segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

10 discos essenciais: Heavy Metal

 



O heavy metal é uma das mais populares e longevas vertentes do rock. Seu surgimento se deu entre o final dos anos 1960 e começo dos anos 1970, a partir de uma evolução natural do hard rock, quando bandas do estilo buscavam desenvolver um tipo de som ainda mais pesado e agressivo do que praticavam, como a The Jimi Hendrix Experience, Cream, The Who, MC5, Blue Cheer, Iron Butterfly e Vanilla Fudge. Mas foi a chamada “santíssima trindade do rock pesado”, formada por Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple, quem definiu o heavy metal como gênero musical.

Contudo, há um consenso entre os jornalistas musicais que o primeiro e homônimo álbum do Black Sabbath, lançado em 1970, seria o “marco zero” do heavy metal, pelo fato dele reunir todo os elementos que caracterizariam o estilo que estava nascendo: guitarras distorcidas e amplificadas ao máximo, bateria pesada - heranças do hard rock – mais a sonoridade soturna e densa. A receita do Sabbath seria seguida por gerações de bandas que viriam depois. 

Embora a expressão “heavy metal” (“metal pesado”) já fosse comum na Ciência para a classificação de elementos químicos, no campo das artes, seu emprego era uma novidade até os anos 1960. O novo estilo roqueiro teria sido batizado com esse nome a partir de um artigo que o jornalista Lester Bangs escreveu para a revista Creem, em 1971, quando usou o termo “heavy metal” para descrever o som do Led Zeppelin, tendo como referência, o romance Naked Lunch (Almoço Nu, no Brasil), de William S. Burroughs, de 1959, em que há uma citação do termo. A primeira música a citar a expressão foi “Born To Be Wild”, do Steppenwolf, de 1968, em que um de seus versos tenta descrever o ronco de uma motocicleta: “I like smoke and lightnin' / Heavy metal thunder / Racing in the wind / And the feeling that I'm under” (“Eu gosto de fumaça e relâmpagos / O trovão do metal pesado / Correndo com o vento / E o sentimento que ele provoca em mim”). Ainda assim, existem muitas controvérsias.

No final dos anos 1970, o heavy metal passou por um processo de revigoramento através do movimento chamado New Wave Of British Heavy Metal (Nova Onda do Metal Britântico), liderado por bandas como Iron Maiden, Motörhead, Judas Priest, Saxon e Def Leppard. Através desse movimento britâncio, o heavy metal ganhou mais velocidade e peso sonoro, enquanto que os referenciais de blues que ainda possuía, desapareceram.

A partir dos anos 1980, o heavy metal passaria por uma fragmentação, dando origem a vários subgêneros, dentre os quais o thrash metal, black metal, doom metal, glam metal e speed metal. Metallica, Megadeth, Slayer e Anthrax se revelaram os grandes expoentes do thrash metal, estilo que revoluciona o heavy metal ao adotar a velocidade do hardcore e a abordagem de temáticas mais realistas como política, meio-ambiente e religião. O visual andrógino e o hedonismo nas canções caracterizaram o glam metal, vertente mais comercial do heavy metal que encontrou o seu auge nos anos 1980, encabeçado por bandas como Mötley Crüe, Bon Jovi, Poison e Ciderella, mas que entrou em decadência no começo dos anos 1990 com a ascensão do grunge.

Na virada dos anos 1980 para os anos 1990, novas vertentes do heavy metal ganham visibilidade. Alguns deixaram o underground e alcançaram o mainstream como o funk metal (Red Hot Chili Peppers, Faith No More e Living Colour) e outros se mantiveram no mundo alternativo, mas mantendo a sua relevância como o groove metal (Pantera, White Zombie e Machine Head) e o metal industrial (Ministry, KMFDM, Nine Inch Nails e Rammstein). Outras ramificações do heavy metal se destacam entre os anos 1990 e os anos 2000, como o rap metal (Rage Against The Machine, Limp Bizkit e Linkin Park) e o nü metal (Korn, Slipknot, System Of A Down e Deftones).

O heavy metal segue firme e forte, desafiando a barreira do tempo, se renovando, trazendo novas ideias, se desdobrando em mais novos subgêneros, revelando novos artistas, conquistando novas gerações de fãs, mas nunca esquecendo as suas origens e os ídolos que ajudaram a escrever a sua história.

