terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Discografias Comentadas: Metallica

 

Assim como a reunião do Big Four, teremos o Metallica fechando essa série de discografias comentadas que apresentamos durante essas últimas semanas. Começamos com o Anthrax, seguimos com o Megadeth e, nas duas últimas semanas, tivemos o Slayer. Apesar de ter um número menor de lançamentos, o Metallica conquistou o reinado das bandas de thrash metal por diversas razões, lançou discos que extrapolam as barreiras do estilo e hoje divide com o Iron Maiden a liderança do heavy metal mundial. Para os fãs e para aqueles que se interessam pela banda, vale a pena a leitura da biografia feita por Mick Wall e também o livro “Heavy Metal – A História Completa” de Ian Christe. Ambos mostram como o Metallica comandou o crescimento do metal pesado nos Estados Unidos da América.
Muito do sucesso do Metallica é resultado da persistência de um dinamarquês baixinho e tagarela com sotaque engraçado (definição dada por Mick Wall a Lars), que desde muito cedo é apaixonado pelo rock and roll de bandas como o Deep Purple. A boa condição financeira de sua família o proporcionou acesso a discos e shows em diversos lugares do mundo e após sua mudança para os EUA, carregado com uma invejável coleção de discos, ajudou uma parte dos jovens das cidades de São Francisco e Los Angeles a terem acesso a muitas bandas, principalmente as então desconhecidas do movimento inglês NWOBHM. Estas bandas tiveram influência direta na sonoridade do Metallica e de todos os outros grupos que estavam surgindo na região naquela época.
Metallica em 1983: James Hetfield, Kirk Hammet, Lars Ulrich e Cliff Burton
A mudança de sonoridade do Metallica a partir dos anos 90 acabou gerando muita polêmica, com fãs defendendo o indefensável de um lado e detratores tentando diminuir sua importância do outro. Na verdade a polêmica foi causada somente porque a banda já tinha status de monstro sagrado do heavy metal, mas mesmo alguns escorregões não foram suficientes para mudar a importância que a banda tem na história do metal.
Como falei anteriormente, a persistência de Lars foi fator fundamental para o crescimento do Metallica. Na verdade foi fundamental também para que a banda existisse. Todo grande fã sonha em ter uma banda e tocar suas músicas favoritas por aí. Todos sonham em ser parecidos com seus ídolos e ter uma vida igual a deles, e o Metallica é um dos maiores exemplo de um fã de música que conseguiu chegar lá. Como fã e profundo conhecedor de música pesada, Lars sabia como que uma banda deveria ser para ser tornar grande (o exemplo do Iron Maiden é citado diversas vezes), e tinha conhecimento de causa para saber o que o público estava esperando musicalmente. Tudo isso e a companhia de músicos talentosos fizeram com que o Metallica se tornasse um dos gigantes do metal!

Kill ‘Em All [1983]
Don’t stop for nothing, it’s full speed or nothing”.
Todo fã de heavy metal já teve fases em que essa bolacha rodava diariamente nas suas vitrolas. Muitos foram iniciados com o speed metal por esse álbum. “Hit the Light” tem um James Hetfield se esgoelando com uma voz muito diferente da de hoje em dia. Kill ‘Em All tem uma avalanche de riffs que se tornariam clássicos. Do começo ao fim temos faixas que poderiam entrar no set list de um show até hoje, talvez só “No Remorse” seja um pouco mais fraca que as outras. Eu até entendo a fascinação que “Seek and Destroy” exerce nos fã, sendo, provavelmente, o maior clássico da banda, pelo menos dessa primeira fase dos anos 80. Sua progressão de riffs, até relativamente simples, iniciou muita gente no mundo das guitarras. Apesar de ser algo de conhecimento geral, não posso deixar de comentar que várias das músicas desse álbum foram compostas também por Dave Mustaine. Sua versão para “The Four Horsemen”, que no álbum do Megadeth saiu como “The Mechanix”, é mais rápida e muitos dizem ser melhor. Para mim, as duas melhores músicas do álbum se chamam “Motorbreath” e “Whiplash”. Quando eu as ouvia não imaginava que alguém conseguiria fazer alguma coisa mais rápida que essas faixas. O solo de baixo de “(Anesthesia) Pulling Teeth” precedendo “Whiplash” dá uma cara diferente para uma banda de metal que costuma ter as guitarras como o símbolo do estilo. Na época da gravação os vocais de James ainda eram questionados. Chegaram a fazer uma proposta para John Bush, então vocal do Armored Saint, e Lars até sugeriu que Jess Cox, antigo vocalista do Tygers of Pan Tang, fosse procurado.

