arrepiar. (Nathália Pandeló Corrêa)
MENÇÃO HONROSA: PHARRELL WILLIAMS + 21 SAVAGE + TYLER, THE CREATOR – CASH IN, CASH OUT
Nunca uma animação stop motion foi tão impressionante quanto no vídeo dirigido por François Rousselet. Os músicos – ou melhor, suas versões em “bonequinho” – são vistos em um cenário que se aproveita da própria natureza não só da animação, mas do cinema como um todo, e nos relembra que tudo o que vemos se mover é apenas a maneira como nosso cérebro decodifica a sucessão de imagens que compõem uma cena. Brilhante do início ao fim.
SINAPSE: o trenzinho do caipira
Villa-Lobos, Hermeto, Chico, Drummond e as viagens pelo interior do país
TREM
Villa-Lobos, Hermeto e o interior do país
Confesso que, inspirado pela trilha sonora dos acontecimentos do dia primeiro de janeiro, acordei no segundo dia do ano ouvindo a música “O Trenzinho do Caipira”, do compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos. “O Trenzinho do Caipirinha” é uma música clássica, inspirada pelo estilo de Johann Sebastian Bach – daí sua presença no repertório das Bachianas Brasileiras –, mas cuja fonte vital vem do folclore brasileiro, principalmente da música caipira.
A obra de Villa-Lobos é o resultado de um fascínio do compositor pelo Brasil, de uma jornada musical que não tem medo de percorrer o interior do país. Ele declarou: “o meu primeiro livro foi o mapa do Brasil, o Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade, estado por estado, floresta por floresta, perscrutando a alma de uma terra. Depois, o caráter dos homens dessa terra. Depois, as maravilhas naturais dessa terra”.
Em 1975, o poeta Ferreira Gullar, inspirado pelas viagens que fazia com seu pai quando criança, passando de trem por um pantanal iluminado pela luz da madrugada entre São Luís e Teresina, viria a escrever uma letra para a música. Assim, a composição, inspirada pela música caipira, faria seu retorno fundamental do repertório clássico em direção ao cancioneiro popular brasileiro.
Hoje a malha ferroviária é inexistente no país. Mas o trem já foi um grande personagem do imaginário nacional. O trem de passageiros era a trama de uma vida mais contemplativa, de viagens que permitiam observar a paisagem. Já o trem de carga, hoje substituído pelo caminhão, simbolizava a indústria, que levava as riquezas do Brasil para fora daqui.
Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, que viveu na cidade de Itabira, presente no quadrilátero ferrífero de Minas Gerais, lamentava o extrativismo com a imagem de um país que desaparece gradativamente levado pelo trem. No poema O Maior Trem do Mundo, escreveu: O maior trem do mundo / Transporta a coisa mínima do mundo / Meu coração itabirano / Lá vai o trem maior do mundo / Vai serpenteando, vai sumindo / E um dia, eu sei não voltará / Pois nem terra nem coração existem mais.
Já para a música, a presença do trem é importante porque a locomotiva suscita ritmos e onomatopeias. A música de Villa-Lobos, por exemplo, imita o movimento de uma locomotiva com os instrumentos da orquestra. Outro exemplo está na música “Pedro Pedreiro”, que consta no álbum de estreia de Chico Buarque, que também imita a aproximação do trem com o verso “que já vem”, suscitando a angústia do homem que espera a condução para ir trabalhar.
Hermeto Pascoal, ao lado de Edu Lobo, também gravou uma versão para “O Trenzinho do Caipira”. Mas a inspiração que une a musicalidade no andar do trem ao imaginário interiorano é plenamente explorada na faixa “Viva o Trem”, presente no disco Brincando de Corpo e Alma, no qual Hermeto toca apenas parte de seu corpo, incluindo barba, bochecha, barriga, batimento cardíaco e assim por diante.
Nela, enquanto Hermeto fala, remixa sua própria voz e sopra sobre suas mãos fechadas e assobiando como o apito do trem. Ele diz: “o trem, pra quem morou no interior, é uma lembrança que dá quando a gente sai da terra da gente. É aquela saudade, que você não tem nem adjetivo pra dizer… Você lembra dessa saudade sempre com alegria, o trem é uma alegria que não devia faltar em lugar nenhum do mundo, mas o lugar onde falta mais trem é no Brasil”.
Destaque
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