A escolha dos discos aqui representados não foca necessariamente o que supostamente seriam os melhores discos de todos os tempo do heavy metal como se costuma fazer. O critério para a escolha se baseou naqueles discos que melhor representassem algumas das principais vertentes do heavy metal, possibilitando uma melhor compreensão para o público que não é iniciado no estilo.

Black Sabbath (Vertigo, 1970), Black Sabbath. O primeiro e autointitulado álbum do Black Sabbath é considerado o “marco zero” do heavy metal. Gravado em apenas dois dias, Black Sabbath, o álbum, reune todos os elementos que moldariam o que conhecemos como heavy metal, desde o som alto e pesado até temas sombrios nas letras das canções. Sons de chuva, trovão e badaladas de sinos presentes na abertura do álbum, preparam o ouvinte para entrar no clima soturno nas próximas faixas. Destque para “The Wizard”, “N.I.B”, “Evil Woman” e faixa-título.



Paranoid (Vertigo, 1970), Black Sabbath. No seu primeiro e homônimo álbum, o Black Sabbath lançou as bases do que seria conhecido mais tarde como heavy metal. Mas a banda inglesa consolida esse processo com o seu segundo trabalho, Paranoid, sete meses após o lançamento do primeiro. Além das temáticas sombrias e mórbidas exploradas no primeiro disco, em Paranoid, o Black Sabbath fala sobre guerra como em “War Pigs”. Graças a faixas como “Paranoid” e “Iron Man”, o álbum foi 4º lugar no Reino Unido e ainda projetou o Black Sabbath no mercado norte-americano.  Paranoid vendeu mais de 4 milhões de cópias, é o mais vendido da discografia do Black Sabbath. Na lista dos 100 Maiores Álbuns de Heavy Metal de Todos os Tempos, da edição americana da revista Rolling Stone, publicada em 2017, Paranoid ficou em 1º lugar.

British Steel (CBS, 1980), Judas Priest. Embora formada em 1969, na mesma cidade natal do Black Sabbath, Birmingham, Inglaterra, a banda Judas Priest só veio despontar a partir da segunda metade dos anos 1970, num momento em que o heavy metal passava por um processo de renovação. A Judas Priest é uma espécie de elo entre a primeira geração do heavy metal e a geração renovadora que surgiria com o movimento do New Wave of British Heavy Metal (N.W.O.B.H.M.) (em português, Nova Onda do Metal Britânico). British Steel representou a consagração da Judas Priest e a conquista do tão desejado mercado americano puxado pelo sucesso das faixas “Breaking In The Law” e “Living After The Midnight”, duas das músicas mais famosas da banda inglesa. Em 2017, British Steel figurou em 3º lugar na lista dos 100 Maiores Álbuns de Heavy Metal de Todos os Tempos, da edição americana da revista Rolling Stone.  

Ace Of Spades (Bronze Records, 1980), Motörhead. Com um som que unia o peso do heavy metal e a velocidade do punk rock, o Motörhead surgia no cenário do rock pesado na segunda metade dos anos 1970 como um rolo compressor desgovernado descendo uma ladeira. Todas essas características sonoras do trio inglês estão presentes em Ace Of Spades, considerado o melhor álbum da banda e que traz clássicos do grupo como “Ace Os Spades”, “The Chase Is Better Than The Match” e “(We Are) The Road Crew”. O som cru, pontente e veloz fez do Motörhead fez do trio o  precursor do speed metal e do thrash metal, e influenciou bandas como Metallica, Megadeth e Sepultura.

The Number Of The Beast (EMI, 1982), Iron Maiden. O Iron Maiden foi o principal espoente do chamado New Wave of British Heavy Metal (N.W.O.B.H.M.) (em protuguês, Nova Onda do Metal Britânico) movimento que revigorou o o heavy metal no começo dos anos 1980. The Number Of The Beast marcou a estreia de Bruce Dickinson como novo vocalista do Iron Maiden, no lugar de Paul Di ’Anno. A princípio, o vocal “operístico” e dramático de Bruce não agradou os fãs mais “ortodoxos” da banda, mas aos poucos, o novo vocalista foi provando o seu valor. Nos Estados Unidos, por causa da capa e do conteúdo da faixa-título, o Iron Maiden foi acusado de satanismo pelos grupos cristãos radicais e pelos conservadores. A polêmica acabou gerando mais visibilidade para a banda inglesa e para o álbum, que no mundo inteiro, vendeu mais de 14 milhões de cópias, puxado pelo sucesso da faixa título e de “Run To The Hills”.