Ride the Lightning [1984]
No need to hear things that they say…life is for my own to live my own way”.
O Metallica seguiu sua ascensão diminuindo um pouco a velocidade, mas evoluindo do primeiro para o segundo disco em termos de composições. A sonoridade um pouco mais pesada é resultado da produção que melhorou muito do registro anterior para este, o que mostra que a banda, apesar de nova, já tinha um investimento melhor que as outras que surgiram na mesma época. Estão nesse álbum as faixas preferidas de muita gente, sendo que o próprio álbum é o favorito de muitos, inclusive para este que vos escreve. Em minha opinião, “Creeping Death” é a melhor faixa de toda a discografia da banda. Ao vivo se torna algo grandioso com a platéia entoando die, die, die… É impossível não se envolver com a música logo nos primeiros acordes da introdução, com bateria, baixo e guitarras criando uma unidade sonora pouco vista (ou ouvida). A introdução de “For Whom the Bells Tolls” possui uma das linhas de baixo mais conhecidas do heavy metal. “Fade to Black” é o maior exemplo para ajudar a quebrar os argumentos dos aborrecidos que gostam de criticar a banda a partir de 1990. É uma balada gravada durante uma fase em que muitos dizem ser perfeita. Inclusive acho muito engraçada a coincidência de um dos seus versos que diz “Nothing matters no one else”, que é muito parecido com o título de uma das músicas mais famosas da então nova fase da banda. Ride the Ligthning é o álbum que possui mais músicas no set list dos shows atualmente. O seu lado A é tocado inteiro em quase todos os shows.
Master of Puppets [1986]
They keep me locked up in this cage…Can’t they see it’s why my brain says rage”.
Apesar de preferir o anterior, é indiscutível que esse álbum seja o mais bem acabado do Metallica. O nível de composição de Ride the Lightning foi superado. O Metallica continuava rápido, agressivo, cheio de melodias, raivoso e inteligente. Essas características apareciam anteriormente, mas agora eram mais bem encaixadas. A produção também evoluiu, e sua sonoridade passou a ser um padrão que muitas bandas tentaram repetir em seus álbuns. James Hetfield evoluiu demais como letrista e guitarrista. Aliás, esse quesito é uma das principais características da banda. Ter alguém que consegue cantar e executar bases intrincadas é para poucos. A velocidade aumentou um pouco em relação ao álbum anterior, e a presença de “Welcome Home (Sanitarium)”, mais densa e cadenciada, é o contraponto para evidenciar isso. É a famosa exceção que confirma a regra. “Damage Inc.” é tão pancada que até um cover com vocais guturais (feito pelo Dream Theater com o vocalista do Napalm Death, Barney Greenway, no microfone) se encaixou perfeitamente à ela. Já usei a faixa título como exemplo para quebrar os argumentos de muitos que costumam dizer que o heavy metal é coisa de drogados e faz apologia às drogas. A repercussão de Master of Puppets foi acima das expectativas, muitos o consideram a obra prima da banda e uma das do estilo, o que resultou em um convite para uma turnê acompanhando Ozzy Osbourne. Muitos shows se seguiram até que em uma viagem para a Suécia acontece uma tragédia: o ônibus da turnê derrapa em uma curva, tomba e mata o baixista Cliff Burton. O cara quietão do grupo, que era como se fosse um guru para os componentes da banda. Burton era o cara mais eclético do grupo, e ensinou todos a abrirem os ouvidos. Não é a toa que “Orion”, composta por Burton, chamou tanto a atenção em relação às suas melodias. Porém seus conselhos, suas opiniões e, principalmente, suas linhas de baixo não existiam mais.
…And Justice for All [1988]
Millions of Our Years…In Minutes Disappears”.
Depois de até pensar em acabar com a banda e várias audições depois, encontram Jason Newsted, Ex-Flotsam and Jetsam, para ocupar o posto deixado por Cliff Burton. Gravaram um EP de covers, The $5,98 EP: Garage Days Re-Revisited (1987), para esquentar os motores, e só então entrar em estúdio para registrar um novo disco. É interessante quando vemos a palavra “justiça” no título do álbum, sabendo que em relação ao tratamento dispensado com o novo baixista era tudo menos justo (eles o chamavam de Jason Newkid). Basta ouvir o álbum para perceber: onde está o baixo?!?! A evolução musical da banda chegou ao seu ápice, com músicas intrincadas e de longa duração (são descritas na biografia citada acima sempre com a palavra ‘desnecessariamente’ junto de ‘longas’). Porém, a produção dessa vez pecou um pouco pelo excesso. Todos os instrumentos (menos o baixo) estão com uma sonoridade perfeita até demais. A bateria parece que foi gravada por um computador, tamanha a sua precisão. “One” é claramente o carro chefe do álbum. Sua introdução com sons de guerra ao fundo lembra um pouco o que eles já tinham feito em “Fade to Black” e “Welcome Home (Sanitarium)”. Tornou-se também o primeiro vídeo-clipe da banda, coisa que eles refutaram fazer desde o inicio da carreira. Isso sem falar do maravilhoso solo executado por Kirk. Ainda foi gravada no álbum uma música composta por Burton, chamada “To Live is to Die”. O clima sombrio do álbum é claramente um reflexo da perda que tiveram. James Hetfield se consagra como talvez o melhor guitarrista base do metal. O que já chamava atenção em Master of Puppets fica ainda mais evidente em …And Justice For All. Além das músicas já citadas, temos como destaque “Blackened” e “Harvest of Sorrow”, sendo a última o primeiro single lançado.


