quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Rock Polonês



 

Nós mesmos conhecíamos poucas destas bandas. E cá estamos ouvindo e comentando. Há mais alguma banda polonesa que cante em polonês que ache que mereça aparecer por aqui? Desça a barra de rolagem e escreva lá nos comentários!


Czesław Niemen - Enigmatic [1970]

Diego: Não é fácil falar de Niemen e eu nem vou tentar. Sei que qualquer coisa que eu escreva não vai explicar a história do artista e também nem vai significar nada para o leitor. Niemen é parte da herança cultural da Polônia, um herói, um gênio, uma das maiores vozes já surgidas na música polaca. Niemen foi o primeiro artista polaco a ganhar um disco de ouro (100 mil cópias em 1967 com o disco Dziwny Jest Ten świat (Estranho É Este Mundo), onde a faixa título é provavelmente umas das coisas mais fortes já gravadas neste pedaço do planeta. Mas Niemen não queria os louros da fama ou o Sucesso, não queria discos de ouro, queria a liberdade da criação. Depois do sucesso do primeiro trabalho e de dois discos de estúdio (um ironicamente chamado de Sukces), Niemen alçou vôos mais altos. Gravado no final de 1969 e lançado em Janeiro de 1970 Enigmatic está MUITO à frente do seu tempo. O rock de órgão a la Deep Purple já está aqui quando ainda estava engatinhando na Inglaterra. O Rock Progressivo já estava aqui como na faixa de abertura e seus mais de 16 minutos "Bema pamięci żałobny - Rapsod" , enquanto também ainda estava engatinhando na Inglaterra. Mas pra mim a coroa de glórias de Enigmatic fica com "Jednego Serca" (Um Coração), uma música que está conectada à cada Polaco e que tem uma carga emocional absurda. Sem mais, apenas a tradução da letra de "Jednego Serca" para que se possa entender um pouco do que se passa:
 
Um coração!
Um coração! Tão pouco! Tão pouco
Eu preciso de apenas um coração nesta terra
Um que tremeria com amor ao lado do meu coração
E eu ficaria quieto entre os silenciosos
 
Uma boca - da qual eu beberia felicidade por toda a eternidade
Um par de olhos nos quais eu poderia olhar ferozmente
Vendo-me um santo entre todos os santos
 
Um coração e duas mãos que cobririam meus olhos
Então eu poderia dormir, sonhando com um anjo
Que me leva em seus braços para o céu
 
Um coração - eu preciso de tão pouco
Mas claramente eu estou pedindo muito ...
 

André: Nossa, gostei bastante disso aqui. Um mistura de uns cantos sacros gregorianos, umas influências de blues e jazz junto àquela pegada rock progressiva setentista sinfônica inesquecível é o que esta pérola polonesa nos apresenta. Para alguns, os vocais podem soar muito melodramáticos, mas para mim isso só deu um certo charme a mais a sonoridade complexa presente neste disco. Começo de lista com o pé direito!

Davi: Quando o disco começou a tocar, tive a impressão que seria um disco pentelho, mas graças a Deus, a impressão foi falsa. Esse é, certamente, o melhor trabalho dessa lista. Predominado por seu órgão hammond e sua voz poderosa, Niemen entrega uma sonoridade bem interessante mesclando elementos do soul, do blues e do jazz. As canções são muito bem construídas, os músicos que o acompanham são excelentes (embora o saxofonista goste de se intrometer onde não deve, às vezes). “Jednego Serca” e “Mów Do Mnie Jeszcze” são grandes canções. O trabalho de guitarra é muito bom em todo o álbum. Se conseguisse transformar o saxofonista em um ser menos Aparecido Gomes e cortasse a introdução de órgão e coral de igreja em 1/3 na faixa “Bema Paimeci Zatobny – Rapsod” teríamos um álbum perfeito. De todo modo, trabalho bem bacana. Sigamos...

Fernando: Já de cara fiquei com a imagem de que esse músico ser uma espécie de Elton John polonês, mas depois que percebi que tinha começado por uma música que não era a abertura do disco. Convenhamos que quase ninguém presta atenção à um nome de música que não consegue sequer pronunciar, não é? A longa faixa inicial em que não engata logo e parece não sair de sua introdução dispersou um pouco a atenção. Mas quando ele começa a cantar já muda tudo de figura. Gostei dos timbres do teclado a la “Whiter Shade of Pale” e da interpretação vocal de Niemen. A segunda faixa tem solos de vários instrumentos, inclusive um sax, o que me remeteu ao Van der Graaf Generator. Ouvi o discos, aliás, todos os discos dessa lista, sem me preocupar em ler sobre o artista e imagino que deva ser grande em seu país, pois tem muita qualidade.

Mairon: O único nome da lista que eu conhecia aparece mudando de fase, colocando um dos pés no "prog". Niemen é uma espécie de Roberto Carlos polonês (Diego, se eu estiver errado, me avisa), perambulando por vários gêneros e sendo um ídolo principalmente nos anos 60 e 70. Ele foi o responsável por revelar o grupo SBB, do qual sou um fã fiel. Temos aqui a origem dessa guinada prog, começando exatamente nos mais de 16 minutos da linda faixa de abertura de Enigmatic, "Bema Pamięci Załobny Rapsod", com Niemen debulhando seu órgão por mais de seis minutos, soltando o vozeirão em trêmolos vocais arrepiantes, sinos tubulares, corais, lindas passagens de guitarra e tudo que um épico progressivo tem direito. "Jednego Serca" tem uma pegada mais bluesy, principalmente na linha de guitarra e na condução da mesma, lembrando Joe Cocker do início de carreira, com um belo naipe de metais.  O mesmo ocorre em "Mów do Mnie Jeszcze", onde a guitarra é quem manda com um belo solo. A experimental "Kwiaty Ojczyste" privilegia guitarra e órgão, surpreendendo com um sensacional solo de saxofone. Para muitos, esse é o melhor disco de rock polonês de todos os tempos. Não sei se é, mas que é um dos melhores, com certeza.