Master Of Puppets (Elektra, 1986), MetallicaMaster Of Puppets, terceiro álbum do Metallica, foi responsável por disseminar o thrash metal e fazer dele um dos segmentos mais importantes do universo musical do heavy metal, ao lado de outros dois álbuns, Reign in Blood, do Slayer, e de Peace Sells… But Who’s Buying?, do Megadeth, ambos os álbuns de 1986. Em Master Of Puppets, o Metallica trata em suas canções sobre guerra, exploração religiosa, loucura e dependência de drogas. Além de representar o momento de ascensão do Metallica, Master Of Puppets ficou marcado pela morte trágica do baixista Cliff burton, num acidente com o ônibus da banda, durante uma viagem entre a Suécia e Dinamarca, em setembro de 1986. O fato gerou uma enorme comoção entre fãs e artistas do heavy metal.

Slippery When Wet (Vertigo, 1986), Bon Jovi. O extravagante e hendonista glam rock foi a vertente mais lucrativa do heavy metal dos anos 1980. Transformou roqueiros cabeludos em estrelas milionárias e fez a alegria dos cofres das grandes gravadoras. Slippery When Wet, terceiro álbum do Bon Jovi, cumpriu o papel ao qual foi designado: fazer sucesso. Após o desempenho comercial modestíssimo dos dois primeiros álbuns, os membros do Bon Jovi decidiram que o terceiro álbum deveria ser capaz de alçar o grupo ao estrelato. E para isso, Slippery When Wet foi um álbum pensado para dar certo. Tudo no álbum foi planejado, das composições à produção. O resultado foi um álbum com um punhado de canções de apelo radiofônico, produção impecável, sonoridade “polida”, agradável, combinando rocks pesados de arena (“Livin' On A Prayer”, “You Give Love A Bad Name”, “Let It Rock”e “Raise Your Hands”)
com baladas românticas para partir os corações apaixonados (“Never Say Goodbye” e “Without Love”). Slippery When Wet superou as espectativas, vendeu 12 milhões de cópias somente nos Estados Unidos e 28 milhões em todo o mundo.

The Real Thing (Slash Records, 1989), Faith No More. Em 1988, o experiente vocalista Chuck Mosley foi expulso do Faith No More, e em seu lugar, entrou Matt Patton, um garoto de 20 anos, dono de uma petulância, de um humor sarcástico e presença de palco tresloucada que ajudariam a levar o Faith No More ao estrelado mundial. É evidente que além dos atributos de Patton, haviam também as qualidades dos membros da banda, que somados, resultaram num som pesado aliado ao groove do funk, e de algumas referências de thrash metal, rap e de rock progressivo. O terceiro álbum do Faith No More, The Real Thing, mostrou o perfeito entrosamento entre os vocais debochados do então novato Patton e a banda. The Real Thing fez um grande sucesso, a tal ponto da turnê do álbum ter durado quase três anos, e que incluiu a primeira passagem do Faith No More pelo Brasil, em 1991, quando se apresentou no Rock In Rio 2. Impulsionado pelo sucesso das faixas “Epic”, “Falling To Pieces”, “From Out To Nowhere” e de “War Pigs” (do Black Sabbath), The Real Thing alcançou a marca de 2 milhões de cópias vendidas mundialmente.

Vulgar Display Of Power (Atlantic Records, 1992), Pantera. O Pantera é outro exemplo de como a troca de integrantes pode mudar completamente uma banda de rock. Durante os seus três primeiros álbuns, Pantera era uma banda de glam metal. Com a saída de Terry Glaze e a entrada em seu lugar de Phil Anselmo, em 1987, a banda não apenas mudou de vocalista como também de estilo musical. Deixou a extravagância do glam metal e partiu para o som mais pesado e agressivo entre o thrash metal e o groove metal, registrado em Cowboys From Hell, de 1990. Mas a consagração veio com o álbum seguinte, Vulgar Display Of Power, o sexto da carreira do Pantera. Como bem mostra a capa, o som da banda ganhou um peso brutal equivalente a um soco na cara. As faixas “Fucking Hostile”, “Hollow”, “Mouth For War”, “This Love" e "Walk", estão entre as mais conhecidas do repertório da banda.