Metallica [1991]
Never opened myself this way…Life is ours, we live it our way”.
Com …And Justice for All, a credibilidade do Metallica cresceu muito. Eles já não eram vistos como uma banda emergente e sim como um dos grandes. Esse álbum é tão conhecido como “Álbum Preto” que muita gente nem sabe que ele tem o nome de Metallica. Ninguém da banda esconde que tinham sim vontade de ter suas músicas tendo o mesmo espaço em rádios ou tvs que, por exemplo, o Bon Jovi tinha. Assim, procuraram um produtor acostumado com discos de sucesso, Bob Rock, para trabalhar no próximo álbum. A escolha do produtor se deve, principalmente, pelo que ele fez com o álbum Dr. Feelgood do Motley Crüe, que Lars adorou. Bob Rock também produziria Keep the Faith do Bon Jovi um ano depois. Outro fator que definiu a sonoridade do álbum foi o fato de que até o disco anterior o nível das composições tinha aumentado cada vez mais. No entendimento deles, eles não tinham como evoluir mais, e também não viram sentido nisso. Também sabiam que quanto mais complexas as músicas, menores as chances de tê-las sendo veiculadas pelo mundo. Essas decisões ser mostraram acertadas, afinal, fizeram um disco mais direto que caiu no gosto de muita gente. Claro que parte daqueles fãs antigos, os mais ortodoxos, torceu o nariz dizendo que a banda tinha se vendido. Muitos usaram a falta de Cliff para justificar a mudança sonora, mas isso não é a realidade. Eles fizeram o álbum que queriam e tiveram sucesso com ele, já que esse é o álbum de metal mais vendido de todos os tempos. Prova disso é que um dos maiores sucessos, “Nothing Else Matters” (a faixa da onde tirei o pequeno trecho aí de cima), foi composta por James e ele mesmo não queria mostrar a música para a banda. Ou seja, se ele a compôs e queria deixar isso apenas para ele, não fazia diferença alguma quem iria ou não aprovar. O fato é que em um dos intervalos de gravação ele tocou a música para Bob Rock, que a viu como algo interessante. Não preciso nem citar os destaques do disco, pois tenho certeza que todo mundo que está lendo estas linhas já ouviu, ouviu e ouviu de novo todas as músicas. Das menos óbvias, tenho uma predileção por “Don’t Tread on Me”, “My Friend of Misery”, que por sinal é a única que é creditada a Newsted, e “Wherever I May Roam”, com seu inconfundível riff . O Metallica rompeu barreiras de estilos, conquistou muitos fãs e até hoje muita gente pensa no nome da banda e lembra-se de “Enter Sandman”, “Sad But True”, “The Unforgiven” ou “Nothing Else Matters”. E muitos ainda só conhecem essas daí. Uma das turnês após o lançamento desse álbum foi junto com o Guns and Roses, provavelmente as duas maiores bandas da época e as únicas que conseguiram rivalizar com o sucesso das bandas de Seattle. Para finalizar, e deixar claro, considero esse um álbum excelente, no nível dos três primeiros, e melhor que …And Justice For All.
Load [1996]
This thorn in my side is from the tree I’ve planted”.
O enorme sucesso obtido com Metallica é o maior responsável pelo resultado de Load. O novo público que o Metallica alcançou foi tão grande que fez com que eles praticamente se preocupassem apenas com ele. Porém, as mudanças musicais dessa vez foram acompanhadas de mudança de visual e até mesmo de seu logotipo na capa do álbum. O logo, que é um dos mais legais dentre todas as bandas, foi simplificado e ficou algo comum, em uma analogia à própria imagem da banda dentre a música pesada. Ou seja, com Load a banda se tornou comum. Analisando apenas a música contida mo dico, chegamos à conclusão de que é um disco razoável. Porém, não podemos analisar esse álbum como se fosse um disco de thrash metal. A abertura com “Ain’t My Bitch” nos dava uma falsa ideia de que o álbum seria todo nessa linha. Seu riff principal é muito legal e tem bastante peso, principalmente ao vivo. Temos “Until it Sleeps”, com alguns dedilhados que sempre me lembram algumas músicas do U2, e é sim um bom momento do álbum. As razoáveis “King Nothing”, “2 X 4” e “The House Jack Built” fazem um bom papel no meio de outros destaques. “Hero of the Day” e, principalmente, “Mama Said” são as baladas da vez, criadas na mesma onda e em uma clara tentativa de recriar o sucesso obtido com “Nothing Else Matters”. Entre “Hero of the Day” e “Mama Said”, temos quatro faixas bem fraquinhas que ajudam na argumentação dos detratores da banda. O mesmo acontece com as faixas subseqüentes a essa última.