Ronaldo: Tecladista nascido em Belarus, mas radicado na Polônia, que contou com os futuros membros do SBB em sua banda de apoio. O disco tem fortes influências da música litúrgica/gospel e um clima soturno que perpassa toda a obra. Seu vocal é extremamente dramático e vez ou outra é interrompido por alguma guitarra mais blueseira; pilotando um poderoso Hammond, Niemen investe forte em melodias marcantes e até algo com influência da soul music norte-americana, obviamente que com um fortíssimo sotaque europeu. Algo bem com espírito de época e cheio dos clichês do rock do fim dos anos 60.

 

Lady Pank - Lady Pank [1983]

Diego: O Lady Pank é sem dúvida a banda de Pop Rock de maior sucesso da Polônia. Existe desde 1981, tem mais de 20 discos gravados e segue enchendo os ginásios por onde passa (comprovei isso em um excelente show que a banda fez em 2018 aqui onde eu moro). Eu traço um paralelo entre o Lady Pank com muitas bandas brasileiras contemporâneas, mas em especial o Titãs, com uma diferença, explico. As duas bandas começaram a gravar juntos, o Lady Pank em 83 e o Titãs em 84, as duas bandas bebiam na fonte do new wave/ska popularizada pelo The Police e as duas bandas mudaram MUITO com o passar das décadas. A diferença é que o Lady Pank alcançou seu pico... no primeiro disco, e daí foi a queda. Enquanto o Titãs demorou alguns anos pra fazer o mesmo. Nos anos 80 as duas bandas fizeram new wave e experimentaram. Nos anos 90 as duas bandas posaram de alternativos e gravaram discos pesados. As duas bandas no final dos anos 90 se tornaram Pop e ali ficaram sem mudar sem som desde então. As duas bandas gravaram acústicos, as duas bandas gravaram discos que repaginavam suas próprias músicas, a única diferença é que o Lady Pank gravou disco com orquestra e disco de Natal o Titãs não, ainda... Lady Pank de 1983 é o melhor disco da banda, ponto! Das 10 músicas do disco 8 são clássicas, tocam em rádio e todo mundo conhece. Da primeira faixa "Mniej niż zero" (Menos Que Zero) até a última "Moje Kilimandżaro" (Meu Kilimanjaro) o grupo desfila por um ska/reggae de branco (mas com qualidade), pitadas de new wave aqui e ali, um instrumental esperto, um vocalista carismático e um repertório de primeira. Incrível notar a rápida mudança, no entanto. Já no segundo disco todo o ska/reggae tinha ido embora e a banda adotara a new wave completamente, mais errando do que acertando. Incrível disco e mais incrível ainda por ser tão bom, traço outro paralelo aqui com uma banda brasileira, nesse caso o Longe Demais Das Capitais [1986] dos Engenheiros Do Hawaii, dois discos de estréia que não parecem ser os primeiros discos de cada banda.

André: É um disco um tanto estranho porque começa com uma ska mas depois no decorrer do disco vai se notando umas guitarras e baixo típicos do post-punk. Até as fotos dos caras lembram muito mais um post-punk com lápis de olho e talz do que algo mais leve e praiano como o ska. Mas de modo geral, achei um som bacana, embora eu ache que a pronúncia do idioma polonês parece travar um pouco o vocalista em arriscar mais nos tons de voz típicos do ska devido ao excesso da letra "k" que parece ser bastante proeminente nos términos das palavras na língua polonesa (é o que parece como leigo aqui, Diego, só carrego o sobrenome daí). Independente disso, achei um disco bem bacaninha e divertido, mérito principalmente do instrumental.

Davi: Essa banda chegou a causar um certo barulho lá pela metade dos anos 80 com uma canção chamada “Minus Zero”. O álbum que continha essa faixa – Drop Everything – chegou a ser lançado aqui no Brasil, inclusive. O disco que foi indicado é o debut dos garotos e é, basicamente, o Drop Everything cantado em polaco. Pop-rock competente com bastante influência de reggae. Em muitos momentos, lembra o The Police em sua fase inicial. “Kryzysowa Narzeczona” (“Hustler”) tem uma sonoridade bastante parecida aos dos grupos BRock que invadiram as rádios aqui em nosso país nessa mesma época. Contudo, “Fabryka Matp” (“The Zoo That Has No Keeper”) é minha favorita do álbum. Talvez por soar quase como uma versão de algum clássico do The Police, sei lá, mas foi a que mais curti. “Zamki na Piasku” (“Hero”) também é bem interessante, assim como “Dudu” (“Do, Do”) que conta com um trabalho de sax que me remeteu ao trabalho que George Israel fazia no Kid Abelha, embora aqui o sax seja aplicado de maneira mais sutil. Interessante.

Fernando: Sabem o que me lembrou a primeira música? Os Titãs!!! Gosto demais da fase oitentista da banda brasileira e com essa boa lembrança achei muito legal o som da banda, bastante datado, mas acredito que isso não é problema para ninguém que frequenta o site.

Mairon: Quando começou o disco, juro que achei que eram os Paralamas. Daí veio o riff da música, as vocalizações, e eu não soube onde me socar de tanta vergonha alheia e de tanta risada. Após me recompor, finalmente consegue escutar o disco e poder comentá-lo. O que temos é um ska cantado em polonês que soa muito estranho de início, mas depois acostumamos. Ao longo de seus quase 40 minutos, realmente fica uma sensação de ouvirmos o Paralams polonês, principalmente pelas linhas de guitarra, mas por incrível que pareça, isso veio antes que o grupo de Herbert Vianna. Não é ruim, mas honestamente, não consigo ver aproximação entre a fria Polônia com algo tão quente quanto esse tipo de som apresentado pelo Lady Pank.

Ronaldo: Pura new wave, pop rock divertido que deve animar as festas Ploc 80's Polônia afora.