Korn (Immortal Records/Epic Records, 1994), Korn. Quando o grunge estava perdendo força, eis que em 1994 (mesmo ano em que Kurt Cobain, ídolo maior do grunge havia se suicidado com um tiro na cabeça), um álbum de estreia de uma banda californiana iria acender o pavio para a explosão de uma nova vertente do heavy metal. Trata-se do primeiro e autointitulado álbum do Korn, que abriu caminho para o nü metal, estilo que mistura no seu caldeirão sonoro heavy metal, hip-hop, música eletrônica e metal industrial. Com mais de 4 milhões de cópias vendidas, Korn, o álbum, elevou rapidamente a banda americana da cena alternativa para o cenário do mainstream do rock mundial. “Blind”, “Clown”, “Faget”, “Shoots And Ladders” e “Need To” foram as faixas que caíram no gosto do grande público.

“Calango” (Chaos/Sony Music, 1994), Skank

 


Até por volta de 1993, o rock brasileiro ainda tinha na boca um “gosto amargo de ressaca” do sucesso da geração dos anos 1980. As grandes bandas do rock brasileiro da geração dos anos 1980 que restaram e que adentraram os anos 1990, já tinham os seus integrantes passando a casa dos 30 anos de idade. Naquele momento a música sertaneja e axé music dominavam o cenário midiático da música brasileira, embora o rock ainda tivesse o seu espaço, principalmente por meios de comunicação como a MTV Brasil, que entrou no ar em 1990.

Enquanto isso, como dizia um antigo hit do RPM, era no underground que “repousava o repúdio” do rock brasileiro. Assim como ocorrera nos anos 1980, a cena alternativa do rock estava em ebulição em vários cantos do Brasil, revelando novas bandas, novos cantores, com novas propostas que dariam um novo rumo para o rock brasileiro. Apesar de tão plural musicalmente, esse novo cenário roqueiro tinha como um ponto em comum a conexão das referências regionais com a contemporaneidade pop internacional, uma lição deixada pelo Tropicalismo nos anos 1960 e que a geração dos anos 1980 do rock brasileiro havia deixado de lado quando orientou-se profundamente nos cânones da new wave e do pós-punk britânico.

Foi nesse cenário musical tão plural que o Skank surgiu, em 1991, em Belo Horizonte, Minas Gerais, fazendo reggae de branco, através de Samuel Rosa (guitarra e voz), Henrique Portugal (teclados), Lelo Zaneti (baixo) e Haroldo Ferretti (bateria). Num espaço de três anos, a banda mineira contribuiria na abertura da porteira do mainstream para as bandas oriundas do underground pop rock dos anos 1990.

O Skank lançou o seu primeiro e homônimo álbum em 1992, de forma independente, no formato CD, algo inédito em bandas independentes no Brasil naquele momento, já que o mais comum era o lançamento em vinil. Além disso, na ocasião, pouca gente tinha aparelho para tocar CD em casa. Porém, apostando nesse formato, o Skank acreditava que agregaria ao seu trabalho musical mais qualidade, profissionalismo e credibilidade. Naquele ano de lançamento, graças à popularidade conquistada na cena alternativa mineira, o Skank já era bem executado nas rádios de Belo Horizonte, o que chamou a atenção de algumas gravadoras.

Skank no início da carreira, em 1991. Da esquerda para a direita: Haroldo Ferretti,
Lelo Zaneti, Samuel Rosa e Henrique Portugal.
Em janeiro de 1993, o Skank foi o primeiro contratado do selo Chaos, da Sony Music, selo que se dedicaria às novas bandas do novo momento do pop rock brasileiro naquela década. O selo relançou o álbum de estreia do Skank em abril de 1993, numa versão remixada. As faixas “In(dig)Nação”, “Homem Q Sabia Demais” e “Tanto” tornaram o Skank conhecido em todo o Brasil, e fizeram o álbum de estreia da banda mineira alcançar a marca de 250 mil cópias em sua versão relançada pelo selo Chaos.

A consagração do Skank veio abordo do seu segundo álbum, Calango, lançado em 15 de outubro de 1994. Com uma receita musical que mistura reggae praieiro, ragga, pop rock, batidas eletrônicas, humor e temática social, o álbum foi responsável por catapultar o quarteto mineiro para o estrelato. O título do álbum faz referência a um tipo de dança e de ritmo musical popular no interior de Minas Gerais.