Reload [1997]
Fortune, fame… Mirror vain… Gone insane…”.
Reload é o disco irmão de Load, como o próprio título e capa mostram. Sempre digo que eles poderiam ter lançado um disco duplo, ou, para melhorar, fazer um apanhado desses dois álbuns e lançar apenas um. Aí sim, tenho certeza, teríamos um disco que poderíamos chamar de bom. Reload tem a melhor música dessa fase, “Fuel”, sendo a única desse período a ser tocada até hoje, porém no todo é inferior a Load. Outro destaque é “Memory Remains”, primeiro single do álbum, que tem a participação (desnecessária?) de Marianne Faithfull, a única participação de uma pessoa de fora da banda em um disco em toda a história do Metallica. A música vai bem até chegar à uns na na ná, na na na que são duros de engolir. Pelo menos podíamos usar isso na época para tirar sarro dos fãs xiitas que conhecíamos. Apenas uma música é também assinada por Newsted, “Where the Wild Things Are”, que tem um jeitão de música do Alice in Chains. E ainda foi muito, já que no anterior nenhuma das idéias apresentadas por ele foram aceitas. Isso e a proibição de que ninguém da banda poderia ter projetos paralelos foram o estopim para a saída do baixista em um futuro próximo. “The Unforgiven II” é um resgate meia boca da ótima música gravada no disco Metallica. Recentemente, perguntado sobre o que Cliff acharia disso tudo, James disse que musicalmente ele teria acompanhado, já que gostava de músicas mais melódicas, mas teria se recusado a seguir o visual que a banda adotou. Uma coisa que podemos dizer a favor da banda, ou a favor de James, como queiram, é que a partir de Metallica o vocalista se tornou um ótimo cantor, sem gritar como fazia no começo da carreira, sem desafinar e conseguindo ser melódico. Muitas músicas inclusive têm como destaque a voz de Hetfield.
Entre 1997 e 2003 o Metallica soltou alguns lançamentos interessantes. Mesmo com a má repercussão dos últimos lançamentos entre os fãs de longa data, os shows continuaram lotados, e a idéia de um disco ao vivo sempre foi ventilada. Antes saiu Garage Inc. (1998), um CD duplo de covers que aproveitava a idéia do EP lançado em 1987, com várias faixas muito bem escolhidas e que ficaram ótimas. Um bom exemplo é a faixa “Mercyful Fate”, que é um medley de várias músicas da banda de mesmo nome. O Metallica acabou obtendo uma reputação de ser um bom grupo para regravações, vide as versões mais recentes para “Remember Tomorrow” do Iron Maiden e “When A Blind Man Cries” do Deep Purple que saiu ainda esse ano. Sobre o álbum ao vivo, a banda decidiu que não o fariam do modo normal, e resolveram gravar acompanhados de uma sinfônica, que rendeu o disco chamado de S&M. Os arranjos e a condução da orquestra ficaram a cargo de Michael Kamen, com quem eles já tinham trabalhado em Metallica na faixa “Nothing Else Matters”.


St. Anger [2003]
I feel my world shake…Like an earth quake…Hard to see clear…Is it me? Is it fear?”.
Logo de cara, antes mesmo de ouvir uma música inteira, é impossível não notar o péssimo som de bateria. O que os caras estavam pensando quando decidiram que seria desse jeito que iria para o disco? Com muita boa vontade, “Frantic” e a faixa título se salvam no álbum, mesmo com aquelas inserções de vozes no refrão, com clara influencia de nu metal. “St Anger” ainda tem como mérito um clipe bem legal gravado em uma penitenciária. Passei a pelo menos relevar o que foi gravado nesse disco depois de assistir ao documentário Some Kind of Monster. Nele podemos ver que a banda passava por muitas dificuldades de relacionamento, problemas com o álcool (James), processos contra fãs (Lars e o Napster), não tinham um baixista ainda (a gravação no álbum ficou a cargo do produtor Bob Rock), etc. Tudo isso desviou o foco dos músicos e influenciou no processo de composição, gerando um bloqueio criativo. Quando temos um disco gravado com uma produção fraca, é ao vivo que podemos ver se as músicas poderiam melhorar caso tivessem uma gravação boa, mas nem isso podemos dizer das músicas de St. Anger. A falta de solos na músicas dá a impressão de que eles não estavam tão a fim de trabalhar no álbum, de que faltou capricho. Pelo menos podemos dizer que a versão especial do CD, com o DVD onde eles tocam todas as músicas ao vivo no estúdio, é algo legal que poderia ser copiado por outras bandas. Pena que depois de ouvir o CD não dá muita vontade de assistir ao DVD. Com o álbum pronto, eles chegaram a escolha do novo baixista, Robert Trujillo (ex-Suicidal Tendencies, Black Label Society).