RSC - Fly Rock [1983]

Diego: O Kansas Polaco! É sério! Comprei esse disco por comprar. Fui na loja uns anos atrás e lá estava ele na promoção, já tinha lido que era um disco Prog, mas nunca tinha ouvindo nem um segundo dele. Levei o CD pra casa, coloquei no player e... surpresa, era o Kansas Polaco! A surpresa foi enorme já que o Kansas nunca fez sucesso na Polônia, então ter uma banda que segue os passos deles é mais do que estranho, mais estranho ainda é que Kansas é uma das minhas bandas favoritas então o RSC caiu como uma luva pra mim. Fly Rock foi lançado em 1983 e é como se o fosse um disco do Kansas se eles tivessem continuado seu caminho prog e não se tornado o insosso grupo de AOR que ele se tornou, mais do que evidente no disco lançado no mesmo ano, Drastic Measures, uma droga de disco. O RSC tem suas peculiaridades e seu próprio som em vários momentos, mas é logo de cara na faixa de abertura mais Kansas que o Kansas nunca gravou, "Jeśli czekasz" (Se você está esperando), é que vemos o quanto a banda é boa. Violino como instrumento base, os vários riffs ganchudos, a troca constante de tempos e sua frenética vontade de ir mais rápido do que realmente deveria. Uma aula de como se fazer prog incorporando os elementos dos anos 80 e não se rendendo à eles!

André: Achei interessante o fato usar bastante o violino que se torna, junto aos outros comuns do rock, um dos instrumentos em mais destaque deste bom disco progressivo, já com o estilão oitentista que influenciava o gênero nesta década. O que mais me chamou a atenção é que  a mixagem principalmente dos teclados e do baixo me lembra muito o chip de som do lendário Mega Drive da Sega usado nas sonoridades de seus jogos. E eu falo isso elogiando. A pegada mais cadenciada de "Aneks Do Snu" e a vibrante "Pralnia Mózgów" com um teclado brilhante foram as que mais me agradaram. Porém, achei que em "Kradniesz mi Moją Duszę" eles deram uma "chupinhadinha" de "Doctor Doctor" do UFO. No mais, adorei conhecer este disco.

Davi: Tem algumas bandas dessa indicação que eu gostaria de ter tido a chance de entender as letras, o que não foi possível, essa é uma delas. RSC é uma banda de rock progressivo. Embora esse álbum tenha sido lançado em 1983, soa como um trabalho do final dos anos 70. Os músicos são muito bons, o tecladista tem bastante evidência e acredito que seja quem alcance maiores voos nos arranjos. Durante a audição é facilmente perceptível um acento pop, digamos assim, na construção das canções, principalmente nas vocalizações. Essa característica, somado ao uso do violino, rendeu aos rapazes o apelido de Kansas polonês.  Acho um pouco exagerado, mas entendo a relação. As duas primeiras músicas, tinha achado um pouco chatinhas, porém a partir de “Aneks do Snu” o trabalho melhora consideravelmente. “Kradniesz Mi Moja Dusze” e “Na Dlugie Pozegnania” são as minhas favoritas desse disco. Bom álbum...

Fernando: Acredito que já ouvi essa banda para alguma matéria aqui da Consultoria ou até mesmo por indicação direta do Diego. Claro que a base de tudo aqui é o rock progressivo, mas é legal quando eles se arriscam em faixas mais rápidas como “Pralnia Mózgów”. Remeteu ao som progressivo feito nos Estados Unidos como Kansas, principalmente pelo uso do violino. Muito legal. Se aparecer por aí já trago para a coleção.

Mairon: Progressivo oitentista sensacional, levado por violino que me lembrou bastante Sagrado Coração da Terra, mas com mais pegada no baixo e na bateria. "Aneks Do Snu" é uma prova de fogo para ver se você tem aptidão ao disco, pois é uma faixa bastante atraente, onde o ritmo alucinante pode te deixar desnorteado. A faixa de abertura, "Jeśli Czekasz", é uma paulada". A baladaça "W Ucieczce Przed Sobą" traz muito do Genesis como quarteto. E que delícia ouvir "Kradniesz Mi Moją Duszę", instrumental suave para botar qualquer progger de quatro pé. Claro que nem tudo são flores (determinados momentos de "Dzień Na Który Czekam" não me passaram), mas é muito bom ouvir algo tão bem trabalhado quanto esse disco, ainda mais para a década de 80.

Ronaldo: Uma insólita combinação de neo-prog com algo entre Kansas e Jethro Tull, prejudicada por infelizes escolhas de sonoridade. O disco todo soa muito mal (especialmente a bateria, a guitarra e o vocal), ainda que fique clara uma busca por uma sonoridade mais setentista, o que ajudaria mas não salvaria o álbum de uma classificação ruim. As composições são por demais primárias, assim como as execuções da bateria e do baixo, e ainda que a presença do violino traga algum charme, nem sempre ele foi bem aplicado.


Republika - Nowe Sytuacje [1983]

Diego: O Republika é outro marco na história da música polaca. Em pleno comunismo a banda gritava a plenos pulmões que as coisas estavam erradas e tiveram diversos problemas por isso, tanto que a banda durou 2 discos apenas (gravados em apenas 2 anos) e só retornariam nos anos 90, depois da queda do comunismo. Eu definiria Nowe Situacja como um disco de art punk, apesar do som óbvio do Post Punk e do da influência da coldwave o disco bebe em fontes mais artísticas e tenta quebras paradigmas punks pra tornar sua mensagem ainda mais interessante. Inclua aí o minimalismo enigmático pungente das letras e temos um clássico atemporal, mesmo que fique claro que é um produtos dos anos 80. Se você gostou desse disco corra pra ouvir Nieustanne Tango [1984] (Tango Constante) também. Recomendado!

André: Já nas duas primeiras músicas fiquei com a impressão de estar ouvindo o Titãs e o seu clássico Cabeça Dinossauro de 1986. Com a diferença de também fazerem o uso de flauta em suas composições. Embora eu ainda prefira o disco da banda brasileira, os polacos me agradaram aqui principalmente com a faixa "Arktyka" que é um ska ardido e em "Bedzie Plan" um pop rock cheio de energia que lembra também um pouco o Skank. Se gosta de Titãs, Paralamas do Sucesso e Skank, esse disco vai te agradar tranquilamente.