O Skank e a gravadora chegaram a cogitar para produzir Calango, o músico e produtor jamaicano Sly Dunbar, mas ele não tinha tempo na sua agenda. Foi então que convidaram Dudu Marote, produtor que o Skank conhecera durante um show do quarteto em São Paulo. O Skank tocou na mesma noite da banda Vaca de Pelúcia, banda que Marote estava produzindo. Além do próprio Skank, trabalhou na produção de Calango o músico e engenheiro de som Marcos Gauguin, o mesmo que havia mixado o primeiro álbum do Skank. As gravações de Calango ocorreram entre julho e agosto de 1994, no lendário estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro.

Do repertório selecionado para o segundo álbum, três músicas já eram conhecidas do público, ou pelo menos de parte dele. “Jackie Tequila” e “Amolação” eram tocadas nos shows. “É Proibido Fumar” foi gravada pelo Skank para o disco-tributo a Roberto Carlos, intitulado Rei, sob a produção de Roberto Frejat, lançado em 1994, e do qual participaram vários artistas convidados, entre os quais, o Skank. Enquanto “Jackie Tequila” e “Amolação” precisaram ser gravadas em estúdio para o novo álbum, a gravação de “É Proibido Fumar” para o disco-tributo foi aproveitada e incluída em Calango.

Rei, disco tributo a Roberto Carlos e Erasmo Carlos, do qual o Skank
participou com uma regravação de "É Proibido Fumar".

A ideia da capa de Calango nasceu depois que o empresário do Skank, Fernando Furtado, leu uma matéria na revista “JB” sobre o artista plástico Ilson Lorca, que se vestia com uma fantasia feita com garrafas plásticas de refrigerantes pintas com as cores da bandeira brasileira. Durante os jogos do Brasil na Copa do Mundo de 1994, realizada nos Estados Unidos, Ilson desfilava com a sua fantasia pelas ruas do Rio de Janeiro para comemorar os jogos do Brasil. A matéria chamou a atenção de Furtado que propôs a Lorca para usar a fantasia na capa do álbum Calango. A fantasia foi vestida por Lelo Zaneti nas sessões de foto para a capa e encarte do álbum. Ilson Lorca fez o cenário para as sessões de fotos, e participou do videoclipe de “É Proibido Fumar”.

“Amolação”, um misto de ska e dub, é a primeira faixa do álbum, e trata sobre um pobre lavrador, que embora tenha feito tudo pela esposa, era traído por ela. Na sequência, uma das faixas mais famosas de Calango: “Jackie Tequila”, um reggae balada sobre uma garota com o “sol do Taiti na pele” e “tão bonita que enjoa”. “Esmola” é alegre e dançante, mas os seus versos, apesar de bem-humorados, não escondem a crítica social: “Uma esmola pro desempregado / Uma esmolinha pro preto pobre doente / Uma esmola pro que resta do Brasil / Pro mendigo, pro indigente...”. O reggae romântico de “O Beijo E A Reza“ versa sobre o marinheiro apaixonado João do Arco e a sua paixão pela mulher da ilha do amor.

Fechando o lado A, “A Cerca”, faixa que traz o duelo entre dois caipiras duelando por causa dos limites de suas terras, numa narrativa que lembra o repente nordestino, só que numa versão mais rápidas e com guitarras distorcidas, ao invés de violas. A levada da música teria sido inspirada no calango, o tipo música e dança já citado, popular no interior de Minas Gerais.

Cena do videoclipe de "A Cerca".

Gravada especialmente para o disco-tributo Rei, dedicado a Roberto Carlos, “É Proibido Fumar” é a única faixa do álbum não foi produzida por Dudu Marote, Skank e Marcos Gauguin. Produzida por Roberto Frejat para o disco-tributo, “É Proibido Fumar”, que na versão original de Roberto Carlos era um rock’n’roll, com o Skank ganhou um arranjo completamente diferente, mais voltado para o ragga, tendo como inspiração a música “Boom-Shack-A-Lack”, de Apache Indian, que fez sucesso em 1993.