Death Magnetic [2008]
What don’t kill you makes you more strong”.
Depois de muitas críticas pelo álbum anterior, surgiu nos integrantes da banda a vontade de resgatar a sonoridade clássica. Claro que podemos ver nisso um oportunismo mercadológico, mas eu tenho a impressão de que é um sentimento verdadeiro. Uma das primeiras atitudes foi trocar o produtor para Rick Rubin, que trabalhou com nomes que vão de Kid Rock, Bob Dylan a Slipknot, tendo inclusive sido o produtor dos discos do Slayer desde Reign in Blood. O tempo das faixas aumentou para 7 minutos e meio em média, fazendo com que lembremos de cara de …And Justice For All. Acho que podemos definir Death Magnetic como uma mistura de Metallica com …And Justice for All, entretanto algumas dessas músicas poderiam ter sido resumidas. Pena que muita gente não deu o devido valor ao álbum por estar contaminado com a rejeição que carregam devido aos discos anteriores, ou simplesmente por puro preconceito. “That Was Just Your Life” tem ótimo riff, bom solo e um refrão muito legal. Já “The End of the Line” tem destaque para a linha de voz do seu refrão. Em todo álbum podemos encontrar riffs fortes com a cara do Metallica dos bons tempos, como em “Broken, Beat & Scarred”. “The Day That Never Comes” é uma balada ao estilo de outras como “Fade to Black”, mas que poderia estar no famoso Álbum Preto e possui ótima melodia feita pelas guitarras de James e Kirk. Um pouco do que fizeram nos anos 90 é percebido em “All Nightmare Long”, mas podemos dizer que com um pouco mais de classe e velocidade. De novo eles inventaram uma continuação para “The Unforgiven”, agora batizada de, pasmem, “The Unforgivem III”. Melhor que a segunda parte, mas sinceramente não entendo a fixação nesse título. Para finalizar, um assunto que se estivesse sendo comentado lá por volta de 1991 seria um absurdo, a deficiência técnica de Lars. Confesso que estou lendo muita gente comentar sobre isso, mas me parece que esse assunto só tomou proporções maiores depois da biografia de Mick Wall. De forma alguma acho que isso atrapalhe alguma das coisas que já foram feitas até então, mas é algo que tem que ser dito. O material presente em Death Magnetic funciona muito bem nos shows em que os clássicos são tocados, diferente do anticlímax que temos quando alguma coisa de Load/Reload/St. Anger aparece no set list.
Com o lançamento de Death Magnetic as coisas pareciam que voltariam aos eixos para o Metallica. Nesses últimos anos eles estão se apresentando com Slayer, Megadeth e Anthrax ma turnê do Big Four, e chegaram a lançar DVD de um desses shows. Também fizeram alguns shows especiais em comemoração aos 30 anos da banda, e foram indicados ao Rock Roll Hall of Fame, podendo agora dizer com orgulho que têm seus nomes lá. Porém, depois da apresentação na cerimônia resolveram que iriam trabalhar com Lou Reed em um projeto novo. O disco saiu em 2011 com o nome de Lulu, e foi um desastre. O Metallica quase descartou a boa repercussão de Death Magnetic com esse lançamento. Para amenizar as coisas, saiu o EP Beyond Magnetic  no fim do ano passado, com algumas músicas que não entraram no álbum Death Magnetic. Destaque para “Hate Train” que, a meu ver, é melhor que algumas das músicas que estão no último disco. Agora é esperar pelo próximo álbum, e torcer para que os caras acertem a mão.


Robert Plant & Alison Krauss – Raise the Roof

 

Após 14 anos do lançamento do premiado Raising Sand (2007), Robert Plant, o lendário vocalista do Led Zeppelin, retoma a parceria com a cantora Alison Krauss em Raise the Roof, álbum lançado recentemente pela dupla.

Como em time que está ganhando não se mexe, T-Bone Burnett foi novamente convocado para assumir o comando da produção. A bem da verdade, ele funciona como uma espécie de terceiro membro da equipe. Participaram da empreitada experientes músicos de estúdio, alguns deles velhos conhecidos de Plant, como o baterista Jay Bellerose, os baixistas Dennis Crouch e Viktor Krauss, os guitarristas Marc Ribot, David Hidalgo, Bill Frisell e Buddy Miller.

tracklist é composto por 12 faixas que transitam por diversos gêneros musicais (folk, soul, spiritual, blues e country). Estão presentes regravações para canções de artistas diversificados como Merle Haggard, Allen Toussaint, Everly Brothers, Anne Briggs, Geeshie Wiley, Bert Jansch, Bobby Moore, Lucinda Williams e outros.