Davi: Esse é outro grupo que mudou de formação e de estilo com o andar da carruagem. Formado em 1979, em Torun, os meninos iniciaram sua trajetória fazendo um som altamente influenciado por Jethro Tull. Contudo, a jogada não decolou. Os músicos não conseguiram criar uma leva de fãs e o cantor abandonou o barco. Grzegorz Ciechowski tomou à frente e a partir de então, passaram a apostar em uma linguagem mais new wave. Também teria sido interessante descobrir o que retratam as letras, já que muitos que escrevem sobre a banda se referem às mesmas como poéticas. O som praticado pelo conjunto, contudo, não me cativou. Não gostei do trabalho vocal de Gzergorz e nem dos arranjos criados para o disco. “Bedzie Plan” é a que considero melhorzinha, mesmo assim longe do que consideraria uma boa canção de fato. Para mim, o mais fraco da lista.

Fernando: Achei que essa última banda – foi a última que ouvi – seria de heavy metal, mas o Diego tem preconceito com o estilo. Só pode! Eu mesmo já falei de algumas para ele e elas poderiam estar aqui. Achei a faixa de abertura ainda pior que a do Siekiera. Tem uma passagem de bateria na segunda faixa que parece que o músico está tendo um ataque epilético e acho que é proposital pois o nome da música me parece que é Sistema Nervoso.

Mairon: Som tipicamente oitentista, com baixo e bateria bem característico da época. A diferença, claro, é o vocal em polonês, que torna tudo um pouco estranho nas primeiras audições. Mas curti que os caras inovam, tipo, colocando uma flauta aqui ("System Nerwowy"), um solo de guitarra com efeitos ("Arktyka" e "Halucynacje"), e o embalo de violão e baixo da sensacional "My Lunatycy". Não é o tipo de som que eu vá adquirir, mas eu curti ouvir o disco sem problemas, e conhecer o rock oitentista polonês então, foi um belo disco representativo do gênero.

Ronaldo: Um pop rock instigante, com cruzamentos inusitados entre batidas constantes da mesma ninhagem do krautrock com a fragmentação de células musicais como de bandas da new wave ou dos Talking Heads. O recheio da música traz lampejos de sintetizadores, flautas e outros instrumentos exóticos, bem como onomatopéias vocais. Seria como se fossem os Titãs, se estes fossem melhores músicos, com um resultado extremamente datado nos 80's.


Siekiera - Nowa Aleksandria [1986]

Diego: O ápice do post-punk polaco! Nowa Aleksandria é o disco de estreia, e também o último, do grupo. Que surgiu em 1983 numa pequena cidade de 50 mil habitantes e que desbancou todos os grupos modernos vindos da capital mas ao mesmo tempo formando uma cena na Polônia que incluía artistas como Klaus Mitffoch, Lech Janerka (o disco Historia Podwodna quase entrou nessa minha lista também) e Obywatel G.C. e bandas como Aya RL, Voo Voo e Rezerwat. Nowa Aleksandria não é para ser ouvido em qualquer momento e provavelmente muita gente ouviu ele num momento errado vai torcer o nariz pra ele, mas mesmo assim não sendo pra qualquer momento e sendo bem sombrio é um discaço!

André: Não é um disco ruim, mas foi o que menos me agradou. Daquelas bandas post-punks oitentistas tais como Siouxsie and the Banshees, porém um pouco mais influenciado pelo hardcore. "To Slowa" é a faixa que mais me agradou visto que tem uma pegada densa e guitarras ótimas. Quero que o leitor entenda que apenas não o aprecio por pura questão de que não se encaixou muito com os meus ouvidos, mas que dentro de quem curte esse tipo de som, ela possui um jeitão diversificado e interessante. Acho que o Alisson Caetano iria gostar dessa banda.

Davi: Essa banda teve início em 1982 como uma banda punk, onde os músicos arriscavam alguns covers do The Exploited, inclusive. Contudo, o guitarrista Tomasz Adamski resolveu reformular a banda em 1984 e, embora tenha mantido o nome, alteraram significativamente o visual e a sonoridade. Agora, faziam um som puxado para o que ficou conhecido como pós-punk. O som da banda traz bastante teclado, bastante experimentação. Carregam fortes referências de grupos como Killing Joke e Joy Division. Definitivamente, não é minha praia, mas se você curte esse tipo de som, vale uma audição. O trabalho é, indiscutivelmente, bem feito. Faixas preferidas:  “Idziemy Przez Las” e “Nowa Aleksandria”. E ahhh... Aquela linha de baixo de “Na Zewnatrz”, já ouvi em algum lugar hein...

Fernando: Confesso que a repetição sem fim da batida da primeira música me cansou um pouco e acabei ouvindo o disco com um pouco de má vontade. Pelo jeito a Polônia é um berço desse post punk/new wave oitentista, afinal o Diego recheou suas indicações com bandas assim. Prometo que vou tentar de novo, afinal ao longo da audição uma ou outra passagem me chamou atenção, então não vou descartar logo de cara.

Mairon: Esta banda apresenta um som mais experimental, com guitarras ácidas e muitos sintetizadores, além de um vocal bem enigmático. As instrumentais "Czerwony Pejzaż" e "Na Zewnątrz" foram as que mais curti, principalmente pelo trabalho de teclados da primeira e o ritmo percussivo da segunda. O disco inteiro lembrou-me algo do pós-punk inglês, tipo uma mistura de Joy Division com Bauhaus e Siouxsie & The Banshees, mas mais viril, se é que vocês me entendem. Não sei se foi pelo dia que ouvi, mas não casou muito com meus ouvidos. Posso dar outra chance no futuro.