“Te Ver” é a faixa mais romântica do álbum, cujos versos traçam as mais diversas comparações para justificar o quanto é impossível não desejar estar com a pessoa que amamos. Em “Chega Disso!”, o Skank faz uma grande mistura rítmica que põe no mesmo caldeirão musical ragga, samba, calypso e calango. A música possui uma base instrumental com uma força rítmica intensa que permite Samuel Rosa cantar os versos de uma maneira que remete à embolada nordestina.

Na faixa seguinte,“Sam”, Samuel Rosa canta sobre um homem que dá nome à música que parece estar em constante deslocamento, caminhando. A todo lugar que ele passa, e nas mais diversas situações, é perguntado para onde está indo. Em “Estivador, o Skank trata sobre a vida dura de quem trabalha como estivador no porto.

“Pacato Cidadão”, outra faixa do álbum que se tornou um grande sucesso do Skank, é quem encerra o álbum. Nela, a banda mineira faz uma reflexão sobre aquele tipo de cidadão apático, inerte, conformado, incapaz de reclamar e questionar pelos seus direitos quando estes são desrespeitados. No seu final, a música faz uma citação a “Let ’Em In”, sucesso de Paul McCartney dos anos 1970.

Calango fez um enorme sucesso de público e crítica. Com exceção de “Sam”, todas as outras faixas tocaram nas rádios do Brasil, tornando o álbum um fenômeno em vendas: mais de 1,2 milhão de cópias vendidas. No entanto, “Jackie Tequila”, “Te Ver”, “É Proibido Fumar”, “O Beijo E A Reza” e “Pacato Cidadão” foram as mais executadas. Através do sucesso comercial de Calango, o Skank passou a tocar em estádios e arenas lotados.

Ao lado do primeiro e homônimo álbum dos Raimundos e de Da Lama Ao Caos, de Chico Science & Nação Zumbi, Calango contribuiu para a abertura de um novo momento para o rock brasileiro nos anos 1990, abrindo espaço para uma nova geração de bandas e cantores. O Skank manteve a inspiração e criatividade em alta no álbum seguinte, O Samba Poconé (1996), outro trabalho da banda mineira que emplacou vários sucessos e vendeu milhões de cópias. 

Faixas

Todas as canções escritas e compostas por Samuel Rosa e Chico Amaral, excetos os indicados.

Lado A
  1. "Amolação"      
  2. "Jackie Tequila"            
  3. "Esmola"                       
  4. "O Beijo e a Reza"                    
  5. "A Cerca" (Samuel Rosa - Fernando Furtado - Chico Amaral)


Lado B
  1. "É Proibido Fumar" (Roberto Carlos / Erasmo Carlos)          
  2. "Te Ver" (Samuel Rosa - Lelo Zaneti - Chico Amaral)             
  3. "Chega Disso!"                          
  4. "Sam"                             
  5. "Estivador"                   
  6. "Pacato Cidadão" 


Skank: Samuel Rosa (voz e guitarra), Henrique Portugal (teclados; voz em "A Cerca" e "Amolação"), Lelo Zaneti (baixo) e Haroldo Ferretti (bateria)



 "Amolação"

"Jackie Tequila"


"Esmola"

"O Beijo e a Reza"

"A Cerca"
(videoclipe original)

"É Proibido Fumar"
(videoclipe original)

"Te Ver"
(videoclipe original)

"Chega Disso!"

"Sam"

"Estivador"

"Pacato Cidadão"

“Feijão com Arroz” (Sony Music, 1996), Daniela Mercury

 



Após o megassucesso do álbum O Canto da Cidade, de 1992, esperava-se que o trabalho seguinte, Música de Rua, de 1994, superasse o seu antecessor, mas isso não aconteceu. Embora fosse quase que uma espécie de continuação de O Canto da CidadeMúsica de Rua era mais diluído musicalmente. Teve uma boa vendagem, mais de 500 mil cópias vendidas, porém, muito longe dos 2 milhões de cópias de O Canto da Cidade.                     

Em seu quarto álbum, Feijão com Arroz, Daniela Mercury deu mais ênfase à percussão. Se em Música na Cidade, um álbum mais pop onde a percussão esteve mais em segundo plano, em Feijão com Arroz a percussão assumiu uma posição mais protagonista, e soando até mais pesada. O álbum tem o samba-reggae como o ponto central, mas permite que Daniela dialogue com outros desdobramentos do samba, como por exemplo, o samba-de-roda do Recôncavo Baiano. No entanto, esse diálogo musical não faz de Feijão com Arroz um álbum regional, folclórico. Ele carrega na sua musicalidade a tradição afro-baiana e a contemporaneidade da música pop, tornando-o um trabalho com identidade brasileira, mas acessível ao público internacional.