Robert Plant & Alison Krauss

A produção de Burnett e as vocalizações afiadíssimas de Plant e Krauss conferem ao trabalho um clima atmosférico e lúgubre. Na parte instrumental, percussões e instrumentos de cordas elétricos e acústicos variados incrementam a estrutura de cada canção. 

Plant & Krauss fogem das escolhas óbvias ao selecionar canções um tanto quanto obscuras, como no caso de “Quattro (World Drifts In)” da banda de indie rock e tex-mex Calexico, da pérola soul “Searching for My Love”, gravada originalmente por Bobby Moore & the Rhythm Aces e de “You Led Me to the Wrong”, um sombrio folk de Olla Belle Reed, em que Plant apresenta uma interpretação profunda acompanhado de um belo arranjo protagonizado pelo bandolim e pela rabeca.

O folk inglês não fica esquecido em Raise the Roof, estando bem representado na regravação para “It Don’t Bother Me”, composição do guitarrista escocês Bert Jansch (uma forte influência presente no lado acústico do Led Zeppelin) e em “Go Your Way, da cantora folk inglesa Anne Briggs.

O tom sombrio do álbum é ligeiramente diluído no rockabilly “Can’t Let Go”, da cantora e compositora americana Lucinda Williams e em “High and Lonesome”, única canção autoral presente em Raise the Roof, parceria de Plant e Burnett.

Diante da impossível comparação com o extremamente bem sucedido Raising Sand, primeiro lançamento da dupla, Raise the Roof não faz feio em nenhum momento. Plant e Krauss proporcionam mais uma deliciosa imersão reflexiva e melodicamente rica pela música de raiz norte-americana


FICHA TÉCNICA

Artista: Robert Plant & Alison Krauss

Álbum: Raise the Roof

Produtor: T-Bone Burnett

Data de lançamento: 19 de novembro de 2021.

Duração: 63m

Gravadora: Rounder Records/Warner Music

Faixas:

01. Quattro (World Drifts In)

02. The Price of Love

03. Go Your Way

04. Trouble With My Lover

05. Searching for My Love

06. Can’t Let Go

07. It Don’t Bother Me

08. You Led Me to The Wrong

09. Last Kind Words Blues

10. High and Lonesome

11. Going Where the Lonely Go

12. Somebody Was Watching Over Me

Clique aqui para ouvir Raise the Roof.

CRONICA - CREAM | Live Cream Volume II (1972)

Dado o sucesso de Live Cream , parecia óbvio para a Atlantic Records criar uma sequência, simplesmente intitulada Live Cream Volume II . Além de uma capa muito menos emocionante do que para o primeiro volume, esta sequência se destacará por oferecer mais títulos emblemáticos do trio, mas colocando menos acesso a longas improvisações (apenas um título longo, o blues "Steppin' Out que Clapton tinha gravada em seu álbum com John Mayall). Em suma, novamente estamos mastigando um pouco com essa sensação de produto inacabado.

Se três títulos virão das apresentações de Winterland que já haviam sido usadas no álbum anterior, os outros três virão de uma única apresentação no Oakland Coliseum Arena. Ficaremos satisfeitos em finalmente ouvir versões de "White Room", "Tales Of Brave Ulysses" e "Sunshine Of Your Love" mais raivosas e dinâmicas que sua versão de estúdio, assim como "Deserted Cities Of The Heart" que abre de forma explosiva. O grupo, então em sua turnê de despedida, estava em ótima forma e os três músicos têm aqui uma intensidade que nunca mais terão (incluindo Clapton que enfraquecerá consideravelmente sua forma de tocar ao se esforçar demais para querer se tornar JJ wedge).

Se isso permitir que o público finalmente ouça versões ao vivo de alguns dos maiores sucessos do Cream (nem 'White Room' ou 'Tales Of Brave Ulysses' ou mesmo 'Sunshine Of Your Love' chegaram às partes ao vivo de Wheels Of Fire e Goodbye ) , Live Cream Volume II alcançaria menos sucesso do que seu antecessor. É a desilusão de ter tido direito a menos improvisações longas ou simplesmente o público de 1972 que teve então a oportunidade de descobrir discos ao vivo muito mais substanciais e por isso só em 1970 pôde perceber melhor 'a 'fraude'?

De qualquer forma, teríamos que esperar até 2020 e o lançamento do box Goodbye para ouvir toda a apresentação em Oakland (e, portanto, os shows completos do período do Cream). Os de 9 e 10 de março em Winterland, ainda aguardam publicação oficial na íntegra… Quando será lançada uma caixa de Live Cream ?