Ronaldo: Dificilmente associaria esse tipo de som com a Polônia. O som do Siekiera neste álbum é algo acelerado, catártico, industrial e cinzento, com forte herança pós-punk, vocais melancólicos, muitos teclados. Um tipo de som que associaria de cara ao Joy Division. Algumas passagens etéreas (como as presentes na faixa título) se destacam no meio dos riffs de guitarras magrinhas e de músicas que soam meio como releitura uma das outras.


The Allman Brothers Band - Play All Night: Live At The Beacon Theatre 1992 [2014]




O grupo americano The Allman Brothers ficou marcado na história da música pelo essencial álbum At Fillmore East, gravado ao vivo na casa mais famosa de Nova Iorque dos anos 60, e que se tornou referência para todas as outras bandas que gravaram discos ao vivo a partir de 1971, no ano em que o álbum foi lançado.

Ao longo de uma década e meia (entre 1969 e 1982), a banda teve altos e baixos, levando ao seu fim prematuro ainda em 1982, por conta de diversos desgastes pessoais, principalmente a perda de Duane Allman, um dos maiores gênios da guitarra em todos os tempos. Porém, em 1989, uma turnê para comemorar os 20 anos da banda foi realizada, e dela, surgiu a motivação para o retorno em definitivo, com a gravação dos discos Seven Turns (1989) e Shades of Two Worlds (1991), além de uma imensa turnê, registrada nos dois volumes dos discos An Evening With The Allman Brothers Band (1992 e 1995 respectivamente).

Butch Trucks e Greg Allman (acima); Dickey Betts, Warren Haynes e Al Woody (centro); banda e Marc Quinones (abaixo)

Esses álbuns estavam inicialmente planejados para contarem apenas com registros de shows que a banda fez em Macon, entre os dias 28 e 31 de dezembro de 1991. Porém, os membros do grupo, que na época a formação era  Gregg Allman (órgão, piano, violões e vocais), Dickey Betts (guitarras, violões, vocais), Warren Haynes (guitarras, violões, vocais de apoio), Allen Woody (baixo, violão, vocais de apoio), Butch Trucks (bateria, vocais de apoio), Jaimoe (bateria, vocais de apoio), Marc Quinones (congas, percussão) e Thom Doucette (harmônica), decidiram que haviam faixas do show de Macon não completamente perfeitas para serem lançadas, e assim, decidiram fazer mais alguns registros na turnê, dentre eles, as 10 datas de apresentação no Beacon Theatre de Nova Iorque.

Vale lembrar que em 1989, o grupo tocou 4 noites seguidas no Beacon, e em 1992, foram 10 datas no teatro, o que acabou virando uma tradição nos próximos dezenove anos, quando a banda tocou de 8 a 19 shows por cada primavera, com exceção de 2010, ano em que o teatro não pôde receber os americanos devido a uma série de apresentações do Cirque de Soleil agendadas para a mesma data. Algumas apresentações desse período acabaram sendo registradas no CD Peakin' at the Beacon (2000) e no DVD Live At The Beacon Theatre (2003).

Das 10 datas de 1992, somente os dias 10 e 11 de março de 1992 foram gravados para o lançamento de An Evenin With, e em 2014, foi lançado uma mescla unindo os dois shows em um CD duplo de tirar o chapéu. Tudo começa nos lembrando de cara Fillmore East, já que temos a dobradinha "Statesboro Blues" e "You Don't Love Me" embalando nosso corpo. A primeira é um clássico indiscutível na carreira dos americanos, com um show de Haynes ao slide. A segunda, apesar de mais curta do que a versão eternizada no Fillmore (aqui apenas com 6 minutos), traz o sensacional fôlego de Thom Doucette na harmônica, fazendo a alegria geral dos moradores da caverna sessentista.
Parte do encarte em formato de pôster, com a história da banda

Um dos grandes atrativos de Play All Night é o registro in the act de canções recém-lançadas na época, sendo o caso para "End Of The Line" e "Nobody Knows" (ambas de Shades of Two Worlds),  e "Low Down Dirty Mean" (Seven Turns). "End of the Line" traz a destacada participação percussiva de Quinones,  enquanto "Nobody Knows" parece ser uma pérola bônus track dos álbuns iniciais da banda, com uma pegada fantástica, repleta de improvisos, ao longo de seus mais de treze minutos. Que sonzeira! Já "Low Down Dirty Mean" é um blues sem vergonha, para curtir o swing após o massacre de "Nobody Knows".

Entrinchada entre essas, temos uma versão absolutamente arrepiante para "Blue Sky", clássico que na voz de Dickey Betts ganha muito poder, e com um belíssimo trabalho de guitarras. O CD 1 encerra com o momento acústico do espetáculo,  dedicado para "Seven Turns", mais uma emocionante interpretação de Betts, a paulada vocal "Midnight Rider" e "Come On In My Kitchen", a última, uma sensacional homenagem para Robert Johnson, com Warren Haynes brilhando no slide.

Encarte do CD, com momentos do show

O melhor fica reservado ao disco 2, no qual as inspirações de cada músico são levadas ao limite em longas jams sessions, a começar para a reinterpretação animalesca de "Hoochie Coochie Man", com mais de dez minutos de duração, dos quais quatro são uma sensacional introdução solo de Haynes ao slide. Outra que supera os dez minutos é a essencial instrumental "Jessica", com certeza uma das principais canções da carreira da banda, com sua melodia marcante e muita improvisação.

A novata "Get On With Your Life" (de Shades of Two Worlds) cai como uma luva na sequência da segunda mídia. Um blues arrepiante, onde a guitarra de Haynes casa com perfeição na voz rouca e aveludada de Greg, em uma das melhores faixas do grupo em anos. "Revival" levanta a galera com o seu famoso refrão que levou a banda para um grupo mais popular de fãs ao redor do mundo.