O álbum Música de Rua (foto) tentou repetir o sucesso de O Canto da Cidade.

O projeto gráfico do álbum é de autoria de Gringo Cardia. As fotos da capa e do encarte foram feitas pelo fotógrafo baiano Mário Cravo Neto (1947-2009). Na capa, aparece Daniela Mercury abraçada a um modelo negro, fazendo uma alusão ao título do álbum, que muito mais do que o prato mais consumido pelos brasileiros, simbolicamente representa a miscigenação do povo brasileiro e a mistura de culturas tão diferentes.

O álbum começa com Daniela Mercury cantando a capella os primeiros versos de “Nobre Vagabundo”, samba-reggae romântico do baiano Márcio Mello. A letra trata sobre alguém que ama profundamente e que vivencia esse amor com toda intensidade. Para esse alguém, a vida é tão curta que não se deve perder tempo com ciúme, pois para ele, o amor tem que ser vivenciado com liberdade.

A faixa seguinte é “Rapunzel”, música de letra simples e de ritmo contagiante para agitar o Carnaval pelas avenidas de Salvador. Curiosamente, talvez por causa do conto Rapunzel, dos Irmãos Grimm, muita gente cante “jogue suas tranças de mel, Rapunzel, Rapunzel”. Apesar do conto de fato ter sido a inspiração para a música, os autores da canção escreveram “love suas tranças de mel, Rapunzel, Rapunzel”.

“Minas com Bahia” promove o encontro da musicalidade mineira com a baiana através do dueto de Daniela Mercury com Samuel Rosa, vocalista da banda mineira Skank. A canção é um samba-reggae com acentuação acústica, onde a percussão é leve e há um protagonismo dos violões. Uma curiosidade: “Minas com Bahia” era para ter sido gravada pelo Skank para o seu álbum O Samba Poconé (1996), mas foi descartada. A música acabou sendo gravada por Daniela. Na faixa seguinte, “Feijão de Corda”, o encontro musical é entre o samba-de-roda do Recôncavo Baiano com a música do sertão nordestino.

Samuel Rosa, do Skank: participação especial em "Minas com Bahia".

Sucesso nos anos 1970 com a dupla Antônio Carlos & Jocafi, “Você Abusou” aparece no álbum em versão samba-reggae. A ideia de Daniela gravar “Você Abusou” era estratégica, visava o mercado internacional, já que a versão original fez sucesso também fora do Brasil, foi gravada por vários artistas, de Célia Cruz a Stevie Wonder. A edição internacional de Feijão com Arroz incluiu uma faixa bônus com uma versão de “Você Abusou” em espanhol, além de uma canção em japonês, “Dona Canô” é um samba-de-roda alegre e que homenageia Dona Canô (1907-2012), mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia, e uma das figuras mais simpáticas e carismáticas da cidade de Santo Amaro da Purificação, na Bahia. A música conta com a participação especial da Banda Didá na percussão e de Armandinho Macedo no bandolim. Na sequência vem “Bate Couro”, um misto de samba duro com pop, e que faz uma ode à alegria e à descontração.

Primeiro single do álbum Feijão com Arroz, “À Primeira Vista” foi originalmente gravada por Chico César, autor da música, no seu álbum Aos Vivos, de 1995. Contudo, com Daniela, “À Primeira Vista” ganhou uma versão definitiva. A música foi incluída na trilha sonora da novela O Rei do Gado, da TV Globo, em 1996. Tanto a música quanto a novela, fizeram um enorme sucesso. Apesar de ter passados tantos anos, “À Primeira Vista” resistiu ao tempo, pouco envelheceu.

Chico César em 1994, autor de "À Primeira Vista", gravada originalmente
por ele, mas consagrada na regravação de Daniela Mercury.

“Rede” possui um balanço percussivo e uma guitarra fazendo um riff repetitivo durante toda a música. “Musa Calabar” começa com uma levada funk que em seguida se mistura com um ritmo de samba-reggae, com participação de Pepeu Gomes fazendo os seus inconfundíveis solos de guitarra. E é um riff de guitarra de rock quem abre a faixa seguinte, “Vai Chover”, uma axé music dançante e cheia de naipes de metais que trata sobre uma madrugada de cheia de amor e prazer.