Títulos:
1. Deserted Cities Of The Heart
2. White Room
3. Politician
4. Tales Of Brave Ulysses
5. Sunshine Of Your Love
6. Steppin’ Out

Músicos:
Jack Bruce: Vocal, baixo, gaita
Eric Clapton: Guitarra, vocal
Ginger Baker: Bateria

Produtor: Félix Pappalardi


CRONICA - PINK FLOYD | Delicate Sound Of Thunder (1988)

 

Um momentâneo lapso de razão provou, para surpresa de todos, que o Pink Floyd poderia existir sem Roger Waters. O ex-líder, cujo ego acaba de levar um duro golpe, está particularmente indignado, com esta ressurreição inesperada a colocar a sua carreira a solo na sombra, longe de atingir as vendas deste novo álbum. Os ataques jurídicos são violentos e é em um clima particularmente tenso que a turnê começa. Enquanto isso, Gilmour e Mason reintegraram oficialmente Rick Wright como membros plenos do grupo. Para esta, os Pink Floyd vão continuar os concertos com infraestruturas desproporcionadas que os caracterizam desde meados da década de 1970, não hesitando em tocar em locais tão grandiosos como inesperados, como este concerto à entrada do Grande Canal de Veneza. em 15 de julho de 1989. Antes deste ponto alto da turnê,Delicado som do trovão .

Este é realmente o primeiro álbum ao vivo do Pink Floyd em boa e devida forma. " Finalmente ! », alguém seria tentado a acrescentar. Porque se o Ummagumma , em 1969, já era meio ao vivo, o grupo nunca tinha lançado um disco constituído apenas por um concerto, mesmo no auge da sua popularidade, coincidindo com o enorme sucesso de muitas atuações ao vivo. A turnê In The Flesh (após o lançamento de Animals ) não teve sequer uma gravação na mesa de som.

Podemos dizer desta dupla ao vivo que ela está realmente dividida em duas partes. Passado "Shine On You Crazy Diamond" (que tradicionalmente abre todos os concertos dos Pink Floyd sob a regência de Gilmour), o primeiro disco centra-se em títulos recentes. Inclui as melhores faixas de A Momentary Lapse Of Reason (“Yet Another Movie”, “Sorrow” e “The Dogs Of War”), bem como os dois singles principais, a leve “Learning To Fly” e “On The Turning Away”. ”. ” de onde nos lembraremos especialmente do longo e soberbo solo de guitarra final. Observe que o Rock FM "One Slip" ainda está faltando. Ele será adicionado a outros títulos recentes (“A New Machine”, “Terminal Frost”) ou antigos (“The Great Gig In The Sky”, “Welcome To The Machine”) durante a reedição de 2019.

O segundo disco enfoca o histórico Pink Floyd. Logicamente a escolha dos títulos é feita de acordo com seus vínculos com os integrantes ainda presentes. Quer pelo seu estatuto de esforço colectivo ("One Of These Days", "Time"), quer pelo facto de a música ser composta por Gilmour ("Wish You Were Here", "Comfortably Numb", "Run Like Hell) ou Wright ("Us And Them"), ou que o título, está particularmente associado a Gilmour ("Money" e "Another Brick In The Wall", embora composta pelo único Waters destacando-se principalmente a voz e a guitarra do ex-bonito loiro). Claro que o facto destes títulos serem na altura cantados total ou parcialmente por Gilmour (“Time” mesmo sendo um dueto com Wright) e de serem estes a maioria dos títulos mais famosos é particularmente bom.

Sem dúvida, é esta segunda parte que mais seduzirá o ouvinte, sendo a música do Floyd desta época ainda assim superior à dos anos 80. Aliás, mesmo que a interpretação do grupo e dos seus muitos músicos que o acompanham seja de profissionalismo irrepreensível, não são raros os momentos dedicados a solos mais longos (em particular em "Money" e "Another Brick" onde todos lá vão desde o seu pequeno solo - baixo, teclado, guitarra).

Se não apaga a falta de um show da turnê Wish You Were Here , Delicate Sound Of Thunder é ao vivo mais que agradável. Será lançado em conjunto com uma versão em vídeo, prática que começou a ser realizada por alguns grupos e que se tornaria norma na década seguinte. Porém, com o lançamento de Pulse , sete anos depois, com um set-list muito parecido, mas mais extenso, preferimos favorecer este último para quem gostaria de investir em apenas um Pink Floyd ao vivo sem Waters.