A versão em vinil

Os mais de 20 minutos de "In Memory Of Elizabeth Reed" são o êxtase orgásmico do CD. Um espetáculo de solos de guitarra, conduzidos primorosamente pela cozinha afiada das baterias e do baixo, e que irá colocá-lo diretamente no Fillmore lá em 1970. Ouvir o esplêndido solo de bateria / percussão, com mais de 8 minutos de duração, é uma aula de como tirar o máximo de seu instrumento sem deixar soar presunçoso. As fantásticas revisões para "Dreams" (Haynes destruindo no slide) e "Whipping Post" (o baixão de Woody estremecendo o quarto), cada uma com mais de 10 minutos, encerram de forma brilhante essa apresentação magistral dos americanos.

Lançado somente lá fora (Europa, Japão, Austrália e Estados Unidos), o CD ainda apresenta um belo encarte em formato de pôster, que conta um pouco da história da banda nesse período. Tendo uma versão limitada de 4000 cópias em vinil (com apenas 10 das 16 faixas do CD) chamada Selections from Play All Night: Live at the Beacon Theatre 1992,  Play All Night: Live At The Beacon Theatre 1992 é super fundamental para entender por que, em pouco mais de duas horas, a música é um dos principais instrumentos de entretenimento do ser humano, e de como a criatividade de alguns artistas é incomparavelmente além deste mundo!

Contra-capa

Track list

CD 1
Statesboro Blues
You Don't Love Me
End Of The Line
Blue Sky
Nobody Knows
Low Down Dirty Mean
Seven Turns
Midnight Rider
Come On In My Kitchen

CD 2
Guitar Intro / Hoochie Coochie Man
Jessica
Get On With Your Life
In Memory Of Elizabeth Reed
Revival
Dreams
Whipping Post







FOCUS - Parte I



Jan Akkerman, Pierre van der Linden, Thijs van Leer e Bert Ruiter

O grupo holandês Focus é com certeza o maior grupo de rock progressivo que a Holanda forneceu ao mundo, tanto por conta da música como por conta da técnica e qualidade individual de seus músicos. Uma carreira cheia de altos e baixos, com mais de dez discos que começaremos a abranger a partir de hoje, com o período áureo dos holandeses, nos anos 70, comandados pela dupla Thijs van Leer (órgão, piano, flauta, mellotron), Jan Akkerman (guitarra, violão), até a saída do último em 1976. Posteriormente, em uma segunda parte, traremos a partir do momento quando Akkerman retorna ao grupo nos anos 80, saindo para uma carreira solo de relativo sucesso, deixando o legado para Van Leer governar sozinho.


Jan Akkerman, Thijs Van Leer, Hans Cleuver e Martin Dresden

A estreia dos holandeses é um aperitivo humilde perto da importância que o grupo teria no ano seguinte para o rock progressivo. Conhecido também como In and Out of Focus (nome dado ao lançamento internacional do álbum),  Focus Plays Focus chegou às lojas em 1970. No LP, a formação além de Van Leer e Akkerman, Martin Dresden (baixo, vocais) e Hans Cleuver (bateria), e apresenta jóias instrumentais como "Focus (instrumental version)", com solos simples e encantadores da guitarra, e "Anonymous", que seria a gênese de uma Maravilha Prog lançada dois anos depois através dos solos individuais de cada músico. 

A estreia de 1970


Cleuver apresenta sua voz na jazzística "Happy Nightmare (Mescaline)", "Focus (vocal version)", seguindo as mesmas linha de "Focus (instrumental version)", e nas sessentistas "Sugar Island", "Black Beauty" e "Why Dream", ambas cheirando a mofo psicodélico londrino, com leves aromas do flower-power californiano. A guitarra de Akkerman é o principal destaque em todo LP, mas é inquestionável a fundamental participação da flauta e do órgão de Van Leer, criando o marcante som do grupo. 

Na Alemanha, o álbum trouxe "House of the King" como faixa adicional, uma canção que marcou os fãs por ser muito similar ao que o Jethro Tull fazia na mesma época, sendo fácil encontrar pessoas que confundem as bandas quando ouvem essa canção. Os Estados Unidos, lançaram o álbum no mesmo formato que a versão alemã, porém com as canções em ordem alterada. Existem diferentes capas desse álbum espalhadas pelo mundo, algumas você pode conferir aqui. A capa que estampa esse artigo é a da versão original holandesa. "House of the King" acabou sendo o primeiro sucesso internacional do Focus, apesar de ter saído apenas como compacto em seu país.

Pierre Van der Linden, Cyrill Havermans, Thijs Van Leer e Jan Akkerman

Como o grupo não emplacou no primeiro álbum, Akkerman decidiu abandonar o navio, e montou uma nova banda, acompanhado de Pierre Van der Linden (bateria) e Cyrill Havermans (baixo, vocais). Porém, Dresden e Cleuver também resolveram abandonar Van Leer, que se juntou aos amigos de Akkerman, nascendo a segunda formação do Focus.Com esta nova formação, o Focus muda totalmente sua forma musical, apostando no rock progressivo instrumental e deixando a voz apenas para servir como um instrumento a fazer vocalizações complementares nas linhas melódicas criadas pelo órgão e guitarra. 

Assim nasce Focus II (1971). A única canção com letra é a experimental "Moving Waves", tendo Van Leer na posição de vocalista e pianista, os únicos instrumentos da canção. Foi com Focus II que o Focus alcançou seu status internacional, principalmente por conta de "Hocus Pocus", uma peça fantástica, na qual Van Leer exibe pela vez primeira toda a graça de suas vocalizações em yodel, algo que marcou a carreira do grupo a partir de então, e que chegou na nona posição nos Estados Unidos. 


A capa original de Focus II (acima) e a mundialmente conhecida Moving Waves (abaixo)

A sequência de solos vocais divididas com os solos de guitarra ainda hoje agita muitas festas mundo afora. Mas Focus II não sobrevive apenas disso, já que também tem um lindo momento solo de Akkerman, batizado de "Le Clochard", no qual ele abrilhanta o ouvinte com uma peça ao violão clássico, acompanhado por longos acordes de órgão, e a beleza de "Janis", destacando Van Leer na flauta. Os holandeses não viraram sinônimo de progressivo por acaso, e o lado prog aparece na sequência de "Focus", chamada "Focus II", uma leve balada progressiva com aproximações fortes no jazz, destacando os crescendos de órgão e guitarra, provando mais uma vez todas as qualidades do injustiçado Akkerman, já que raramente ele aparece nas listas de melhores guitarristas de todos os tempos.