Em “Vestido de Chita”, Daniela Mercury faz dueto com a sua filha, Giovana Póvoas, que na época era uma criança de 10 anos de idade. É a única canção composta por Daniela presente no álbum, e parece ser autobiográfica. A letra da música passa a sensação de fazer referências à maternidade precoce da cantora que teve o seu primeiro filho aos 19 anos, e a filha aos 21 anos. Interessante é a rima com palavras terminadas com a letra “X”: “Marinex / My baby fique relax / Só vou no seu sex de jontex / Pra frentex, menina me mande um fax”.

Daniela Mercury em cena do videoclipe de "Feijão de Corda".

“Do Carinho” é um samba sobre amor e carinho, enquanto que o ijexá “Bandeira Flor” é sobre alguém que não consegue esconder o amor que sente pela garota que ama. O álbum termina em clima de samba-enredo carioca com “Vide Gal”, uma música que presta uma homenagem ao Rio de Janeiro e busca resgatar a autoestima das comunidades carentes daquela cidade.

Feijão com Arroz foi um dos mais bem-sucedidos álbuns da carreira de Daniela Mercury. O trabalhou gerou cinco singles: “À Primeira Vista”, lançado em 1996, e os outros quatro, “Nobre Vagabundo”, “Rapunzel”, “Minas com Bahia” e “Feijão de Corda”, lançados em 1997. O álbum vendeu mais de 800 mil cópias no Brasil, e se tornou o 4º álbum mais vendido do país em 1997. Na França, vendeu cerca de 300 mil cópias. O álbum fez um enorme sucesso em Portugal, onde vendeu mais de 270 mil, e tornou Daniela Mercury bastante popular naquele país.  

Através de Feijão com Arroz, Daniela Mercury conquistou o Prêmio Multishow de Música Brasileira de 1997 de “Melhor Cantora”. No mesmo ano, o videoclipe  de “Nobre Vagabundo” venceu o prêmio do Video Music Brasil, da MTV brasileira, na categoria “Melhor Fotografia de Videoclipe”.

Lançado em 13 de setembro de 1996, Feijão com Arroz teve a sua turnê iniciada pouco depois do seu lançamento, e que durou cerca de três anos. Além da turnê que passou pelas principais capitais brasileiras, Daniela promoveu uma turnê internacional que passou por Alemanha, Itália, França, Inglaterra, Portugal, Espanha e Estados Unidos. 

Faixas
  1. "Nobre Vagabundo" (Márcio Mello)
  2. "Rapunzel"  (Alaim Tavares - Carlinhos Brown)         
  3. "Minas com Bahia" (com Samuel Rosa)          (Chico Amaral)           
  4. "Feijão de Corda" (com Banda Bragadá) (Ramon Cruz)        
  5. "Você Abusou"  (Antônio Carlos - Jocáfi)      
  6. "Dona Canô"  (Neguinho do Samba)
  7. "Bate Couro"  (Tavares - Gilson Babilonia)   
  8. "À Primeira Vista"  (Chico César)       
  9. "Rede"  (Tavares - Babilonia)
  10. "Musa Calabar"  (Guiguio)     
  11. "Vai Chover" (Gustavo de Dalva - Boghan Costa)     
  12. "Vestido de Chita"  (Ivan Huol – Mercury)    
  13. "Do Carinho"  (Gustavo de Dalva - Boghan Costa)
  14. "Bandeira Flor"  (Márcio Mello)        
  15. "Vide Gal"  (Carlinhos Brown)
  16. "Usted Abusó (Você Abusou)" (Faixa bônus edição internacional) (Antônio Carlos – Jocáfi)
  17. "Ue Wo Muite Aruko (Sukiyaki)" (Faixa bônus edição internacional) Traditional 



"Nobre Vagabundo"
(videoclipe oficial)


"Rapunzel"


"Minas com Bahia" 
(participação especial
Samuel Rosa)


"Feijão de Corda"
(videoclipe oficial)


"Você Abusou"

Destaque

CMU - Space Cabaret (1973)

  Ano: 1973 (CD lançado em 20 de dezembro de 2006) Gravadora: Strange Days Records (Japão), POCE-1086 Estilo: Rock Progressivo País: Cambrid...