Títulos:
CD1
1. Shine On You Crazy Diamond
2. Learning To Fly
3. Yet Another Movie
4. Round And Around
5. Sorrow
6. The Dogs Of War
7. On The Turning Away

CD2
1. One Of These Days
2. Time
3. Wish You Were Here
4. Us And Them
5. Money
6. Another Brick In The Wall (Part 2)
7. Comfortably Numb
8. Run Like Hell

Músicos:
David Gilmour: guitarra, vocais
Rick Wright: teclados, vocais
Nick Mason: bateria
+
Jon Carin: teclados
Guy Pratt: baixo, vocais
Tim Renwick: guitarra
Scott Page: saxofone, oboé, guitarra
Gary Wallis: percussão
Rachel Fury: vocais de apoio
Durga McBroom: backing vocals
Machan Taylor: backing vocals

Produção: David Gilmour


CRONICA - FLEETWOOD MAC | Penguin (1973)

 

Após o lançamento de Bare Tree , o guitarrista/vocalista Danny Kirwan é conduzido à porta de saída. Ele que havia dado tanto pela sobrevivência de Fleetwood Mac. Mas seus problemas com o álcool levaram a melhor sobre seu entusiasmo. Os membros restantes, o baterista Mick Fleetwood Mac, o baixista John McVie, o guitarrista/vocalista Bob Welsh e a pianista/vocalista Christine McVie, recrutam o cantor/harmonicista Dave Walker ex Savoy Brown e o guitarrista/banjo gaitista Bob Weston em troca. ex Ashkan e Ashman Reynolds . Tendo se tornado um sexteto, essa nova formação surgiu em 1973, ainda na Reprises, Penguin .

É uma composição de Christine McVie que abre o baile, "Remember Me". Órgão cavernoso e estratosférico, voz sensual e quente aqui estamos a bordo para um excelente título de country pop rock onde as guitarras fazem querer cair na estrada. O mesmo vale para "Dissatisfied", tom um pouco mais rústico, outra contribuição do pianista. Uma contribuição que esconde um desconforto no casal McVie. Na verdade, está se debatendo entre os dois cônjuges, ligados ao problema do álcool de John McVie. Christine McVie canta a história de uma mulher que tenta por todos os meios seduzir o marido deprimido. Esforço desperdiçado.

Facto novo, o letrista co-escreveu com Bob Welsh a canção "Did You Ever Love Me" com magníficas harmonizações vocais entre o cantor e Bob Weston ainda que seja a voz de Christine McVie que se apresenta. Mas o que incomoda é a atmosfera que cheira a ilhas. E não é à toa que este título é alegremente invadido por tambores de aço (dados por Ralph Richardson, Russell Valdez e Fred Totesant) onde os sons metálicos nos mergulham em Port of Spain, capital de Trinidad e Tobago.

Assim como no Lp anterior, Bob Welsh não é mesquinho com as composições. Ele oferece a balada folk nostálgica e despreocupada no mid-tempo "Bright Fire" e nos vira em exotismo pelas percussões com "Revelation" uma pitada de funky. Mas acima de tudo assina o “Night Watch” de 6 minutos com a participação surpresa na guitarra de… Peter Green que está desanimado há algum tempo da sua bad trip de ácido. Começando como uma balada (obviamente Bob Welsh está ajudando nessa brincadeira), "Night Watch" se transforma em um clima sombrio. O convidado, Peter Green com os seus solos, transfigura o que é provavelmente o atrativo deste disco.

O recém-chegado, Dave Walker traz sua contribuição em um cover da Motown de Junior Walker & the Allstars, "(I'm a) Road Runner" colocado no molho de blues onde a gaita substitui os metais e os vocais são mais blues rock do que bêbados. Dave Walker, com seus vocais nervosos e comprometidos, assim como sua gaita febril, faz uma excelente performance desinibida entre Mick Jagger e Jim Morrison. Encontramos no sertanejo, “The Derelict” que abre o lado B onde o banjo traz um toque rural e a gaita traz belas melodias.

O LP termina com o folk instrumental, "Caught in the Rain" uma composição de Bob Weston, entre um violão delicado, um piano melancólico e vocais celestiais. Ótima maneira de terminar um disco com orientações variadas, mas coerentes.

Dave Walker fará apenas uma curta passagem (e que passagem!). Ele sai rapidamente para outros projetos. Fleetwood Mac, mais uma vez um quinteto, continua sua linda estrada.

Títulos:
1. Remember Me
2. Bright Fire
3. Dissatisfied
4. (I’m A) Road Runner
5. The Derelict
6. Revelation
7. Did You Ever Love Me
8. Night Watch
9. Caught In The Rain

Músicos:
Bob Welch: guitarra, baixo, voz
Bob Weston: guitarra, banjo, gaita, backing vocals
Christine McVie: teclados, vocais
Dave Walker: voz, gaita
John McVie: baixo
Mick Fleetwood: bateria, percussão

Produtor:
Fleetwood Mac


Destaque

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