O ápice do LP é a Maravilhosa suíte "Eruption", que através de seus vinte e três minutos, e quatorze partes, faz uma adaptação da ópera Euridice de forma brilhante. Akkerman continua o centro das atenções, com a capacidade de sair de uma erupção sonora de solos rasgados para a suavidade de um lago tranquilo, através do uso do botão de volume e leves bends. Vale lembrar que Focus II é a versão original holandesa, e Moving Waves é a versão internacional.

Cyril saiu do grupo em 1971, após o encerramento da primeira turnê europeia do grupo, sendo substituído por Bert Ruiter, dando origem então a terceira e mais famosa formação dos holandeses, a qual gravou seu álbum mais ambicioso no ano seguinte, e que para muitos, esse é o melhor álbum dos holandeses, e qualidades não faltam para garantir essa primeira posição. 


O ambicioso Focus III

Com Focus III (1972), A entrada de Ruiter trouxe a possibilidade das expansões vocais do yodel, e também motivou Van Leer a se soltar mais. Um exemplo é a abertura, com "Round Goes the Gossip", quando na primeira parte da canção ele apenas entoa o nome da mesma, e na segunda apresenta seu lado soprano cantando em latim. Essa mesma faixa mostra que o jazz misturado ao progressivo está cada vez mais presente nas composições do grupo. "Carnival Fugue" é uma peça clássica comandada pelo piano, com tímida participação dos demais membros do grupo, transformando-se em um jazz fusion em sua segunda parte. A música clássica tambem dá o ar da graça na "Elspeth of Notthingham", com acordes de violão inspirados na música celta, e com a participação da flauta em alguns trechos. 

A arrepiante união do violão clássico e da flauta aparece também em "Love Remembered", capaz de arrancar lágrimas de qualquer ser vivo nesse planeta. Focus III trouxe o terceiro grande sucesso dos holandeses, "Sylvia", canção originalmente composta para fazer parte de um programa de televisão, mas que acabou sendo bastante popular principalmente em sua Terra Natal, com um riff poderoso e uma melodia grudenta da guitarra, e que alcançou a quarta posição nas paradas britânicas. A dupla "Focus III" e "Answers? Questions! Questions? Answers!" mostra Akkerman e Van Leer duelando em solos inesquecíveis, acompanhados pela formidável cozinha Ruiter/Van der Linden. 

Várias versões de Focus III mundo afora (Brasil, Uruguai, Estados Unidos e Alemanha)

Falando em dupla, o álbum foi lançado originalmente no formato duplo, isso graças a inclusão da Maravilhosa "Anonymous Two", uma incrível jam de mais de vinte e seis minutos que ocupa todo o lado C e boa parte do lado D do vinil, e onde o quarteto apresenta-se com solos individuais, tendo como base o riff de "Anonymous", lançada no primeiro álbum. Do primeiro álbum também foi resgatada "House of the King", que finalmente era lançada em um álbum oficial do grupo na Holanda. Existem diferentes capas de Focus III mundo a fora, e as duas apresentadas aqui são a versão original holandesa (primeira) e a versão internacional lançada na América do Norte (segunda).

A bela versão nipônica de at The Rainbow


A segunda turnê europeia aconteceu a partir do segundo semestre de 1972, e foi registrada no essencial at the Rainbow (1973), trazendo um show do grupo gravado no Rainbow Theatre em Londres, e que foi lançada também em VHS, sendo esse vídeo o responsável pela difusão do Focus em países da América do Sul e Ásia.

O escocês Collin Allen (ex-Stone the Crows) substituiu Van der Linden, e essa nova formação continuou inspirada, lançando em 1974 Hamburger Concerto, que julgo ser o melhor LP do grupo.

O melhor álbum da banda na opinião do autor



O álbum apresenta o hardão de "Harem Scarem", a beleza indescritível de "La Cathedrale de Strasbourg", com Van Leer sobressaindo-se ao piano e nos vocais, as experimentações psicodélicas-clássicas de "Birth", apresentando Van Leer no cravo, e fazendo belezuras junto de Akkerman quando pula para o órgão e a flauta, e a música clássica da vinheta "Delitiae Musicae", um magnífico momento somente com alaúde e flauta. 

Porém, nada supera o que o quarteto registrou no lado B desse vinil, que é a suíte-título. Com trechos inspirados em "Variations on a Theme by Haydn", de Joseph Hayden, a suíte é dividida em seis partes. Difícil dizer qual o principal momento dessa Maravilha, já que desde a introdução, com as linhas de baixo de Ruiter, o andamento suave dos primeiros minutos, o riff marcante, os solos vocais de Van Leer, o órgão e a flauta alimentando o cérebro com notas divinas, a pegada na guitarra de Akkerman durante a segunda metade da canção, a epopeia emocionante do encerramento, e Collin Allen fazendo ninguém sentir saudades de Van der Linden, são alguns dos pontos que me tornaram fã dos holandeses. Mais um daqueles momentos mágicos na música. 



Thijs van Leer, Jan Akkerman, Collin Allen e Bert Ruiter

O relançamento em CD trouxe uma faixa bônus, "Early Birth", que é a versão original de "Birth", sem a introdução com o cravo, e na sequência, mais uma mudança na formação, com o americano David Kemper substituindo Allen, leva a Mother Focus, lançado em 1975.

Allen participa em apenas uma faixa, "I Need a Bathroom", uma balada funk que tornou-se a única canção do grupo a ser cantada por Ruiter. O álbum parece contaminado pela onda disco, com muitos sintetizadores, a utilização constante do vocoder (instrumento que imita a voz humana) e canções curtas que fogem bastante dos padrões esperados para o Focus, lembrando grupos como Sly & The Family Stone ou Funkadelic, mas não deixa de ter seus momentos bons, como a peça clássica "Father Bach", somente com órgão e guitarra, o suingue da faixa-título, a sutileza de "Focus IV", sem contar com as linhas de suas antecessoras, mas ainda assim muito bela, e "No Hangs Up", com certeza a faixa mais Focus de Mother Focus

O fraco Mother Focus

A dupla "Soft Vanilla" e "Hard Vanilla" parecem trilha sonora de filme brasileiro dos anos 70, diferenciando apenas pelo instrumento utilizado para o solo principal (flauta sintetizada no primeiro e vocoder no segundo), mas "Bennie Helder" é uma das amostras positivas de como misturar elementos clássicos com o funk e a disco-music, enquanto Akkerman convence que ainda existe genialidade na dupla "Someone's Crying ... What?" / "All Together ... Oh That!". Já "My Sweetheart" e "Tropical Bird" acabam sendo manchas negras na carreira do grupo, que começava a rumar para seu fim.

Akkerman pediu as contas pouco depois, sendo substituído pelo belga Philip Catherine, dando origem a uma nova fase para o Focus. O guitarrista mergulhou em uma carreira solo de destaque, e mesmo com um substituto a altura, as coisas não estavam nada bem. O jeito foi arriscar na loteria, e assim, o grupo manteve-se na ativa, unindo-se ao cantor pop americano P. J. Proby e lançando seu sétimo disco de estúdio, o primeiro sem Akkerman, no ano de 1978. Antes, por esforços do produtor Mike Vernon, mais um álbum com Akkerman chegou na praça, no ano de 1976.


O disco de sobras Ship Of Memories

Ship of Memories é uma coletânea de canções que acabaram ficando de fora dos lançamentos oficiais. Vernon não mediu esforços para manter a chama do Focus acesa durante o período de instabilidade, e resgatou obscuridades não lançadas oficialmente. O lado A foi gravado em duas semanas do ano de 1973, e nele ouvimos uma sequência interessante de canções programadas para compor o quarto álbum dos holandeses. 

"P's March" alterna-se entre solos de flauta e guitarra, e "Focus V" traz as fontes jazzísticas e o andamento que criaram a base musical do Focus. O melhor fica para "Can't Believe My Eyes" e "Out of Vesuvius", ambas experimentações virtuosísticas de Akkerman, inseridas em um andamento sombrio e tenso (a primeira) e em uma levada dançante (a segunda). 

Bert Ruiter, David Kemper, Thijs Van Leer e Philip Catherine

O lado B é mais diversificado, trazendo "Spoke the Lord Creator", gravada em 1970, e que foi a primeira tentativa de recriar "Variations on a Theme by Haydn", "Ship of Memories", um breve solo de bateria e órgão de igreja feito por Van der Linden, "Red Sky at Night", tendo um belo solo de Akkerman, e "Glider", versão original de "Mother Focus" e que particularmente considero melhor que a versão registrada no álbum homônimo, principalmente pela exploração dos yodels. 

Nessa canção, Akkerman toca Sitar elétrico, o que também deu um efeito diferente, e conta com Van der Linden na bateria. "Crackers" é da época de Mother Focus, enaltecendo o lado funk-fusion que predominou no último álbum lançado com Akkerman nas guitarras, sendo uma canção de menor qualidade perto das demais. A contra-capa do álbum apresenta um interessante texto de Mike Vernon contando sua experiência com o grupo e os caminhos que levaram ao lançamento de Ship of Memories, o que é um bom complemento para quem quer se aprofundar na história da banda.



O álbum com o cantor pop PJ Proby






Trazendo na formação Thijs Van Leer (flauta, teclados, vocais), Bert Ruiter (baixo, vocais), Philip Catherine (guitarras), Steve Smith substituindo David Kemer na bateria e a adição do excelente Eef Albers às guitarras, além da voz principal de Proby, Focus Con Proby é lançado em 1978. Os holandeses surpreenderam com um álbum muito diferente do que havia sido apresentado nos discos anteriores, principalmente no fraco Mother Focus (1975). É difícil classificar esse álbum, pois existem momentos preciosos e outros que em nada poderiam estar presentes na Discografia de um gigante como o Focus. 

A voz de Proby é um estranho no ninho para quem estava acostumado com as vocalizações em yodel de Van Leer, mas por outro lado, as guitarras de Albers e Catherine deram uma nova cara para a banda, que no geral, inspira-se no som do final dos anos 70, praticando um som próximo ao de grupos como Weather Report e Eleventh House, e aqui cito a velocidade jazzística de "Sneezing Bull", com Van Leer exibindo-se na flauta (coloque para um amigo e duvido que ele não diga que é Jethro Tull o que está rodando), a exuberância zappiana de "Maximum", com solos de Catherine e Van Leer, a linda "Orion", com Ruiter e Albers fazendo o solo principal juntamente, na alucinante "Night Flight", com Albers gastando seus dedos em um solo impressionante, e outros mais voltados para canções dançantes ( "Tokyo Rose", "How Long" e "Wingless") e baladas mela-cuecas ("Eddy" e "Brother") que em nada acrescentam ao fã dos primeiros álbuns. 

Pela parte instrumental, temos um excelente trabalho, e se você retirar as duas últimas canções com vocais citadas nesse texto, Focus con Proby é um ótimo disco. O problema é que aturar "Eddy" e "Brother" é um constrangimento e tanto para quem já pulou com "Hocus Pocus". O grupo fez uma curta turnê, mas em seguida, Van Leer anunciou o encerramento das atividades do Focus, seguindo para uma carreira solo de relativo sucesso. Porém, em 1985, novamente o nome Focus apareceu no cenário musical, e dessa vez, de forma totalmente surpreendente.



Destaque

Arthur Doyle - Alabama Feeling (1978)

No final de 1977, Arthur Doyle trouxe seu quinteto para Nova York para tocar no Brook, um loft na West 17th Street administrado por Charles ...